ABAIXO TEXTOS - CRÍTICAS - ENSAIOS - CONTOS - ROTEIROS CURTOS - REFLEXÕES - FOTOS - DESENHOS - PINTURAS - NOTÍCIAS

Translate

sexta-feira, 31 de julho de 2009

NOTÍCIAS

Observação e Delicadeza
Imperdível a exposição da minha amiga Ofélia Torres na cidade de Tiradentes.
Uma artista sensível que retrata o casario, os recantos, a paisagem, a terra de incontáveis histórias, de uma maneira encantadora e única.
Desejamos a ela o maior sucesso na sua mostra.

domingo, 26 de julho de 2009

Fechando o domingo e quebrando a redoma...

FRED ASTAIRE e GINGE ROGERS

Dengoso de Ernesto Nazareth

video

PEREZ PRADO

Mambo

video

Por uma nova semana...

Meus amigos do cinema mineiro de Juiz de Fora

Encerro hoje na KTV a primeira parte da publicação da REDOMA DE CRISTAL. Foram mais de 50 clipes de música selecionados. Isso só foi possível de ser feito por eu estar aqui no Rio de Janeiro, onde a banda larga da Internet ainda funciona com bom proveito de conexão e, também, de ter ancorado no estaleiro da mamãe para o tratamento de uma gripe prolongada que peguei em Ouro Preto. Considero-me uma pessoa bem informada e não sei ainda se fui acometido, ou não, do vírus espírito de porco. Passei muito mal, mas não fui enfrentar a fila de doentes dos hospitais público ou privado. O meu amigo Tonacci foi ao hospital público em Ouro Preto, saiu sem diagnosticar o que ele estava sentindo e viajou para São Paulo. Minha amiga Vera Barreto caiu de cama, foi ao hospital privado aqui no Rio e saiu sem o diagnóstico do que ela estava sentindo. Pelo que fui informado, você só sabe se é ele que se apossou de você quando o seu pulmão estiver tomado. Que horror! O Eliseu me disse que estava em São Paulo quando perdeu a respiração e foi parar no hospital público vigiado pela polícia que não deixava que ele saísse mesmo estando diagnosticado como se nada tivesse. É incrível! Ninguém sabe nada a respeito ou alguém está escondendo o espírito de porco? Quantos milhões lucram a indústria farmacêutica com essa pandemia? Volto amanhã curado para Cabo Frio sem tomar nenhum remédio. Tenho que estar 100% brasileiro. Preciso cuidar do lançamento do filme AMAXON. Preparar a edição do meu livro “Trilogia da Separação” e remeter para um colecionador as minhas novas pinturas.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Meninos eu ouvi e vou passar!

REDOMA DE CRISTAL

O melhor da música, do cinema, do teatro, da imagem, de todas as artes, de todos os tempos.

Estou abrindo este espaço na página do KTV

para repassar alguns vídeos que vejo na Net que

acho interessante que outros amigos também

vejam .

video

Assim para começar apresento a vocês uma chinesinha

que toca Villa-Lobos como nunca havia visto e ouvido

alguém tocar. Confira! É sensacional!

O nome dela é Xuefei Yang.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A Saga do Cinema de Vanguarda Brasileiro IV

Quarto DiaPassei todos esses dias, desde que entrei em terras de Minas, com o meu telefone celular Vivo, trocado na cidade de Cabo Frio por um novo, de pré-pago para conta mensal, que deveria falar em todo território nacional, inoperante e sem sinal. Ele ainda possui câmera fotográfica, mas é quase impossível encontrar para comprar um cabo de transferência para o meu computador, ou seja: tudo que eu tinha pensado em fazer durante o Festival de Inverno de Ouro Preto, o vento da propaganda enganosa me levou. A simpática e aconchegante Pousada em que fiquei não tinha a internet sem fio e passei a semana sem poder publicar as notícias diárias no meu blog. Então o que seria matéria jornalística torna-se memória, memento, ou tudo que não se quer olvidar.

video
Túlio Marques apareceu durante o Festival agitado e contando na porta do cinema, para quem quisesse ouvir, suas aventuras na década de 70 no Rio de Janeiro. Hoje chega a cidade dois outros amigos queridos, Marcelo Pegado, fotógrafo do Amaxon e Wanderley Narareth, técnico de som do Rei do Samba.
Fotos de Mario Drumond

