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segunda-feira, 31 de outubro de 2016

ENGOLIDO PELO ARPOADOR

Lá fora amor, uma rosa nasceu. As portas deverão permanecer abertas durante o horário de funcionamento, era o que estava escrito em uma placa ao lado do balcão do bar de três portas. Perguntei ao português que mordia os fartos bigodes brancos com os dentes implantados do canto da boca: isso quer dizer que você não pode funcionar fechado, para um evento qualquer? Ele respondeu secamente: são as portas que abrem ou fecham e não eu. Continuou depois de uma longa pausa, sem tirar os olhos do dinheiro que contava: exigência dos bombeiros.  Noutro dia fui visitar o May Flowers, um pequeno e escondido botequim no coração de Copacabana, que há anos luz me fora apresentado pelo Otávio Terceiro. Amancio, o dono do pedaço, colocou uma mesa para mim ao lado da banca de jornal de frente para o bar com a calçada no meio, fiquei por ali tomando um tempo. Todas e todos passavam em profusão pra lá e pra cá desfocando o primeiro plano, já que o ponto é a dois quarteirões do metrô e na outra direção, a mesma distância da praia. Bem na minha frente nitidamente, dois senhores bem idosos se reencontraram, cumprimentaram-se de uma maneira muito efusiva, com carinhos, abraços apertados, beijos na testa e nas mãos, olhos molhados de lembranças e palavras amorosas. Tamanha afetividade me levou às lágrimas contidas nos óculos escuros. Que coisa bela é a amizade. Em seguida, mostraram o relógio de pulso um para o outro, explicando o motivo da pressa e cada um seguiu seu caminho. Desta vez, por um erro crasso de logística, não fui ao bomBardeio, na mítica Prado Junior território do David Neves. Na madrugada na mesa do bar, é só o tempo lá fora. Fui ao BeloBar e para minha tristeza o estabelecimento na minha hora boa, já não é atendido pelos meus antigos convivas.  Quase tudo muda.

Continuei a via sacra. A mulher cuspiu a maçã é o título do diáfano curta que a Las Casas nos apresentou enquanto filmávamos com o auxílio luxuoso da luz natural e de um mono-pé a sonora imagem da minha Maria Madalena revolucionária, no filme que um dia consigo fazer: Ana Maria Magalhães. Novamente o elegante bandolim do Madeira com outros instrumentos comparsas me levou a novas lágrimas executando Papo de Anjo na porta do meio da esquina de dentro para fora. Foi perdido o maior pensamento na mudança do encaminhamento para o Word e vice-versa ao contrário. Mudei a ordem dos fatores com maior autonomia, afinal sem alguma autonomia a essa altura você não é nada, e eu voltando ao nada da verdade, nem te digo. Tive um sonho tão real essa noite que achei que era mentira. Continuando anatomicamente, depois que cheguei na esplendorosa criação do Farnese de Andrade, mineiro catador dos pedaços científicos jogados como lixo da praia de Botafogo, inventando a própria expressão do objeto, assim sem saber sabendo, voltei a verter lágrimas indisfarçáveis sem possibilidades de contenção. Arqueologia existencial. Só ali, estava dentro de um carrossel de emoções requintadas. A beleza me fez voltar a ser o velho bebê chorão que sempre consegui ser sem a menor intenção, hoje com bem mais experimentações arriscadas e todos os mais variados medos. A beleza e que beleza tarda e não falha, às vezes. Depois já nas montanhas em frente à drogaria Araújo, encontro com o Zé Lourinho carregando duas sacolas de plástico lotadas de remédios. Com olhos melancólicos ele disse: pois é, quando a despesa da farmácia fica maior do que a do bar, é sinal que as coisas estão piorando. Dia treze de Maio, dia da Nossa Senhora. Conceição eu me lembro muito bem. Na sequência vejo o Cabeça, que junto ao Biscoito são os deliverys mais espertos da Serra, sentado em frente ao Bar da Árvore com o braço esquerdo imobilizado cheio de pinos, a perna metida numa bota azul para fratura e do queixo até a testa coberto de hematomas. Diante do meu choque, antes que eu perguntasse, ele foi logo explicando o sucedido, parece que estava sentado ali para isto. Com dificuldade porque sua boca estava torta e metade dos dentes quebrados, ele contou: estava na comunidade descendo a rua de pedra ao lado do Torneirão, aí quando fui entrar naquela curvinha para a esquerda tinha uma areia jogada no canto, a moto derrapou e eu caí exatamente no vão da rua nos fundos da casa do Mancha que fica lá embaixo onde estava tendo um churrasco, só fui parar quebrando a mesa espalhando arroz  pra todo lado e  fiquei neste estado. Ele mesmo riu, então também tive que rir.
Tenho que falar dos dois filmes que vi durante o momento do intervalo ou do recreio, quando não me submeti às regras da sala de aula. Que saudades da professorinha que me ensinou o beabá. Um museu imaginário. Voltei a autobiografia, geralmente de onde todos nós começamos. É uma luta para barbarizar um país mau civilizado, a consciência é difícil de alcançar. Voltemos ao inicio, coisa de maluco, eu sei meu bem.
Tudo está passando tão rápido, que hoje já é amanhã e como se sabe cada dia é um dia a menos. Cantando aos acordes do meu violão é que mando depressa ir-se embora a saudade que mora no meu coração. Na parada esperta do Tonel da Pinga, sentado ao fundo na mesa mais nobre do estabelecimento que é um beco, pude observar o negão de quase dois metros, cabelo rastafári e macacão de entregador de gás, se aproximar do balcão e sorrindo pedir ao Derley que antes chamava Shirlei, uma dose dupla da amarela. Depois de servido levantou o Lagoinha cheio e olhando através da sua transparência em direção à rua, disse melodiosamente: a vida é bela como uma moça na janela esperando o broto dela. De uma talagada matou a aqua-vita brasileira, pagou, agradeceu e foi embora. Finalmente o frio chegou. No dia seguinte, passando em frente a um botequim na Barata Ribeiro com República do Peru, vejo uma placa com os seguintes dizeres: bebo para esquecer, mas nem assim.
Em Belo Horizonte noto o Moraes Moreira de chapéu de palha dirigindo  um carro vermelho pela Rua Dos Guajajaras. Talvez fosse um chapéu Panamá. Só vou pra casa quando o dia clarear. Se por acaso um grande amor eu arranjar não vou pra casa não vou não vou. Tarde fria, sinto um frio na alma. Só você não vem minha calma.



ENGOLIDO PELO ARPOADOR
 Fabio Carvalho
Lá fora amor, uma rosa nasceu. As portas deverão permanecer abertas durante o horário de funcionamento, era o que estava escrito em uma placa ao lado do balcão do bar de três portas. Perguntei ao português que mordia os fartos bigodes brancos com os dentes implantados do canto da boca: isso quer dizer que você não pode funcionar fechado, para um evento qualquer? Ele respondeu secamente: são as portas que abrem ou fecham e não eu. Continuou depois de uma longa pausa, sem tirar os olhos do dinheiro que contava: exigência dos bombeiros.  Noutro dia fui visitar o May Flowers, um pequeno e escondido botequim no coração de Copacabana, que há anos luz me fora apresentado pelo Otávio Terceiro. Amancio, o dono do pedaço, colocou uma mesa para mim ao lado da banca de jornal de frente para o bar com a calçada no meio, fiquei por ali tomando um tempo. Todas e todos passavam em profusão pra lá e pra cá desfocando o primeiro plano, já que o ponto é a dois quarteirões do metrô e na outra direção, a mesma distância da praia. Bem na minha frente nitidamente, dois senhores bem idosos se reencontraram, cumprimentaram-se de uma maneira muito efusiva, com carinhos, abraços apertados, beijos na testa e nas mãos, olhos molhados de lembranças e palavras amorosas. Tamanha afetividade me levou às lágrimas contidas nos óculos escuros. Que coisa bela é a amizade. Em seguida, mostraram o relógio de pulso um para o outro, explicando o motivo da pressa e cada um seguiu seu caminho. Desta vez, por um erro crasso de logística, não fui ao bomBardeio, na mítica Prado Junior território do David Neves. Na madrugada na mesa do bar, é só o tempo lá fora. Fui ao BeloBar e para minha tristeza o estabelecimento na minha hora boa, já não é atendido pelos meus antigos convivas.  Quase tudo muda.

Continuei a via sacra. A mulher cuspiu a maçã é o título do diáfano curta que a Las Casas nos apresentou enquanto filmávamos com o auxílio luxuoso da luz natural e de um mono-pé a sonora imagem da minha Maria Madalena revolucionária, no filme que um dia consigo fazer: Ana Maria Magalhães. Novamente o elegante bandolim do Madeira com outros instrumentos comparsas me levou a novas lágrimas executando Papo de Anjo na porta do meio da esquina de dentro para fora. Foi perdido o maior pensamento na mudança do encaminhamento para o Word e vice-versa ao contrário. Mudei a ordem dos fatores com maior autonomia, afinal sem alguma autonomia a essa altura você não é nada, e eu voltando ao nada da verdade, nem te digo. Tive um sonho tão real essa noite que achei que era mentira. Continuando anatomicamente, depois que cheguei na esplendorosa criação do Farnese de Andrade, mineiro catador dos pedaços científicos jogados como lixo da praia de Botafogo, inventando a própria expressão do objeto, assim sem saber sabendo, voltei a verter lágrimas indisfarçáveis sem possibilidades de contenção. Arqueologia existencial. Só ali, estava dentro de um carrossel de emoções requintadas. A beleza me fez voltar a ser o velho bebê chorão que sempre consegui ser sem a menor intenção, hoje com bem mais experimentações arriscadas e todos os mais variados medos. A beleza e que beleza tarda e não falha, às vezes. Depois já nas montanhas em frente à drogaria Araújo, encontro com o Zé Lourinho carregando duas sacolas de plástico lotadas de remédios. Com olhos melancólicos ele disse: pois é, quando a despesa da farmácia fica maior do que a do bar, é sinal que as coisas estão piorando. Dia treze de Maio, dia da Nossa Senhora. Conceição eu me lembro muito bem. Na sequência vejo o Cabeça, que junto ao Biscoito são os deliverys mais espertos da Serra, sentado em frente ao Bar da Árvore com o braço esquerdo imobilizado cheio de pinos, a perna metida numa bota azul para fratura e do queixo até a testa coberto de hematomas. Diante do meu choque, antes que eu perguntasse, ele foi logo explicando o sucedido, parece que estava sentado ali para isto. Com dificuldade porque sua boca estava torta e metade dos dentes quebrados, ele contou: estava na comunidade descendo a rua de pedra ao lado do Torneirão, aí quando fui entrar naquela curvinha para a esquerda tinha uma areia jogada no canto, a moto derrapou e eu caí exatamente no vão da rua nos fundos da casa do Mancha que fica lá embaixo onde estava tendo um churrasco, só fui parar quebrando a mesa espalhando arroz  pra todo lado e  fiquei neste estado. Ele mesmo riu, então também tive que rir.
Tenho que falar dos dois filmes que vi durante o momento do intervalo ou do recreio, quando não me submeti às regras da sala de aula. Que saudades da professorinha que me ensinou o beabá. Um museu imaginário. Voltei a autobiografia, geralmente de onde todos nós começamos. É uma luta para barbarizar um país mau civilizado, a consciência é difícil de alcançar. Voltemos ao inicio, coisa de maluco, eu sei meu bem.
Tudo está passando tão rápido, que hoje já é amanhã e como se sabe cada dia é um dia a menos. Cantando aos acordes do meu violão é que mando depressa ir-se embora a saudade que mora no meu coração. Na parada esperta do Tonel da Pinga, sentado ao fundo na mesa mais nobre do estabelecimento que é um beco, pude observar o negão de quase dois metros, cabelo rastafári e macacão de entregador de gás, se aproximar do balcão e sorrindo pedir ao Derley que antes chamava Shirlei, uma dose dupla da amarela. Depois de servido levantou o Lagoinha cheio e olhando através da sua transparência em direção à rua, disse melodiosamente: a vida é bela como uma moça na janela esperando o broto dela. De uma talagada matou a aqua-vita brasileira, pagou, agradeceu e foi embora. Finalmente o frio chegou. No dia seguinte, passando em frente a um botequim na Barata Ribeiro com República do Peru, vejo uma placa com os seguintes dizeres: bebo para esquecer, mas nem assim.
Em Belo Horizonte noto o Moraes Moreira de chapéu de palha dirigindo  um carro vermelho pela Rua Dos Guajajaras. Talvez fosse um chapéu Panamá. Só vou pra casa quando o dia clarear. Se por acaso um grande amor eu arranjar não vou pra casa não vou não vou. Tarde fria, sinto um frio na alma. Só você não vem minha calma.
O BRASIL ESTÁ ENTREGUE AS BARATAS E AOS RATOS

