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quarta-feira, 28 de outubro de 2009

AMAXON (primeiro texto critico)

“ Uma coisa são sempre duas: a coisa mesma e a imagem dela. ”

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


“AMAXON, UMA ODISSÉIA NA CRIAÇÃO PENSADA “
Em memória de Jairo Ferreira

Talvez tenhamos nos transformado nessa máquina horripilante de negação dos sonhos! E no que trituraram todas as singularidades, fomos transformados num exército de múmias, de burocratas, de deslumbrados e idiotas. Uma nova encenação do que seja, não pode ser mais uma condenação a nociva prostituição, achatada à TV. Deve-se ousar na desarmonia, do desnudamento da carne e do abandono na subjetividade. Ora, se o cinemão se realiza sem subjetividade criativa alguma, a nós deve interessar fundamentalmente uma nova linguagem gerada na teatralização de transcendências. Acrescente-se a isso que o país vive do seu esvaziamento a 509 anos, e mais programadamente a 55 anos. Ou seja, desde o golpe militar de 1964. Ora, como purificar artesanalmente esta quantidade infindável de urina e excremento?
“AMAXON” é um esforço poético-radical, para nos fazer pensar na complexidade do processo criativo. Ora, de que nos adianta fazer trabalhos de encomenda? Cinema virou filminho publicitário? O que muda nessa falência global de desencontros? O mundo hoje visto pela TV, é só o lixo como mercadoria de quinta, obviamente espetacularizado. Putas e canastrões são vendidos como profundos e sensíveis. Mas a quê? A “nota”? José Sette vai no sentido contrário de tudo e todos, elaborando com o seu terceiro longa-metragem, uma projeção de palavras a serem pensadas, fazendo um delicado filme que dá representabilidade a um pensamento sombrio expressivo, nessa sua transfiguração da normalidade do processo de criação. Sette vai aos extremos, numa escalada implacável rumo à uma poesia ainda que delicada, difícil para o grande público, todo condicionado a Hollywood e a TV.
“AMAXON” é o hospital-Brasil, em que todos somos condenados. A personagem da escritora reage ao internamento e tratamento, e se debate com uma coragem incrível. A linguagem do filme atravessa uma infinidade de vísceras, infernos e imaginações. A carne-viva exposta, torna-se uma espécie de gozo-trágico. Um filme-dor que nos remete ao teatro de Artaud. Incomodo aqui. Indizível ali. Longe e próximo de todos nós que sobrevivemos ao apocalipse de 1964. Não poderia ser um filme diferente. Foi difícil não apodrecer junto, e continuar sonhando com um Brasil mais justo, humano e para todos. Ainda assim, salvaram-se os poetas e artistas. Vera Barreto como escritora, é uma espécie de vísceras expostas; sendo recolhidas para continuar a ser demasiadamente humana.
Pouco importa que não seja um filme fácil, ou para muito. É cinema! Uma cinema que emerge de toda essa putrefação de 1964 à 2009. Sette trabalha com precisão a sua não-linguagem fácil, pois lhe interessa mais um fluxo poético de contradições gramaticais voltadas para o pensamento-profundo e o cinema autoral. É o velho-jovem cineasta independente que agiganta sua escritora na solidão e na coragem de não ser comum. Que entre só sofrer e morrer, prefere escrever enfrentando os seus muito demônios. Que lê, bebe, fuma... se debatendo entre contradições geradas na TV, por um jornalista que como todos, espetaculariza o caos ameaçando com a onda gigantesca, definitiva. Onda que até é mostrada, mas que não chega pois é apenas uma manipulação da comunicação, do dinheiro e da morte que sempre nos acompanha.