Acordei com uma tosse terrível. Na porta do hotel já estavam me esperando Mario Drumond, Izabel Costa, Eliseu Visconti, Sylvio Lanna, Ofélia Torres e o curador da mostra de cinema


Alessandro Ricardo. Aliais quero deixar aqui registrado o esforço e a dedicação do Alessandro na sua tão laboriosa luta para telecinar o meu primeiro longa-metragem Bandalheira Infernal, do qual só possuía ainda uma cópia e que tinha o seu negativo perdido pelas mazelas dos arquivos do áudio visual brasileiro. Graças a ele o filme que é de 1975 está a salvo.
Saímos do hotel em direção do cinema. Marquei o meu retorno ao Rio na manhã do dia seguinte. O Mario e a Izabel teriam que voltar à tardinha para Belo Horizonte e não poderiam assistir aos meus filmes: Bandalheira Infernal; O Rei do Samba; Amaxon.
- Que mistério é esse que une as pessoas e depois as separam?
Gostaria de ter me encontrado com todos os meus amigos de Minas Gerais em uma grande festa cinematográfica, mas ainda não era a hora.
Passeando por Ouro Preto, de carro com Sylvio Lanna, lembrei-me dos dois filmes de curta-metragem que realizei sobre o encontro de escultores brasileiros no Festival de Inverno acontecido no final da década de 70. O primeiro com Krajcberg no Pico do Itabirito e o outro com os mais renomados escultores brasileiros ali presente. Entre todos esses artistas um se destacava na minha grande angular: o meu amigo Paulo Laender. Pelos altos dos morros, escondido na caverna do ouro que não mais existia, no contraponto da erudição cultural que se exigia naquele momento, surge a figura pré-histórica, mítica, do Bené da Flauta. Estes personagens de nossa cultura são retratados nos meus filmes: Naturalista Krajcberg e Natureza e Escultura. Fiz também um vídeo para a TV Minas em Cachoeira do Brumado com o escultor Arthur Pereira. Exibi em 1986 no Cine Vila Rica, para uma sala cheia em pré-estréia, o meu mais premiado filme “Um Filme 100% Brazileiro”. Logo depois fui convidado para o Festival de Berlim.
Uma só palavra de ordem: Vivo em Ouro Preto! Berço das Minas! Mãe da Liberdade


Atenção senhores passageiros: vai começar a sessão!

Bandalheira... O filme permanece novo. O Rei ainda é rei. Amaxon encheu toda tela de luz no belo e histórico cinema.

Manifesto Libertário. É dezembro de 1977 nesta estrada morro abaixo qual serpente vou indo a direita de Ouro Preto a esquerda da Ponte Nova a alguns metros de um posto de gasolina fincado no asfalto no Alto da Serra vou indo ao escondido vilarejo de ruas estreitas cobertas de árvores perfumadas de velhos casarões coloniais e uma pequena mata ainda virgem. Lavadeira artesã com água clara límpida corrente nos pés de escravos ainda habitantes vai indo rindo cantando no rio choroso entre fontes e flores ternas por pedras e igrejas incrustadas de ouro vou indo me molhar todo de prazer na cachoeira pré-histórica do Brumado.

Minha suave cidade. Dependurada despencada entre estranhas montanhas vai bela. Redemoinho de força serra de água escultura de pedra ou madeira, ipê amarelo, ou verde perdido. Aqui totem e tabus traçados em terreiros a jorrar no espaço rico do ouro de pobres fazendeiros. Ali na comarca vazia o preto levado pelos portugueses vadios. Ali no município de Mariana mora vive toda a vida cercado dos filhos dos amigos lúcido da liberdade e dos sonhos. Um trabalhador homem do povo preto branco puro e simples filho humilde do campo escultor do nosso imenso Brasil. O fim do equívoco. É hora de ser sensato. Incansáveis e poderosos defensores do equilíbrio justo e universal: libertários do Brasil! Uni-vos! Revelemo-nos agora! É hora de revolucionar a espécie humana! Nenhuma fé derruba a montanha!


Nada mais resta além da porta estreita do caos.

terça-feira, 21 de julho de 2009

A Saga do Cinema de Vanguarda Brasileiro III

Terceiro Dia

Acordei cedo. O sol brilhava iluminando o pico do Itacolomy. O frio era intenso quando saímos para a varanda na frente da Pousada. Hoje era dia dos filmes do Andrea Tonacci.
Ontem eu tinha dado para Cristina, sua mulher, uma pílula de um relaxante muscular, pois Tonacci estava com dor nas costas e perguntei a ela como ele havia acordado. Ela me respondeu que meu amigo estava com febre e dor de cabeça e que iria ao hospital fazer uns exames, mas que a dor nas costas havia passado. A paranóia do vírus da nova gripe estava solta nas montanhas que envolvem a velha cidade do barroco brasileiro. Ficamos todos preocupados e saímos comentando o acontecido. Hoje passaria no Cine Vila Rica o seu novo e premiado filme “Serras da Desordem” que todos nós queríamos assistir.
Eu e o cine olho Sylvio Lanna saímos em busca de um restaurante onde houvesse uma comida frugal, leve, pois nos sentíamos empanturrados com o frango a molho pardo que comemos no dia anterior. Sylvio pegou a lista de restaurantes e escolheu pelo nome o que lhe pareceu o melhor. Acertou em cheio. Assim fomos comer uma comida árabe num recanto agradável em frente à Igreja do Rosário. Ao sair do restaurante descobri que ali na frente morava Liginha Duran, atriz do meu filme Amaxon, e sai para procurá-la. No caminho encontrei-me com o músico Robertinho Silva, que ia a algum acontecimento que envolvia a turma do Clube da Esquina. O Festival desse ano homenageava os velhos rapazes que fizeram com Milton Nascimento a nova música mineira.
Liginha não estava em sua bela casa onde bati palmas, mas ninguém apareceu. Quando caminhava pela rua de pedra, com vista total da Igreja do Rosário, a dona do restaurante me disse que ela tinha ido para o Rio de Janeiro. Que pena, pensei, gostaria tanto de reencontrá-la. Silvio de olho fotografava tudo que via. Nada lhe escapava. Nem alguns fantasmas que se escondiam nas arredondadas torres. Achei que iria encontrar, aqui em Ouro Preto, o Marcinho e o Lô e tantos outros amigos mineiros... Senti a falta do Paulinho Giordano, do Fernando Tavares e do Milton Campos Neto que tão bem nos contava as tragicômicas histórias do capitão Leite e da prisão de todo o cast do Living Theatre - PARADISE NOW! Mas, na certa não era essa à hora. Por outro lado recebi logo, no primeiro dia, o abraço afetuoso do meu irmão, o extraordinário ator Paulo Augusto Lima, que trabalhou com Judite Malina e Julian Beck e com quem eu quero brevemente filmar.
Com febre alta, meu amigo Tonacci não poderia ir à sessão dos seus filmes e partiria no dia seguinte para São Paulo, não podendo assim assistir aos meus filmes. Geraldo Veloso também tinha compromisso agendado para o dia... Gostaria que eles tivessem ficado para assistir o Amaxon.

Por outro lado chegava à cidade, para ser homenageada pelo Festival a bailarina, fundadora do grupo corpo, Izabel Costa, acompanhada pelo editor e artista gráfico Mario Drumond, dois grandes amigos, com os quais eu havia marcado um encontro na casa do poeta Guilherme Mansur.

Sylvio Lanna me leva no seu carro movido a bateria de escola de samba para um encontro sobre a bucha que lavará a alma do mundo e acabo dentro de uma loja onde reencontrei algumas peças do escultor da cidade de Cachoeira do Brumado Artur Pereira e pude rever o presépio que ficava em um posto de gasolina, o último da estrada, para quem ia em direção de Ponte Nova.

Chegamos à porta do Cinema e já estava na hora de assistir ao primeiro filme do dia.
Assim que entrei apagaram-se as luzes e iluminou-se a tela com uma sequência de belíssimas imagens sobre a floresta virgem enevoada. Fiquei incomodado, pois aquela beleza me remetia aos sentimentos conflitantes dos planos iniciais dos grandes filmes de guerra: embora as imagens fossem de uma beleza estonteante havia ali alguma coisa de muito errada, como se o indefectível helicóptero que sobrevoava as copas das árvores invadisse um território sagrado, um predador do tempo, ameaçador e indecifrável, que de repente, no corte extra-seco da edição, se materializa através do som numa potente máquina, na locomotiva que avança ameaçadora contra tudo e contra todos. Perde-se o fôlego com o impacto da primeira agressão das forças contrárias que dominam ainda essas terras do sem fim. Tonacci passa, a partir daí, a contar de uma maneira quase ficcional a trajetória trágica do índio nômade Carapirú (um personagem de Kurosawa) que tem sua família massacrada pelos invasores e predadores de uma civilização há muito extinta. Um filme que corta a alma do mais insensível espectador e que nos mostra com clareza quem somos nós e o que fazemos.