quinta-feira, 23 de junho de 2016

PERCEPÇÃO

A Felicidade
A felicidade é um estado permanente que não parece ter sido feito, aqui na terra, para o homem. Na terra, tudo vive num fluxo contínuo que não permite que coisa alguma assuma uma forma constante. Tudo muda à nossa volta. Nós próprios também mudamos e ninguém pode estar certo de amar amanhã aquilo que hoje ama. É por isso que todos os nossos projetos de felicidade nesta vida são quimeras. 
Aproveitemos a alegria do espírito quando a possuímos; evitemos afastá-la por nossa culpa, mas não façamos projetos para a conservar, porque esses projetos são meras loucuras. Vi poucos homens felizes, talvez nenhum; mas vi muitas vezes corações contentes e de todos os objetos que me impressionaram foi esse o que mais me satisfez. Creio que se trata de uma conseqüência natural do poder das sensações sobre os meus sentimentos. A felicidade não tem sinais exteriores; para conhecê-la seria necessário ler no coração do homem feliz; mas a alegria lê-se nos olhos, no porte, no sotaque, no modo de andar, e parece comunicar-se a quem dela se apercebe. Existirá algum prazer mais doce do que ver um povo entregar-se à alegria num dia festivo, e todos os corações desabrocharem aos raios expansivos do prazer que passa, rápida mas intensamente, através das nuvens da vida?
 