E se a representação do mundo e da política se tornou imbecil, compete a arte transformar todo esse excremento, numa espécie de teatralização de uma “escrita-física” que Vera Barreto faz muito bem, num trabalho raro e exemplar, onde se realiza em sua intimidade frente a insatisfação da obrigação: a do livro de encomenda que precisa ser escrito. E uma vez mais, o conceito de subordinação ao dinheiro como a arte terapia dos tantos e tantos eletrochoques de nossas vidas. É onde os porco se acham mais fortes.
Entre livros e copos de vinho, em sua solidão pensa na grande onda da sua insatisfação. A onda que está fora, está dentro e que desencadeia contradições levando-a nua aos seus próprios limites grandiosos de exposição poética. É uma escritora, mas é também atriz e mulher. E que ao entregar-se as suas pulsões transforma-se em crítica de si mesma, ainda que aguçando o seu desprezo pela “lógica” imperceptível da mercadoria e do consumo. O sistema sabe bem o que faz, e se não tivermos um mínimo de sonhos, seremos transformados em imagens despotencializadas e vazias. A TV não faz isso todos os dias?
Sette não faz um cinema-coisa, a logo ser esquecido ou descartado. Nesse ponto aproxima-se de Tonacci, Sergio Santeiro, Eliseu Visconti, Jorge Mourão e da nova geração. E se “o mundo é apenas engano”, como afirmava François Villon, “AMAXON” o subverte desprezando o patamar qualitativo do sucesso fácil. Arbitrário como postura, investe no estilo insurrecional como ruptura e negação do obscurantismo avançado da domesticada política cultural do governo, seja lá de que Partido for. E não são todos iguais lutando apenas pelo poder? E se a chantagem e o obscurantismo servem ao poder, de nada serve um cinema menos idiota, essencial a representabilidade de uma vanguarda que não conseguiram matar. E que hoje convence muito mais que no passado.
É preciso frisar a importância de um filme feito do nada e que não se reduz a razão que tudo tenta explicar. Nesse sentido reintroduz no cinema brasileiro, complexas subjetivações necessárias ao crescimento de um público menos contaminado por Partidos, por prostíbulos e pela TV, pois transgride permanentemente a ordem como instituição sagrada. A Sette e sua equipe interessa abandonar o manicômio das disciplinas do certo e do errado, sem sacrificar mais nada. Ao seu cinema interessa as diferenças e os deslocamentos possíveis, como acesso a um permanente ultrapassar-se. Sua trajetória é impar no nosso cinema. É um experimentador muito além do buraco negro em que transformaram o cinema brasileiro, e que fez um novo filme de uma lucidez atrozmente insuportável.
Sette torna profundo e feminino o discurso da personagem da escritora, e com suas imagens poderosas desfaz o território pouco ou nada significativo da TV, pois faz Cinema! Dá significação a um novo olhar. Enfim, produz intensidades poéticas. “AMAXON” são pedaços restituídos a um corpo ainda que amordaçado pelo tempo que passa para todos, poderoso e uma vez mais agigantado pois se assume, indo além da representação e da escrita. E a vida que não deveria ser pobre e empobrecida como é, torna-se gozo por parte de todos. Filme infinito ao reinventar a criação simbólica imperfeita. Ainda bem.