Sai do cinema atordoado com aquela história verdadeira e perversa e encontrei com os meus amigos Mario e Izabel. Fomos para a casa do Guilherme onde tomamos um vinho e nos deliciamos com um queijo de minas curtido no armário centenário de sua cozinha.
Recebi dele duas de suas belíssimas edições de presentes: haicavalígrafos e bandeiras territórios imaginários.















Nesta noite o frio era incontrolável e voltei para pousada congelando os ossos. Passei a noite toda com uma tosse terrível. Mal pude dormir. Tinha que me preparar para a exibição dos meus filmes. Acordei com a cabeça no pé.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A Saga do Cinema de Vanguarda Brasileiro II

Segundo Dia

Dormi muito mal a noite. Comi exageradamente o delicioso jantar acompanhado de muitas garrafas de vinho na cantina Piacere que fica na Rua Getúlio Vargas, 241, Fone: (31)3551-4297- http://www.restaurantepiacere.com.br/), do meu amigo Guilherme Mansur. A noite estava fria e fomos tarde para o restaurante convidado pelo simpático Alessandro Ricardo e a jovem equipe de estudantes que o assessorava. Foi uma noite alegre onde todos riam muito e parecia-nos, com franqueza, que o mundo todo estava em festa.
Acordei cedo e fui encontrar os amigos e me preparar para a exibição dos filmes
Perdidos e Malditos de Geraldo Veloso; Sagrada Família de Sylvio Lanna; Os Monstros de Babaloo de Eliseu Visconti. É preciso preparar o espírito, aguçar a visão, limpar os ouvidos, libertar a inteligência, para poder dialogar novamente – cinema x espectador - com estes três monstros sagrados do cinema de vanguarda brasileiro.
Na porta da Pousada nos reunimos sob a luz do sol que temperava a manhã fria do inverno ouropretano.

Logo chegou Silvio com sua digital registrando o acontecido.
Depois de algumas poses para o intrépido fotógrafo e com a chegada do Andrea, acompanhado de Cristina Amaral, a talentosa editora do seu premiado filme Serra da Desordem, saímos em direção do grande cinema Vila Rica e fomos almoçar. - Como se come durante um Festival de Cinema! – Café da manhã – Almoço – Lanchinho – Jantar.

Recebi, assim que cheguei à porta do cinema, o programa da mostra onde pude ler um bom texto de apresentação dos nossos filmes:
Cinema de Resistência no Brasil Ontem e Hoje
(Emílio Maciel)
“... reunindo títulos representativos da guerrilha de invenção brasileira. Surgida durante o mais feroz Estado de Exceção, a obra dos cineastas aqui presente substitui a teleologia nacional-popular do cinema novo por um jogo dissonante e descontínuo de som e imagem, com o qual retoma-se a vertente mais extrema do legado godardiano. No entanto, como bem demonstra essa impressionante obra-prima que é Serra da Desordem, aprofundar a reflexão sobre os abismos da linguagem não significa, para esses autores, deixar de fazer frente às tensões do corpo social, que já aparecem aliás reverberando por trás das elipses, ruídos, esgares e silêncio de filmes como Bandalheira Infernal, Perdidos e Malditos e A Sagrada Família, e ainda ecoam no experimentalismo rapsódico de um Luiz Rosemberg Filho ... é alentador constatar como, dispostos um do lado do outro, esses filmes revelam uma poderosa narrativa ... itercambiando cisão comunitária e crise narrativa, eles sobrevivem e se consolidam, por isso mesmo, como um raro enclave de lucidez em meio a uma regressão que é tanto estética quanto política”.
Recebi de Ofélia Torres, neste final do dia, o convite para a exposição de seus quadros na cidade de Tiradentes. Entramos no cinema as 17:00 horas e só saímos as 23:30 horas quando o frio nas ruas vazias congelavam os ossos e fomos correndo contra o vento da madrugada ao primeiro restaurante que encontrássemos. Aquela jornada cinematográfica me fez lembrar as noites frias do inverno londrino de 1971 quando nos reuníamos no EletricCinema, na Portobello Road, Notting Hill, para um “all night show” onde assistíamos a mostras de vários cineastas de vanguarda fumando haxixe e consumindo copos e mais copos de apple juice.

