ABAIXO TEXTOS - CRÍTICAS - ENSAIOS - CONTOS - ROTEIROS CURTOS - REFLEXÕES - FOTOS - DESENHOS - PINTURAS - NOTÍCIAS

Translate

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Notas para o futuro... (9)

VIVA 2010 !
Aqui, da minha casa, da minha varanda, no alto da serra de Cabo Frio, envolto no bosque do peró, na rede com a minha mulher Raquel, observando o mar de Amaxon, desejo a todos um ano novo menos cruel com a cultura brasileira.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Dez anos depois do terceiro milênio

Veja bem como esse mundo anda em direção do caos.
Depois não digam que eu não avisei.
GRIPE A NOVA ORDEM MUNDIAL!
Urgente! Isto é GRAVÍSSIMO!
NÃO SE DEVE TOMAR A VACINA CONTRA A GRIPE SUINA!
Isto não é alarme sensacionalista, é coisa seríssima!
Tentem responder a este pequeno questionário:
1- Por que a secretaria da saúde, Kathleen Sebelius, assinou um decreto dando total imunidade jurídica aos fabricantes de vacinas contra a gripe H1N1, em caso de perseguição jurídica (por parte das vitimas dessas vacinas, seja por Efeitos secundários indesejáveis, seja por falecimentos)? Isto não parece mais uma licença para matar?Fonte: http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=14487 2- Por que, Madame Bachelot (ministra da saúde em França) pediu no inicio de Fevereiro de 2009 , a um grupo de advogados constitucionais, um memorando sobre a seguinte questão: a instituição de um plano de vacinação para toda a população seria ilegal e inconstitucional? Ao que os especialistas reponderam, garantindo que uma situação excepcional e um estado de emergência sanitária justificava amplamente a remoção de todas as liberdades pessoais!Fonte: http://www.ccne-ethique.fr/docs/Avis%20106_anglais.pdf 3- Por que que a OMS modificou, no dia 27 de Abril de 2009 , a sua definição de pandemia? Antes, para declarar uma pandemia, os requisitos eram muito mais exigentes! Agora, basta que a doença seja identificada em dois países de uma mesma zona OMS!Fonte: http://www.who.int/csr/disease/influenza/pipguidance09FR.pdf (ver pag. 13 do pdf e as explicações nas paginas seguintes)4- Como é possível que a patente da vacina contra a gripe suína (H1N1) tenha sido apresentada em 2008 (muito antes da aparição do vírus desaparecido desde da famosa epidemia da gripe espanhola, em 1918)?Fonte: http://appft.uspto..gov/netacgi/nph-Parser?Sect1=PTO2&Sect2=HITOFF&p=1&u=/netahtml/PTO/search-bool.html&r=3&f=G&l=50&co1=AND&d=PG01&s1=Kistner.IN.&OS=IN/Kistner&RS=IN/Kistner#top 5- Por que obra do destino o presidente francês Sarkozy teve a intuição de ir assinar um contracto de investimento de um montante de 100 milhões de euros, no dia 9 de Março de 2009 , para a construção de uma fabrica de produção de vacinas contra a gripe? E imagine onde! No México, precisamente onde nasceu a gripe suína!Fonte: http://www.sanofi-aventis.com/presse/communiques/2009/ppc_24324.asp 6- Por que, que nenhuma mídia e nenhum especialista nos diz que a gripe normal mata a cada ano entre 250.000 e 500.000 pessoas, ou seja, mais de 1.000 mortes por dia (são os números oficiais da OMS)?Fonte: http://www.who.int/mediacentre/factsheets/fs211/en/index.html (veja no texto por baixo de seasonal epidemics)7- Por que, que toda a imprensa mundial diz repetidamente que o vírus da gripe A irá provocar uma batolada de mortes, quando os factos demonstram que não passa de uma gripezinha (muito menos grave que a gripe normal) que fez apenas 2.000 mortes em mais de 5 meses? A gripe normal faria, no mesmo espaço de tempo, 200.000 mortes !Fonte: http://www.who.int/csr/don/2009_09_18/en/index.html (na tabela podemos ver 3.486 mortes até 13 de Setembro. Um numero ridículo comparado com a gripe sazonal (devo relembrar que o hemisfério sul está a sair do inverno! Deveríamos ter tido milhões de mortes na Argentina, no Chile, no Brasil e na Austrália, segundo as previsões da OMS! Onde é que eles estão?) 8- Por que, apesar destes números de mortalidade insignificantes (2.000 em vez de 200.000), a maior parte dos países fizeram encomendas monstruosas para centenas de milhões de doses de vacinas desde o mês de Junho de 2009 ?Fonte: Não é preciso, isso deu todos os dias nos telejornais. Apenas para relembrar, Portugal: 6 milhões de doses, França 94 milhões de doses, Canadá 50,4 milhões de doses, E.U.A 195 milhões de doses, Brasil: 40 milhões de doses e etc.... 9- Portanto, para quê tomar medidas excepcionais este ano, visto que a gripe é menos virulenta que os outros anos? Quais são os fatos que justificam tais decisões quando não existe nada de especial? Porquê as leis de emergência (lei marcial) já foram aprovadas na maioria dos países (sem revelar o conteúdo)?Fonte: http://fimdostempos.net/gripe-militarizacao-lei-marcial.html 10- Porquê o exercito americano foi implantado em todo o território dos E.U.A ?Fonte: http://www.progressive.org/wx081209b.html (Este artigo menciona que o Pentágono quer aumentar o número dos seus efectivos para cerca de 400.000 no terreno. Mas a maioria dos militares já estão implantados).11- Para quê mais de 800 campos de concentração foram instalados nos Estados Unidos, estes últimos anos (por enquanto, estão vazios)? Porquê que eles são geridos pela a FEMA (Federal Emergency Management Agency), que actua nas grandes catástrofes do território (como no furacão katrina) ?Fontes: http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=12793 http://www.govtrack.us/congress/billtext.xpd?bill=h111-645 http://www.youtube.com/watch?v=1qQ4iFI5Np8&feature=player_embedded (este ultimo vídeo já foi removido (censura), só podia! Mas dizia o seguinte: Neste vídeo You Tube, uma mulher que pretende ser um soldado, explica como ela participou num exercício de repetição na Califórnia, praticando a colocação de barreiras e postos de controle, de modo que as autoridades possam verificar quem recebeu a vacina contra a gripe suína. Aqueles que tenham sido vacinados serão equipados com uma bracelete munida de um chip RFID, a fim de ser localizados e monitorados. Para aqueles que não tomaram a vacina, será lhes oferecida no local, caso continuem a recusar, eles serão transportados para um campo de internamento, de acordo com este testemunho.
Fonte: http://www.alterinfo.net/La-police-et-les-militaires-s-entrainent-a-arreter-les-refractaires-au-vaccin_a36855.html 12- Porquê que nos escondem que em 1918, foram as pessoas vacinadas que morreram de gripe espanhola, e não as não vacinadas? Isso quer dizer que elas foram mortas pela a vacina e não pela a gripe?Fonte: http://www.whale.to/vaccine/sf1.html 13- Porquê que nos escondem que todas as epidemias do século 20 foram provocadas por campanhas de vacinação ?Fonte: http://www.vaccinationdebate.com/web2.html (uma de muitas fontes)14- Porquê que autorizam a adição de esqualeno na futura vacina contra a gripe H1N1, quando esse adjuvante foi explicitamente reconhecido como responsável pelo o síndrome da Guerra do Golfo que, adoeceu 180.000 GI?s (25% dos soldados) após a injeção da vacina contra o anthrax? Saiba que o esqualeno foi proibido por um juiz federal em 2004!Fonte: http://www.rense.com/general87/mill.htm 15- Porquê 50% dos médicos ingleses recusam-se a tomar a vacina contra o H1N1, será que eles não confiam no procedimento de preparação?Fontes: http://www.healthcarerepublic.com/news/935745/Exclusive-GPs-may-reject-swine-flu-vaccine/ http://www.pulsetoday.co.uk/story.asp?sectioncode=35&storycode=4123491&c=2 16- Porque nos apresentam o Tamiflu como um antiviral eficaz, quando todas as campanhas de utilização deste produto foram catastroficamente ineficazes? Mais, este medicamento provoca desordens psicológicas e neurais, provocando em alguns casos suicídios dos consumidores!Fontes: http://www.bmj.com/cgi/content/abstract/339/aug10_1/b3172 http://www.independent.co.uk/life-style/health-and-families/health-news/tamiflu-researchers-warn-of-child-nightmares-1765431.html 17- Porquê que as autoridades sanitárias, que supostamente querem o nosso bem estar e proteção, autorizam que um novo tipo de vacina (segundo suas palavras) seja testado diretamente em centenas de milhões de cobaias (ou seja, nós), sem que os protocolos normais de comercialização sejam respeitados, e sem nenhuma garantia de segurança da dita vacina ?Fonte: http://www.santelog.com/modules/connaissances/actualite-sante-essais-cliniques-du-vaccin-anti-ah1n1-12.000-enfants-am%C3%A9ricains-concern%C3%A9s-_1683.htm
Para quê estas manobras todas? Quem está por trás disto?A instauração de uma nova ordem mundial, com um único governo (ditador, claro!), será que já ouviu falar disso? Não? Então está com umas décadas de atraso na sua informação. Sinto muito pelo choque, para alguns. Mas isto está a acontecer agora. Tudo está pronto. Só faltava um pretexto para aplicar as leis marciais e a carta será jogada! E esse pretexto é uma pandemia mediática que precipitará o publico para as vacinas que ele verá como salvador, mas na verdade será essa arma biológica que acabará com ele (o público).Repito. Esta vacina não tem nada a ver com as vacinas que conhecemos até hoje. É uma arma fabricada com a cumplicidade dos laboratórios. Não há nada a temer do vírus H1N1 (bastante contagioso, mas pouco virulento). A Austrália que está no fim do inverno já fez o balanço. Poucas mortes (88 mortes para uma população de 20 milhões de habitantes), porque eles não tinham vacinas. Será para o próximo inverno (Junho a Setembro 2010) que haverá muitas, quando a vacina estará disponível para eles também.Perca um bocado de tempo a examinar as fontes. E, quando a campanha de vacinação estiver em obra, pergunte-se uma coisa: A pessoa que acabou de morrer será que tomou a vacina? Será que tomou algum antiviral (tipo Tamiflu)? Se a resposta for sempre sim, então você saberá, com certeza, qual foi a causa da morte.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Notas para o futuro... (8)

