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quinta-feira, 26 de novembro de 2009

2010


Meu Cinema Brasileiro

Em 2010 o filme “Bandalheira Infernal” comemorará
os seus 35 anos de existência e o “Filme 100% Brazileiro”
25 anos.

Em 1975 fiz o meu primeiro filme de longa-
metragem, Bandalheira, sem roteiro, experimentando,
provocando, instigando, anarquizando a
linguagem cinematográfica imposta pelo regime
militar, repressor e predador, e por uma elite
brega, ignorante e pretensiosa.

Trabalhei financiado pelos amigos e amantes
do cinema. Há trinta e cinco anos mantenho
o meu sonho por um cinema de arte, livre,
poético, inventivo, antropofágico e mnemônico.

Por um cinema que provoque a nossa memória,
nossa inteligência e nosso existir.

Para definir a minha trajetória na arte cinematográfica
é preciso saber da minha geração. Saber que no país invadido,
há mais de cem anos, por manifestações cinematográficas de todas
as espécies e gêneros, temos hoje, como predominância estética,
os pequenos e os grandes lixos novelescos proveniente de toda
uma produção estrangeira, principalmente a americana, a de roliude,
com suas novidades tecnológicas, efeitos especiais, para contar
historietas e influenciar o mundo dos colonizados, injustiçados, em
sua grande maioria, a adorar o deus bestial do sucesso, do
dinheiro, do consumismo doentio, da fome do mercado, a
qualquer custo, onde poucos mandam, e quase
todos são vendidos e obedecem por força da mídia, submissa aos
grandes interesses, com os investimento na cultura direcionado as
produções que seguem a métrica reboante do pior
que se faz na indústria do entretenimento, tornando-nos,
novamente, imbecilizados pelo paradigma do sucesso
estrangeiro e pela incipiente conquista do mercado nacional,
tanto no cinema quanto na televisão.

Depois do movimento cinemanovistas dos
anos 50 e 60 e do jovem cinema de resistência
dos anos 70 e 80, a partir 1990, o cinema
brasileiro vem buscando, como um todo,
com raríssimas exceções, esse modelo
conformista imposto pela política cultural servil dos
nossos incautos governantes, e pelo deslumbre dos
burocratas de plantão, dos produtores e exibidores
comprados, na maioria por dinheiro de fundações de
capital estrangeiros, imaginando assim, pelo excesso
imagens e sons de quinta categoria, convencer os
nossos jovens estudantes, futuros cineastas, que
trabalhando com esta linguagem inocente, muitas vezes
beirando o ridículo, conquistará o seu espaço
perdido público.

Ledo engano, deles e nosso, de ficarmos cegos, calados,
surdos e sem voz, isolados, como uma grande ilha,
prestes a ser varrida por uma onda gigante.

A maioria dos filmes nacionais é de pequena
produção, os mais privilegiados vêm sendo
financiados com orçamentos médios pelas leis
de incentivo. Todas essas “fitas” produzidas ou
são mal exibidas, ou não são exibidas, por falta
de interesse dos produtores e de seus
patrocinadores. Assim, algumas centenas de
latas de bons e raros filmes, são guardadas nas
prateleiras das produtoras, quando existem, ou
em casa, quando se têm, na espera de salas
específicas - cineclubes, festivais, etc., para que,
pelo menos, possam ser exibidos.

Esses raros filmes de arte têm a simpatia
de um público específico, composto de pessoas
que lêem, que apreciam a boa arte, que gostam de
poesia,de serem instigados pela criação, pela invenção,
pela inteligência degustando o mistério de
composições, as vezes bizarras, sem fanfarras de
produção, mas sempre criativas e transformadoras.

Sem a mínima remuneração, este cinema
de resistência, faz com que muitos de seus
bons diretores, produtores, atores e técnicos,
sem aposentadoria, sem economia,
a cada dia que passa, sentirem-se mais ainda
encurralados pelo sistema predador.

- Vivemos como mágicos, sem renda, endividados.
A cada filme produzido, ficamos mais pobres e só
permanecemos ainda em pé, pela força da crença na
arte e pela necessidade mortal de poder criar novamente.

