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quarta-feira, 13 de outubro de 2010

POR UM NOVO CINEMA

Acabei de escrever um roteiro para um filme longa metragem.
Quando a idéia me surgiu imaginei que não poderia criar uma história que tornasse a produção muito alta inviabilizando a sua realização. Pode parecer inacreditável, mas depois que realizei “Um Filme 100% Brazileiro”, premiado no Brasil e no exterior, nunca mais consegui financiamento para um novo filme. Apresentei varia vezes o meu novo projeto. Era um filme de produção média sobre a Revolução Liberal de 1842 e o seu líder Teófilo Otoni (publicado aqui na página ROTEIROS). Assim, depois de tentar várias vezes os editais de produção, sem nenhum êxito, passaram-se anos e eu venho filmando com parcos recursos os meus roteiros. Agora em digital. Faço isso, pois não consigo ficar sem filmar, o desejo de criar é para mim quase um vício. Mas aprendi a fazer um filme com muito pouco dinheiro.
Escrevi para a atriz Maria Gladys, o papel de Jaci e para sua filha Teresa, o papel de Iracema e estou buscando um produtor ou uma produtora que se interesse pelo projeto. Acredito que posso realizá-lo com muito pouco dinheiro. Imagine se eu consigo, por exemplo, o cantor Roberto Carlos para fazer uma ponta no filme, no papel do personagem Henri, pode transformar o filme, afinal ele é simpático ao cinema e é amigo da Gladys, a mais brasileira de nossas atrizes. Não duvide. Na arte e no cinema tudo é possível.
Vou passar aqui no blog, em capítulos diários, a história completa da minha idéia, ainda sem o roteiro definitivo, só no primeiro tratamento. Quem sabe algum leitor do Brasil ou do mundo se interesse em produzi-lo. Registrado na Biblioteca Nacional.
Segue abaixo a minha nova idéia literária para um bom roteiro de cinema.


METAMORFOSE
Adaptação e criação livre e cinematográfica de alguns textos de Franz Kafka.


Protagonistas: Jaci, uma nochê dona de terreiro e Iracema, sua noviche.

São coadjuvantes: Sérgio, Prefeito e dono da cidade; Henri, amigo de infância do Prefeito; Osório, o padre da pequena comunidade; Marcos, secretário; Brandão, o chefe da polícia; Mario, o dono da única pousada; Souza, o segurança. Todos são maníacos, psicologicamente confusos. Todos, menos Henri, têm seus sintomas doentios exteriorizados por gestos repetitivos, sestros, dificuldades motoras, etc.

Uma repórter e um fotógrafo, documentaristas de televisão (personagens realistas) fazem parte da trama.

Figurantes: Mulheres de branco no terreiro. Batuqueiros.

Vindo do povo humilde, da vila de pescadores, surgem os personagens extras. Todos são pessoas normais, mas se vestem com roupas extravagantes, estranhas e coloridas (carnaval felliniano): Pescadores. Mulheres trabalhadoras (lavadeiras) e homens parados nas esquinas, todos estão maltrapilhos e pintados de todas as cores. Músicos. Pintores pintando seus quadros. Pequenos comerciantes. Muitas prostitutas e travestis – são os personagens que povoam a cidade.


Primeiro Movimento

Estrada de asfalto com pouco movimento. No acostamento todo tipo de lixo. Um bicho morto. Observamos pés que caminham lentamente pelo acostamento do asfalto ao rosto amargurado de Jaci, que anda resmungando em uma língua desconhecida, falando baixo, sozinha. Na sua frente passa uma barata. Ela olha para o inseto, se aproxima e fala mais alto para ele ouvir

Jaci:
- Quando despertei nesta manhã de um sonho agitado, me senti diferente, mais nova, mais disposta... O que teria acontecido comigo? Talvez se eu dormisse mais um pouco esqueceria toda esta estupidez...

Jaci continua andando pela estrada e só pára quando vê outra barata passando na sua frente.

- Deus do céu! Quantas baratas! Que trabalho... Viajar todo santo dia! Ocupação muito mais cheia de preocupações do que quando trabalhava em meu terreiro.

Jaci olha para a estrada:

- Viajar, minha amiga, é mudar constantemente de lugar. Refeições irregulares nas encruzilhadas, horríveis! Caras sempre novas que eu não veria nunca mais... Quem pode se divertir viajando? Odeio viajar!... Você já gosta, eu sei! Viajar e conhecer outros lugares... Eu não! Mas tenho que cumprir o meu destino... Viajar até achar quem trouxe o mal para dentro da nossa casa...

Jaci volta a andar no acostamento:

- Será que somos obrigados a fazer sempre o que menos gostamos?... Não há nada mais degradante do que ter de agradar a todos... É preciso cortar o mal pela raiz e para isso poder acontecer vamos ter que ser vorazes predadores. As circunstâncias obrigam-nos a isso... Você está preparada?

Jaci pára ao lado de uma árvore e descansa em sua sombra.

- Mulheres guerreiras, como nós, deveriam poder dormir mais, fazer mais amor e trabalhar menos, assim poderíamos evitar muitos pesadelos como esse...

Jaci refaz a sua energia deitada e olhando para o céu. Depois levanta e anda até a beira do asfalto. Olha para o ponto onde as duas estradas se cruzam.

- Para eliminar as sete encruzilhadas que atormentam os pobres inocentes de uma cidade escravizada, precisamos ser astutos como a raposa. Livramos a cidade e depois estamos livres.

Jaci volta a caminhar rente ao asfalto...

- Preciso muito de você para esse trabalho...

Um carro passa em alta velocidade.

Eu te protejo e você abre o caminho... Depois disso feito eu lhe conto o meu maior segredo. E depois..., que fossem todos para o diabo.

De novo estamos percorrendo o asfalto, rente ao chão, quando surgem os pés de outra personagem caminhando. Acompanhamos os seus passos. Aos poucos se desnuda a nova personagem e percorremos com vagar os contornos da menina Iracema. Ela está vestindo uma roupa moderninha que deixa as suas grossas pernas desnuda. E assim sensual, mas de cara fechada, resmungona, pára de andar a beira da estrada e passa a pedir uma carona.

Iracema, resmungando:
- Vamos começar dando os primeiros passos... Fazer justiça, mesmo tardia, você esta certa e que tudo mais vá pro inferno!

Um carro pára ao seu lado e o homem no volante abre o vidro.

Marcos:
- Quer uma carona?

Iracema não responde e volta a andar. Marcos sai do carro e insiste:

Marcos:
- Vamos! Não tenha medo... Eu te levo a qualquer lugar, basta me pedir... Tem uma cidade aqui na frente onde podemos comer alguma coisa e nos conhecermos mais... Está bem! Você não vai sair perdendo nessa escolha... Anda, vamos!

Marcos entra no carro, arranca e passa lentamente ao lado de Iracema que continuava a andar. Ela pára de andar, o carro também, ela abre a porta do carro e entra.

Marcos:
- Que bom! Você não vai se arrepender...

Iracema:
- Eu sei!

Silêncio. Movimento gráfico da estrada: asfalto, placas, faixas aleatórias. Iracema olha para o rapaz que dirigi o carro, fica um tempo esperando o seu olhar, vira o rosto, olha para o alto como se pensasse algo divertido, então sorri, cruza as pernas e mostra a sua calcinha. Quando ela vê Marcos olhando como um animal para as suas pernas, pudicamente tenta se arrumar.

Marcos:
- Meu nome é Marcos, e o seu?

Iracema:
- Iracema...

Silêncio. Iracema olha de um lado e de outro e mexe compulsivamente as mãos nervosas. Marcos olha a todo o momento para ela. Silêncio. Marcos liga o rádio do carro. Música. Estrada a beira da lagoa.

Marcos:
- Você está nervosa Iracema?... Aconteceu alguma coisa? Não precisa ter medo...

Iracema:
- Não! Não é medo! Estou impaciente para chegar, é só isso!

Marcos:
- Talvez haja apenas um pecado no mundo: a impaciência. Devido à impaciência, fomos expulsos do Paraíso e devido à impaciência não podemos voltar. Aleluia!...

Iracema:
- Você é religioso?

Marcos:
- Sim! Sou pastor de ovelhas desgarradas...

Iracema:
O lobo e as ovelhas!