UMA REVISTA DE ARTE Recebi hoje pelo correio, aqui em Cabo Frio, a revista Portfólio Brasil dedicada ao artista plástico, arquiteto, escultor, designer, cineasta e meu amigo Paulo Laender.

Conheci esse artista polivalente quando em 1962 me mudei para Belo Horizonte vindo do Rio de Janeiro.

Éramos quase crianças.

Paulo foi pra mim, devo confessar, mais que um amigo, ele foi, na minha adolescência provinciana, o corte sistêmico entre o ver, sem saber e o saber ver, sem corte.

Ver, com os olhos livres e depois ter visões, que é o princípio, o estalo cosmogônico, no pensar e no realizar de uma obra de arte, foi ele quem me mostrou que existia outra realidade, outro mundo, mais inteligente, mais sensível e mais culto.

Foi Paulo Laender que me contaminou com as musas gregas, as filhas de Zeus e Mnemósine, e me inspirou a abraçar e a entender o que é o talento, o sopro criador que nos possibilita inventar, experimentar e criar uma obra de arte.

Desde que o conheci ele já manifestava, de maneira singular, esse dom.

Lembro-me que ele montava umas caixinhas com bonecos em seu interior, como oratórios profanos, que eram, aos meus olhos de aprendiz, mágicas e misteriosas.

Como eu admirava a sua habilidade no tracejo e no entendimento, inocente ainda, da composição, das formas e do equilíbrio das cores, em suas primeiras pinturas.

Crescemos juntos, posso dizer. Ele sempre na frente como um guia as minhas aventuras infanto-juvenis.

Foi ele quem me levou ao alto horizonte, o bar do ponto, ao restaurante do edifício Maleta e me apresentou aos principais artistas e intelectuais da minha época.

Paulo Laender, é preciso que se diga, dirigiu um filme primeiro do que eu – “Tostão, A Fera de Ouro” - produzido pelo saudoso cineasta e crítico de cinema Maurício Gomes Leite.

São muitas as histórias que passamos juntos, daria para escrever outras revistas, mas é como eu falo pela boca do meu personagem no filme Amaxon: - Que mistério profundo une as pessoas e depois as separam?

Esse mistério se dissipou quando hoje, chegando do Rio, recebi, na portaria do condomínio onde moro, o envelope pardo com a preciosa lembrança.

Surpresa! Paulo Laender na capa peb de uma bela Revista, muito bem editada, tendo no corpo editorial a presença, na criação e direção de arte, do seu filho Cris, de gratas lembranças, mostrando todo o seu talento, em um trabalho primoroso; isso sem dizer das fotografias – espetaculares, pois penetra entre luzes e sombras, em todas as suas tonalidades e nas cores necessárias e muito bem iluminadas, quando se quer mostrar o espaço ocupado pela obra, nos fazendo sentir a dimensão do objeto. Também com a assinatura do excelente e talentoso fotógrafo, meu amigo Rogério Franco, você não podia ter nada melhor.

Os textos críticos e elucidativos do Ângelo Osvaldo, Frederico Morais, Márcio Sampaio e Olívio Tavares, são escritos com saber e admiração pelo seu trabalho, conseguindo nos levar a compreender, em um lance de olhos, toda a beleza e todo o mistério gaudioso que impregna suas pinturas, esculturas, objetos e abstrações repletas de imagens e símbolos mnemônicos.

O artista mais uma vez me surpreendeu por ser guiado com tal nobreza por esses bons observadores da arte brasileira que através do tempo e da convivência contemplaram todo o seu talento criativo.

Sua obra é de um equilíbrio raro, passando-nos pelas fotografias vistas, uma a uma, um sentimento de grandeza simbólica, sem se perder na singeleza e na harmonia das ondas e das curvas talhadas nas madeiras superpostas. Transforma e recria, a sua maneira, a natureza das coisas. Revela-nos outros mundos, outros objetos, ainda perdidos, mágicos ainda.

Obra essencialmente universal, argila ungida com arte e engenho por sua alma mineira, tangida pelo mar de montanhas que envolvem o seu espaço físico de trabalho em Nova Lima.

Alma introspectiva e dogmática, que viaja pelo mundo das artes, livre, sem fronteiras, guiado pela identidade brasileira, mineira, provinciana, de artesão, cabôclos dos idos longínquos perdidos no vale do Mucuri, miscigenado ao seu profundo conhecimento das obras dos grandes mestres, de todos os tempos, característica que podemos observar através da montagem cronológica das páginas coloridas desta Revista, na diversidade cultural dos nomes escolhidos, para cada uma de suas obras e nas cores muitas vezes volpinianas-mironianas- braqueneanas- das festas e do folclore das cidades históricas mineiras e a influência do barroco na estravagância de suas formas.

Viajando com ele, nos objetos, pinturas e esculturas e principalmente em sua trajetória como artista, nos é desvendado, onde o sentir são mais bocas do que olhos, o delicioso banquete de arte de primeira que nos é oferecido enquanto saboreamos as páginas desta revista imperdível.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Respostas na linha

OLHAI BEM ESSA BANDEIRA E VEJA SE ELA POSSUI O TOM AMARGO DA ABJEÇÃOAlguns emeios recebidos a respeito do filme Amaxon e dos Festivais de Cinema que o reusaram...

Sérgio Santeiro – cineasta

infelizmente é verdade, estamos aprisionados na máquina oficial de fazer dinheiro no cinema com o dinheiro de nossos impostos. Não é um acaso, é o que nos priva de conhecer a revelação dos filmes feitos para nos revelar o mundo que é pra isso que o cinema foi criado.Entretenir sim mas não com a mecânica repetição do sempre visto, precisamos do nunca visto para continuar a ver. A mecânica implantada pelo poder no cinema brasileiro com a complacência e a cumplicidade de muitos dos nossos afunila e exclui quase tudo em favor do muito pouco.Muito pouco é muito pouco, nenhum filme substitui nenhum outro. Se querem a bobajada de vocês precisam também veicular a nossa, e então veremos qual a que fica.Lamento muito, há muito tempo, que as mirabolantes peripécias oficiais fiquem aí espalhando recursos públicos um pouquinho pra cada lado e um tantão pros que esbanjam no simulacro festivo e macabro que acham que é o que vale.O que vale é o que se faz e se cria, não é o que estes poucos carinhas escolhem. O papel do estado é veicular o que se cria. Vigindo um mercado aberto para o cinema que se faz no país, nem precisaria dos funis burrocráticos. Cada filme se ajustaria a seu público.No ano por vir, 2010, será que enfim poderemos ver os filmes que esses manés escondem? Se não, ou desde já, é preciso uma rebelião declarada, precisamos juntar-nos, e invadir seus palácios, somos nós que os estamos pagando.. s.

Pedro Maciel – Poeta

Não desanime, meu amigo... Busque a sua alma
nas profundezas das águas do mar...
Há sempre um tempo ou um mundo
para ser redescoberto... O tempo é de ninguém...
abraçosempre de quem muito o admira, Pedro
PS: Rimbaud diz que a eternidade é o sol misturado ao mar.
Nós Estamos Aqui: O Pálido Ponto Azul (Legendado)

http://www.youtube.com/watch?v=EjpSa7umAd8&feature=player_embedded

Guilherme Vaz - Músico

Bom , eu conheci o Sette apresentado pelo Eliseu Visconti autor do extraordinário " Os Monstros de Babalao " , o maior ensaio psicanalítico e social sobre o Brasil que conheço , de longe mais adiante que os do Glauber _ sem pena nenhuma _ é verdade . A verdade faz bem . Bom , nada de novo , nada de novo , na indecência dos fatos que o Sette cita , o pais é indecente , no mais perfeito sotaque , com raras exceções aqui e ali . Podem acontecer a todos " é sociologia genérica brasileira e não particular , nem pessoal " , o Eduardo Mascarenhas me falou , memorável , " que a mente voa mas a alma é uma tartaruga " _ e é mesmo o que é . Vejo mesmo que as próprias sinfigurações da Guerra dos Alfaiates na Bahia não mudaram , nem da Inconfidência , nem de Guararapes , a violência sempre acompanha os que pensam neste mandiocal de abandonados . Um abraço , Guilherme Vaz _ .
http://opiniaoenoticia.com.br/cultura/entretenimento/tamboro-de-sergio-bernardes/?ga=dtf

Eduardo Barioni - cineasta (que trabalha na Escuela Internacional de CIne y TV de San Antonio de los Baños – Cuba)

Olá José, bem, estive no Festival de Habana, e se te consola, o nível dos filmes estava não mais que medíocre. De fato, o nível do festival está caindo mais e mais, e já não entendo a lógica de seleção de seus filmes.Trabalho na Escuela Internacional de CIne y TV e lá temos uma grande filmoteca, na qual gostaria de ver AMAXON presente. Há possibilidade de você me enviar essa cópia aqui para São Paulo, onde passo férias, para levá-la no dia 10 de janeiro?Creio que é absolutamente necessário para quem está estudando cinema, para ampliar sua visão sobre as possibilidades do fazer cinematográfico.Se tiver legendas em espanhol, melhor ainda.um grande abraço Eduardo

Geraldo Veloso - cineasta

Querido José
Estou chocado com o teu relato e, prá variar, tentando organizar a minha cabeça para pensarmos numa estratégia de reação a isto. O nosso encontro em Ouro Preto (além de ameno e afetivo) teve, para mim, um significado histórico. Saí dali elucubrando uma forma de buscarmos um projeto político (e porque não empresarial) e poético que desse a oportunidade de muitos (e são muitos, tenho certeza) espectadores verem nossos filmes. Em função disto estou criando um projeto que chamei de Consórcio Mineiro de Audiovisual que tem um elemento fundamental na sua operação: a DISTKINO Audiovisual. Há, em torno desta idéia, a criação de um circuito (liderado pelo velho CEC) de cineclubes digitais. A idéia é apresentar, semanalmente, em espaços com projetores digitais (há já muitos pelo Brasil afora e onde não houver proporcionaremos um tipo de atuação que os dê a chance de se aparelharem), filmes "fora do programa" (só numa primeira conta, relacionei uns cinqüenta títulos que nunca chegaram ao público potencial formado por uma rede que poderá se concretizar com esta iniciativa). Não temos de ficar esperando uma chance dessa comunidade de micro poderes sedimentados em grupos ignorantes e mal informados. Nós não estamos na pauta deles. Precisamos criar a nossa pauta. E impô-la de forma agressiva (para que seja vista voluntariamente por um público que, como disse, tenho certeza ser de milhares pelo país - e pelo exterior - afora). ... Um abraço do amigo que o admira Geraldo Veloso


Mario Drumond – Editor – Roteirista – Produtor

Respondo, pela Gazeta, ao seu texto de justo desabafo, que segue na íntegra (e com os erros corrigidos), porque creio que o papo seja de interesse geral e as informações nele contidas são importantes e devem ser divulgadas. Suprimi apenas a crítica de Luiz Rosemberg, pois já a publiquei aqui. Começo por uma frase que o saudoso Rogério Sganzerla gostava de citar, parafraseando Fidel Castro, mesmo sabendo que ela não diminuirá o seu desânimo e até corro o risco de que ela o aborreça ainda mais.
Mas vou insistir: “a História está a nosso favor”.
Com ela, eu quero lembrá-lo de que você não está só, que o seu caso não é único e que eu me considero tão penalizado quanto você e os demais companheiros que atravessamos o interminável deserto sem miragens (isto é, sem visões, sem cinema) em que se transformou a comédia desumana da criação nacional, na infeliz quadra das três últimas décadas.
Não é que antes estivéssemos em terras férteis; já nos havíamos com um deserto, mas, com belas miragens e alguns oásis. Lembro-me bem que, juntos, no último oásis em que se constituiu a Oficina Goeldi, quando, em 1980, abrigou o Encontro de Cinema Independente que o Sylvio Lanna agitou aqui em BH, tentamos – e conseguimos – plantar coisas, e fazê-las vingarem. Nós, que na juventude recusamos vender nossas almas ao diabo acreditando que seríamos capazes de resgatar o mundo de suas mãos, enfrentávamos de peito aberto todas as tormentas, e de muitas saímos vitoriosos – e como! E foi assim, cada um por sua via, mas ambos crédulos, sem mais nada a não ser a confiança em si mesmos, é que adentramos corajosamente o deserto, esse labirinto sem paredes, em que ainda permanecemos buscando uma saída.
Quando, depois de alguns passos irreversíveis na aridez espinhosa em que nos metemos quase sozinhos, percebemos a derrota, até tentamos negociar com o diabo, mas era tarde... Eu, mudando-me com a Oficina Goeldi para São Paulo e, anos depois, para o Rio. Você, entregando de mão beijada a sua obra cem por cento brasileira e a sua própria carreira de cineasta nas mãos de Mefisto em pessoa, na doce crença, talvez por não ver outra alternativa no horizonte, de que, por um milagre que jamais aconteceu, ele se tornaria o seu anjo da guarda. A ambas, obra e carreira, Mefisto desde então sequestrou do público (pagante e não pagante). O inferno só negocia com carne fresca e tenra, José, e nós já estávamos para lá de maduros. Mesmo sabendo que este inferno latino-americano é um inferno subdesenvolvido, morno e que só tem para negociar mal resolvidas questões de pecúnia (nunca a Glória – esta é capital exclusivo dos diabos do norte), nós queríamos, sim, e tentamos negociar. E só conseguimos a lista negra, compadre.
No entanto, se não podemos culpar a ninguém, exceto a nós mesmos, pelos dissabores que sofremos, não caminhamos em vão: se ainda não vingaram nem deram frutos os nossos plantios dessa quadra, a verdade é que em nenhum momento deixamos de cultivar sementes raras, bravas e resistentes que haverão de brotar mesmo no deserto e alimentar os passos peregrinos dos que virão depois de nós. É a História. Nós enganamos o diabo, José. Amaxon é filme para uma platéia futura, a que um dia renascerá da que morreu com Glauber Rocha, em 1981.
Cuba tem sérios problemas estratégicos para enfrentar e não pretende aumentá-los escolhendo filmes brasileiros para seus festivais de cinema. Mais fácil para Cuba é deixar que o diabo daqui o faça. Por sinal, o mesmo que decide quais filmes entram no festival potiguar, no das peruas de Tiradentes e no de Quixeramobim. Você crê que alguém decide o que da produção nacional vai ser exibido nas telas, as pequenas e as grandes, daqui e de fora, a não ser ele (ou “eles”, como diria o Fredera)?
Recordo-me que, no Encontro de Cinema Independente, era forte o espírito do Glauber, mesmo sem que estivesse presente, e o Sérgio Santeiro fez uma inesquecível defesa da obra dele, desfazendo muitos dos aspectos negativos da criativa polêmica que então se travava entre Glauber e os independentes, com as proas de Júlio e de Rogério.
O Festival de Brasília de 1981, que, com Um Sorriso Por Favor, ganhamos com valentia oswaldiana e glauberiana, foi o primeiro sem Glauber, que fora assassinado há poucos meses, e ali percebemos, como nunca antes, a falta que ele fazia (e faz!). Glauber possuía o dom inigualável de denunciar, desmascarar e desmontar, com impiedosa habilidade, toda a charlatanice velhaca dos que tentam frustrar, fraudar ou mudar a História, como os atuais organizadores de festivais que nada sabem ou não aprenderam daqueles que os antecederam e que deveriam reverenciar - para citar só alguns: Cosme Alves Neto, Wilson Coutinho, Frederico Morais, Ronaldo Brandão, entre outros mestres em arte e cinema que tivemos o privilégio de conhecer de perto, e recebendo deles a consideração e a admiração com que sempre contemplaram a nossa ousadia criadora.
O que já é definitivamente História e que muito nos orgulha. Por que alguém tentaria frustrar, fraudar ou mudar a História, se nenhuma dessas pretensões é possível de realizar-se, uma vez que o passado é imutável?
Elementar, meu caro leitor: é que a História está contra “eles”.
José, receba a solidariedade deste seu companheiro de sucessos e desditas; você, exímio escritor audiovisual, não precisa se desculpar por erros de ortografia e digitação.
Um forte abraço do Mario Drumond

Fábio Carvalho - Cineasta

Querido José Sette,
você não precisa de justificativas nem de correções para seu desabafo.
Eu que estou excluído até das listas das abds - o quê significa isso mesmo? Te digo que a coisa está feia. Também acabo de ser recusado
para Tiradentes com o "O Filme Da Montagem" "Facebook" uma abstração
sobre à música de Jimmy Hendrix e do Tim Maia e "Nevillle de Bracher"
este feito em Ouro Preto durante o outro festival delas mesmas.
Mandei para o festival do "filme Livre" estes mesmos e um outro dedicado à você "100% Phoênix", vamos ver o que dá. No mais vamos passar o réveillon no Rio, vamos nos ver? Grande abraço Fábio

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Dicas para alegria geral

A escultura da artista mineira Ofélia Torres, foto, foi selecionada para dezembro de 2010 em uma mostra de 20 artistas plásticos brasileiros em Paris, no museu do Louvre. A primeira cópia já está na Galeria Oscar Araripe em Tiradentes.

xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx

Recebida do meu filho, músico e compositor de Juiz de Fora - MG - que realizou magistralmente algumas de minhas trilhas cinematográficas José Luiz Vieira.

Garoto (Aníbal Augusto Sardinha) é violonista e compositor. Filho do casal de imigrantes portugueses Antônio Augusto Sardinha e Adosinda dos Anjos Sardinha, foi o primeiro a nascer no Brasil. O pai tocava guitarra portuguesa e violão. Desde muito cedo interessou-se pela música, iniciando seus experimentos em uma viola improvisada de pau e corda. Desde os 11 anos de idade, começou a trabalhar para auxiliar no sustento da casa, empregando-se como ajudante numa loja de instrumentos situada no bairro do Brás. Seu primeiro instrumento, um banjo, lhe foi dado por seu irmão Batista, que além de dedilhar o instrumento, era violonista e cantor. Ao longo de sua carreira, estudou música com Atílio Bernardini e composição com João Sepe, cursando matérias afins com Radamés Gnatali, de quem foi grande amigo.para baixar o CD : www.mediafire.com/?o0myjmhjn5d
xxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx


Recebida do meu amigo e produtor de alguns dos meus filme, Mario Drumond.


domingo, 20 de dezembro de 2009

Último Libelo

Não queria mais falar sobre o complexo e misterioso sistema que movimenta o cinema brasileiro, mas, com as últimas notícias recebidas, não posso me furtar a algumas verdades e tenho que escrever, talvez, um último libelo sobre a ignorância dos organizadores de mostras e festivais de cinema por todo o país e também no exterior.

O cinema, para mim, mais que a literatura, é uma leitura sofisticada do saber humano aos olhos de um observador atento. Um observador que saiba ver e tenha visões.

Alguns observadores são distintos: um intelectual bem informado; um bom artista; um ser inteligente, alguns pretensiosos, destrutivos; um crítico pernóstico, invejoso; um taumaturgo apaixonado pela magia do audiovisual; um déspota disposto a por fogo em Roma; um anarquista desordeiro; um músico sensível e outro ordinário; um pintor de quadros e outro de paredes; um burocrata arrogante; um profissional libertino; um liberal punheteiro; prostitutas e madames, autores e estrelas.

Para cada espécie de observador existe um texto, um filme específico, que na certa eles vão se identificar e gostar, mas a grande maioria dos que observam a grande tela, são diletantes, pessoas que entram na sala de cinema levada pela mídia, hoje massacrante, das grandes empresas de comunicação.

Essas pessoas, da classe média, que não passam de 12 milhões de espectadores, em um país de 300 milhões de habitantes, é o público alvo para os grandes sucessos dos filmes nacionais e estrangeiros. São eles que geram o aumento da fortuna daqueles privilegiados que já estão muito ricos, produtores e exibidores de cinema, pois fazem e continuam produzindo no Brasil os seus filmes comerciais com os milhões necessários da renúncia fiscal. Pergunto: por que não se cria um cine banco de investimento para os filmes que pretendem conquistar o grande público?

Digo isso para mostrar que os festivais de cinema no Brasil, também produzidos com valores superiores a um milhão de reais e incentivados com dinheiro da renúncia fiscal, deveriam continuar a existir, mas que fossem precisamente direcionando o observador atento as novidades do mundo cinematográfico, para o novo, em termos de estética e linguagem, que o cinema contemporâneo e de invenção, feito no país, está criando, geralmente filmes de baixíssimo orçamento, novos e experimentais e não, unicamente, se direcionar para os filmes que têm todas as mídias a sua disposição, com lançamento simultâneo em salas por todo Brasil. Para que eles precisam dos festivais?

Não estamos falando que se devem eliminar as grandes produções de serem exibidas nos grandes e pequenos festivais, são mais de cem no Brasil, mas sim, que cada festival tenha espaço de divulgação para um cinema inventivo, visionário, poético, diferente daquilo que o seu público já está acostumado. Na questão do filme Amaxon, meu único interesse era de exibi-lo, de graça, para um público seleto que freqüenta os festivais – nada mais.

Nunca, nenhuma das três cidades citadas, poderia recusar uma única exibição deste filme, que é, no mínimo, uma contribuição nova ao famigerado universo das artes cinematográficas brasileira, principalmente, se ele foi realizado por um diretor – produtor – fotógrafo – roteirista – editor - experiente e consagrado, por mais de vinte filmes de longa, média e curta metragem, alguns deles até premiados. Alguma coisa anda errado com as cabeças privilegiadas deste país.

Faz muitos anos que não mandava meus filmes para nenhum festival de cinema. Eu já sabia quais eram os critérios adotados por todos eles – a exibição e seleção única dos filmes que possam interessar ao grande público, excluindo todos os outros que possam criar polêmicas desnecessárias a indústria do entretenimento.

Por insistência da família, preocupada com o meu isolamento, pedi ao jovem fotógrafo do meu filme que remetesse um DVD para os últimos três festivais que no final deste ano apresentavam-se abertos a novas inscrições. Pareceu-me interessante a experiência – Cuba – Natal – Tiradentes, e me preparei para o pior – pois, fico arrasado quando se recusa o óbvio irrecusável.

É quase um acinte: o filme foi sumariamente recusado, como eu previa, pelos três festivais.

Recusado três vezes pela ótica mercantilista, retrógada, mesquinha, insensível, colonizada, cega e estúpida, destes observadores desatentos de porta de festival, principalmente os nacionais, os de Natal e de Tiradentes.

Pensando bem, podes crer que eles estão certos em recusar o meu filme – polêmico, anarquista, novo, inteligente, poético, inventivo – diferente de tudo que eles tenham assistido na suas insignificantes vidas. Para um amador é difícil aceitá-lo. Eu é que estou errado em ter mandado a suas considerações a minha pequena obra-prima. Mas a recusa de Cuba, em mim, foi a que causou o maior espanto. Eles podiam até não gostar do filme, mas, talvez, por não entenderem ou se sentirem agredidos com o enorme caralho que avança na mão de uma donzela angelical, numa dança erótica, em direção ao assustado burguês. Ou, talvez chocados com a poesia louca, abstrata e inventiva da criação? Mesmo assim não tinham o direito de censurar um filme que é libertário, mas também de vanguarda e posso até dizer comunista, pois trata-se de um texto poético sobre o massacre capitalista contra a liberdade de criação de uma escritora, de uma artista, encurralada pela vida.

Espero que a cópia em DVD deste filme caia em boas mãos, nos bastidores da burocracia e seja pirateado, para que muitas pessoas, independente da censura dos festivais, possam assisti-lo. Pois na certa não ficarão impunes ao que ele tem para dizer.

Quanto a vocês, organizadores de festivais estatais do cinema brasileiro, que nunca fizeram cinema, mas que vivem e muito bem dele e que estão sempre acompanhados por jovens burocratas da arte, vampiros oriundos das universidades dos picaretas, vips que se espalham pelos brasis afora, viajando como consultores, sensores, selecionadores, jurados e professores de oficina de cinema, que vivem como nômades a custa do erário e que são muitas vezes também financiados por fundações hostis aos interesses nacionais, é preciso que eles aprendam a respeitar os seus artistas mais velhos, que ainda permanecem rebeldes e iconoclastas, mesmo sem compreendê-los, pois eles representam o seu futuro.

Para não dizerem que falei em causa própria, e que se o filme não entrou é porque não merecia, eu gostaria de repetir aqui o texto completo da primeira crítica que obtive do filme:

AMAXON (Primeira Crítica)

“Uma coisa são sempre duas: a coisa mesma e a imagem dela. ”CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE “AMAXON, UMA ODISSÉIA NA CRIAÇÃO PENSADA “Em memória de Jairo FerreiraTalvez tenhamos nos transformado nessa máquina horripilante de negação dos sonhos! E no que trituraram todas as singularidades, fomos transformados num exército de múmias, de burocratas, de deslumbrados e idiotas. Uma nova encenação do que seja, não pode ser mais uma condenação a nociva prostituição, achatada à TV. Deve-se ousar na desarmonia, do desnudamento da carne e do abandono na subjetividade. Ora, se o cinemão se realiza sem subjetividade criativa alguma, a nós deve interessar fundamentalmente uma nova linguagem gerada na teatralização de transcendências. Acrescente-se a isso que o país vive do seu esvaziamento a 509 anos, e mais programadamente a 55 anos. Ou seja, desde o golpe militar de 1964. Ora, como purificar artesanalmente esta quantidade infindável de urina e excremento?“AMAXON” é um esforço poético-radical, para nos fazer pensar na complexidade do processo criativo. Ora, de que nos adianta fazer trabalhos de encomenda? Cinema virou filminho publicitário? O que muda nessa falência global de desencontros? O mundo hoje visto pela TV, é só o lixo como mercadoria de quinta, obviamente espetacularizado. Putas e canastrões são vendidos como profundos e sensíveis. Mas a quê? A “nota”? José Sette vai no sentido contrário de tudo e todos, elaborando com o seu terceiro longa-metragem, uma projeção de palavras a serem pensadas, fazendo um delicado filme que dá representabilidade a um pensamento sombrio expressivo, nessa sua transfiguração da normalidade do processo de criação. Sette vai aos extremos, numa escalada implacável rumo à uma poesia ainda que delicada, difícil para o grande público, todo condicionado a Hollywood e a TV. “AMAXON” é o hospital-Brasil, em que todos somos condenados. A personagem da escritora reage ao internamento e tratamento, e se debate com uma coragem incrível. A linguagem do filme atravessa uma infinidade de vísceras, infernos e imaginações. A carne-viva exposta, torna-se uma espécie de gozo-trágico. Um filme-dor que nos remete ao teatro de Artaud. Incomodo aqui. Indizível ali. Longe e próximo de todos nós que sobrevivemos ao apocalipse de 1964. Não poderia ser um filme diferente. Foi difícil não apodrecer junto, e continuar sonhando com um Brasil mais justo, humano e para todos. Ainda assim, salvaram-se os poetas e artistas. Vera Barreto como escritora, é uma espécie de vísceras expostas; sendo recolhidas para continuar a ser demasiadamente humana.Pouco importa que não seja um filme fácil, ou para muito. É cinema! Uma cinema que emerge de toda essa putrefação de 1964 à 2009. Sette trabalha com precisão a sua não-linguagem fácil, pois lhe interessa mais um fluxo poético de contradições gramaticais voltadas para o pensamento-profundo e o cinema autoral. É o velho-jovem cineasta independente que agiganta sua escritora na solidão e na coragem de não ser comum. Que entre só sofrer e morrer, prefere escrever enfrentando os seus muito demônios. Que lê, bebe, fuma... se debatendo entre contradições geradas na TV, por um jornalista que como todos, espetaculariza o caos ameaçando com a onda gigantesca, definitiva. Onda que até é mostrada, mas que não chega pois é apenas uma manipulação da comunicação, do dinheiro e da morte que sempre nos acompanha.E se a representação do mundo e da política se tornou imbecil, compete a arte transformar todo esse excremento, numa espécie de teatralização de uma “escrita-física” que Vera Barreto faz muito bem, num trabalho raro e exemplar, onde se realiza em sua intimidade frente a insatisfação da obrigação: a do livro de encomenda que precisa ser escrito. E uma vez mais, o conceito de subordinação ao dinheiro como a arte terapia dos tantos e tantos eletrochoques de nossas vidas. É onde os porco se acham mais fortes.Entre livros e copos de vinho, em sua solidão pensa na grande onda da sua insatisfação. A onda que está fora, está dentro e que desencadeia contradições levando-a nua aos seus próprios limites grandiosos de exposição poética. É uma escritora, mas é também atriz e mulher. E que ao entregar-se as suas pulsões transforma-se em crítica de si mesma, ainda que aguçando o seu desprezo pela “lógica” imperceptível da mercadoria e do consumo. O sistema sabe bem o que faz, e se não tivermos um mínimo de sonhos, seremos transformados em imagens despotencializadas e vazias. A TV não faz isso todos os dias?Sette não faz um cinema-coisa, a logo ser esquecido ou descartado. Nesse ponto aproxima-se de Tonacci, Sergio Santeiro, Eliseu Visconti, Jorge Mourão e da nova geração. E se “o mundo é apenas engano”, como afirmava François Villon, “AMAXON” o subverte desprezando o patamar qualitativo do sucesso fácil. Arbitrário, como postura, investe no estilo insurrecional como ruptura e negação do obscurantismo avançado da domesticada política cultural do governo, seja lá de que Partido for. E não são todos iguais lutando apenas pelo poder? E se a chantagem e o obscurantismo servem ao poder, de nada serve um cinema essencial a representabilidade de uma vanguarda que não conseguiram matar. E que hoje convence muito mais que no passado.É preciso frisar a importância de um filme feito do nada e que não se reduz a razão que tudo tenta explicar. Nesse sentido reintroduz no cinema brasileiro, complexas subjetivações necessárias ao crescimento de um público menos contaminado por Partidos, por prostíbulos e pela TV, pois transgride permanentemente a ordem como instituição sagrada. A Sette e sua equipe interessa abandonar o manicômio das disciplinas do certo e do errado, sem sacrificar mais nada. Ao seu cinema interessa as diferenças e os deslocamentos possíveis, como acesso a um permanente ultrapassar-se. Sua trajetória é impar no nosso cinema. É um experimentador muito além do buraco negro em que transformaram o cinema brasileiro, e que fez um novo filme de uma lucidez atrozmente insuportável.Sette torna profundo e feminino o discurso da personagem da escritora, e com suas imagens poderosas desfaz o território pouco ou nada significativo da TV, pois faz Cinema! Dá significação a um novo olhar. Enfim, produz intensidades poéticas. “AMAXON” são pedaços restituídos a um corpo ainda que amordaçado pelo tempo que passa para todos, poderoso e uma vez mais agigantado, pois se assume, indo além da representação e da escrita. E a vida que não deveria ser pobre e empobrecida como é, torna-se gozo por parte de todos. Filme infinito ao reinventar a criação simbólica imperfeita. Ainda bem.LUIZ ROSEMBERG FILHORJ, 2009

Notas para o futuro... (7)

Di Cavalcanti - garota de ipanema


Oração a Santa Tereza.

O diálogo continua... Só que retrocedemos no tempo 35 anos vividos.

- No século do progresso; neste janeiro efervescente; nos últimos dias modernistas; neste final de milênio; observa-se, de binóculos, uma destruição, uma desinformação cultural, que vem abalando a identidade secular das Américas.

-Ah! Cegos de espírito e pobres de prazer, ricos de matéria no abastado reino e do abstrato mundo dos neófobos e pobres de sabedoria e de liberdade.

- Os prepotentes do universo criam o veneno das serpentes e a baba dos bichos peçonhentos - víboras da terra, vermes tropicais, juramento de crente, óbolo dos dementes.

- São sempre os eternos senhores que sussurram em suas alcovas à uma puta qualquer, sua mulher, teorias de uma nova escravidão das massas populares.

- Sindicalistas, uni-vos! Poetas e proxenetas - fodam-se! Políticos, pardos personagens urbanos - fujam! Gorilas e gatos, soldados que passeiam nos telhados alheios e com prazer passam pisoteando levemente as patuléias - morram todos! Marginais, sejam heróis!

- Pelas antenas desligadas dos televisores de cem milhões de vítimas, o brasileiro morre na onda de quem já foi rei e hoje é destruído enganado e balança no poste do coitadinho.

- A platéia aplaude o fracasso da revolução à nossa esquerda...

- Terá um fim (enfim) o movimento alienígena do massacre nacional.

- Não podemos pedir uma vitória imediata de quem iniciou a marcha revolucionária ainda neste milênio. A humildade está para o reconhecimento assim como o saber para a vontade humana.

- A morte sentada nas asas negras de um morcego gigante persegue a todos nós, dia e noite, sem parar.

- O medo da fome e da bala amarga de um fuzil, imprime no meu corpo um saber misterioso sob o véu estúpido da ignorância.

- Os poetas sobem o Araguaia. Atores e artistas também.

- E os autores vigaristas?

- Fodam-se todos vocês na glória de um estado sindicalista autoritário que não tem piedade nem compaixão com a liberdade de criação.

- Nossas almas foram vendidas aos interesses inconfessáveis de um novo império globalizado e nos sobraram o abandono e a morte...

- É o dado da sorte quando a tortura é a gorjeta.

- Há no Brasil muito pouco espaço entre o turista e o aprendiz.

- O cinema novo foi o grande culpado da transformação...

- Do nada para o pior ainda

- Mudança é evolução. Édison Machado é samba novo perdido nos confins americano. Brasília é Juscelino exposto numa explosão de megatons em nossa insanidade.

- Bandalheira Infernal é o meu cinema perdido nos festivais enquanto o público ignora o revanchismo histórico de miseráveis fantasmas.

- Minha avó me dizia que quando a maré não ta pra peixe o melhor e rezar para Santa Tereza, e me recitou um poeminha cristão elucidativo que um beato de nome Simão ensinou e escreveu pra ela lá pelos anos de 1906, dizendo que era canto protetor:

- Morre na pobre cela de um convento
toda de branco uma donzela pobre.
Os sinos enchem de aborrecimento,
as solitárias monjas com seus dobrões.

Naqueles corações canta a tristeza
um hino feito de emoções suaves.
É a alma branca de Santa Tereza
voando para o céu levada pelas aves.

Tinha no corpo a cândice de um lírio
e a carne macerada de martírio,
nunca pecou, nem sonhou o que é pecado

Qual avarenta pomba que morria
o cadáver pálido parecia
uma noiva enfeitada para o seu noivado.

sábado, 19 de dezembro de 2009

Notas para o futuro... (6)

O diálogo continua entre o professor de cinema e o aluno...

- Não quero mais falar, por enquanto, do cinema de arte e seus algozes. Quero agora lhe dizer sobre o caminho tortuoso do homem brasileiro.

- Mas eu pensei que já estava resolvido este assunto com o governo social do partido dos trabalhadores...

- Meu querido, nada foi ainda resolvido e olha que não tivemos pessoa melhor no poder para começar a resolver as questões fundamentais da grande família brasileira do que este nordestino faminto...

- Você viu o filme?

- Embora nascido em berço esplêndido, você é um garoto sensível a boa arte... leitor na infância dos clássicos, sacou em pouco tempo, os modernistas e embarcou no sonho de que só a boa arte pode mudar o homem e o mundo.

- Me tornei um rebelde!

- Sim!

- Os homens
num sentimento primário
do sentir e do saber
na complexidade dos códigos
contemporâneos
desconhecidos do poder
exilados
cobrem-se de vergonha
e totalmente cegos qual Prometeu
sem conhecerem Ulisses
acorrentados
se arrastam sob o domínio
de Penélope

- Entre o trágico e o cômico
entre as mulheres
discernindo
entre o mito e a lenda
jamais de novo os novos
novamente existirão.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Poema de 1978

POLONESA BAILARINA

O sol poente se esconde
por de trás das montanhas
de Minas
da praia eu vejo
lá longe
Ouro Preto, Barbacena, Leopoldina.
Ah! Polonesa bailarina
ao seu lado vou me deitar
deslizando na pele branca e fina
suave e luxuriosa menina
passo o dia a pensar:
“ Se a rosa traz amor à quem a toca
por mais puro que se apresenta tê-la
sucumbir nos espinhos pouco importa
tocá-la nesta noite é querer vê-la”

domingo, 13 de dezembro de 2009

Notas para o futuro... (5)

A Conversa Continua
entre o professor e o aluno de cinema.

- E como é ganhar a vida? Meu cinema digital, sem produção, ainda vai dar muito dinheiro...

- CineArtesão! Assim eu chamo esse cinema feito com equipamento digital e de edição caseira, onde o autor e quase tudo na construção da sua obra. É um cinema sem futuro.

- A cinestética, onde “intelectuais” se debruçam para analisar um filme, uma idéia, uma obra, anda destituída de informações imprescindíveis a formação do conhecimento, cegando o observador despreparado para fatos e citações poéticas que fogem a sua compreensão, tornando-os insensíveis a uma nova visão estética, histórica e cultural deste país.

- Você tem razão! 2010, um novo ano se aproxima. O governo federal vai derramar no mercado de arte, através das leis de incentivo a cultura, milhões de reais.

- E os milhares de projetos já estão sendo preparados para os editais do Ministério da Cultura e outros tantos, que terão os seus recursos financiados pelas leis de renúncia fiscal das grandes empresas do país?

- Eu tenho algumas dúvidas quanto à escolha dos projetos que merecerão o beneplácito de tal mecenato.

- O Governo, embora tenha acertado na área social e desenvolvimentista do país, tem errado de modo grosseiro no que diz respeito à arte e a cultura.

- Não temos, pelos Brasis afora, bons teatros, cinema, televisão, e o que existe está na mão de poucos. Poucos, mas com uma única intenção: ganhar muito dinheiro.

- Veja a fita sobre a sua vida que custou em financiamento direto, sem lei e sem nada, mais de 20 milhões de reais de gastos que precisam ser justificados financeiramente apenas com um ”bom”, lacrimejante, novelesco e popular filme.

- Mais nada? Veja: o seu produtor, que já viveu bem todos os momentos do cinema brasileiro, emplacou neste projeto a sua aposentadoria...

- Acho que ele merece!
- Mostrou o seu oportunismo, sua competência para fazer algo de novo, de inédito, na produção do cinema brasileiro...

- Mas ele teve que convencer e envolver, estruturar, levantar e receber, de várias grandes empresas do país, os milhões de reais, a fundo perdido, que ele necessitava para realizar essa “grande” obra cinematográfica.

- Feliz o cineasta que tem como pai um produtor deste porte e desta envergadura.

- Eu, que nada disso tenho, quero reivindicar, neste ano que vai começar, um projeto de produção de um longa metragem rodado em película 35mm.

- Desiste disso!

- Ontem os festivais de cinema abriam as suas portas para o cinema de arte, foi assim que apareceu Glauber, Nelson e todo o cinema novo, a vanguarda artística de uma época. Ontem o governo e o capital privado nacional interessavam-se pelo cinema diferenciado que se realizava no país e que passava a ser prestigiado e a conquistar prêmios e respeito em terras estrangeiras. Ontem os jovens, os estudantes, a classe média e a burguesia, iam ao cinema para depois discutirem o filme na praia, nos bares e restaurantes da cidade.

- Ontem se respirava a inteligência neste país.

- Depois veio o golpe militar, a ditadura, e o cinema novo aboletou-se do poder com a edificação da Empresa Brasileira de Filmes e os intelectuais que permaneciam vivos nas grandes redes de televisão e sindicatos.

- Guardaram o novo, o revolucionário, no baú e passaram a disputar o mercado com roliude, com filmes medíocres que conquistassem também um mercado que nunca lhes pertenceu.

- Tiveram alguns êxitos. O Concine foi um deles e também alguns dos filmes ali produzidos foram verdadeiros sucessos.

- Mas o berço rebelde e revolucionário, onde todos eles nasceram, foi atirado longe, onde nunca mais pudessem encontrá-lo. Nunca mais estes titãs de outrora conseguiram fazer um bom filme de arte, principalmente depois que abandonaram a sua própria sorte, no estrangeiro, o amigo mais rebelde e criativo de todos.

- Hoje, passados mais de meio século de história política, eles continuam no comando do desenvolvimento cultural do país.

- Este aglomerado de titãs gananciosos, que querem sempre mais, não tem uma preocupação política de identidade e renovação, usa do discurso teórico nacionalista, nas assembléias de sindicatos e associações, para criar consenso entre os contrários e, com apoio da maioria de cordeirinhos silenciosos e domesticados, sempre a espera também de uma oportunidade, na prática capitalista, ali estão para defender seus interesses.

- Agregados a eles, como craca-dos-navios, nascem os burocratas das artes.

- São eles que pretendem continuar com a degola daqueles que não seguem a suas cartilhas.

- Hoje nem os festivais se interessam por filmes que não sejam destinados ao mercado e ao sucesso financeiro.

- Eu parei de mandar meus filmes para os festivais por mais de dez anos. Fui a alguns só como convidado.

- Eu também nunca mais mandei os meus roteiros e idéias para os editais passados.

- Eu remeti a alguns festivais o meu novo filme, mas ele foi recusado.

- Eu vou mandar um novo roteiro para os editais e espero que desta vez não haja recusa e me dêem a oportunidade de mostrar o meu cinema.

- Se não, dê a sua guerra cinematográfica como perdida e mais uma vez recolha-se aos seus cinevideos, poemas, textos, pinturas e passe a viver mais calmamente a vida.

- Ai, quem sabe, um dia, se ainda estiver vivo, alguém me convida para escrever e dirigir um belo filme de cinema.

- O que faz o jornalista, observador da história, estar tão desatentos a esse processo?

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Poema de 1974

Foto recebida pelo emeio de uma amiga comunista
Estou chegando com o vento...

Vindo do teatro, do retiro, do convento
Carente, tarado, desprezado
Achego-me mais perto
Por amor deste momento
Procuro ser mais discreto
Se não é verdade, invento.

Estou chegando com o vento...
Invadindo o seu lar
Em aerodrama barato
Proponho ao sabor da arte
Este rimado bate-papo.

Estou chegando com o vento...
Vou-me embora pelo mar...
Telefona-me ainda hoje
Seja breve... Seja má!

Estou chegando com o vento...
Sem demora eu te peço
Você fala e eu aumento
Nada que impede o amanhã
Se eu mereço!

Estou chegando com o vento...
Sem por fim a quente noite
Ao interminável lero-lero
Aquele papo louco
Ou ao que eu sentia por ela
E ela sentia por outro

Estou chegando com o vento...
Ela é tudo que quero!
Mas ela não quer me amar...
Estou indo! Pega mole! Pega leve!
Se não posso te matar!

domingo, 6 de dezembro de 2009

Notas para o futuro... (4)

Diálogo do desespero grafite em parede

- Estou só começando a rasgar a chita!

Disse-me, com a voz tonitruante, o professor, quando me encontrou e depois, pegando com força no meu braço, vociferou:

- Alô, jornalista! Vocês do rádio, apresentadores de televisão, redatores de revista, de blogs da Internet e de minguados jornais! Alô, empresários! Burocratas! Burguesia nacional! Alô, governo da república! Sem a boa arte brasileira, servida por todos os meios ao povo, não há salvação...

Gritava o maluco pela rua afora segurando no meu braço. Eu tentava despistar a sua presença... Ele se dirigia aos passantes, um a um, mano a mano, cabeça a cabeça, indiscriminadamente.

- Vocês que ai estão, propositalmente, massacrando as mentes já bastante poluídas do inocente cidadão, com matérias de engano e mal dizer, desunindo as classes, prá mais e prá menos, aumentando o universo doentio do consumo, a qualquer preço, impulsionando o mercado capitalista predador, tomam vergonha!

- Cala-te professor! Eu não sou jornalista!

- Se ficamos calados! Se não formos paras ruas! Se não movimentarmos a nossa consciência, a nossa inteligência, nós ficamos de acordo com o que foi programado, e é tudo o que eles querem.

- Eles quem professor?

- O Império das Comunicações! Abra os seus olhos inocentes para o mundo! – O Império, que é vigilante e extremamente inteligente, protela a felicidade, destrói o planeta, promove a violência e dissemina o vírus maldito do câncer social. - E vocês, ai parados! Não querem fazer nada?

Tive que retirar o professor dali, pois já se instalava um princípio de confusão - ele não agüentaria uma briga nesta idade, pensei eu.

Saímos um pouco apressado contra a vontade do mestre. Assim que passamos por um café, paramos. Ele me fez entrar e sentar em uma mesa de canto. Fumando seu charuto baiano, disse que me contaria um segredo. Depois das várias baforadas em seu baiano, que incomodavam os nossos vizinhos de mesa, aproximou o seu rosto suado perto do meu e confidenciou-me:

- No Brasil e também no mundo, a televisão, o cinema, os jornais, as revistas, as rádios, as empresas de propaganda e seus agentes (poderosos tentáculos da inteligência colonial, que domina as comunicações), mais a elite da indústria nacional e internacional, estatal e privada, todos juntos, descartando os que não são mais necessários, destroem, sem dó nem piedade, os seus oponentes, e são nestes momentos de euforia, de vitória, que essa gente sofre uma espécie de gozo etéreo, quase divino, com o poder manipular os nossos menores desejos...

O professor toma o seu café, como se tomasse uma dose de cachaça, de um gole só. Depois grita para todos ouvirem:

- Paguei a língua! Estou falando de nossa grana! Deste miserável salário, que mal dá pra comprar os meus charutos, seus imbecis!

- Professor! Está muito quente hoje, mais de quarenta graus, vamos beber mais devagar esse café... e depois ir embora...

- Eles destroem o que resta da vida inteligente com a velha arrogância de sempre.

Eu tento concordar com ele enquanto tomo o meu café. Mas ele não para de falar

- É preciso dizer ainda que os liberais da classe média e as novas ondas de euforia de um proletariado com mais poder aquisitivo, por mais numerosos que sejam eles, sempre serão massas de manobra, instrumento necessário ao sistema injusto que dominam o mundo, e pode ter certeza, vocês não serão nunca informados do que realmente interessa a eles... Falo da evolução do homem! De todos os seres vivos! De todos vocês ai!...

- Tipo... Como e qual deve ser a meta possível?

- No tempo e na história... Eu já preparei todos os estudos do conhecimento humano acumulado e de como sabê-los em pouco tempo de estudo, é como estudar em uma universidade. Ali está à receita do que um homem necessita para ser feliz. É simples...

- Tudo que é necessário a felicidade existencial de cada um que vive neste planeta?

- Sim! Mas primeiro tem que se transformar o país. Fazer todas as reformas necessárias ao sistema estabelecido. Para isso, o país precisa primeiro ter o pleno domínio da comunicação – a primeira reforma a ser implantada por qualquer governo que quer realmente fazer a diferença. Trazer a liberdade, prover o homem de saúde e educação, ensinar o conhecimento humano acumulado.

- O país e o seu povo têm esse direito de não ficar a reboque de uma cultura que não é a sua...

- Se o poder das comunicações for livre - arte para todos – e for gerado por competência e não por ganância; se houver uma mudança radical em todos os meios de comunicação do país e se todos fizerem uma nova reflexão sobre a relação da arte com a liberdade e sobre o papel da mídia neste novo mundo, com projeção para um futuro cada vez mais rápido, os poderosos conservadores, os desesperados da ditadura econômica, não entregarão esse império por nada.

- Isso parece conversa de maluco, mas não atiro na sua razão... Precisamos de mais justiça!

Já começava a me empolgar com o professor.

- Veja como ficou desgastada a expressão “Justiça Social”. Todos beócios engravatados que freqüentam a corte do poder usam esta expressão para mostrar-se socialmente correto, encobrindo a verdadeira missiva do mundo egoísta em que vivem: primeiro a justiça pessoal e depois, sem pressa e se deus quiser, a social.

- Mas temos a eleição, vamos derrubá-los...

- Eleições democráticas?... A maioria troca o seu voto por um pão com manteiga; meia dúzia de tijolos e um saco de areia, promessas de emprego e portarias, acreditam e fazem da política uma espécie de clube de futebol, onde só vence quem tem a maior torcida...

- Se não trocar o voto, trocamos o juiz, as urnas, lembre-se que não estamos em uma Olimpíada, aqui nós não vamos competir, aqui nós vamos é ganhar, o jogo, a eleição e tudo mais... Disse-me outro dia o deputado que quer ser reeleito...

- Quem pode acreditar nesta jovem república? Vocês já pensaram nos novos políticos que estão se apresentando para dirigir democraticamente o Brasil?

- Eu pensei... Eu não tenho em quem votar, conclui. Eu não vou votar!

- SerraEleDilma, Fernandinho, AecinhoGarotinho, CyrodeMarina, e Gabeiras Creioemdeuspadre! Não! Eu não vou votar! Votei no Lula, mas antes no Brizola... Eu não tenho mais em quem votar! Não sei votar... Não preciso votar!

Volta e meia, penso assim...

Que continue mais um mandato o Presidente Lula.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Notas para o futuro... (3)

Lembro-me que fui convidado, nos idos de 1975, com outros artistas, para ver um filme na embaixada (consulado) da antiga URSS no Rio, com direito a coquetel de champanhe com caviar. Na mais absoluta formalidade, depois do banquete, fomos todos convidados a entrar na sala, onde seria exibido o mais novo, o mais artístico, o mais importante filme feito sobre a juventude soviética. A historieta era pautada por seqüências novelescas de besteiras sociais, tentando, sem me convencer, justificar, estética e politicamente, naquela época, a sede do consumo desenfreado da sociedade comunista, incentivado por propaganda e deserções, falava-se de tudo que se dizia proibido na cortina de ferro e que o filme, sem nenhuma grandeza, tentava desesperadamente dissipar, sem se aprofundar no assunto, mostrando apenas a sede capitalista da juventude moscovita. No final foi aplaudido pela esquerda festiva ali presente. Lembro-me dizer, saindo pelos portões de ferro da embaixada, revoltado, para a menina-bailarina que me acompanhava: - A utopia do mundo socialista-comunista está ruindo...
O pensamento retrógado que os domina, o desconhecimento da liberdade e da arte na transformação permanente do espírito revolucionário, o amadurecimento do fruto do capital, mercado e consumo, o desejo ativado através desse inocente tipo de audiovisual, cinema dito popular, feito de encomenda por pseudo-artistas burocráticos, devidamente engessados, obteve, neste dia particular do ano de 1975, a sua maior e pessoal vitória.

Pobre Marx, Lenine, Trotsky, Maiakóvski , Eisenstein, tudo que havíamos sonhado, em nome do futuro, para mim, começava a ruir. Tantos erros cometidos! Não conseguia acreditar no que estava vendo e nem tinha palavras para justificar tamanha decepção com aquele cinema de enganos.

Assim o mundo capitalista continua aos trancos e barrancos corrompendo o homem.

Olha que não trago em meus pensamentos nenhuma ideologia, nenhuma verdade absoluta.

Só creio em uma revolução que seja permanente, que esteja ligada a dois princípios: o incentivo a boa arte em todos os aspectos do trabalho humano e o compromisso com a liberdade do homem.

Quero uma revolução pessoal independente dos dogmas partidários e dos movimentos de massa.
Todo grande artista tem que ser um revolucionário.

Fazer arte é saber manejar com maestria os instrumentos que estão disponíveis para a criação.

O mundo socialista soviético tinha os melhores instrumentos, mas não soube manejá-los, não trabalhou com liberdade, burocratizou, engessou, subestimou a livre criação, a grande arte libertária e seus artistas, que na vanguarda da história iniciaram a marcha revolucionária.

Isolando-se o artista revolucionário, eliminando-se, por todos os meios, a sua liberdade criadora, corrompe-se a arte, destrói-se o equilíbrio das forças que fazem a cultura nacional e tudo mais que mantém unido a Polis.

Na foi assim na Alemanha em 1930, quando o todo poderoso Adolfo, resolveu apagar do mapa a “doente” arte moderna?

Destruindo o equilíbrio cultural da Polis, corrompe-se a arte e assim a estupidez, a ignorância, a ignomínia e seus pares, o ódio, a violência e o medo, passam a dominar os sentimentos comuns dos homens.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Notas para o futuro... (2)

Foto de Antônio Cruvinel - SP
- Vou fazer em janeiro de 2010, 62 anos e não tenho mais tempo para ficar me explicando... Prefiro um desabafo, um porre! Alguém que fale mais alto, mas em bom tom. Outro dia reclamei e ouvi: - Seu cinema vale e fala, por mil novas imagens, por centenas de textos escolhidos na memória, por dezenas de citações fundamentais na arte de saber ver e por ter um único propósito: o de inventar poeticamente um novo cinema - foi o que me disse um amigo, artista rebelde e professor, pelo telefone: - No nosso Brasil, José, as nossas histórias, a dos seus artistas mais rebeldes, não valem nada e também a sua criatividade, a sua obra, nem um tostão furado. O seu amor a arte, o seu trabalho exaustivo na intervenção poética das imagens e sons diferenciados, que fala cantando àquilo que está escondido no pensamento esquecido do homem, dos seus personagens caboclos; no mais profundo da alma, da alma brasileira, matéria prima de todos os seus filmes, são sentimentos que nada valem, nem um mísero festival nordestino consegue esconder a sua ignorância cultural perante uma obra que está à frente do seu tempo. - O que eu posso fazer se essa minha geração já nasceu desacreditada, marginalizada, injustiçada, respondi: - Geração limite! Rebelde! Barroca! Defensora da liberdade e do saber! Da cultura popular! De tudo que se liberta e que se transforma! Somos os artistas que não obtiveram perdão, continuamos historicamente massacrados, antes pela ditadura, pela censura, hoje pelas elites culturais e pelo dinheiro... - Às vezes penso se não deveria ter mudado de lado quando podia... Talvez eu fosse um bom médico... Não tenho vergonha de dizê-lo. Parece-me ver o meu pai, passando a sua gorda mão na cabeça do menino esperto, ativo, que dele se aproximava, dizendo: - Que menino esperto! Inteligente! Coitado, vai sofrer muito na vida... - Perdoam-se todos nesse país, menos a inteligência... Já dizia o meu amigo Rogério Sganzerla.

Também, sem acreditar no absurdo destas exclusões, o meu amigo Mario Drumond, sempre atento aos deslizes dos caretas, tentou achar os motivos pelos quais a ilha revolucionária de Cuba recusou Amaxon.

“O filme mais recente de José Sette, Amaxon, que tem sido muito elogiado pelos poucos que tiveram o privilégio de assisti-lo e tem causado grande expectativa pelo seu lançamento, foi recusado para o Festival de Cuba. Até aí nada de mais, nada de novo. Rogério Sganzerla já reclamava desse “bloqueio de Cuba” para o cinema brasileiro de invenção. Um cinema que, nos espaços mais destacados da arte cinematográfica em todo o mundo, sempre despertou grande interesse. Mas agora que o stalinismo perdeu força na Ilha graças à influência da Revolução Bolivariana da Venezuela, que promove uma abertura sem precedentes para as manifestações artísticas independentes, cabe a denúncia de que o “bloqueio” se mantém exclusivamente em nosso território, onde nada muda, ainda que os tempos e as coisas mudem radicalmente em toda a América Latina. São os mesmos de sempre – os responsáveis pela mesmice crônica de que padece o cinema nacional –, que filtram o material que pode ou não ser exibido em Cuba ou na Venezuela. É a caretice udenista das “esquerdas” acomodadas no poder desde a ditadura e que permanecem muito à vontade em diversas instâncias petistas de decisão. Isto sim, precisa mudar com urgência, e a Gazeta promete voltar ao assunto e bater nessa tecla com mais informações e denúncias”

Recebo no mesmo dia da exclusão do filme Amaxon, agora do festival de cinema Natal, outro emeio, agora de uma estudante que, sem saber das duas recusas, consola minha alma de artista com as suas inteligentes observações...

“Caro José Sette,
Sou estudante do curso de ciências sociais da Universidade Federal de Juiz de Fora, estou cursando o 2° período, faço uma disciplina chamada Sociologia das artes, ministrada pelo professor Gilberto Felisberto Vasconcellos. O trabalho é referente a disciplina, nada sério como uma pesquisa (quem me dera!). Assistimos o curta "A Janela do Caos", sobre Murilo Mendes e eu achei muito interessante, principalmente porque foi filmado em Juiz de Fora. Esse tipo de produção não se acha em qualquer lugar, e é até excitante ter de buscar as coisas interessantes e inteligentes e encontrá-las perto de casa. Infelizmente, nosso país não dá a devida importância (maior parte das vezes, nenhuma) para iniciativas como a sua. Fico muito desapontada com essa situação, pois adoro cinema e arte de maneira geral, mesmo reconhecendo que tenho muito ainda à aprender para melhor proveito tirar de tudo que meus sentidos captam. Daí não só pelo trabalho, mas pela minha curiosidade, resolvi procurar mais informações sobre o senhor e confesso que logo após ter-lhe mandado o e-mail, percorri com mais atenção seu blog e achei uma entrevista que me ajudou bastante no trabalho, também assisti o curta do Ivo Filho - "pintando o 7" - o qual gostei bastante e me proporcionou novas informações sobre o senhor, da mesma forma que aumentou minha curiosidade sobre seu trabalho. Com essa intenção, olhei seus blogs e me surpreendi por ver que o senhor deixa seus roteiros disponíveis, simpatizei muito com seu gosto musical e assim que tiver oportunidade, assistirei seus outros filmes. Bem, é isso. Espero que as pessoas descubram cada vez mais os artistas dos seus bairros, de seu país e quando buscarem algo de fora, que ao menos seja algo de melhor. Muito obrigada por ter respondido o e-mail, de verdade. Continue fazendo arte, o cinema-arte agradece”.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Notas para o futuro... (1)

UM MINUTO DE SILÊNCIO

Minha jovem e inesquecível atriz, amiga, Roberta Pires, que viveu tão perto e tão pouco daqueles que há muito tempo amamos; que filmou comigo o Labirinto de Pedra; que passou como um cometa muriliano pela nossa história. Tenho a sua imagem presa na minha retina. Quem te conheceu não vai te esquecer, pois, quem sabe, outro dia poderemos voltar a nos encontrar...

Da mesma maneira que Villa-Lobos, com a sua música, escrevia cartas para o futuro, eu também quero escrever para o amanhã, creio eu, os meus pictogramas sonoros, hoje ideogramas desconhecidos.

Fiquei pensando na minha “fortuna crítica”, como gostam de dizer os acadêmicos, e cheguei à conclusão que algo de muito estranho aconteceu com ela...

Há tempos atrás eu escrevi e dirigi, pela primeira vez, um espetáculo de teatro que chamei de “Eu e os Anjos”, onde transformei os poemas de Augusto dos Anjos, o ator personagem, em diálogos poéticos – onde ele falava consigo, com os seus pensamentos. Kimura Schetino era o ator. Tempos depois em uma remontagem da peça, eu e uma pequena equipe filmamos (gravamos) o espetáculo. Depois entrevistamos quatro poetas: Ferreira Gullar, Ledo Ivo, Ivan Junqueira e Alexei Bueno. Nesta mesma época eu tinha acabado de comprar uma ilha de edição e começava a me familiarizar com as técnicas da montagem eletrônica. Editei, aprendendo com “Eu e os Anjos”, como um amador, deslumbrado com os seus novos recursos e ferramentas. Resultado: a primeira edição ficou uma merda! Peço desculpa a todos que assistiram a esta colagem de imagens, a esse desespero de quem queria mostrar, a si mesmo, que tudo sabia e que poderia dominar a complexa máquina. Pensava na máquina e esquecia-me do filme, muito mais complexo, não observando a preciosidade de todos os depoimentos e dos grandes momentos de interpretação do ator. Agora estou corrigindo esse meu desleixo, reeditando todo o material e fazendo o filme documentário que deveria ter sido feito antes.

Não sou um irracional depressivo, paranóico, rancoroso, não queria a princípio participar de nenhum festival de cinema com o meu novo filme Amaxon. Mas, os mais íntimos, dizem que estou me escondendo e que é preciso mostrar o meu trabalho para um público que gosta de cinema e freqüenta as centenas de festivais espalhados pelo Brasil e pelo mundo, eu não resisti ao argumento, da maioria dos amigos e experimentei mandar para dois festivais, completamente diferente um do outro, