ABAIXO TEXTOS - CRÍTICAS - ENSAIOS - CONTOS - ROTEIROS CURTOS - REFLEXÕES - FOTOS - DESENHOS - PINTURAS - NOTÍCIAS

Translate

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Loucura Pouca é Bobagem


Crânios encontrados no Peru não têm DNA humano, diz geneticista

O material genético dos crânios de Paracas não se relaciona com o de nenhuma espécie terrestre

o

Recentemente, uma série de crânios estranhos foram encontrados no Peru e a notícia mais intrigante é que o DNA dos crânios não tem nenhuma relação com o DNA humano. A informação foi revelada pelo diretor assistente do Museu Paracas, Brien Foerster, e tem dado o que falar - pode significar que a ciência está perto de ter uma prova da existência de uma espécie inteiramente nova, que alguns diriam se tratar de uma espécie alienígena.
O DNA é diferente de qualquer ser humano ou ainda de qualquer criatura conhecida na face da Terra. A análise dos crânios foi feita por um geneticista que não teve a identidade revelada. O cientista vai se manter no anonimato até realizar mais testes que comprovem o primeiro resultado.
A artista Marcia K. Moore usou programas específicos para criar representações tridimensionais de como poderiam ter sido os donos dos crânios encontrados no Peru. Mais de 300 crânios foram encontrados em 1929 em uma vala comum perto da costa do sul do Peru.
Durante anos, os crânios alongados eram consideradas anomalias propositais, como era parte da cultura de algumas tribos. Entretanto, médicos afirmam que, embora o crânio possa ser deformado, os tamanhos permanecem os mesmos. No caso dos crânios encontrados no Peru, isso não acontece, pois eles são muito maiores.
Os próximos testes podem revelar que tudo não passou de um engano e que os crânios pertenceram a humanos. Mas, se os resultados iniciais forem confirmados, os crânios então não têm ligação com nenhuma espécie terrestre. E então de onde será que eles vieram?

quarta-feira, 30 de julho de 2014

GAZA X ISRAEL

CARTA DO INFERNO


"Queridos amigos e amigas:

A noite passada foi terrível. A invasão por terra da faixa de Gaza pelas forças de Ataque de Israel resultou numa multidão de pessoas aleijadas, arrebentadas, sangrando, tremendo de frio e morrendo — isso inclui todo tipo de palestinos feridos, de todas as idades, todos civis, todos inocentes.

Os heróis que dirigem as ambulâncias e todos os hospitais na faixa de Gaza estão trabalhando em turnos de 12 a 24 horas, e mostram rostos cansados e estão fatigados pela carga desumana de trabalho. Os motorista de Shifa estão há quatro meses sem receber seus salários, mas mesmo assim cuidam, fazem triagens e tentam entender o caos incompreensível causado pelos corpos, tamanhos, partes de corpos humanos, pessoas capazes de andar ou que não são capazes de andar, pessoas que estão respirando ou que pararam de respirar, pessoas sagrando e pessoas que não estão sangrando. Em uma palavra: HUMANOS! SERES HUMANOS! Mas todos esses seres humanos estão NOVAMENTE sendo tratados como ANIMAIS por um grupo fardado de assassinos que se considera “o exército mais ético do mundo”. Existe mesmo algo muito doentio na mentalidade israelense.

Meu respeito pelos feridos é infinito, por causa da determinação contida que demonstram em meio a dor, a agonia e o choque. Minha admiração pelos auxiliares e voluntários também é infinita. Minha proximidade com os “sumud” palestinos — pessoas que estão arraigadas na terra — me dá forças, apesar de que existem momentos em que eu quero gritar, seguram firme em alguém, chorar, cheirar a pele e os cabelos de uma criança “morna” coberta de sangue, e nos proteger a nós mesmos num abraço sem fim — mas nós não podemos nos dar a esse luxo e nem eles também.

Rostos cinzentos — Oh! Não! Não outro grupo de dezenas de aleijados e ensanguentados, que criam um verdadeiro lago de sangue no chão da sala de emergências. Pilhas de bandagens encharcadas de sangue pingando que precisam ser removidas e trocadas — Oh! — o pessoal da limpeza, por todos os lados, limpando o sangue e recolhendo bandagens, pele humana, cabelos, roupas e cânulas — as sobras da morte — tudo levado embora para que possam estar prontos novamente para repetir, outra vez, todo o processo.

Mais de 100 casos chegaram em Shifa nas últimas 24 horas que é uma quantidade de vítimas que deveriam ser atendidas em um grande hospital bem equipado, mas aqui, — não temos quase nada: falta eletricidade, água, materiais descartáveis, remédios, mesas para cirurgias, instrumentos cirúrgicos, monitores — tudo está enferrujado e parecem objetos de algum museu hospitalar de dias passados. Mas as pessoas aqui não reclamam, esses heróis. Ele seguem adiante, como guerreiros, indo ao encontro do problema com uma resolução enorme.
E enquanto escrevo essas palavras para vocês, sozinho em uma cama, minhas lágrimas correm, lágrimas mornas, mas inúteis de dor e tristeza e medo. Digo a mim mesmo: isso não está acontecendo!

E então, agora mesmo, a orquestra da máquina de guerra de Israel dá início a sua nefasta sintonia, outra vez: tiros de artilharia pesada vindos do mar dos barcos de guerra israelenses, o barulho ensurdecedor dos caças F-16, o barulho doentio dos drones — são chamados pelo árabes de “Zenanis” os murmuradores — além do inúmeros helicópteros apaches. A vasta maioria desse material foi fabricado e servido pelos Estados Unidos da América para Israel.

Sr. Obama — você tem um coração? Eu te convido — venha passar uma noite — apenas uma noite junto conosco aqui em shafir. O senhor poderia vir disfarçado com alguém da limpeza, talvez. Eu tenho plena convicção que sua atitude poderia mudar a história. Ninguém que tenha um coração e detenha poder conseguiria se afastar das imagens de uma noite em Shifa, sem assumir a determinação de dar um fim a essa matança do povo Palestino.

Mas os indivíduos sem coração e sem misericórdia já planejaram outra “dahyia” — a doutrina da Dahyia é uma estratégia militar estabelecida pelo general israelense Gadi Eizenkot e diz respeito a uma guerra assimétrica em áreas urbanas, na qual o exército, de forma deliberada, procura destruir a infraestrutura civil, como um meio de infligir enorme sofrimento na população civil para estabelecer a detenção de todos.
Os rios de sangue continuarão correndo hoje a noite. Eu posso ouvir os assassinos afinando seus instrumentos de morte.
Por favor, façam o que for possível. Isso, ISSO não pode continuar.