domingo, 19 de julho de 2009

A Saga do Cinema de Vanguarda Brasileiro I

Prólogo
Depois da frustrada primeira exibição pública do meu filme Amaxon, no cine Glória do Rio de Janeiro (texto já publicado anteriormente), vejo-me, novamente, trilhando os caminhos das Minas, na zona da mata mineira, subindo e descendo montanhas, cochilando no embalo da estrada tortuosa por onde o motorista Oliveira, mineiro de alma nobre e sotaque carregado, me conduzia para uma semana de exibição de filmes no Festival de Inverno da cidade de Ouro Preto. Saímos na terça-feira bem cedinho do Rio de Janeiro. Pegamos o cineasta Eliseu Visconti e subimos a serra. Eliseu estava muito bem aparentado, jovem e alegre com a viagem que se seguia e a possibilidade do encontro com os velhos amigos Andrea Tonacci, Sylvio Lanna e Geraldo Veloso. Eu também estava feliz: passaria Amaxon, veria os velhos amigos e assistiria aos nossos filmes! O que melhor poderia me acontecer?
Perto de Lafaiete, a cidade que cresceu assustadoramente a beira da velha rodovia que liga o Rio de Janeiro a capital de Minas, entramos num trecho que eu não conhecia. Perguntei para o Oliveira onde estávamos e ele me respondeu que cortaríamos o longo percurso já percorrido, economizando 100 km, pela Estrada Real e que com a ajuda de Deus nos deixaria no nosso destino ainda a tempo de almoçarmos aquela saborosa comida cantada em verso e prosa pelos inconfidentes.
Pela janela do carro revisitava a minha terra. Chegamos por volta do meio dia.
Depois de deixarmos as malas na simpática Pousada Minas Gerais, onde nos hospedamos, nos despedirmos do Oliveira e saímos, eu e o Eliseu, a pé, em direção da rua direita, caminhando por aquelas ruas e ladeiras, observando às casas, os telhados, as igrejas, vislumbrando o encontro com os personagens visionários que há tempo não viamos.
O palco de tudo isso era o Cine Vila Rica que hoje pertence à Universidade de Ouro Preto.

Primeiro Dia:

Na porta do cinema estava a observar o barroco mineiro, com a postura de um príncipe veneziano, o cineasta Andrea Tonacci. No hall de entrada Geraldo Veloso dava uma entrevista aos jornalistas locais. Eliseu saiu para tomar sua primeira cerveja.
Eu estava conversando com Andrea quando um carro parou e desceu dele Sylvio com sua pequena câmera digital...
video
Sylvio Lanna, que tentou a vida toda fazer cinema e foi impossibilitado pela política excludente dos burocratas do sistema, o governo militar e a falsa democracia que se instalou no país após a ditadura, tinha reencontrado na nova tecnologia digital a sua alma de artista, a sua liberdade criativa, o seu olhar crítico, e, como o russo Dziga Vertov, passou a semana registrando os momentos significativos desse nosso reencontro.
Hoje, neste primeiro dia, as 17:00 horas, nos reunimos para um debate sobre os nossos filmes e exibimos alguns de nossos curtas metragens: Malandro Termo Civilizado de Sylvio Lanna; Um Sorriso Por Favor de José Sette; As Benzedeiras de Minas de Andrea Tonacci; Nossas Imagens de Luis Rosemberg (que não pode comparecer por estar em tratamento médico); Ticumbi de Eliseu Visconti.
No debate o tema foi o de sempre, cinema novo x cinema (marginal) de resistência. Nada de novo.
A mesma xaropada já discutida durante mais de 30 anos. Chega! Perguntei: - A que horas será servido o jantar?

Fomos jantar no restaurante do meu amigo e poeta Guilherme Mansur.
A grata surpresa do dia foi o encontro com a artista plástica Ofélia Torres, que me esperava na porta do Cine Vila Rica e que passou a nos acompanhar, enriquecendo as conversas com sua presença enigmática, durante todos os dias de nossa permanência no Festival.
Quem também apareceu foi o meu querido amigo Jose Alexandre (Lelé), produtor do filme Piranhas do Asfalto de Neville de Almeida, que veio de Ponte Nova para nos encontrar.
Viviamos agora a grande festa dos reencontros.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Paris em 1971

Paris em 1971 - Filme Amaxon (Misterius)

Em Paris
Sonhava no meu sono a saudade
quando a luz o divino libertou.
Ora, quem vejo ?
Em um olho a verdade
e no outro, entreaberto, meu destino
minha metade
minha sina
minha dor.
Tomei-me de susto com tamanha glória
mil corpos nus enrolados em lã
embriagados na memória
numa predisposição malsã
repetiam num langor
um cigarro por favor
mais nicotina, mais maconha
mais cafeína, mais cocaína,
mais morfina, anfetamina e
o ópio em flor, uma vergonha!
A heroína deitada ficou
balbuciando em ouvidos surdos
cegos conceitos, falsos miúdos
e o nada refletido no espelho
d’alma foi o tudo que restou.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Poesia

Belém do Pará - 1978
A Liberdade
É toda azul
Horizontal.
No mar o sol poente é sangue
Rebelde vermelho
Vertical.
Na terra roxa e quente
Morre o Brasil
Central.
Na cachoeira amazônica enlameada
Explode as pororocas do medo.
Não são águas cristalinas
Da velha Ipanema em dias de sol
Mas é onda forte, verde, suja correnteza
Iluminada pelo raio que corta
A imensidão do céu escuro tropical.
Uirapuru canta na mata
há maldade no teu corpo
no teu sangue derramado
no teu cérebro, teu enredo
nesta toada de pássaro preso
chorando a tristeza de um amor passado.
Nas tardes chuvosas do Norte
O Brasil é a miscigenação de rios
Negros e Brancos com o Solimões
O sol queimando a mata
fazem esses duros olhos frios
desmancharem-se de amor
observando a natureza.
É noite
A lua rompe a nuvem densa.
Um corisco ao longe se dissipa.
Uma brisa fria acaricia minha pena
A sinfonia de um espetáculo majestoso principia.
Na terra pré-histórica e perene
Arde a LIBERDADE todo dia.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Quem sou eu...

(poema escrito em Londres em 1971)
EU SOU MAIS
UM ANJO

Da esquerda bacana
Notívago, fortuito, escabroso.
Me animo ao som amistoso do
JAZZ
A nata-negra da música americana
.
EU SOU MAIS
O SAMBA

Perdido sou braseiro
Aconchego de negro e mulata.

EU QUERO MAIS

Ser bamba como o pajé das matas.
Soturno como o candomblé que mata
No infortúnio do medo que ataca.
Ser xenômano em posições distintas
Parcimonioso com meu destino
Recriminando o instinto
Fazendo uma finta
Com o meu assassino.

VIVER MAIS

Com a fome do saber divino
Na fé de um povo novo
Com direitos - sem destino
Nesta reza maltrapilha
Mundo imundo mudo e tosco...
Lava minh’alma!
Leva meu corpo já morto!
Padece e acalma!
Este pobre moço.

MAIS DIREITO

Sou da direita, babaca!
Na vida é tudo ou nada.
Dinheiro é poder
Fama e vitória
É sempre vencer!

MAS DEFEITO
Um outro conceito estreito
Na força da pré-história
Quem tem medo de viver..
Morre sem saber a hora.

domingo, 5 de julho de 2009

AMAXON

Amaxon - Vera Barreto Leite
Por uma simples sessão de cinema digital

Para um artista a vida é perigosa. Na criação do objeto de arte, onde tudo pode acontecer, ele se joga de corpo e alma.

Fazer da poesia cinema é ainda opção de poucos. Sem a poesia a vida fica pobre.

Nada se cria e nada se transforma sem arte, sem luz, sem o talento e a presença poética da deusa da criação...

Depois de que se regulou a máquina digital, na cor e no brilho, equalizou-se o som estéreo digital, no volume certo, respeitando todo público presente, abriu-se novamente as portas para o cinema brasileiro na hora programada.

A sessão começou às 22.00 horas.

O hall, vazio de mesas, estava cheio de pessoas que se movimentavam de um lado a outro esperando que as luzes da sala de exibição ao lado se apagassem.

Pessoas amigas e corajosas que saíram das suas casas, às vezes de locais distantes, enfrentando a cidade noturna e violenta do Rio de Janeiro, aportaram em uma praça mal iluminada, vazia, perigosa, procurando onde ficava “O Cabeção” , o indelével memorial onde uma escadaria underground as levariam a sala luxuosa e gelada, pelo ar-condicionado, do pequeno cinema, para assistirem ao filme Amaxon.

Tudo pronto. A sala cheia. Apagam-se as luzes. Última chamada. Inicia-se o filme.

AMAXON!

Três minutos se passaram. Os espectadores estão atentos e curiosos com a primeira sequência de imagens e sons... Quando de repente a luz do fraco projetor amador não suportando o calor da noite queima. O som continua. Todos esperam ansiosos. Não há um técnico projecionista na sala, o pobre rapaz que estava ali para ligar os equipamentos de nada sabia. Não havia lâmpada em estoque para substituir a queimada... – Mas, não foi a lâmpada que queimou! Gritou o primeiro espectador que tentava ajudar a encontrar o problema... Desliga-se o som. A sala continua as escuras. A partir desse momento instalou-se o caos... Todos queriam colaborar para que a luz de Amaxon volta-se a brilhar. Mas os deuses do caos, da conspiração, do desleixo, da incompetência, não permitiram e o tempo foi passando, os amigos indo embora, o bar era o único que faturava o acontecido, vendia-se sem parar o álcool para espantar o tédio e o frio.

A ansiedade da equipe que realizou o filme era indiscutível. Como se desculpar com todos aqueles que estavam ali atônitos com tamanha desorganização e imperdoável desrespeito com o cinema brasileiro?

Para o diretor, no momento indescritível do reconhecimento primeiro de sua obra, foi uma tragédia de proporções inimagináveis.

Nada mais adiantava fazer se não se desculpar perante a platéia de amigos cineastas, críticos e estudiosos da arte cinematográfica, atores, produtores e atrizes que estavam ali presentes. Como calcular esse prejuízo?

Resta-nos agora questionar o seguinte:

Porque um lugar bem construído, em um ponto nobre da cidade do Rio de Janeiro, que pertence a Prefeitura e é hoje arrendado a uma produtora de cinema, que não tem nenhum outro compromisso com o cinema brasileiro a não ser aqueles que podem lhe render alguns trocados, (400 reais pela exibição), não é um bom lugar para se exibir, para amigos e convidados, um filme brasileiro livre e independente de verbas oficiais?

Estaria tudo perdido se não fosse a intervenção da banda Studo Mudo que mostrou-nos um pouco de suas boas composições, um misto de baião com rock progressivo e que transformou aquele espaço triste em um verdadeiro underground londrino, onde todos se encontravam exilados de seus objetivos iniciais, mas felizes no reencontro cênico de amigos de loucas memórias, matando saudades, como se o filme Amaxon invertesse o seu início, tornando-se teatro.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Poema Erótico

(poema escrito em 1968 em Belo Horizonte MG)
Maldita hora, maldita existência, maldito desleixo
Maldito momento em que me levantei desta carinhosa almofada
Maldita existência, pueril e bárbara, acossada por migalhas
Malditos mil novecentos e sessenta e quatro
Não consigo deixar de lado, na memória, a hora hostil
Mas não me falta o prazer
Novamente, para sempre, quero ficar em casa com você...
Sobre o sofá me declino nas formas absolutas de seu corpo
Os espessos pêlos soltos na virilha valem as pernas roliças
nas penas do meu travesseiro onde me aconchego
Pêlos de ganso
Brejeiro desejo molhando a boca
Penso nobre: são os seus seios – devaneios?
Sinto o gosto no tato da língua na sede e no meio
Pelo seu amor, célula sedutora moldada em seda,ralo o meu sexo
Observando as paredes nuas, frias, brancas, magras de suas costas, indiferente a tudo e a todos
Sou seu eu - abro o fechoecler e desnudo o meu ser
Cada vez mais baixo resistente aranha vaga...
Solenemente perto da montanha senil ela me empurra no toalete das emoções - imaginações?
O sofá exalta-me o estilo
Perco o sentido satisfeito
Intranqüilo porém renovo o fluxo do ar nos meus pulmões vendo-a coberta de fumaça adiante passando com seu tortuoso traseiro enganando a porta estreita do chuveiro e balançando em cadentes deleite nos intervalos de água abundante o sabonete perfumado de lavanda no seu ventre ardente de cigana.
Entre um passo e outro aumentando firmemente o meu desejo sem a sua ausência vejo na súbita hora o supremo desleixo da história propondo à majestosa heróica e dura resistência um compromisso com a memória e outro com a consciência.