Mas como criar sem ter o direito de viver com
alguma dignidade? Todos os dias encontro
bons artistas que estão a beira de um ataque de
nervos por falta de uma política
justa na produção, distribuição e exibição
do verdadeiro cinema brasileiro

Aos grandes produtores, as verbas
milionárias da renúncia fiscal, verbas
que são distribuídas através dos
editais e leis, pelas empresas e
simpatizantes empresários, que querem
se aproximar das estrelas e astros da
última revista da moda, ou a todos
aqueles que participam desta ou
daquela turma, simpáticos a
este ou aquele produtor de tevê, ou
melhor: todos aqueles que tem a benesse
desta importada estética, cópias sem a menor
importância, que domina as novelas e os filmetes
das grandes redes da televisão brasileira.

Nas universidades, jovens sedentos
de saber buscam o conhecimento
necessário para que possam rodar
(filmar) o seu primeiro curta-metragem.
Tudo tem de ser financiado pelo Estado?
Eles são milhares de entusiastas da sétima arte,
são estudantes e artistas que pensam e vivem o sonho
de um dia fazer o seu primeiro longa-metragem.
O que eles podem fazer? Onde eles podem chegar?

O velho cinema, outrora revolucionário, hoje
milionário, sonha com o Oscar, com roliudi
e com a América, que é do norte.

O jovem cinema tem que abandonar esta
vontade cega de estar incluso no sistema
estabelecido pelos padrões dominantes,

É preciso ser rebelde e transformador da arte,
buscando a nossa identidade cultural no
conhecimento e no descobrimento, para
podermos criar uma imagem livre das amarras
dominantes.

O meu e o seu Cinema Brasileiro
nascerá desta prática: um filme feito
e distribuído no cinema e para a televisão,
com as mãos e com a cabeça, independente
e de baixíssimo custo, digital ou não,
onde se valorizará principalmente uma
nova estética cinematográfica, uma nova
idéia, novos atores. Um cinema que
seja instigante, transformador, que não
veja, mas que tenha visão, que seja lentes
especiais para um enquadramento total e
abrangente do homem e das artes brasileiras
escondidas no contexto da vanguarda, do novo
e do que é universal.

domingo, 22 de novembro de 2009

Meu próximo filme

Sérgio Bandeira
Herói Marginal

Um musical? Um policial? Uma comédia? Um dramalhão? ...

Uma obra aberta?

Qual será o fim dessa história?

Apresentamos nossos personagens:

Erodino é o nome do nosso herói marginal.

Erodes é o nome do seu pai.

Maria, sua mãe, já tinha uma filha de seu primeiro casamento quando casou com Erodes, que por não gostar do nome da menina, passou a lhe chamar de Erundina, embora não fosse esse o seu nome de batismo.

Erundina tinha sete anos quando Erodino nasceu.

Herodes, moralista e religioso, batia em Maria quando ela estava grávida, pois cismava que o filho que ela esperava seria fruto de uma traição.

Erodinho nasceu prematuro, em casa, no bairro classe média da cidade.

Sua mãe não teve tempo de chegar ao hospital, morreu quando ele nasceu.

Erodinho! Assim ele era chamado quando criança.

Erodes começa a beber e a brigar com o filho e com sua filha de criação.

Erodes trabalhava como chefe de segurança da noite no shopping da cidade e dormia em casa de dia.

Erodino tinha dez anos, quando viu o seu pai Erodes, chegando do trabalho, acordar, molestar e depois bater em sua irmã, Erundina, agora com dezessete anos. Erundina amava Erodino e foi ela quem lhe despertou o desejo e depois passou a lhe ensinar, na ausência do pai, de como ele deveria se comportar com as mulheres. Recebia do irmão o carinho que não tinha com o velho Erodes. Erodino lhe prometia que um dia lhe tiraria das garras covarde do pai.

Erodino era uma criança tímida, mas não tinha medo, falava pouco e nunca chorava. Sempre solitário, escondia-se pelos cantos da casa e andava de cabeça baixa pelas ruas da cidade.

Ali perto havia dois grandes comerciantes: o dono da joalharia, o Senhor David, com seu filho Mateus, de cinco anos e a dona de uma loja de roupas, a Senhora Judite, com sua filha Madalena, um pouco mais nova.

Erodino, um dia, andava pelas ruas, quando avistou uma criança que ia ser atropelada. Por puro instinto, corre em direção do menino, que está parado no meio da rua pegando alguma coisa (um bolo de dinheiro) que estava no asfalto. Dinheiro perdido pelo seu pai quando, com ele, atravessava a rua. Muita gente assistiu a cena. O pai do garoto estava do outro lado da rua, distraído, quando sentiu falta do menino, surpreso, vendo a cena, corre para pegar o filho salvo da mão de Erodino.

Erodino salvou o menino Mateus de cinco anos! Comentavam as pessoas na rua e todos foram cumprimentar o jovem herói. Pela primeira vez na sua vida havia sido respeitado, cresceu sua auto-estima, neste dia foi até aplaudido...

A cidade banhada pelo sol e pelo mar situa-se em uma região, em um ponto turístico, muito procurado por estrangeiros em busca de suas famosas praias, repletas de mulheres louras e morenas, amazonas de poucas roupas.

Cinco anos depois Erodino, com quinze anos, andava com seu amigo Mateus pelas ruas do bairro. Mateus foi quem abreviou o nome de Erodino, o seu ídolo, para Erói, o seu protetor.

Erói vivia na rua. Na sua casa o seu pai continuava a maltratar Erundina.

Quando ele fez 20 anos, tentando separar uma briga do pai, que batia com um cinto de couro na sua irmã, esmurrou o velho bêbado que caiu desmaiado. Erói fugiu definitivamente de casa e passou a viver na casa do malandro Pedro, seu amigo de infância, que comandava o tráfico no bairro, levou com ele Erundina.

Erói passou a vender droga para manter o seu sustento.

Seus principais fregueses eram os amigos ricos de Mateus.

Erói vivia com Erudina, mas amava Madelena, que amava Mateus, que não amava ninguém.

Erundina esta com 32 anos, Erói com 25 anos, Mateus com 20 anos e Madalena com 19 anos.

Mateus, Madalena e Erói, andam a beira mar, na praia vazia...

Assim começa a história do Herói Marginal.

Assim termina uma parte dessa história.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dois casos e uma medida

TRÊS AMIGOS E UM CANHÃO

Caboclo Sete Lira
Uma história real

Outro dia estava entrando na galeria do café, vindo na contraluz da história, quando percebi, caminhando em minha direção, a figura simpática, alegre e carioca, de um ícone da cidade, tratado ainda hoje, aos 63 anos de idade, carinhosamente, pelos amigos, pelo diminutivo do seu nome.

Conheci-o, este sujeito simpático e inteligente, cheio de idéias criativas e apreciador das boas coisas da vida, sendo-me apresentado por um amigo comum. Pouco tempo depois, em uma reunião na casa do mesmo amigo, conheci o outro personagem desta minha história: era, a primeira vista, um jornalista simpático, bem informado, jocoso, irônico, inteligente e bem humorado, de quem me tornei amigo.

Nosso primeiro personagem estava com a sua fisionomia cansada quando o encontrei em frente daquela insuportável televisão. Sentamos a mesa e ele, depois de algumas conversas, me mostrou seu olho direito avermelhado, bastante irritado. Disse-me então que aquilo, uma forte infecção nas vias respiratórias, muito lhe incomodava. Já havia sido operado, pingava remédio todos os dias, etc. e tal, mas nada adiantava.

Sendo eu filho de um médico e por não cuidar bem dos meus dentes, sou um fumante inveterado, tive que descobrir remédios alternativos que me ajudassem a manter em dia a minha higiene bucal. De todos os líquidos, químicos e naturais, que eu experimentei - um só, somente um, de fórmula antiga, famoso lá no interior das Minas, feito a base de álcool e ervas fina, foi que resolveu os meus problemas. Faço uso dele quase todos os dias. Há mais de vinte anos. Nunca mais tive infecção e nem dores de dente. O que de melhor eu podia indicar ao meu amigo, para o seu sofrimento, do que esse santo remédio?

Levantamos das cadeiras e fomos à farmácia comprar o milagroso produto. Expliquei a maneira que eu usava o elixir: primeiro passe o fio dental, com força, nos dentes e lave. Segundo, escovar os dentes normalmente e só depois de bem lavado é que chega a hora de jogar puro, entre os dentes, o líquido vermelho e denso na boca... Encontramos em seguida com o jornalista que bebia um mate com limão e deixei os dois velhos amigos conversando.

Passa todo um dia. Estou em casa escrevendo. O celular toca. Já é noite. Atendo. Do outro lado da linha ouço o famoso chamado do jornalista, quando me telefona: - Alô! 1,2,3,4,5,6,7, meu caro caboclo, disse ele, você quase matou o nosso amigo comum... Eu respondo: - O que aconteceu? ... - Sette, eu vou lhe passar o consulente e ele vai lhe dizer... - Alô Sette! Sou eu, meu querido... – O que aconteceu? Perguntei assustado. – Olha! Joguei metade do vidro daquele líquido vermelho na minha boca e segurei com valentia a queimação infernal que eu passei imediatamente a sentir. Queimava-me a boca, os olhos, o nariz e a garganta, como que se eu estivesse ali tentando engolir uma brasa acesa. Lembrava-me da sua orientação de não cuspir, de maneira nenhuma, o elixir, não antes da queimação passar. Cerrava os dentes e queria gritar de dor. Resistia, e, para aliviar o sofrimento, pulava de um lado para o outro e, em seguida, abaixava e subia a cabeça, num frenesi de assustar os menos avisados. Enquanto eu me contorcia, o amigo palhaço que me acompanhava, que estava a minha frente, observando-me com os seus olhinhos miúdos, arregalou os olhos, esticou os lábios e passou a fazer passos e passos de macumba, como se recebesse um santo, dizendo com voz de preto velho: - Óxente! Caboclo Seu Sete da Lira baixou, sarava! Ele esta cuspindo fogo! Ó caboclo malvado, deixa esse Omi em paz!... Não resisti ao personagem representado pelo nobre amigo e cuspi longe todo o líquido que estava na minha boca. Que alívio me deu, não sei se consigo fazer toda essa experiência novamente... Disse-me ele rindo.

Corte cinematográfico. A bateria do telefone celular acaba. Silêncio. Voltei, chateado com essa minha mania de dar conselhos médicos, a trabalhar no texto do meu novo filme... “Herói Marginal”. Foi quando imaginei a cena dos dois zombeteiros, fazendo pilhéria, dançando no terreiro... Parei de escrever e não consegui mais parar de rir de mim mesmo.


Elixir do Pagé

Como esse mundo esta ficando mais careta, moralista, teocrático, tecnocrático, fundamentalista, personalista, néscio, estúpido, violento, brocha, etc., eu pergunto aos amigos de Cabo Frio se eles conhecem ou se já leram “Elixir do Page”, o livro raro de Bernardo Guimarães? Eu possuía o exemplar 0280, do qual fiz uma cópia. Trata-se de dois poemetos, “de inspirado trovador”, publicados pela primeira vez em 1875. É como disse o maranhense Artur Azevedo: “É raro o mineiro que o não saiba de cor... Há na província espalhadas um cem números de cópias deste Elixir...” Poemas eróticos, obscenos, ou sei lá como classificá-los! Que julguem os amigos da província. Vamos apresentá-los!

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

CONVITE

O romance “Como deixei de ser Deus” (Ed. Topbooks) do poeta e escritor mineiro Pedro Maciel será lançado no Rio de Janeiro,16 de novembro (segunda), Livraria Argumento, das 19 hrs. às 22 hrs.Rua Dias Ferreira, 417 / Leblon / TEL: 2239.5294 Apareça por lá! abraçosempre, Pedro Maciel

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Roteiro Político

O ÚLTIMO PRESIDENTE Com uma abordagem cinematográfica pautada nos filmes neo-realistas, a leitura deste filme está expressa em três elementos básicos de linguagem: a ficção, o documentário e a sua história.
O Último Presidente é um filme sobre o poder da traição: o homem versos sua natureza política, ideológica, existencial. É cinema de cultura política sobre uma época importante de nossa história recente.
Retratar uma época política e socialmente conturbada, não é tarefa fácil. Há de se trabalhar com material de arquivo, pesquisas, iconografias, entrevistas e também o garimpar dos fatos escondidos e desconhecidos.
Construir a ficção, a linha narrativa, através de pequenos cacos históricos, em seqüências que se entrelaçam, formando, contando e descobrindo, no desenrolar da narração, o manto misterioso da vida política de um presidente deposto por um golpe militar, é realizar um projeto de interesse cultural, pois torna público, através da ficção, do documental, o quanto é complexo, imponderável, quase impossível, a utopia social, a luta do bem e do mal, no universo humano do poder.

Leia na minha página - roteiros publicados - o texto completo.

domingo, 8 de novembro de 2009

Como deixei de ser Deus


O poeta mineiro Pedro Maciel continua a fazer sucesso com seu livro lançado recentemente em São Paulo.