Mads Gilbert. MD PhD"

Mads Gilbert, um cirurgião norueguês de 67 anos que opera voluntariamente na unidade de cuidados intensivos do hospital de Shifa em Gaza.

terça-feira, 29 de julho de 2014

ATUALIDADE

Brics e América Latina
Desde os primeiros movimentos do Brics (Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul), na década passada, ficou claro que o Brasil estava no grupo não apenas pelas características desses países: maiores economias emergentes e enormes populações. Também caberia ao Brasil, já se dizia em 2007, ser a porta de entrada para toda a América Latina participar do ousado projeto Brics, que propõe um novo equilíbrio de poder planetário e almeja, como se pode apreender das declarações de seus líderes na Reunião de Cúpula realizada no Brasil, “a prosperidade do mundo como um todo” e não de apenas algumas regiões.
A definição desse papel do Brasil foi a ignição para o convite à África do Sul para compor o grupo, em 2011, fato que surpreendeu os analistas porque o país sul-africano tem apenas 50 milhões de habitantes e seu PIB é de apenas 50 bilhões de dólares, o 29º do mundo. Os quatro Brics iniciais argumentaram que se trata de um PIB em franco crescimento (outra característica do grupo), da maior economia do continente e que a África do Sul seria o “portal” para a África, da mesma maneira que o Brasil com relação à América Latina.
Com as ações anunciadas na Cúpula do Brasil, o Brics está sendo comentado e analisado em todos os quadrantes por políticos, economistas e pela mídia com uma nova perspectiva, com um sentimento de “caiu a ficha”, do Financial Times da Inglaterra a Fidel Castro (com inesperada e surpreendente concordância dessas duas entidades em alguns pontos). As notas do som da ficha caindo foram as iniciativas econômicas (Novo Banco de Desenvolvimento e fundo de reserva anticrise), o posicionamento político (reformas do FMI e da ONU, fim do sistema financeiro internacional de Bretton Woods, que está completando 70 anos de existência) e a ação prática de iniciar uma nova qualidade e uma nova dimensão nas relações com os países latino-americanos.
Para ficarmos nas duas entidades midiáticas mencionadas, o Financial Times aponta para a perda de poder de Washington como fator preponderante do avanço anunciado do Brics na América Latina, tida durante décadas como o Quintal dos EUA: “o mundo está se ajustando a um poder minguante estadunidense”. Culpa o presidente Obama pelo estremecimento das relações atuais com China, Rússia, Índia e Brasil, mais um combustível estimulando os projetos do grupo: “só África do Sul tem relações que podem ser consideradas normais com EUA”.
Fidel Castro publicou artigo no Granma, É hora de conhecer um pouco mais a realidade, onde diz que os EUA impuseram à América Latina “o sistema mais desigual do planeta” e que a intervenção do Brics é uma sólida esperança para que se alcance “o desenvolvimento sustentável e a erradicação da pobreza” na região. Nem mesmo a mídia dos EUA apresentou opiniões divergentes dessas duas, diante das reuniões de cúpula do Brics com a Celac- Comunidade dos Estados Latino-Americanos e Caribenhos e a Unasul-União das Nações Sul-Americanas e as dezenas de acordos de cooperação assinados ou projetados. O tom na mídia estadunidense é que o Brics está tentando ocupar um “espaço vazio”, um vácuo deixado por estratégias malogradas dos EUA. 
Uma nota interessante na caída da moeda: o único chefe de estado dos países da Celac que não compareceu aos encontros no Brasil foi Enrique Peña Nieto, presidente do México. Correm piadas entre diplomatas e jornalistas, uma delas perguntando quem impediu a viagem dele, se o narcotráfico ou Obama. É como diz o conhecido ditado popular mexicano, “tão longe de Deus e tão perto de vocês sabem quem”. 
Por Orlando Senna
* Link para outros textos de Orlando Senna no Blog Refletor    http://refletor.tal.tv/tag/orlando-senna