LUIZ ROSEMBERG FILHO
RJ, 2009

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

POLITICA

Eleições 2010.

Naval - 1978 - reunião de grilheiros na vila de Getúlio Vargas no Pará.

Este diálogo ocorreu em uma lista de discussão do cinema brasileiro. Dois cineastas: um com mais de 50 anos e o outro com menos. Um se dizendo da direita e o outro da esquerda. Um simpatizante do PT e outro do PSDB. O papo era sobre privatização. Reproduzo aqui, sem maiores identificações, o que eu considero um retrato do pensamento político em voga hoje no Brasil. Tirem os leitores as suas conclusões.

- Lá vem o PSDB novamente tentando privatizar as novas eleições. Sabe o que um fabricante de aparelhos de telefonia disse-me quando discutíamos sobre a pressão do presidente Lula para que a Vale, privatizada pelo seu partido, aplique mais dinheiro na economia nacional? – Olha meu jovem cineasta: Lembro muito bem, no JN(Globo) em 1998, quando o Serjão afirmava, todos os dias em rede nacional, que a privatização era necessária para modernizar a rede de telefonia fixa. Nós, como fabricantes, já contávamos com nossos equipamentos mais modernos nas operadoras. Às vezes, equipamentos que ainda não existiam no resto do mundo, já estavam em operação no Brasil. Cobaias de tecnologia? É verdade, mas a tecnologia mais moderna estava presente, isto é fato. E o Serjão vinha dizendo que a rede de telefonia era ultrapassada, que necessitávamos privatizar para permitir o avanço, para permitir que outras empresas entrassem no Brasil, para trazer divisas, para trazer equipamentos mais modernos, para permitir redução nos preços devido à maior competição. O que ocorreu com o Serjão? O Serjão dividiu a Telebrás em 4 áreas. As Teles foram vendidas a preço de banana. Os preços negociados não pagavam nem o patrimônio existente, quanto mais o negócio em si, tudo funcionando e rendendo. Ou seja, um negócio de pai para filho. Com financiamento do próprio pai a juros baixos. Negócio assim, até eu quero. As vendas somaram por volta de 11,9 bi de dólares, que era aproximadamente o valor do faturamento anual das empresas. Ainda assim, a afirmação do governo na época é de que houve um ágio de 63% (valor recebido com ganho de 63% em relação ao valor mínimo pedido).

- Existiram boatos que a Embratel foi vendida sem dívidas e Eu digo que naquela época do Serjão esperava-se tanto para uma coisa que hoje vem de graça, em dois dias. Ele estava certo! Claro que graças ao "sucateamento" da Embratel, hoje minha empregada tem fixo e celular, pode arranjar mais trabalho, pode participar mais da vida dos filhos, tem acesso à internet, mas quem se importa com as empregadas quando temos o ideal de Estado mastodôntico pra defender, não é?...Faz uma viagem no tempo e volta lá pra Embratel, com seus 3 anos de espera pra ter um telefone em casa, ou pagando 5000 dólares na "bolsa de telefone", atividade difícil de explicar pra quem tenha menos de 30 anos hoje. Veja, o Lula vendeu o Ministério das Comunicações pro Helio Costa (Globo) pra ele escolher rapidamente o sistema japonês de transmissão, em troca do silêncio global no maremoto do mensalão e você quer falar em privatização? - Quero sim! A VALE do RIO DOCE já era poderosa antes da privatização. A EMBRATEL, nem se fala. Em Minas, as pessoas sabem de como a TELEMIG primava pela excelência. Mas, como você, neste assunto, tem seu estribo e viseira. E eu, no meu estribo e viseira, deixo aos mais lúcidos leitores desta lista tirarem suas próprias conclusões.

- "Dinheiro na mão é vendavale... e o Lula está certo e está no papel dele forçar as grandes companhias nacionais e internacionais a investirem mais no país.

- Ele pode fazer isso desde dando incentivos fiscais, até usando o seu carisma prapressionar o empresariado, tudo isso é válido, bem vindo e legítimo.Agora, como é mais do que óbvio, aqui, como em várias outrassituações, a preocupação do presidente não é mais como país, mas sim com o seu partido e as próximas eleições. Ele sabe que pra se entender o benefício que as privatizações trazem pro Brasil é bem complexo. Sabe também que é mais fácil pra uma população pouco instruída vender a falácia de que a Vale foi "tomada" do povo. Do mesmo
jeito ele sabe que não há arcabouço político no Brasil pra se estatizar uma empresa, ainda mais uma de imenso sucesso como é a Vale hoje. Está fazendo essa marola pra posarde "herói" que tentou resgatar" um "bem público" que foi "sucateado" pelosmalvados tucanos, e aquela ladainha toda que tanta gente aqui adora repetir.Ele não está mirando no Brasil, está mirando nas eleições só. Isso não VALE nada.