sexta-feira, 17 de junho de 2016

Criticando a crítica

Um memorioso formigueiro mental

AUGUSTO DE CAMPOS
ESPECIAL PARA A FOLHA
15/06/2016 

O poeta Ferreira Gullar abre um parêntese nas suas senilidades politicoides para voltar a provocar-me, invocando suposta conversa que teria tido comigo há mais de 60 anos, na qual eu teria falado mal de Oswald de Andrade ("Ilustrada", 12 de junho). Assim procede para enganar os leitores, passando-se por grande amigo e conhecedor da obra de Oswald, quando mal o conheceu e nada fez pela sua reabilitação, iniciada pelos poetas concretos de São Paulo.
A verdade é que, quando veio a opinar, afirmou que quem estava certo era Mário de Andrade e não Oswald. Só abre a pós-boca para autolouvar-se. Enquanto isso Haroldo, Décio e eu, desde fins dos anos 1940, enfatizávamos a importância do autor de "Serafim Ponte Grande", livro que Gullar afirma ter comprado em 1954, mas que Oswald nos ofertou pessoalmente em 1949 com a dedicatória: "Aos irmãos Campos, firma de poesia".
Muito antes de Gullar ouvir falar de Oswald, eu assinara com Décio e Haroldo, em 1950, um texto subscrito por pequeno grupo de intelectuais, "Telefonema a Oswald de Andrade", que ressaltava: "Você, sexagenário, é o mais moço dos escritores brasileiros" ("Jornal de São Paulo", 18/1/1950). Não cola, portanto, a delação desprimorosa de Gullar.
Em 1954, Décio incluía "O Rei da Vela" no seu Teatro de Cartilha. No "Diário Popular", de 12/12/1956, Haroldo e eu afirmávamos: "Contra a reação sufocante, lutou quase sozinha a obra de Oswald de Andrade, que sofre, de há muito, um injusto e caviloso processo de olvido sob a pecha de "clownismo" futurista. Seus poemas ("Poesias Reunidas O. Andrade"), seus romances-invenções "Serafim Ponte Grande" e "Memórias Sentimentais de João Miramar" (de tiragens há muito esgotadas, para não falar de seus trabalhos esparsos ou inéditos), que ainda hoje, por sua inexorável ousadia, continuam a apavorar os editores, são uma raridade no desolado panorama artístico brasileiro." A pretensão de Gullar de ter influído em nossa percepção de Oswald é, pois, mera fanfarronice.
Se alguma vez o seu memorioso formigueiro mental ouviu qualquer restrição de minha parte, não era à obra de Oswald, mas ao seu comportamento, que não era o de um santo. Por exemplo, nos anos 1950, Oswald começou a proclamar que Cassiano Ricardo, presidente do Clube de Poesia, mas também diretor-geral do governador Adhemar de Barros ("rouba, mas faz"), era o nosso Fernando Pessoa. Ora, Cassiano podia nomear quem indicasse para cargos públicos... O verdeamarelista, ridicularizado por Oswald, passava a ser o gênio da raça, por interesses familiares. Era muito mais do que uma irresponsabilidade. Não dava, obviamente, para concordar em tudo e por tudo com Oswald, a despeito de sua grande obra.
São mais do que conhecidos os estudos que publicamos, Haroldo, Décio e eu, ressuscitando a obra de Oswald. Fomos nós que relacionamos o seu "poema-minuto" à poesia concreta. E que estabelecemos o elenco básico de autores do movimento, Mallarmé/Joyce/Pound/Cummings, que Gullar secundou em artigo de 1957, mas cuja obra ignorava. De autores franceses, só conhecia os surrealistas. Não sabia e não sabe inglês.
Em suma, por que sempre insultou os poetas paulistas? Porque sabe que não inventou nada. Que o seu "neo", cercado de uma pequena corte de subpoetas, hoje esquecidos, foi incapaz de deixar de copiar os nossos poemas concretos. Por que volta a me provocar, tendo sido já contestado e desmentido? O surto vem da repercussão da mostra de meus poemas –"REVER"– no Sesc Pompeia (São Paulo), a contrastar com o conformismo dos seus subprodutos drummondcabralinos. Gullar diz que poesia é espanto. Espanto é o que sentimos ao ver o autor de "João Boa-Morte" coroar-se, de fardão, chapéu de plumas, colar e espada, na Academia Brasileira de Letras, onde chucha o seu chazinho bem remunerado com Sarney, FHC, Marco Maciel e até um golpista da TV Globo, entre outros espantalhos imortais da nossa literatura...


AUGUSTO DE CAMPOS, 85, é poeta, ensaísta e tradutor, autor de "Viva Vaia - Poesia 1949-1979" (Ateliê), "Não", "Outro"(ambos pela Perspectiva) e "Poesia Antipoesia Antropofagia & Cia" (Companhia das Letras), entre outros livros.

segunda-feira, 13 de junho de 2016

POESIA


MUNDO MAU
jose sette

Ele nasceu osso duro de roer - suposto delito deleite de poucos sabores - branca luz dos seus seios a lambuzar coisas pequenas.
Ele nasceu sorrindo e depois chorou o charme discreto enlameado da cidade nas obras menores do divino em sangue e areia.
Ele nasceu contradição e descaso - televisão desligada - antena quebrada pela força dos ventos.
Ele nasceu sombras que rodeiam o meio-dia explodindo a luz do pensamento num caos colérico de alegria.
Ele nasceu parabólico das imagens - por todos os lados se envergado em busca do saber e como um ser alado em busca do sol massacrado das necessidades - néscio do mar louco de viver. Porta negra sem casa.
Navegando no nada.
Afogando-se.
Vir a ser.
Ele nasceu só como um tigre cego ao natural sem bengala e sem mortalha e sem querer.
Lembrando-se sempre que és pó e só um simples mortal pode ao pó retornar.
Ele eterno pó - pérola pré-fabricada de plástico - mulher indesejável
un trapo sujo no pescoço social
passa correndo atrás do osso
que foi duro de roer...
Ele que nunca foi ninguém deixa hoje de ser Ele - um anjo louco barroco das catedrais criatura de chaga e gozo - um semideus vivo de fogo que passa pelos portais do inferno rindo da ironia que atrai e conduz ao retorno
Antes de morrer
Ele é aquele rapaz que veio ver ao lado do pai, observador enfraquecido, o velho astuto ensandecido satanás.

terça-feira, 7 de junho de 2016

ENSAIANDO


O desatino de Ezra Pound no mosaico da poesia moderna

por Homero Nunes
In a Station of the Metro
The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.

A aparição destas faces na multidão;
Pétalas num úmido, negro ramalhete.
  
Ezra Pound ficou 13 anos em um hospício por suas ideias políticas. Doido ou não, talvez, foi declarado incapaz por flertar com o fascismo, duvidar da democracia, defender teorias econômicas controversas e produzir uma poesia moderna demais. Elitista, intelectualmente elitista, criticava a decadência da civilização e a monetarização das relações pessoais no capitalismo putrefato. Reacionário na política, revolucionário na poesia, Pound foi a contradição figurada no caos da consciência torturada do século XX. E teve tempo, longevo, para torturar sua consciência e se arrepender de muita coisa: 87 anos. Usando a poesia como instrumento, como artifício, “vórtice imagético” (como alguns críticos tentaram circunscrevê-lo), o autor construiu mosaicos de referências estilhaçadas do mundo antigo, medieval, renascentista, moderno, do ocidente e do oriente, e de mundos mentais, épicos e fantasiosos. Imagens, metáforas, citações e referências múltiplas; uma erudição que causa vertigens em nossa mediocridade. Esqueça o fascismo, o autoritarismo, o elitismo ou qualquer outro ismo relacionado a Ezra Pound, sua poesia supera todos eles no ismo final do aforismo, poesia pura no mosaico da modernidade.

O RETORNO
Veja, eles retornam; ah, vê a tentativa
Movimentos, e os pés lentos,
O problema do ritmo e do incerto
oscilar!

Veja, eles retornam, um, e por um,
Com medo, como semi-acordados;
Como se a neve  hesitasse
E murmurasse ao vento,
dando meia-volta,
Estes eram os que tem medo de voar,
Invioláveis.

Deuses do sapato alado!
Com eles, os cães de prata,
farejando o rastro de ar!

E ASSIM EM NÍNIVE
Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

Não é, Raana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.

SAUDAÇÃO
Oh geração dos afetados consumados
          e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
          e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
          e não possuem nem o que vestir.

poesia:

“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.
Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.
Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.
Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.
Não permita que a palavra influência signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas cinzentas como pombas, ou então lívidas como pérolas, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum.”

POUND, Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. São Paulo: ed. Cultrix, 1976. (p.11-12)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

POLÍTICA


Temer, o Obscuro
Orlando Senna
Todo mundo sabe, embora às vezes de maneira imprecisa, o que é obscurantismo. É impedir que verdades ou fatos venham à luz, é oposição ao progresso intelectual ou material, é restringir ou negar o acesso do povo ao conhecimento. A vítima é a sociedade. O caminho do obscurantismo para impedir que a sociedade tenha acesso a conhecimentos são os diversos tipos de repressão política, militar, religiosa, sexual, comportamental. Enfim, todas as certezas absolutas e todos os preconceitos.
De uma maneira mais rápida e incisiva, outro caminho sempre foi utilizado ao longo dos séculos: anular filósofos, artistas e cientistas. Anular através da prisão, da tortura, do exilio e da morte. Como os martírios de Galileu, Dante, Lutero, Voltaire, Nostradamus, García Lorca, Jesus. E também, no nosso tempo, Salman Rushdie, Glauber Rocha, Victor Jara, Vladimir Herzog. E milhares de outros pensadores/comunicadores. "Viva la muerte, abajo la inteligencia" era um dos slogans da ditadura franquista na Espanha. 
A Idade Média foi considerada, tanto pela Renascença que a sucedeu no século XV como pelos iluministas do século XVIII, como a Era Obscurantista, a Idade das Trevas. Um periodo histórico de contínua deterioração material (economia destroçada pelo fim do Império Romano) e, profundamente, degeneração cultural e ética. Basta citar a Santa Inquisição, o trabalho escravo ou “servil” (sem remuneração) do feudalismo, as Cruzadas. O que nos interessa nessa História é que traços, vestígios e excrementos da Idade Média permanecem na nossa Idade Contemporânea, tanto em níveis de poder como em níveis de atitudes pessoais.
Regressão
O alvo do obscurantismo é a cultura, a fonte geradora de ideias e comportamentos. Entre os primeiros atos de Michel Temer, presidente interino que governa como se não fosse interino, estava a extinção do Ministério da Cultura, instituição que construiu uma profunda e profícua relação com a sociedade, com o fazer e o querer da sociedade. Cuidando da cultura nos seus aspectos social, simbólico e econômico, o MinC tornou-se uma referência para vários países, um desenho de eficiência estudado e elogiado por centenas de teses universitárias ao redor do mundo. A nave-mãe de indústrias culturais que cresceram geometricamente nas últimas duas décadas, influenciando beneficamente a economia nacional tão carente hoje de influências benéficas. 
A reação contra a decisão do presidente interino foi e continua sendo enorme mas ele não cedeu: a Cultura estará a cargo de uma secretaria no Ministério da Educação, que volta a ser da Educação e Cultura, MEC, como era há mais de trinta anos. Retrocesso brutal, três décadas para trás. Os milhões de trabalhadores diretos e indiretos das atividades culturais passaram a militar em uma vigorosa oposição ao ato que classificam, com toda razão, como obscurantista.
Significados
Cinco séculos antes de Cristo o filósofo Heráclito de Éfeso foi alcunhado O Obscuro. É considerado o fundador da metafísica. É o autor da frase “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, porque tanto a água como o ser humano mudam ininterruptamente. É a doutrina do mobilismo de todas as coisas. Heráclito, o Obscuro, era um filósofo competente mas isso só veio à luz bem depois da sua morte porque ele não se fazia entender pelos ouvintes de seu tempo, não tinha o dom da comunicação oral. Esse significado semântico de obscuro (sem claridade, sombrio, misterioso, incompreensível) é um entendimento colateral para o título deste texto, ao qual voltaremos. 
O sentido primordial é o de gerador de obscurantismo, o que ou aquele que difunde a escuridão a partir de sua própria ausência de luz. Um significado inventado aqui e agora para esse substantivo. Os professores me diriam que a palavra correta seria obscurantista, em sua acepção de adepto do obscurantismo. Prefiro a licença poética, a diagramação fica mais de acordo com as alcunhas históricas (Alexandre o Grande, Pepino o Breve, Maria Primeira a Louca, Jack o Estripador). Temer o Obscuro promete, pelos suas ações nos primeiros dias de governo, que a tendência ao pregresso, ao que já aconteceu e não deu certo, continuará: não escolheu uma só mulher para o ministério, afrodescendente nem falar, índio nem pensar. 
Por que? E aqui entra o significado semântico, o Temer misterioso, aquele que não se revela. Não me refiro a brincadeiras nas redes sociais que o apelidam de “mordomo da casa de Drácula”. É mais sério que isso: por que um cara que já não era popular decide jogar contra si mesmo a oposição ferrenha dos grandes artistas e intelectuais brasileiros, formadores básicos da opinião pública? Em todos os shows, em todo teatro, em qualquer acontecimento artístico no Brasil acontece neste momento atos hostis a Temer. E também no Festival de Cannes, e também em concertos de rock stars em Nova York. Não sei de outro político que tenha promovido um ato impopular que não ajudou a ninguém, que é nefasto à sociedade e ao próprio político.
A resposta mais cabível que circula nos meios de comunicação é que se trata de uma vingança. Como a grande maioria dos trabalhadores da cultura é contra o impeachment da presidente Dilma e criticaram o vice presidente Temer pelo seu açodamento para abocanhar o poder, o agora presidente interino estaria exercendo uma vendeta, uma retaliação. Se esse é o motivo, estamos fuçando no cerne do obscurantismo. Se um mandatário de um país se vinga de seus cidadãos por questões pessoais, este país está mesmo navegando entre a sombra e a treva.