Marcos: - Você é inteligente, entende rapidinho o que eu quero te falar... Vou te contar um segredo: Sou eu o Prefeito e mais cinco, os homens que mandam na próxima cidadezinha... Sou irmão do Prefeito e se você for boazinha eu posso te transformar em uma rainha... A rainha de Eldorado! Lá eu sou rei e você será uma deusa! Basta você querer doçura...

Iracema:
- Então estou bem acompanhada... Não é qualquer um que pode ser dono de toda uma cidade... Um rei você e eu uma deusa! Eu sei quem você é Marcos, mas você não se lembra de mim...

Marcos olha para Iracema com um leve sorriso nos lábios, diminui a velocidade do carro e entra no acostamento.

Marcos:
- Agora que você falou, eu estou com uma leve lembrança da sua pessoa, do seu nome... Iracema dos lábios de mel... É claro! Foi em alguma festa na região, mas como são muitas e foram tantas... Eu não consigo me lembrar do seu rosto... Mas eu me pergunto: Como fui esquecer um rosto tão lindo, tão angelical? Olha que conheço todas as mulheres bonitas que vivem aqui na região... Mas você é encantadora, inebriante e esse perfume de mata virgem que o seu corpo exala me descontrola todinho...

Marcos se aproxima de Iracema que não esboça reação alguma e passa a acariciá-la no banco do carro

Marcos:
- Iracema o seu perfume é inesquecível! Só há uma maneira de eu me lembrar completamente de você: é te namorando e assim ativando, a cada carinho recebido, você na minha memória... Iracema!... Iracema!... Iracema dos lábios de mel.

Marcos começa a beijá-la, mas, aos poucos, ele começa a enxergar nela algo diferente, algo que lhe deixa aterrorizado. Ele começa a suar frio e as imagens de um passado recente de violência, voltam a ser lembrada. O rosto de Iracema esta ligado a esse passado. Seu rosto, aos poucos, vai ficando desfigurado, os olhos esbugalhados como em um filme de terror e no seu peito, pode-se ver enterrado até o cabo em cruz, um punhal no coração. A porta do carro então se abre. Jaci coloca os seus dois pés no chão do acostamento de pedra e começa a andar afastando-se do carro em direção da estrada.

Movimento de Passagem

Cinema mudo. O diálogo é dramatizado com gestos fortes realçados pela trilha sonora.

No interior de um olho castanho, refletindo-se na pupila dilatada, explodem em flashes a imagem de sete homens armados, mascarados, cercando um casebre à noite. Dois deles ficam vigilantes na porta e os outros cinco arrombam e invadem as portas fechadas do casebre no alto do morro cercado por uma pequena mata. Estão nervosos e apressados. No seu interior acontece um ritual Vudu. Tocam-se os tambores. Velas e despachos com muita pólvora e fumaça. Mulheres possuídas pelos santos se debatem enquanto outras dançam. Iracema também está presente e é a mais formosa bailarina do além.
. O comandante da missão, capitão Sérgio dá a ordem em voz alta: - Chega de conversa fiada! Não temos tempo a perder! Vamos invadir é por logo fim a este tormento. Invadir!
O sargento Marcos é o primeiro a entrar no pegi. No momento em que o terreiro é invadido a nochê Jaci, vestida de branco, está sentada no baquinho traçando pemba no chão do pegi com uma varinha. Os tambores param de tocar. A noviche Iracema corre e pega a sua filha no colo. O sargento, com sua arma engatilhada, olha para os rostos assustados. Jaci se levanta do banquinho. As luzes elétricas do terreiro piscam e se apagam. Algumas velas permanecem acesas. Um rastilho de pólvora entra em combustão espontânea provocando o início do tiroteio no terreiro. Um grupo homens de roupas comuns foge da casa para dentro da mata atirando. Tiros e mais tiros. Dentro do terreiro uma chacina com poucos sobreviventes, As luzes retornam a iluminar o terreiro.
Iracema tem a sua roupa branca toda manchada de sangue. Sua criancinha está morta no chão.
Aos olhos de Jaci surgem flashes das cenas do massacre em fragmentos de luz e sombras.
Na estrada está Marcos, com a cara deformada, morto dentro do carro com um punhal cravado no coração.
Iracema caminha no meio do asfalto, saindo de perto do carro em direção da cidade. Fincado no acostamento da estrada uma placa indicativa: ELDORADO 5 km.

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