- Semanas atrás, ouvi, na CBN, um comentário bem veemente, do Jabor, sobre aVALE (ex-Rio Doce). Ele defendia a empresa dos "ataques" de Lula. Mostrava que, depois de privatizada, a empresa se transformara numa potência mundial. Não entrou em detalhes, nem apresentou 2 lados. Deu o ponto de vista dele, favorável à nova Vale. Antes de prosseguir, lembro que a Vale do RIO Doce marcou a vida dos mineiros (e sou mineira!!!). Afinal,carregava RIO DOCE no nome e deu apoio a um time de futebol chamado VALERIODOCE(que virou Valério DOCE, numa bela recriação poética). O time (que já desapareceu) marcou os que, como eu, têm mais de 50 anos. POIS VOLTANDO ao JABOR. Fui me informar -- só agora (tardiamente!!!) -- sobre as causas da polêmica (consultando os jornais das duas últimas semanas).Consultei, em especial, a edição de sexta-feira (16-10-09) do BRASIL ECONOMICO, cuja manchete principal e muitas páginas foram dedicadas às controvérsias entre Governo & VALE. Há até editorial sobre o tema (no BR ECONOMICO). Li, tb, material no Estadão, Folha, O Globo, etc. Agora já tenho material suficiente para formar minha opinião. Pelo que compilei, o Governo Brasileiro quer que a empresa invista em SIDERURGICAS, no Brasil, para fabricar aço e assim não ser apenas uma exportadora de matérias-primas. O editorial do Brasil Econômico diz que a empresa (ao ser privatizada) o foi por "um arranjo societário CONFUSO". Sim, porque gráfico de O Globo mostra que os Fundos de Pensão são ACIONISTAS de grande peso na empresa. O Consórcio Bradespar (Bradesco) manda (inclusive indicando o presidente da empresa, Roger Agnelli, seu epresentante), etc, etc, etc... Li até uma nota que diz que o Bradespar conta com o apoio de 5 conselheiros "tucanos" e que, depois das críticas do Governo Lula, pretende dar duas vagas (destas 5) a gente ligada ao PT. Como se vê, um assunto ultra-complexo.

- O amálgama da direita é o antipetismo, sobretudo nas classes MÉDIAS do Sul e do Sudeste. Além da aversão à figura de Lula, essa direita se imagina espremida entre a FARRA DOS RICOS e a ESMOLA DOS POBRES. E culpa o lulismo pela frustração de seus sonhos de EXCLUSIVIDADE SOCIAL. Se hoje vota em Serra, é menos por gosto do que por falta de opção". Também com 3 bi em caixa para as eleições... Será que dá prá acreditar?

- Como bom mineiro você devia simplesmente deletar o que o Jabor fala - aliás tudo que ele fala é rançõ de pessedebista que não conseguiu o que sempre quis, quando defendiaveementente FHC - ser o ministro da Cultura. A Vale pegou dinheiro do BNDES - que a principio só pode ser concedido mediante garantia de emprego - e na sequencia mandou mais de 2 mil embora. Compra siderúrgica falida na china e não queria construir a siderurgica no Pará. O aperto de Eike Batista (aí acho que tem dedo do Lula) mostrou que Agnelli precisava mesmo de um tapa na cara e a conseqüência foi ele atender as solicitações do Lula e aumentar os investimentos no país. Quem poderia pressionar a VALE, senão o governo. Os empregados ameaçados de demissão? Tô com Lula nessa - a Vale pode se posicionar ainda melhor no ranking das maiores se eles investirem em siderurgia - exportar aço ao invés de minério apenas.