* Link para outros textos de Orlando Senna no Blog Refletor    http://refletor.tal.tv/tag/orlando-senna

 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

OUVINDO ECO


“LAMENTAMOS COMUNICAR-LHE QUE SEU LIVRO…”


UMBERTO ECO propõe aqui uma brincadeira: algumas obras, hoje consagradas, são submetidas a um hipotético editor. E, analisadas em “fichas de leitura”, são, finalmente, recusadas. Esta é uma experiência pela qual todo escritor novo, em qualquer parte do mundo, já passou: mandar seus originais para uma grande editora, ficar esperando um contrato ou pelo menos uma proposta e, de repente, receber uma carta muito amável assinada pelo editor. Nessa carta. ele é informado de que certamente seu livro tem qualidades, de que provavelmente seu livro fará sucesso e de que infelizmente seu livro não será publicado.
Anônimo
A Bíblia
Devo confessar que quando comecei a ler os originais, e durante as primeiras páginas, senti-me entusiasmado. Ali há ação pura e tudo o mais que o leitor de hoje exige de uma obra de evasão: sexo (muitíssimo), com adultério, sodomia, homicídio, incesto, guerras, etc.
O episódio de Sodoma e Gomorra, com os travestis que pretendem violar os anjos, é digno de Rabelais; as histórias de Noé são o mais puro Emilio Salgari; a fuga do Egito é uma história que, mais cedo ou mais tarde, acabará sendo filmada… Em resumo, trata-se do verdadeiro roman-fleuvebem estruturado, que não economiza efeitos, pleno de imaginação com aquela dose de messianismo que agrada, sem chegar ao trágico.
Mais adiante, no entanto, percebi que se trata, na verdade, de uma antologia de vários autores, com muitos, excessivos, trechos do poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, choradeira sem pé nem cabeça.
O resultado é um feto monstruoso que corre o risco de não agradar a ninguém, porque tem de tudo. Além disso, será cansativo estabelecer a questão dos direitos de tão diferentes autores, a menos que o representante de todos eles se encarregue da tarefa. Mas nem no índice encontrei o nome desse representante, como se houvesse da parte dos autores interesse em manter seu nome oculto.
Talvez fosse possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Aí estaríamos pisando em terreno firme. Com o título: Os Desesperados do Mar Vermelho.
Homero
A OdisséiaPessoalmente,  o livro me agrada. A história tem beleza, é apaixonante, cheia de aventuras. Tem a dose exata de amor, fidelidade e de escapadas adulterinas (multo boa a figura de Calipso, uma típica devoradora de homens); tem, inclusive, um momento “lolitico”, na melhor linha nabokoviana, com uma ninfeta chamada Nausicaa: no episódio, o autor se permite algumas ousadias, mas em momento nenhum incorre em excessos. O conjunto é excitante. As cenas merecem figurar ao lado das melhores já produzidas no gênero western: a luta é violenta, a cena do arco explora, até as últimas possibilidades, o potencial literário de suspense.
Que mais poderia dizer? Leio essa de um sopro, melhor que o primeiro livro do autor, excessivamente estático em sua insistência de permanecer no mesmo lugar, cansativo pela exuberância de acontecimentos (na terceira batalha e no décimo duelo, o leitor já entendeu todo o mecanismo). Ademais, a história de Aquiles e Patrocio, com seu fio latente de homossexualidade, nos transmite um certo desagrado. Ao contrário, neste segundo livro, tudo caminha maravilhosamente; até o tom é mais sereno: pensado mas não reflexivo. Depois, a montagem, o jogo de flash-backs, o encadeamento das histórias! Em suma, muita categoria. De fato, esse Homero tem talento.
Talento demais, seria o caso de dizer… Chego a me perguntar se tudo ali será farinha do mesmo saco. Sabe-se como é: escrevendo, escrevendo, a gente melhora (quem sabe se o terceiro livro será um estouro). Mas o que me faz vacilar (e, afinal, me leva a opinar negativamente) é a confusão que pode resultar da questão de direitos.
Antes de tudo, é impossível localizar o autor. Os que o conhecem dizem que, de toda maneira, seria inútil discutir com ele as pequenas modificações que deviam ser introduzidas no texto, pois é cego como uma toupeira e, em mais de uma ocasião, deu provas de ser incapaz sequer de escrever. Dizem que tinha seus originais na memória, mas que não estava muito seguro do que havia escrito, alegando que o copista havia introduzido interpolações na obra. Terá ele sido o autor ou apenas um testa-de-ferro?
Dante
A Divina ComédiaO trabalho de Alighieri, embora de um típico escritor de fim de semana que, na vida sindical, está filiado ao órgão de classe dos farmacêuticos, demonstra indubitavelmente, certo talento técnico e notável “alento” narrativo. A obra (em florentino vu!gar) compõe-se de quase 100 cantos em tercetos rimados e se constitui em leitura agradável e interessante. Gosto, principalmente. de suas descrições de astronomia e certos juízos concisos e densos, que faz com freqüência, sobre teologia. Mais inteligível e popular é a terceira parte do livro, que diz respeito a assuntos mais do gosto da maioria, e que concernem aos interesses cotidianos do possível leitor (assuntos tais como a salvação, a visão beatifica, a devoção à Virgem Maria). Obscura e caprichosa é a primeira parte, com passagens de baixo erotismo, violência e trechos francamente grosseiros. Esta é uma das poucas contra-indicações para superar esse primeiro “canto”, o qual, quanto à criatividade, não diz mais do que já foi dito por milhares de manuais sobre o outro mundo.