domingo, 20 de julho de 2014

MERGULHANDO NO CONTEXTO



Recebi um texto do Pedro DaCosta, que me remeteu a um outro texto do alemão Robert Kurz que é bastante interessante... Sim, O Deus do Mercado! Está claro que vivemos em uma sociedade tão Mitológica quanto aquela  que inventou a Democracia. Invertemos a concepção cíclica do tempo para incluir nosso maior mito de linearidade: o Mito do Progresso. E o atual Governo Lula aplica um filosófico e profundíssimo conceito sintetizado pela palavra "Crescimento". O que vejo crescer é a ultradireitista UDR em conluio com Multinacionais da vida, que avançam com suas boiadas e plantações de soja pela AMAZÔNIA e pelo CERRADO brasileiro. Enquanto isso, os boias-frias da cana-de-açúcar continuam os mesmos escravos de toda a eternidade. Crescimento para quem?Sim,  Vivemos o maior Obscurantismo de todos os tempos, pois agora, mesmo  com nosso impressionante Conhecimento continuamos privilegiando uma  Lógica e Racionalismo do ABSURDO que nos leva à aniquilação total. O BRASIL é uma ficção, uma "WonderLand". País das Maravilhas. Uma Fazendinha Amazônica multinacional nas mãos de uns poucos criminosos  muito bem representados. Viva o Folhetim! Precisamos de História nesse marasmo cinematográfico brasileiro, em que os filmes se tornaram apenas ilustrações pálidas de roteiros sem graça. Cinema é EMOÇÃO. "CINEMA IS EMOTION!" "CINEMA IS A MOTION!" (PedroDaCosta).
 A síndrome do obscurantismo.  
(ROBERT KURZ)                                                                             
Na imagem que faz de si mesmo, o Ocidente é um mundo livre, democrático e  racional, ou seja, o melhor dos mundos possíveis. Do seu ponto de vista, esse mundo é pragmático e aberto, sem pretensões utópicas ou  totalitárias. Cada um deve "ser feliz segundo seu próprio modo de ser, de acordo com a promessa de tolerância feita pelo Iluminismo europeu.Os representantes desse mundo se dizem realistas. Afirmam que suas instituições, seu pensamento e sua ação encontram-se em harmonia com as "leis naturais da sociedade, com a "realidade atual. O socialismo,  pelo que ouvimos, desmoronou porque não era realista. Junto com o socialismo, foi definitivamente enterrada toda utopia de uma mudança fundamental da sociedade. E os antigos críticos do "way of life ocidental agora se acotovelam nas bilheterias do "realismo para comprarem a tempo seu  ingresso na economia de mercado globalizada.Esse idílio da tolerância e da democracia econômica mundial, no entanto, produziu um novo inimigo. Com a morte do socialismo, entrou em cena o fundamentalismo religioso. O fundamentalismo é feio, muito mais feio do que o socialismo jamais poderia sê-lo. Aos olhos dos ideólogos ocidentais, ele possui feições árabes muito acentuadas. Nos últimos anos, o Pentágono começou a conceber o fundamentalismo islâmico como um substituto para o papel de inimigo histórico.Como nos tempos da Guerra Fria, são subvencionadas na nova constelação mundial todas as forças políticas que se declaram contra o  fundamentalismo e a favor do Ocidente, por mais corruptos e cruéis que sejam os regimes à frente de tais forças.Mas o novo cálculo estratégico com que os especialistas ocidentais  procuram justificar sua existência insiste em deixar resto. Ao contrário do socialismo, o fundamentalismo não é mais um adversário racional,politicamente definido e previsível em suas ações. Além de não  possuir um centro de atividades nitidamente localizável no mundo, ele também não se restringe apenas ao islamismo. Em muitas regiões da África não muçulmana e em toda a América Latina, seitas fundamentalistas cristãs assumiram nos últimos anos o lugar antes ocupado pelos movimentos socialistas. A mesma ilusão social do fundamentalismo religioso floresce também nos próprios centros econômicos ocidentais. Foi um choque para os Estados Unidos descobrirem que os responsáveis pelo devastador atentado a bomba em Oklahoma City não eram terroristas islâmicos e estrangeiros, mas sim cidadãos  brancos e norte-americanos, adeptos de uma facção ideológica cristã.E quem poderia imaginar que num país como o Japão, considerado o aluno exemplar do sucesso econômico, um movimento radical comandado que  prega o final dos tempos pudesse influenciar tantas pessoas e até aliciar adeptos no Exército japonês? Os fanáticos religiosos tomam a ofensiva por toda parte. De onde eles vêm? Com certeza não de outros planetas. Vêm justamente do interior do  próprio mundo dominado pela economia de mercado. O "realismo neoliberal, na verdade, conhece muito mal as pessoas. Ninguém mais pode negar que no mundo do liberalismo econômico a miséria social se alastra como um incêndio de  vastas proporções. Não apenas no Brasil, mas também em todo o mundo a liberdade e  tolerância ocidentais dão provas de um cinismo próprio à "democracia do  apartheid, como bem a denominou Jurandir Freire Costa. Ao mesmo tempo, não é apenas nas favelas que os vínculos sociais são rompidos, mas em todas as classes sociais. Tanto o efetivo processo econômico quanto a ideologia neoliberal tendem a dissolver as relações humanas na economia. O economista norte-americano Gary S. Becker foi laureado, em 1992, com o Prêmio  Nobel por desenvolver a hipótese de que todo comportamento humano (até mesmo o amor) é orientado pela relação custo-benefício e pode ser representado matematicamente.Os "realistas não têm resposta para a miséria social nem para a  miséria das relações e sentimentos humanos num mundo inteiramente racionalizado pela economia; eles apenas encolhem os ombros e passam à ordem do dia imposta pelo mercado. Mas a miséria não pode permanecer calada, tem de  encontrar sua própria linguagem. Como porém a linguagem racional do socialismo está  morta, o irracionalismo da linguagem religiosa faz seu retorno a uma sociedade confusa só que agora com uma gramática muito mais selvagem e funesta. Agora se tornou evidente que o socialismo não era apenas uma  ideologia, mas também uma espécie de filtro ético sem o qual a civilização moderna é totalmente incapaz de existir. Privada desse filtro, a economia de  mercado sufoca em sua própria imundície, que deixou de ser assimilada institucionalmente. Ao longo de quase 150 anos, até a década de 70 desse século, todo  surto de modernização econômica desencadeava simultaneamente uma reação revolucionária da juventude intelectual. A solidariedade aos "fracos e oprimidos foi sempre um forte impulso à oposição e à crítica radical, inclusive sob o império da "juventude dourada das classes mais altas. Após a vitória global do mercado, esse impulso extinguiu-se. Os "golden boys e as "golden girls da era neoliberal querem apenas jogar na Bolsa. A juventude da classe média, numa atitude narcisista, abandonou os preceitos morais e deixou de lado o trabalho intelectual. Seu espírito capitulou diante do mercado globalizado. Seja no Egito ou na Argélia, no Brasil  ou na Índia, jovens ocidentalizados sonham em ganhar dinheiro como  engenheiros ou médicos, jogadores de futebol ou corredores de atletismo; com o  tempo, não se sentem mais responsáveis pela miséria social.Os intelectuais estetizam a miséria e a exploram comercialmente; os sofrimentos daqueles que passam fome são transformados em publicidade.O temperamento ditado pela lógica do mercado chegou mesmo a criar um  "culto à maldade. Em seu livro sobre o "Renascimento do Mal, o sociólogo alemão Alexander Schuller afirma: "Não é mais o progresso e a razão que povoam nosso cotidiano e nossa fantasia, mas sim o mal. Desde a queda do socialismo, é possível verificar um aumento empírico da crueldade, e por toda parte impera uma maldade incompreensível. Mas, se a própria juventude da classe média está moralmente perdida, a base moral para que os filhos dos pobres compreendam sua miséria é ainda mais problemática. Numa pesquisa realizada em Moscou com menores de 14  anos, a maioria dos meninos respondeu que sua "profissão dos sonhos é ser  "mafioso, e as meninas, "prostituta. O fundamentalismo não supera essa ausência de moralidade, mas apenas lhe dá uma expressão irracional. Quando essa regressão pseudo-religiosa se apodera do último resíduo de uma esperança perdida, arquivada ainda pendente  pela história, a vontade de mudança torna-se o pálido desejo de ser  deixado em paz pela economia de mercado.O fundamentalismo não possui um programa de emancipação social, mas apenas um projeto ideológico de pura agressão, resultado aliás do próprio  fracassem concretizar a liberdade. Todo o seu programa esgota-se num ímpeto agressivo com roupagem religiosa, como na expressão dos jovens favelados de Paris: "J'ai la haine _tenho ódio. As novas religiões do ódio, sejam elas de origem islâmica ou cristã, são todas de natureza sintética, arbitrária e eclética. Todas têm apenas  o nome em comum com as autênticas tradições religiosas a que se remetem. São um subproduto da modernidade decadente das sociedades de mercado  ocidentais ou ocidentalizadas. Pelo próprio fato de não oferecerem uma perspectiva histórica, tornam-se uma atraente alternativa de carreira para  pequenos e grandes "líderes que se valem do ressentimento generalizado.Os representantes da sociedade oficial e os ideólogos do neoliberalismo reagem a essa evolução ao tentarem aliar a lógica de mercado às  "virtudes conservadoras. Os homens devem ser ao mesmo tempo egoístas e altruístas, implacáveis na concorrência e humildes perante Deus, minuciosos no  cálculo abstrato de custos e benefícios e ao mesmo tempo moralmente imaculados.Com essa esquizofrenia ética e pedagógica, o pensamento dos próprios "realistas econômicos transforma-se na mentira dos fundamentalistas:  não há como diferenciar uma ideologia da outra. E isso não admira, pois o pano de fundo do fundamentalismo é constituído não apenas pela pobreza, mas  também  pelo medo da classe média com relação aos pobres. A ilusão pseudo- religiosa constrói seu ninho tanto nas cabeças dos pobres quanto na dos ricos. A militância social da classe média, sob o disfarce de religião, não é menos  poderosa do que a loucura dos pobres. Em seu ensaio "Visões da Guerra Civil, o escritor alemão Hans Magnus Enzensberger caracteriza essa tendência  das "sociedades respeitáveis: "Cidadãos discretos transformam-se da noite para o dia em 'hooligans', incendiários, fanáticos raivosos, 'serial killers' e franco-atiradores. O fundamentalismo é "realista e o "realismo é fundamentalista. Ambos  possuem a mesma estrutura ideológica. Ambos falam, como se sabe, do "final da história, só que a escatologia do mercado acredita que esse final já foi alcançado. E ambos transitam pelos mesmos meios: os empresários, assim como os pregadores supostamente iluminados, são ávidos por dinheiro. Os pregadores, assim como os políticos, são ávidos por aparecer na televisão. Por outro lado, não se pode negar o caráter quase religioso do "realismo econômico. Pois não vimos o presidente George Bush, a exemplo de seu adversário islâmico Saddam Hussein, enviar à frente de batalha o Deus de uma religião militante? E isso não é apenas um simples detalhe. A racionalidade do mercado tem origem religiosa; ela só é racional na medida em que um sistema irracional fechado sobre si mesmo cria sua racionalidade interna. O resultado da história moderna _o mercado total é o resultado de uma religião secularizada que ganhou forma no protestantismo. Os Estados Unidos, a última força mundial do mercado, estão impregnados do fundamentalismo calvinista que considera o sucesso financeiro um fim em si mesmo. A tolerância ocidental é somente uma forma particularmente pérfida de intolerância, pois o deus do mercado não admite nenhum outro deus  além de si mesmo e tolera apenas aquilo que se submete incondicionalmente a seus métodos. O fim da história é o retorno da história. O início da modernização econômica foi marcado pelas guerras religiosas do século 17. Essa  época foi substituída pelo absolutismo, com sua estrutura estatal e mercantilista. Somente no século 19 nasceu o liberalismo do livre mercado. Mas como  definir o século 20? Sob o aspecto formal, ele transformou o mercado numa totalidade  perfeita, mas não sem provocar crises avassaladoras. Este é o século em que a  história  começou a voltar-se para o passado. As economias estatais das duas  guerras mundiais, o socialismo estatal tanto do Oriente quanto do hemisfério  sul e também o keynesianismo do Ocidente (com seus rudimentos de economia  estatal) podem ser compreendidos de certa maneira como um regresso à era  mercantilista. Hoje, após o colapso de todas as variantes da economia de Estado  moderna, o neoliberalismo promete uma nova Era de Ouro para o livre mercado.  Mas, se é verdade que a história voltou-se realmente para o passado, uma era totalmente diferente nos acena do futuro. O cientista político norte-americano Samuel P. Huntington diz mais do que imagina ao propor a hipótese de que a época dos conflitos entre ideologia e Estados nacionais será substituída por um "conflito de civilizações. Qual o significado  disso, senão que o processo de modernização econômica antes de ser  definitivamente sugado pelo buraco negro da história_ retornará à era da militância religiosa e à Guerra dos 30 Anos? O neoliberalismo será irremediavelmente arrastado por essa tendência  porque sua própria "utopia negra do mercado total possui um germe de religião totalitária. O socialismo, ao contrário, não se baseava apenas na  economia estatal, mas também na ideia de uma sociedade solidária, que sanciona  suas próprias leis em vez de seguir princípios irracionais. Se não quisermos que o século 21 se torne uma nova época de guerras religiosas, devemos reformular o socialismo num registro não mais dominado pela economia de Estado. Somente desse modo será possível dar uma nova abertura à história.  ROBERT KURZ é sociólogo e ensaísta alemão, coeditor da revista ''Krisis''; publicou no Brasil, entre outros, ''O Colapso da Modernização'' e ''A Volta do Potenkim'' (Paz e Terra) 

sexta-feira, 18 de julho de 2014

MODERNISMO X MARXISMO


O Karl Marx de Oswald de Andrade na Floresta dos Trópicos
Gilberto Felisberto Vasconcellos

          Até hoje Oswald de Andrade é considerado um escritor politicamente chapa branca durante a República Velha, quase que um escritor oficial por causa de sua amizade com Júlio Prestes, Washington Luís, Dona Olívia Guedes Penteado, proprietário de terrenos na cidade de São Paulo, casado com Tarsila do Amaral, uma talentosa artista filha do latifúndio, “vivendo nas altas rodas, dissoluto, dandy e possuidor dos carros Cadilac e Alfa Romeu, bom de conversa, exuberante, mas que não lia coisa nenhuma, desprovido de caráter, frasista, pilhérico, moleque, excêntrico, pândego, escrevendo em francês cosmopolita, sedutor e conquistador do mulherio, exibidor das namoradas, recebendo favores políticos do PRP, catolicão, puxa-saco do Papa, vinculado à política oligárquica e imperialista do café, esbanjando dinheiro em viagens conspícuas à Europa, bancado pela família, filho mimado e cioso de atenção, sibarita, querendo agradar o estrangeiro com exotismo primitivista, tirando o dele da reta quando da revolução de 24 em São Paulo, alheio e distante da Coluna Prestes, e mais chegado ao five-o-clock da existência, enfim, um burguês patriarcal, autofágico em sêmen e herança, dilapidado pela crise do café em 1929”.
 Tudo isso foi construído por alguns de seus amigos de geração e, mais tarde em 1934, referendado pelas lentes da USP que substituíram os modernistas, assim com o “boom” das ciências sociais deixou no ostracismo os romancistas de 30 na interpretação da realidade brasileira. É  evidente que há muito de moralismo nesse juízo sobre Oswald de Andrade, além de uma apreciação crítica equivocada que não consegue dar conta da antinomia entre o artista renovador (cuja linguagem literária despertará interesse e admiração nos movimentos da arte brasileira, na poesia, no teatro, no cinema) e o conformista adulador da política oligárquica a mando da City imperialista durante a República Velha. A impressão que se tem dessa crítica professoral e de esquerda abstrata é que queriam-no em 1917 marxista, comunista, leninista, trotskista, ou senão membro do partidão já em 1922, sendo que pertencer ao Partido Comunista Brasileiro não significa ser necessariamente marxista e comunista, e muito menos uma garantia contra a mentalidade colonizada. A dimensão bifronte do Oswald de Andrade – esteticismo e alienação política – denunciado por gente séria de esquerda esquece que a forma literária é política e a vida não anda em linha reta, tanto que Mário Pedrosa, o paraibano apaixonado por Trotsky, um dos mais importantes intelectuais da esquerda brasileira, fundador na década de 70 do Partido dos Trabalhadores, filiou-se em 1945 à UDN que deu o golpe liberal de 1964. A Poesia Pau Brasil. O Manifesto Pau Brasil. Memórias Sentimentais de João Miramar. É nesses livros de alta literatura produzidos na década de 20, junto com a pintura da flora e da fauna nos quadros de Tarsila do Amaral, que se encontram os germens da virada “equatorial” da Antropofagia e do jornalismo marxista de O Homem do Povo, cujo nível de composição estética não deixa nada a dever a nenhum jornal revolucionário e anticapitalista no mundo inteiro.
 Em 1933 era a hora do teatro libertário O Rei da Vela, de modo que não tem o menor cabimento afirmar que a revolução de 30 liquidou com o lance criativo de Oswald de Andrade, afastando-o do centro da arena, por terem sido abalados os alicerces do way of life da República Velha, onde o seu amigo Júlio Prestes foi o representante do imperialismo inglês, e seu padrinho de casamento com Tarsila – Washington Luís – o Presidente da República de 1925 a 1930, que apoiou o educador Fernando Azevedo e foi no entanto contra o voto secreto, justamente no período de maior garra modernista de Oswald de Andrade, a qual absolutamente não se perdeu depois que se tornou marxista em 1930. Ele continuou sendo modernista marxista, a mesma linguagem da poesia vegetal Pau Brasil é a do teatro O Rei da Vela, insurgindo-se contra os grupos multinacionais e seus testas-de-ferro nativos, com o detalhe de que foi com o apoio de Washington Luís que Júlio Prestes havia sido eleito Presidente da República logo nos primeiros meses da década de 30. Nesse contexto não foi o colapso da Bolsa de Nova York de 1929 que teria levado o viajor Miramar a virar marxista nos braços da encantadora Pagu.
É preciso tomar cuidado com a anedótica psicanálise amorosa do modernismo brasileiro mesclada aos clichês do surrealismo francês, a exemplo do fascínio de Oswald de Andrade por Pagu, em virtude desta representar a rebeldia juvenil politizada, no momento em que desmorona  o lar de Tarsila simultaneamente à queda do PRP. É de morrer de rir querer psicanalisar Oswald de Andrade por um ânimo sexual caçando escândalo, que dá na saga de Pagu convertendo-o ao marxismo pelo desejo freudiano. Em suas transas com as mulheres o autor de Serafim Ponte Grande é visto como se fosse um “bárbaro, edipiano, débil mental, enraivecido e a fim possuir a sua mãe, D. Inês, sob porrada e castigo, para vingar sadicamente os mimos e bons tratos recebido na infância da rua Barão de Itapetininga...” (1)
          Talvez para outros intelectuais e artistas do modernismo – aliás nenhum deles se tornara marxista como Oswald de Andrade – a revolução de 30 foi equivocadamente entendida por muitos paulistas como um acontecimento contra São Paulo, e não contra as oligarquias de São Paulo. E, na verdade, com a revolução de 30 São Paulo se deu melhor que o governo Washington Luís que aprisionou a economia do café. É surpreendente que, logo no calor da hora, Oswald de Andrade tenha sido a favor da revolução de 30. Ele não embarcou na contra-revolução de 1932. A propósito basta cotejá-lo com o democrata e liberal Paulo Duarte, do jornal O Estado de São Paulo, que foi delegado de ordem política e inimigo do tenentista João Alberto interventor em São Paulo, acusando-o de comunista.
A interpretação psicologizante da busca da rebeldia pelo seu envolvimento com Pagu é tão equivocada quanto dizer que ele se tornou comunista porque sua fortuna ficou abalada em 1929. Em 1931 Pagu e Oswald de Andrade vão se encontrar com Luís Carlos Prestes no Uruguai. Embora tenha se impressionado com a cultura do ex-tenentista, é arriscado afirmar que sua adesão ao marxismo tenha sido por causa desse encontro em Montevidéu. Menos importante do que enfatizar o erro de sua avaliação quanto à cultura marxista de Prestes nessa época, que não era leitor de Fuerbach e de Hegel, vale mais chamar atenção para o fato de que a descoberta oswaldiana de Marx, conforme se observa no jornal O Homem do Povo de 1931, não anula o lastro intelectual de seu passado antropofágico; ao contrário, é justamente isso que o diferencia enquanto marxista durante as décadas de 30, 40, e 50, ao insistir na floresta dos trópicos e na humanidade indígena como elementos que conferem especificidade ao Novo Mundo na América do Sul, e que terá alguns pontos de convergência com a antropologia dialética desenvolvida por Darcy Ribeiro apenas nos finais da década de 60, embora o educador dos Cieps não tenha reconhecido a filiação antropofágica oswaldiana na conceituação de “povo novo”. Seria forçar a barra da literatura comparada sustentar que é o canibalismo dadaísta e futurista o elemento fecundador da antropofágica visão de mundo de Oswald de Andrade, a qual ele nunca abandonou até o fim da vida, cuja essência é a reflexão sobre o binômio natureza e colônia, trazendo um ângulo novo no plano da cultura, indo além da interpretação do Brasil como uma empresa colonial do capitalismo mercantil.
É por isso que o foco de sua análise é o ócio, e não o trabalho escravo e assalariado, e que pode ser considerada uma original contribuição à crítica da cultura no século XX, de modo que foi uma vantagem Oswald de Andrade, o poeta modernista do Pau Brasil, ter descoberto a floresta dos trópicos antes do conhecimento teórico de Marx e Engels. A preguiça solar. A energia silenciosa. A vegetação. A terra antes da energia, e a energia antes do trabalho e do capital.
É pela “falação” que se inicia o Manifesto Pau Brasil de 1924, a época eufórica do Oswald de Andrade vivendo apaixonado por Tarsila do Amaral, se bem que o clima psicológico nem sempre seja o de euforia nos romances Memórias Sentimentais de João Miramar e Serafim Ponte Grande.               



(1) Gilberto Vasconcellos informa-nos que esta e outras ridicularias perpetradas contra a memória do grande escritor foram publicadas em livro recente de Aracy Amaral sobre a obra de Tarsila, em luxuosa edição. É preciso esclarecer que essa mania de Aracy por Tarsila (e Oswald) é antiga e não se deve a laços de parentesco, inexistentes apesar da coincidência dos sobrenomes. O que afasta a hipótese de fobias ou histerias de família a justificá-las. Também não nos consta que Aracy tenha exercido antes a crítica literária ou a psicanálise e, ao que sabemos, nunca teve autoridade para exercê-las. Assim, e considerando que tais impropérios contradizem inclusive as outras obras da autora sobre o mesmíssimo tema, resta-nos presumir que, ao redigi-los, ela já padecesse de determinados males da terceira idade. Contudo, o que mais nos deixa perplexos é o amadorismo do editor que lhes dá publicidade em formato de luxo, quando deveriam permanecer resguardados pelo sigilo ético dos prontuários médicos. (Mario Drumond)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

CONTO DE REIS

BARES TERMINAIS
Fabio Carvalho 

Cultura é o sistema de idéias vivas que cada época possui.
Melhor: o sistema de idéias das quais o tempo vive.
José Ortega y Gasset

 E eu nem quero saber se foi bebedeira louca ou lucidez, cantava o Toninho no player, made in China, comprado a preço de banana no shopping Oiapoque. Também pudera, logo que essa música terminou, ele travou e agora só toca espetado com pen drive ou transmite uma rádio AM. Asas de avião. Porque será que as mulheres adoram espremer espinhas e cravos, cortar as unhas e tocar calos e verruguinhas das pessoas próximas? Rebeka mulher inesquecível. Água boa essa que bebo agora. Um delírio metafórico do meu estado de espírito, assim a Mirisiri definiu a idéia do filminho que estou a fazer, quando contei para ela em detalhes o que pretendo transformar em imagens e sons, na varanda do La Traviatta. Brisa Secreta das Alturas. A cidade acalmou logo depois das dez. Hoje escuto as cornetas de plástico que tem outro nome durante a copa, dizendo que neste momento esqueci completamente o tal nome. Bom também. No dia seguinte, lá pelas onze e meia da manhã, o negão eletricista adentrou meio ressabiado no Bar Vem-Que-Pode do velho sempre de mau humor, chamado Euclásio. Nessa hora o Bisquira, sentado do outro lado balcão, pergunta alto para todo mundo ouvir: “ô Meia-Noite, deu pra descansar depois daquele pifão que você tomou ontem”? O negão olhou de um lado para outro, e fixando seus olhos num tonel de cachaça em cima da prateleira, respondeu calmamente assim: “descansar eu descansei, mas não dei não”. Risadinhas contidas. O silêncio voltou a reinar no recinto, ninguém deu mais nem um pio. Não sei o motivo porque gosto muito de ouvir mulheres que falam olhar acentuando o ó. Hoje no meu diário caminho matinal para as alturas, senti uma esperançosa felicidade se abater sobre mim. O dia estava muito bonito e me lembrei com alegria deslavada, do fato que tinha ficado sabendo na noite anterior através das redes sociais. Nelson, Capô e o Rô tinham tomado um tremendo porre juntos na Cobal do Humaitá. Que beleza estas três personagens tão destacadas no meu mundo particular reunidas celebrando a vida. Só neste plano, seus universos tão díspares e ao mesmo tempo tão próximos, contavam em torno daquela mesa para mais de duzentos anos. Era como se lá estivesse, posicionando a câmera no melhor enquadramento, filmando aquela cena milagrosa e viajante, com a remota cor dos pássaros. Desconfio que o cinema esteja me rondando.  E tenho que confessar que isto é muito gostoso. Quando chegar a água dos olhos de alguém que chora. Recentemente descobri, para minha surpresa, que um dos ascensoristas do elevador que utilizo diariamente é intelectualmente completamente diferenciado dos seus colegas de profissão e mais, definitivamente não se enquadra no que se espera de alguém que assumiu esse tipo de trabalho tão automático e claustrofóbico. Rio de lágrimas, Tião Carreiro e Pardinho. Este personagem do meu cotidiano, não só resolveu minha dúvida entre secar ou chegar da letra da música, como me deu o nome de seus autores. É verdade que isto não é tão espantoso assim, mas conto porque foi apenas a última coisa que ele me falou quando subíamos para cá agora. Antes, na primeira vez que subi com ele, eu estava com uma camiseta do filme Harmada, que herdei do Guará, vendo o nome Paulo Cézar Péreio escrito nela, disse que tinha assistido Iracema  Uma Transamazônica com esse ator e nunca esquecido. Seus conhecimentos sobre música e cinema, além de suas opiniões existencialistas sobre as coisas da vida, tem me instigado muito nos últimos meses. Outro dia para provocar falei da sinfonia número 1 do Gustav Mahler, e ele depois de cantarolar um trecho com um leve sorriso vitorioso no canto da boca, me disse o seguinte: “sem dúvidas uma das coisas mais belas que o ser humano já produziu”.  Já estou apto após me conter durante todo este tempo, a perguntar por que um cara como ele estaria se submetendo a um trabalho tão simplório. Claro ficou que o Mahler passou a fazer parte da trilha sonora que estou a montar, junto com a voz do meu ator Mário falando um poema erótico e os ruídos do som direto captados pela camerazinha bem ruinzinha da qual me utilizei. Delicados prazeres do onanismo sugerindo mil direções. Não há liberdade sem conhecimento. O conhecimento é a maior e única forma de liberdade total. A liberdade do corpo passa pelo conhecimento, como todas as formas de liberdade. Vamos começar o jogo. Minha fome morde seu retrato. Licantropia. Lobisomem o terror da meia noite. Esta copa brasileira me trouxe de volta à música indelével do Milton e do Márcio. Que fazer Carolino amigo? Vinte fracassos e mudar de tom, vinte morenas para desejar, vinte batidas de limão. Estou bem seguro nesta casa, comendo restos nesta Quarta-feira. E amanhã mais vinte anos desfiados na Avenida, arranha céu, ave noturna no circuito dessa ferida.  O tempo morto naquele abrigo faz necessária a segunda dose. Sonhei. Não te arrependas. A fome de um dia poder morder a carne dessa mulher. Voltei a caminhar e subindo a Augusto de Lima no sol das duas da tarde, cheguei felizmente ao meu umbigo em full concert, nada foi melhor do que esse encontro naquela hora. Em volta do fogo todo mundo abrindo o jogo, conta o que tem pra contar. Pequenos fragmentos de luz. Revi a vida inteira. Não tendo mais ao que recorrer, vou aceitar a imaginação que após a perda material total, ainda me resta. A feijoada de Domingo me salvou. Ali pelas tantas, sem ter feito nada que tinha que ter feito durante a luz do dia, fui acometido de uma nova sensação, nunca sentida em outra ambiência. Não posso simplificar dizendo se era boa ou ruim, agradável ou desagradável, era somente nova e por isto mesmo boa. Tudo que esperamos é a nova, dizia o filósofo da antiguidade, sem nenhuma hesitação com alguma excitação, apontou o X9 de plantão. Embora estando eu sozinho, todos aqui em volta interrogam-me com o dedo em riste, o que quero afinal? Ao que mesmo resistente acabei admitindo que a imagem que me era recorrente era a dela, a atriz vista em contra plongé, manipulando os biquinhos dos seios entumecidos sem retirar completamente o soutien, com a boca umedecida olhando com os olhos entreabertos de prazer o infinito do céu que nos protege. Talvez seja uma imagem irrealizável, mesmo assim pretendo chegar perto. Ave Maria Nossa Senhora. Como em minhas mãos foi depositada a organização das festas, tomei a liberdade de, na reunião efetuada hoje pela manhã, incluir seu nome na comissão de ornamentação do palácio. Pensou alguns momentos, e a voz interior lhe respondeu: não.    


domingo, 13 de julho de 2014

CINEMA



Sobre maçãs e putas
Um glossário idiossincrático

SOBRE O TEXTO Esta é uma seleção de verbetes de um dicionário pessoal criado por Fritz Lang (1890-1976). A íntegra foi publicada em francês em 1964 e estará no catálogo da retrospectiva completa do cineasta alemão, no CCBB-SP de 11/7 a 24/8, que será exibida também nas sedes da instituição em Brasília e no Rio.

FRITZ LANG

ARTE Uma coisa é certa. A arte deve ser crítica; essa é sua força e sua razão. Essa crítica deve ser uma crítica social, mas não unicamente. Neste mundo há muitas coisas que devem ser criticadas. Não se pode propor soluções, mas deve-se sempre lutar para se designar o mal. Assim, meus filmes policiais americanos são, antes de tudo, uma crítica à corrupção policial e, portanto, contra toda corrupção. Acontece de um criador descobrir em si mesmo coisas de que não gosta, e então ele deve criticar essas coisas.

CÂMERA Todos sabem que os filmes serão mais divertidos para o público se ele tiver o sentimento de participar daquilo que se passa na tela. Pode-se obter esse resultado usando a câmera de maneira apropriada. O espectador do teatro está sempre na posição de um homem que observa por uma fresta. Ele só pode olhar para a frente e, se os atores se viram, ele fica restrito a vê-los de costas, ignorando o que podem estar tramando. O teatro, como campo de expressão do ator, foi expandido e substituído pelo cinema. A câmera pode apresentar um grande número de ângulos diferentes. A câmera pode mostrar a ação exatamente como o autor a imaginava e a visualizava enquanto escrevia sua história. Como o leitor visualiza a história que lê, a câmera, que é um olho universal, possui um poder pelo qual o público é transportado para além da fileira e acaba participando da ação.

CARTAS NA MESA Descobri hoje algo que é bastante interessante para mim, e que acredito ser verdadeiro: em todos os meus filmes, eu coloco as cartas na mesa. Creio que isso é muito mais interessante do que os filmes policiais ingleses em que não se sabe quem é o assassino, ou o culpado. Acredito que é bem mais interessante mostrar, como em uma partida de xadrez, o que cada um faz.

CULTURA Acredita-se, em geral, que seja possível colocar a cultura americana no mesmo plano que a da Europa. Esse é um grande erro. Do outro lado do Atlântico, a cultura é mais técnica, mais vasta, talvez mais interessante. No que me diz respeito, tendo me banhado das duas culturas, eu gostaria de conseguir realizar uma mescla feliz das duas concepções.

DIZER Não faço filmes para a geração de Fritz Lang. Eu comecei minha carreira em 1918 e creio que seja necessário repetir as pequenas coisas que tenho a dizer para todas as gerações. É preciso somente repeti-las em outros termos, enriquecidas de sua própria experiência. São em geral coisas bastante simples, como "o dinheiro não é a coisa mais importante do mundo", "o amor é uma grande descoberta", "encontrar-se a si mesmo é o mais alto valor". São ideias elementares que nada têm de pessimistas. Se meus filmes parecem pessimistas, é porque o quadro e a condição que assolam esses valores são desastrosos.

EROTISMO O erotismo da vida cotidiana americana, como se sabe, faz sempre os europeus sorrirem com um pouco de compaixão. O "happy end" dos filmes de sucesso, quando os dois amantes se beijam e a câmera recua, significa a solução de todos os problemas evocados no decorrer do filme. Eles se conhecem, se casam, agora tudo está aparentemente em ordem, tudo está resolvido. Naturalmente, isso não é verdade, e atribuir à instituição do casamento tal poder só é possível para um povo que se preocupa com esse problema mais do que com qualquer outro e que não quer admitir o seu fracasso. De acordo com estatísticas, um terço das mulheres casadas admite ter relações com outros homens; três quartos das mulheres não amam seus maridos e não se separam unicamente por causa das crianças ou por conforto. É nisso que reside o problema sexual de nossa produção cinematográfica, pois é para esse público que devemos fazer filmes e dar-lhe, no cinema, aquilo que não tem em casa. Daí o interesse infatigável pelas histórias de amor e a autossugestão pela contemplação do casamento como solução definitiva.

INDIVIDUALIDADE Os grandes temas de uma história são internacionais, mas a maneira como se trata os temas depende do estilo do país. Eu acredito que o tema central de minha obra é a luta que um indivíduo trava contra aquilo que os gregos e os romanos chamavam de destino e que, no caso, assume a forma de uma potência real: ditadura, lei ou sindicato do crime. Trata-se da vontade de proteger a individualidade, e é importante lutar para conseguir isso.

LADRÕES DE BICICLETA Um filme como "Ladrões de Bicicleta" (1948), que em geral foi aceito nos Estados Unidos como um sucesso italiano, seria impossível num meio americano. O problema de um homem cuja sobrevivência depende de sua bicicleta não interessa à grande massa dos Estados Unidos, pois o problema de transporte ali já se encontra resolvido. O americano se interessa apenas por problemas que ainda não se encontram resolvidos para ele --por mais que nem sempre queira admitir que não tenham sido.

MAÇàSe eu precisasse explicar por que reservo normalmente um grande espaço vazio em torno de um centro de interesse, diria que é o efeito mais simples e que não quero distrair o público daquilo que é importante. Num filme em cores, eu não colocaria uma maçã vermelha atrás de uma delicada moça, porque os olhos do espectador seriam demasiadamente solicitados pela mancha vermelha.

MAR Eu jamais tive coragem de colocar em um de meus filmes um único plano de mar. O mar me assusta. Eu gostaria de ter dado antes de Victor Hugo a seguinte definição: "O mar é uma coisa que me dá medo". E, no entanto, nada me encanta mais do que o mar. Mas como não creio que alguém seja capaz de traduzir o elemento poético do mar --que seja em poema, em quadro ou em filme--, nunca ousei eu mesmo fazê-lo.

MORTE No que diz respeito à morte, eu diria que, em certas circunstâncias particularmente desfavoráveis que acometem uma vida, ela chega a ser desejável, mas que, ainda assim, se deve lutar por aquilo que se entende como justo, mesmo que ao fim haja a morte.

PSICANALISTA Eu tinha o hábito de não levar a sério as pessoas que vinham me explicar o que eu tentava fazer em meus filmes, mas depois aprendi que, ao escrever uma história, deve-se conseguir explicar aos atores por que seus personagens agem de determinada maneira. Talvez o crítico seja uma espécie de psicanalista e descubra certas coisas reais das quais não sou consciente.

PUTAS Em todos nós existe o mal, e um cineasta deve mostrá-lo, deve exprimir o mal. O que nos diverte mais? Passar a noite toda falando de uma puta ou de uma mulher tranquila que só se deita com seu marido? Da puta, é claro. Elas são mais interessantes. O que podemos dizer de uma mulher tranquila? É uma mulher tranquila, nada mais. Tenho o hábito de dizer o seguinte: existem apenas duas categorias de indivíduos, os que são maus e os que são muito maus. Mas nós chegamos a um acordo e chamamos os maus de bons e os muito maus de maus.

RECEITA Amo o cinema, tenho vontade de realizar filmes, mas não me pergunte por que nem como os faço. Os jovens, os estudantes que vêm me ver, querem sempre obter receitas e explicações para a "mise-en-scène". Sinto vontade de citar-lhes estas palavras de Fausto: "Aquilo que você não capta você jamais compreenderá".

REMAKE É absurdo realizar um remake de "M., o Vampiro de Düsseldorf" (1931). O assunto e o contexto do original estavam ligados a uma atmosfera local muito bem definida, que não pode ser transposta, e esse tema, que com o passar dos anos infelizmente se tornou bastante conhecido, era então novo e original. Remakes como "Quo Vadis" (1951) e "Os Miseráveis"2 são outra coisa, pois tratam de problemas que não encontraram solução definitiva e que, portanto, interessam-nos hoje como nos interessavam outrora, quando foram concebidos pela primeira vez. Esse tipo de remake me parece justificado. Mas repetir um filme unicamente por causa de seu sucesso financeiro já me parece uma má solução. De qualquer forma, não há garantia de sucesso financeiro.

WESTERNS Há certas coisas que, quando ouço as pessoas comentando sobre elas, sou incapaz de entender --quando falam de amor, por exemplo. E a moral, o que isso quer dizer, diga-me, por favor? A moral dos westerns: ela é muito simples. O western concebe da maneira mais simples os atores, os cenários, a luz, e tudo isso recai sobre seus filmes seguintes. Quando você fica mais velho, sua forma de viver também se torna muito mais simples e talvez você veja as coisas de um jeito um pouco mais claro. A simplicidade continuou em toda a minha obra americana.
O problema de um homem cuja sobrevivência depende de sua bicicleta não interessa à grande massa dos EUA, pois o transporte ali já se encontra resolvido
O que nos diverte mais? Passar a noite toda falando de uma puta ou de uma mulher tranquila que só se deita com seu marido? Da puta, é claro

sábado, 12 de julho de 2014

COPA DO MUNDO

Mauro SantayanaJornal do Brasil
No Day After da histórica goleada de sete a um, da Alemanha sobre a seleção brasileira, no Mineirão, uma frase de Napoleão Bonaparte ajusta-se, sem dificuldade, à campanha do Brasil na Copa do Mundo de 2014: “Quem teme ser vencido tem a certeza da derrota”.
Jogamos, desde o início, não como se estivéssemos disputando nossa vigésima copa do mundo, em nossa própria casa, mas como se pisássemos terra alheia, e praticamente estreássemos nesse tipo de competição.
Para qualquer espectador arguto, já estava escrito o que iria acontecer. Bastava observar a expressão entre aérea e preocupada do senhor Luiz Felipe Scolari, antes do início dos jogos. E interpretar, com a clareza  da fumaça branca saindo das chaminés do Vaticano, em dia de eleição do Papa, o espetáculo de indulgência e autocomiseração que se seguiu à vitória, por um triz, contra o Chile, ao final da disputa de pênaltis.
O Brasil perdeu, e o pior, perdeu feio, mais pela atitude do grupo do que pela “sacola” de gols que tomamos dos teutônicos no jogo da desclassificação. E, isso, porque não soubemos, desde o início, nos impor – e cantar de galo – dentro das linhas dos retângulos verdes de nosso próprio terreiro.
HINO NACIONAL
É certo que aprendemos, depois da Copa das Confederações do ano passado, ao menos a cantar – sem balbuciar ou mascar chicletes – o hino nacional, “à capela”, junto com a torcida.
Mas faltou confiança no país. Nacionalismo. E nos deixamos dominar, em campo, pelo mesmo “complexo de vira-latas” que, muitas vezes nos atrapalha e tolhe fora dele.
Tínhamos tudo – os estádios, a torcida, o fato de estar em casa  - para conquistar, com talento e determinação, no peito e na raça, extraordinária vitória. Não nos preparamos, no entanto, como fizeram outras seleções, nem como devíamos, nem como guerreiros. Perdendo ou ganhando, choramos mais que nossos adversários, jogando, quase sempre, menos do que eles.
TERCEIRO LUGAR
Enfim, a derrota só se esquece com a glória, e não adianta tentar salvar a cara, futebolisticamente, jogando melhor para ganhar – se possível for – o terceiro lugar desse torneio.
Para 2018, quem sabe, será preciso estudar outra forma de escolher nossos atletas, que não seja a arrogância e onipotência de quem é mais firme em uma entrevista coletiva, do que no treinamento e capacitação de seus comandados, e que – com mais garra de vencedor do que cara de loser – precisava exibir energia e determinação na beira do gramado.
Não é possível que um país com 200 milhões de habitantes e milhares de jogadores de futebol tenha que depender sempre da mesma meia dúzia de estrelas, que jogam do outro lado do oceano.
Com a Copa, o Brasil deu muito aos deuses do futebol em sua visita. Templos, público, emoções, espetáculo. Mas não foi o suficiente para nos concederem os louros da vitória.
DEPOIS DO VENDAVAL
Agora, depois da ressaca, voltemos ao que importa. Muito mais relevantes, para o futuro do Brasil, do que ganhar o Campeonato Mundial de Futebol de 2014, será a criação do Banco dos BRICS – uma espécie de Banco Mundial dos Países emergentes – logo depois da Copa, na Cúpula dos Presidentes do Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, em Fortaleza. Seguida do lançamento de um fundo de reservas, com capital de 100 bilhões de dólares que funcionará como alternativa ao FMI – Fundo Monetário Internacional, para o Grupo.
E, principalmente, o resultado das eleições deste ano, em que se elegerão deputados, governadores, senadores e quem irá ocupar a cadeira da Presidência da República a partir de 2015.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

PROJETO

OCAS CULTURAIS

 Caro deputado Roberto Henriques,
 Eis aqui, meu caro deputado, uma ideia simples que nasceu da importância e da espontaneidade de um movimento cultural que eu vivi no início dos anos 60.
Nesta época a UNE promovia, com o apoio do Governo do Presidente João Goulart, encontros dos estudantes e jovens brasileiros com algumas das principais personagens do nosso universo cultural. Assim surgiu, por todo país, momentos singulares na nossa história.
Podíamos, antes do golpe militar, conviver informalmente, conversar e trocar experiências com alguns dos grandes artistas daquela época: escritores, poetas, músicos, pintores, escultores, diretores de teatro e de cinema, atores e atrizes, fotógrafos, técnicos renomados, que viajavam pelo país para participarem e incentivarem esses sensacionais encontros com uma juventude, que está hoje e sempre, sedenta de saber.
Esses encontros duraram pouco tempo na cidade de Belo Horizonte, onde eu morava. Eram verdadeiras quermesses de intelectuais, onde tudo se ouvia e de tudo se aprendia, conversas que forjaram a identidade de um povo universitário sedento por um mundo novo, estabelecido na confraternização de sonhos libertários, criando pensamentos e ideias nunca antes experimentadas e provocando brilhantemente, a época, muitas cabeças, a minha, posso hoje dizer, foi uma delas. 
É preciso, urgentemente, deputado, refazer hoje “modernamente” esses encontros temáticos com os jovens estudantes do nosso já carente interior fluminense. Eles têm o direito de usufruir também do melhor que o universo das artes brasileiras pode oferecer e também aprender, em polêmicos debates e palestras, lançamento de livros, exposições de artes plásticas, exibições do cinema brasileiro de cunho cultural, o pensamento dos nossos criadores de cultura, que serão convidados para falar e expor suas obras, artistas enclausurados, na sua grande maioria, que não tem aonde exibir, expor, ou com quem discutir as suas obras.
 Esse é o mote principal desta velha ideia: criar vários espaços com arquitetura própria, de norte a sul do Estado do Rio, se possível nos maiores de seus 92 municípios, onde se possam promover esses encontros com jovens estudantes e a população interessada, de todas as idades, com os representantes da cultura geral brasileira e assim conhecer, discutir suas obras, criar vínculos, estéticos e de linguagem, deles com a inteligência artística do Brasil.
 Esses centros de cultura, que chamo de “OCA CULTURAL”, pois o projeto arquitetônico se assemelha a essa conhecida casa do índio brasileiro, só poderá ser viável se houver a união do Governo Federal com os Estados, Municípios, e uma grande vontade política de transformar culturalmente o Estado e por projeção o país..
Tenho certeza que um bom arquiteto da arte do novo faria de bom grado esse singelo projeto arquitetônico.
 Um governo renovador que pretende compreender e espalhar por todo Estado o prazer do conhecimento de nossas coisas, o desejo de consumir as coisas nossas, tem de olhar essa ideia com uma visão fina direcionada para a expansão do mercado da informação e do saber.
A nossa sonhada libertação cultural, precisa urgentemente abrir os espaços de exibição para toda a criação da arte nacional.
Imaginei que no (futuro) governo do seu candidato (Pezão), com a elaboração das bases educacionais do seu programa de governo, estudasse e acrescentasse a possibilidade de criar e implantar o projeto das “OCAS CULTURAIS” por todo Estado.
Fico imaginando o meu caso: dirigi na década de 80 o Palácio das Artes em Belo Horizonte e por isso sei da importância, para qualquer cidade do mundo, dos espaços públicos como esse. Sei também como muitos outros sabem que onde se é o produtor, diretor, escritor, realizador dos seus trabalhos, se houvesse a possibilidade de exibi-los e debatê-los, como fiz com muito sucesso, juntamente com o professor de história Paulo Cotias na Faculdade Estácio aqui de Cabo Frio, onde exibi quatro filmes para mais de sessenta alunos por exibição.
 Imaginei a Oca Cultural sendo dividida em quatro salas: Sala 1: Cinema HD digital e  pequeno palco para esquetes de teatro, apresentações de música, recitais de poesia, palestras, etc. Sala 2: Videoteca e pequena biblioteca sobre arte. Sala 3: Exposição de pintura e artesanato. Sala 4: Café e bate-papo.
Um amigo a quem eu disse que escreveria novamente ao governo sobre essa minha ideia, me falou: - Se nesses anos todos eles não cuidaram da educação, não criaram as escolas de tempo integral do Darcy Ribeiro, não aplicam uma lei (a lei do curta) aprovada que leva a jovem arte brasileira aos cinemas comerciais, o que te faz pensar que eles darão atenção aos seus centros de cultura? Ele tem razão, pensei, vou jogar conversa fora...
Um grande abraço do amigo de sempre,

 Jose Sette

domingo, 6 de julho de 2014

Memória

Folhetim Elétrico

“Longos são os caminhos da verdade...”.

Organizando e limpando o meu computador pensei no que eu poderia fazer com aqueles bons roteiros que ficaram na memória em busca do tempo perdido e que embora tratassem de temas importantes ao nosso abismo cultural, seriam, quando eu morrer (falo isso por que alguns dos meus diletos amigos já começaram a partir) esquecidos, comidos pelas traças, destruídos pelos vírus deste cérebro eletrônico. Assim, no desespero de ver todo um trabalho perdido, procurei descobri uma maneira de torná-los visíveis sem ter de editá-los, gastar papel e dinheiro que não tenho. Foi lendo o grande Aluisio de Azevedo que descobri o folhetim que tanto sucesso fez na imprensa do século 19. Heureca! Esse novo Folhetim, hoje Elétrico, permitirá, a partir de agora, com periodicidade, a quem se interessar um passeio nos textos de roteiros que poderia ter sido um dia imagens em movimento, cinema. Acrescentarei prefacios com algumas reflexões do dia-dia que intitulei de folheteadas.


Qual seria o primeiro filme, o primeiro roteiro do folhetim?... Vale a pena este esforço? Sei lá! Não seria melhor deixar ele guardado? Não fazer mais cinema? Fiquei atormentado com a ideia de que alguém, como diria o meu amigo Guará, vampirizasse o tema, a luz, a ideia e depois não me desse o crédito merecido. Isso já me aconteceu várias vezes, a última foi no filme sobre o Vinícius de Moraes, onde fotografei várias cenas com o poeta, no antigo filme dirigido por sua filha Suzana, que foram reutilizadas novamente neste novo filme e o meu nome não apareceu, nem agradecimento... Tudo é possível no Brasil. Valeu a pena?  Depois de tudo isso pode ser que apareça alguém reclamando que as listas não possuem espaço e não são liberadas para esse tipo de mensagem... - Crie um site! Um blog... Dirão outros... Tem outros espaços onde se publica roteiros... Etc. Mas essa ideia me surgiu pensando nas listas que eu recebo! - E se outro da lista fizer outro folhetim? Qual é o problema? Espero que não tenha problema. As listas são jornais diários de assuntos com os quais estou ligado. Não quero perder tempo e provocar uma tremenda polêmica democrática onde eu teria que gastar horas preciosas ora na defesa, ora no ataque, de sei lá o quê... Esse primeiro folhetim é pra saber se vale à pena este esforço. A idéia da Rosário do Almanaque é muito boa, faz parte desse grande jornal eletrônico que são as listas da Internet, lê quem quer. Aviso aos navegantes: Não participarei de nenhuma polêmica sobre o que não quero discutir. Se os textos conseguirem iluminar alguém, que seja dele a luz. E se alguém não gostar, não precisa abrir, é só apagar, faço isso todos os dias... Quem?  Sei lá! Você de repente...

Fui ao Festival de Berlim em 1987 exibir o meu primeiro filme, um longo poema rebelde, em 1987 e lá encontrei 2 outros cineastas brasileiros com seus primeiros filmes: Sérgio Toledo e Jorge Duran. Não sei o que aconteceu com o Sérgio, mas do Jorge Duran soube que havia terminado o seu segundo filme este ano. Vinte anos sem realizar um novo projeto de cinema... O Limite! Uma vida inteira num único filme.