Romance é obra cult que se presta a múltiplas interpretações
A chave para a leitura de Como deixei de ser Deus é a intertextualidade, procedimento clássico da literatura comparada, explorado igualmente na modernidade tardia, transmidiática, hoje. Aqui a referência de leitura é formal. Na capa do livro, o autor dá pistas do lugar onde o personagem-narrador inaugura seu estilo – o trocadilhesco Universo da representação. O título da obra Desvio para o vermelho, de Cildo Meireles, na fotografia da capa, alude ao afastamento das galáxias. Mestre da ironia, Meireles aparece poucas páginas adiante, com Glove Trotter. Em Desvio, objetos domésticos recebem a tinta irônica da saturação.
Cada capítulo curto do novo livro de Pedro Maciel pode ser considerado um fragmento na linha machado-oswaldiana de reinvenção do romance. Um Deus conta sua metamorfose até a saturação. De estilo conciso, Maciel explora a filosofia e a blague modernista - “O esquecimento como um passatempo. O olho da memória, com o tempo, começa a usar óculos.”-, persegue a narrativa mítica e expõe o modo como pensadores canônicos definem os deuses.
O autor dissolve o enredo em um discurso metafórico. Negrita frases e faz destaques tipográficos. Despontua. Alguns fragmentos se repetem e vários não passam de quatro linhas de extensão. Podem ser epigramas (em seu sentido polissêmico).
De todo modo, então, de uma galáxia ameaçada de ser destruída por humanos conforme avisa o prólogo, o protagonista, condutor do enredo no romance modelo, é um pobre diabo que pensa que é Deus e não se reconhece no mundo: “Ontem visitei a cidade em que nasci; ninguém me reconheceu. Deus não se revela ‘no’ mundo”. A narrativa é conceitual, tece imagens do tempo mítico. Transfigurando a verossimilhança, o personagem fala em várias pessoas, do singular e plural, e trata o leitor com intimidade, evocando o estilo de Machado de Assis do Brás Cubas, que tem absurdamente o narrador póstumo.
O livro tem conotação ecológica na indagação sobre o mundo. Pela presença de muitas referências, é uma obra aberta e cult (nas acepções do semioticista Umberto Eco), para a qual há múltiplas interpretações, porque, sobretudo, o narrador nada conclui. Ainda que se defina como romance e se desenvolva na frase, em Como deixei de ser Deus prevalece o estado lírico, de intensidade e prolongamento do instante. A destituição do gênero romance talvez esteja nessa intromissão da lírica na épica: “O tempo presente já vai longe da gente. Horas paradas; vento nas folhas.”.
O autor acrescenta um significante filosófico – espécie de campo expandido –, devido à intromissão formal, entre as outras, da numeração dos aforismos, escritos para serem lidos mais de uma vez, ordenados de forma desconstrutiva – alguns números são suprimidos, além de evocar os ensaios sobre poesia e filosofia de Hölderlin e outras psicologias da composição – de Baudelaire, Cabral, Rosa. Neles, o leitor-detetive encontrará alusões literárias, bíblicas.
A ambivalência entre prosa e poesia e entre romance e filosofia é ampliada em todos os aspectos. Deus estranha o tempo, o mundo e a si mesmo: “Ontem ele deu um perdido no passado e correu para se adiantar mas não parou lá adiante como se fosse um antes”. Como em Orlando, de Virginia Woolf, o tempo corre para a frente e para trás.
A discussão é uma espécie de Doutor Fausto (de Thomas Mann) ao contrário: “: pelo amor de Deus se vai ao inferno. Deus é um bom Diabo”. Ou: O Diabo é uma versão de Deus; Deus é um verso do Diabo”. Ironicamente, é como se Deus fosse o próprio verbo, desenhado por palavras em justaposições, uma fórmula matemática ou o sol e a lua. “Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor Deus: aquele que é e que era, e que há de vir, o Todo-Poderoso. Se Deus existisse todo mundo ficaria sabendo.”
Mônica Rodrigues da Costa
(doutora em semiótica e comunicação, poeta e autora de Era tudo sexo, Ed. Maltese)
Jornal Estado de São Paulo, 24 de outubro de 2009

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Abaixo o imperialismo!

O imperialismo esta em todas as coisas que eu conheço neste mundo. Esta também nas artes.
Temos imperialistas em todas as manifestações humanas. Todos querem ser o imperador, mesmo que seja por um curto espaço de tempo. Basta um pouco de poder e temos lá a figura cínica de um Calígula sanguinário. Outro dia assisti o filme feito sobre o revolucionário Che. Achei fraco, quase não assisti todo. Passeando pelas páginas da internet descobri um pequeno filme de 1965 com um pronunciamento do líder romântico da revolução cubana que coloco aqui para o deleite dos meus leitores.

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