Diderot
A Religiosa
Confesso que não cheguei a folhear os manuscritos, mas acredito que um critico deve saber, até de olhos fechados, o que deve e o que não deve ler. Conheço esse Diderot: redige enciclopédias e agora tem em mãos um projeto de obra em não sei quantos volumes, que provavelmente jamais será editada. Anda por toda parte procurando desenhistas capazes de copiar o mecanismo de um relógio, ou as minúcias de uma tapeçaria de Gobelin, e levará à falência seu editor. Não creio que se trate do homem indicado para escrever algo divertido numa narrativa, especialmente para uma coleção como a nossa, na qual sempre incluímos coisas delicadas, um pouquinho picantes, como Restif de la Bretonne.
Sade
JustineO manuscrito estava em meio a um monte de coisas que eu devia ver esta semana, e, para ser sincero, não o li todo. Limitei-me a abri-lo três vezes, ao acaso, em três  lugares diferentes, e vocês sabem que para um olho experimentado isso é mais que o bastante.
Bem, da primeira vez encontrei uma avalanche de páginas de filosofia da natureza com divagações sobre a crueldade e a luta pela sobrevIvência, sobre a reprodução dos vegetais e a evolução das espécies animais. Da segunda vez, deparei com pelo menos 15 páginas sobre o conceito de prazer, sobre os sentidos e a imaginação, e mais coisas desse gênero. Da terceira vez, outras 20 páginas sobre as relações de submissão entre o homem e a mulher, nos diferentes países do mundo… Acho que isso basta. Não estamos procurando uma obra de filosofia; o público, hoje, quer sexo e mais sexo. Não importa a maneira como ele venha temperado.
Cervantes
Dom QuixoteO livro, nem sempre inteligível, é a história de um gentil homem espanhol e de seu criado, os quais vão pelo mundo perseguindo sonhos de cavalaria. Esse Dom Quixote é um tanto louco (sua figura é magnificamente concebida: de fato, Cervantes sabe narrar), enquanto seu criado é um simplório (dotado de certo e rude bom senso), com o qual o leitor logo se identifica, quando ele procura desmistificar as fantasias de seu amo. Até aqui o argumento, que se desdobra com alguns bons efeitos e com freqüentes episódios divertidos, parece bem. Mas a observação que quero fazer vai além de um juízo pessoal sobre a obra.
Em nossa bem sucedida coleção econômica Os Fatos da Vida, publicamos, com êxito notável, obras como Amadis de GaulaA Lenda do GraalO Romance de Tristão, etc. Agora temos opção de editar Reis da França, do mocinho de Barberino, livro que para mim será o grande êxito do ano. Pois bem, se nos decidirmos por Cervantes, poremos em circulação um livro que, não obstante ser muito bem feito, atirará no lixo o publicado até agora, fazendo esses outros romances parecerem coisa de idiota. Compreendo a liberdade de expressão, o clima de rebeldia e tudo o mais, mas não podemos nos prejudicar a nós mesmos. A última coisa que desejo é que, buscando novidades a qualquer preço, acabemos por comprometer uma linha editorial que até agora foi popular, moral e também rendosa. Recusar.
 Proust
Em busca do tempo perdido
Trata-se,sem mais nem menos, de uma obra comprometida, talvez muito grande; mas é possível vendê-la através de uma série de livros de bolso.
Tal como está é impraticável. Falta nela um trabalho vigoroso de depuração. Toda pontuação, por exemplo, terá de sofrer uma completa revisão. Os períodos são muito cansativos e há alguns que chegam a ocupar uma página. Com um bom trabalho de revisão que os reduza a dois ou três linhas cada, com uma melhor utilização do ponto e do parágrafo, a obra teria muito a ganhar. Se o autor não concordar, o melhor será não editá-lo.
Kafka
O Processo
Não é mau essa livrinho; é policial, com momentos a Hitchcock: por exemplo, o homicídio final, passagem de público certo.
Parece, no entanto, que o autor o escreveu sob censura. Que significam essas alusões obscuras, essa falta de nomes, de pessoas, de lugares? De que crime acusam o personagem, afinal? Se esses pontos puderem ser esclarecidos, tornando a história mais concreta, a ação se tornaria mais límpida e mais certo o suspense.
Esses escritores jovens acreditam fazer “poesia”,  pois dizem “um homem”, em vez de dizer ”o senhor tal, a tal hora, em tal lugar”.
Em síntese: se é possível fazer essas modificações, bem; caso contrário, devolver os originais.
 Joyce
Finnegans Wake
Por favor, recomende à redação que tenha mais cuidado quando me envia os livros. Leio inglês e me mandam um livro escrito em sei lá que diabo de idioma. Em separado, estou devolvendo o volume.

(*) Projeto Releituras.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Uma caixinha com mais de cem anos...

A cultura, o nascedouro da utopia Brasil

Leonardo Boff *

Praticamente todos os grandes analistas da nação brasileira, a começar por Joaquim Nabuco e culminando com Darcy Ribeiro tinham os olhos voltados para o passado: como se formou este tipo de sociedade que temos com características indígenas, negras, ibéricas, europeias e asiáticas. Foram detalhistas a exemplo de um Gilberto Freyre, mas não dirigiam os olhos para frente: que utopia nos move e como vamos concretizá-la historicamente.
Todos os países que se firmaram, projetaram seu sonho maior e bem ou mal o realizaram, às vezes, como os países europeus, penalizando pela colonização, outros povos na África, na América Latina e na Ásia. Geralmente é num contexto de crise que se elabora a utopia, como forma de encontrar uma saída. Celso Furtado que além de um renomado economista era um agudo observador da cultura nos diz num livro que deve ser meditado pelos que se interessam pelo futuro do país:”Brasil: a construção interrompida”: ”Falta-nos a experiência de provas cruciais, como as que conheceram outros povos cuja sobrevivência chegou estar ameaçada”(1992, p.35). Não nos faltaram situações críticas que seriam as chances para elaborar a nossa utopia. Mas as forças conservadoras e reacionárias “se empenharam em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p.35), por medo de perder seus privilégios.
E assim ficamos apenas com um Brasil do imaginário, gentil, forte, grande, a província mais ridente do planeta Terra. Mas fomos impedidos de construir um Brasil real que integrasse minimamente a todos, multicultural, tolerante e até místico.
Chegou o momento, penso, que se nos oferece o desafio de construir esta utopia. A partir de que base assumiremos essa empreitada? Deve ser a partir de algo tipicamente nosso, que tenha raízes em nossa história e que represente um outro software social. Esse patamar básico é a nossa cultura, especialmente a nossa cultura popular. Como diz Celso Furtado: ”desprezados pelas elites, os valores da cultura popular procedem seu caldeamento com considerável autonomia em face das culturas dominantes”(O longo amanhecer, 1999, p.65). O que faz o Brasil ser Brasil é a autonomia criativa da cultura de raíz popular.
A cultura aqui é vista como um sistema de valores e de projetos de povo. A cultura se move na lógica dos fins e dos grandes símbolos e relatos que dão sentido à vida. Ela é perpassada pela razão cordial e contrasta com a lógica fria dos meios, inerente à razão instrumental-analítica que visa a acumulação material. Esta última predominou e nos fez apenas imitadores secundários dos países tecnicamente mais avançados. A cultura seguiu outra lógica, ligada à vida que vale mais que a acumulação de bens materiais.
O filósofo e economista Gianetti, em suas obras, viu a fecundidade de nossa cultura para elaborar o sonho brasileiro. Mas ninguém melhor que o cientista social Luiz Gonzaga de Souza Lima, em seu ainda não reconhecido livro:”A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada” (2011), onde sistematiza o eixo da cultura brasileira como a articuladora da utopia Brasil e de nossa identidade nacional.
A nossa cultura, admirada já no mundo inteiro, nos permite refundar o Brasil que significa: “ter a vida como a coisa mais importante do sistema social...é construir uma organização social que busque e promova a felicidade, a alegria, a solidariedade, a partilha, a defesa comum, a união na necessidade, o vínculo, o compromisso com a vida de todos, uma organização social que inclua todos os seus membros, que elimine e impeça a exclusão de todos os tipos e em todos os níveis”(p.266).
A solução para o Brasil não se encontra na economia como o sistema dominante nos quer fazer crer, mas na vivência de seu modo de ser aberto, afetuoso, alegre, amigo da vida. A razão instrumental nos ajudou a criar uma infra-estrutura básica sempre indispensável. Mas o principal foi colocar as bases para uma biocivilização que celebra a vida, que convive com a pluralidade das manifestações, dotada de incrível capacidade de integrar, de sintetizar e de criar espaços onde nos sentimos mais humanos.
Pela cultura, não feita para o mercado mas para ser vivida e celebrada, poderemos antecipar, um pouco pelo menos, o que poderá ser uma humanidade globalizada que sente a Terra como grande Mãe e Casa Comum. O sonho maior, a nossa utopia, é a comensalidade: sentarmos juntos à mesa e desfrutar a alegria de conviver amigavelmente e de saborear os bons frutos da grande e generosa Mãe Terra.

* Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu Virtudes para um outro mundo possível (3 vol.), Vozes 2005-2006.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Contando um conto



QUEIXA DE DEFUNTO
Lima Barreto
Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, a Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tornar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que se chama os direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não.
Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem em cousa alguma de reivindicações e revoltas; mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.
Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte um sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensa mento, graças à doutrinação das seções católicas dos jornais.
Nunca fui ao espiritismo, nunca fui aos “bíblias”, nem a feiticeiros, e apesar de ter tido um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns.
Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com toda eloqüência em galego ou vasconço.
Segui-as, porém, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. E bom, meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa.
Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda.
 
Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanha mento tiveram que atravessar em toda a extensão a Rua José Bonifácio, em Todos os Santos.
Esta rua foi calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e larguras, por ela afora. Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto.
Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranha duras pelo corpo. O bom do velho santo interpelou-me logo:
 
— Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem-comportado — como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?
Expliquei-lhe, mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno.

Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc. Posso garantir a fidelidade da cópia a aguardar com paciência as providências da municipalidade.