- Lá vêm vocês. Eike Batista é farinha do mesmo saco. "Ganha" concessões de mineração restritas a "brasileiros" a preço vil e revende no dia seguinte para as multi do setor por 100 vezes mais, e aí apóia a "cultura", a "ecologia", e demais lavagens, migalheando os "laranjas". Santa ingenuidade!- Não tenho ainda 50 anos, mas o VALÉRIO DOCE marcou também minha infânciafutebolística em Belo Horizonte. Cheguei a ter até time de futebol de botãodo time. Esse argumento de que hoje a VALE é ótima pq foi privatizada, é a mesmausada pra falar, por exemplo, da EMBRATEL, que só com a privatização possibilitou que nós brasileiros tivéssemos telefones baratos. Puro engodo (até parece que a avalanche tecnológica das telecomunicações, como o celular, foi fruto dessa privatização). No caso da Embratel, já teve estudo na Europa analisando que, se a Embratel não fosse privatizada, seria uma das 5 maiores empresas de Telecomunicações do mundo (e seria ESTATAL! Já imaginaram DUAS PETROBRAS patrocinando a cultura no Brasil? Hein? Hein?).


- Ah, essa notícia é tão antiga... Patrocinar quem? Li no Estadão, há uns 2 anos atrás...

- A EMBRATEL, pra quem não se lembra, foi privatizada porque uma empresa estrangeira, que seria a ESPELHO da Embratel (a ESPELHO foi, depois, a INTELIG), viu a estrutura fenomenal dela e decidiu comprá-la, pois seria impossível competir com ela. Resultado: entregamos de bandeja pra MCI, que sucateou a EMBRATEL e a vendeu depois pro mexicano da TELMEX (vendeu pq Tb deu um rombo nos EUA que foi notícia internacional).

- Ora, a diferença e que você é um esquerdista estatizante e conservador, e eu sou uma direitista empresarial, capitalista, mas de vanguarda. Quem é que fica melhor?

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Meu Teatro

Recebi do diretor de teatro maranhense Jose Facury Heluy, que reside agora na cidade de Cabo Frio, um comentário sobre o meu texto de teatro intitulado "No Balanço das Horas" que está aqui, neste blog - Roteiros - publicado.
José Sette,
Mesmo achando-o longo demais para os tempos teatrais atuais, tens um texto forte e belo, cheio de nuanças que atravessam universos dos estados psíquicos para desenvolver composições atorais infinitas e cheias de tonalidades diversas onde, na montagem a visceralidade corporal deverá ser o foco. Os conflitos que apresentas, mesmo em uma única leitura superficial minha, são contundentes e entremeados por uma narrativa de acontecimentos paralelos que transmite uma certa modernidade dramatúrgica, quase próxima aos mangás da animação japonesa. Por suas falas fluentes, diretas e também cheias de significados, a montagem exigirá atores de qualidade, prontos para uma investigação interpretativa, meio que pós dramática para não acentuar clichês e em vários momentos até quebrar certos estereótipos comuns que surgem quando atores se debruçam ao redor de um texto desse naipe. Tens na mão um belo desafio!

domingo, 18 de outubro de 2009

Notícia de São Paulo

Alô São Paulo! Não percam o Lançamento do romance “Como deixei de ser Deus” do poeta mineiro Pedro Maciel em São Paulo.
Será na terça-feira, 20 de outubro, das 19hrs. às 22 hrs.
Local: Livraria da Vila Lorena
Al. Lorena, 1731, Jardins / Tel: 3062 1063

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Cabo Frio - Entrevista na TV

Poesia

Carlos Figueredo, Emiliano Sette (com 4 anos) e Rolando Monteiro, em São Luiz do Maranhão, durante a exibição do filme "Nunes Pereira - A Casa das Minas" no ano de 1978. Foto de Ana Lucia Messias.

Mentiras

Emiliano Sette


Quantas mentiras contei

e quantas ainda serão contadas?

Até aí nenhuma novidade

A hipocrisia e a poesia

De mãos dadas na cidade

Sombra na esquina

A câmera vigia sem muita qualidade

Fingimos que não nos vimos

Nos outros e nosotros

Choros alegres

Risos sem vontade

Soy joven Pero no mucho

No me quiero bucho

Acordo cedo

Devo me recolher

Antes do vidro da janela brilhar

Céu azul bebê

Otite de despertador

Torpor de sono

Ardor nos olhos

Arrependimentos que levam

À promessas inúteis

As dores e enjôos

Serão logo esquecidos

Breves ciclos vivos

Modificados a serem repercutidos

Ao gosto do freguês

Retratos feios podem ser bonitos

Dependem da tendencia da estação

Ano, dia e mês

Corte a corte, plano a plano

Gosto não se deglute

Nem política, religião ou time

Sou assim e você é assado

E estamos conversados

sábado, 3 de outubro de 2009

Notícias de Cabo Frio

Crônicas Caiçaras
Faz três anos que eu observo, com a devida distância, os acontecimentos políticos e administrativos da cidade de Cabo Frio, principalmente aqueles que são concernentes as ações culturais dos seus governantes.
Quando chego a um lugar desconhecido, faço como qualquer pessoa educada e de bom senso: primeiro vejo, ouço e só depois falo e expresso a minha opinião a respeito dos fatos.
Nesses anos tenho ouvido e lido sobre os detentores do poder desta rica e bela região e nada de bom eu vi ou li, nada que mereça de minha parte alguma reflexão, ou algum louvor. Vejo, leio e ouço quase sempre atônito, os maiores e inimagináveis absurdos praticados pelos detentores do poder municipal. São de conhecimento de toda a cidade os processos que correm na justiça por gastos indevidos, corrupção, desmandos, etc. São tantas as acusações que daria para encher páginas e páginas deste prestigioso jornal.
Mas acho que ainda não posso externar um julgamento preciso e verdadeiro quanto à conduta desses senhores, por mais paradoxal que possa ser a verdade, porque esses senhores obtiveram o poder democraticamente no sufrágio expressivo da vontade popular e nenhuma acusação grave foi ainda julgada pelo Superior Tribunal de Justiça. Mas o povo quer saber e eu posso perguntar ao governo do PSDB desta cidade, sem cometer nenhuma injustiça: O que foi feito com R$ 1.600.000.000,00 (um bilhão e seiscentos milhões de reais), com todo esse dinheiro arrecadado no período de 2005 a 2008, cerca de 33 milhões por mês, aos cofres da prefeitura? Porque com todo esse dinheiro nada aconteceu de bom na cidade? Não vejo nas ruas nenhuma obra pública; nos bairros nenhuma nova escola, creches, casas populares, saneamento básico; nenhuma proposta de melhoria na saúde, na segurança, na criação de novos empregos, na valorização dos salários dos professores das escolas municipais, ou mesmo na promoção de acontecimentos culturais que incentivem o turismo, realizando, por exemplo, grandes festas culturais que atraem os turistas, a mídia nacional e internacional, etc. Não vou entediar o leitor com tudo aquilo que já poderia ter sido feito.
Meus amigos, qualquer administrador, pouco estudado, mas honesto, como um governante que eu conheço de uma cidadezinha perdida e pobre do interior das minhas Minas Gerais, com bom senso, criatividade e comando político, sabe realizar, com transparência, o que é preciso fazer para melhorar a vida de seus habitantes, podendo promover, com quase nada, uma significante transformação social no seu município. O que será que anda acontecendo com essas cabeças estudadas e experientes que dominam o poder municipal a mais de 12 anos em Cabo Frio? Prepotência perdulária aliada à impotência criativa? Falta de talento político? Demérito de um governo individualista, avaro e autoritário? O fato é que eu sinto a cidade, que conheço desde 1958, avançando inexoravelmente para trás, amargando um futuro não muito promissor com o fim das reservas de petróleo, e o povo vivendo no compasso de espera do que pode ainda acontecer. O quê pode acontecer? Uma nova eleição ou uma cassação? Não sei não!
A cidade está sem rumo em busca de um eterno retorno e assim mantendo-se, enquanto gira a roda oculta do destino, recuada, estagnada, sem graça, aculturada, sem identidade e autofágica, ou seja, alimentando-se de si mesma.
É preciso cobrar do poder municipal, estadual e federal, com urgência, uma política desenvolvimentista para toda região. Essa é uma região rica e privilegiada pela natureza! Venho do interior de Minas, meu pai foi prefeito de sua cidade e eu sei o que é governar sem recursos. Sei o que o talento e a criatividade podem fazer quando não se tem quase nada. Mas aqui, ao contrário, tem-se de tudo que o velho petróleo pode oferecer, muito dinheiro jorrando do mar e simplesmente nada acontece, é incrível! Não é o turismo a vocação cultural e a identidade econômica da cidade de Cabo Frio e de toda a região dos lagos? O que se faz e o que poderia ter sido feito durante todos esses anos, com todo esse dinheiro, para incrementar aqui a indústria do turismo? Pergunte a você mesmo, meu caro leitor-eleitor, o que o atual governo tem acrescentado de novo a cidade? O que os políticos, escolhidos por vocês, geralmente em troca de pequenos favores eleitoreiros, tem feito de bom para a cidade e seus habitantes? Eles poderiam pelo menos inovar na aplicação desta fortuna, aplicando essas gordas verbas no binômio - educação e cultura, que é a ponta de lança de qualquer projeto turístico e desenvolvimentista que se queira simplesmente programar como meta de governo.
Em Juiz de Fora, cidade mineira onde eu vivi uma década, a câmera dos vereadores criou e aprovou a lei Murilo Mendes, que obriga o governo municipal, que sabemos de poucos recursos, disponibilizar do seu orçamento um milhão de reais por ano para incentivar projetos culturais. Porque a cidade de Cabo Frio, cem vezes financeiramente mais poderosa, trata tão mal os seus artistas? Onde estão e o que fazem os vereadores, legisladores e fiscalizadores do bem público desta rica e bela cidade? Quem trata mal ou despreza as artes desconhece o seu povo, vive sem luz, não sabe o que é liberdade, tropeça na memória desgastada, perde o bom caminho e mergulha no caos.
Quando aqui cheguei, eu fiquei amigo de um casal cabo-friense de bom gosto e de fino trato: Jacob e Jô Mureb. Jacob era conservador, por tradição de família, mas tinha uma visão única, de artista, sobre a cidade e seus desafios. Inteligente e criativo, espirituoso e culto, ele me apresentou a cidade e mostrou-me, através das suas histórias caiçaras, que regava os nossos encontros, os problemas que a municipalidade vinha enfrentando e quais eram as soluções possíveis e alternativas, em sua visão empreendedora, para a cidade avançar... Impressionado com sua alegria e seu carisma, insistia para que ele mergulhasse de cabeça na política - vereador, prefeito, quem sabe?... Jacob, você com suas histórias, suas ironias e principalmente com o seu otimismo, esta fazendo falta a roda dos amigos. A sua cidade está triste e sem rumo.
Hoje, meus amigos, além de tudo, uma insegurança financeira localizada e municipal provoca o isolamento do cidadão. A classe média que se refugia nas suas parcas economias, não sai de casa; não se diverte; não consome a sua cultura; vivem sem liberdade, amedrontados e infelizes - não há felicidade para aquele que não tem a certeza do que pode acontecer no dia seguinte.
Precisamos urgentemente, nós, o povo, reclamar, manifestar, exigir e redobrar a vigilância sobre os nossos dirigentes, cobrando com veemência, se necessário, as explicações para todos os descalabros administrativos e todas as difamações que eles, os políticos de plantão, vêm sofrendo calado e no mais profundo silêncio. A cidade está adormecida. É hora de ir para as ruas, fazer passeata, abaixo-assinados, sem medo de represália e exigir, de todos eles, explicações claras e precisas do que vem acontecendo no paço municipal.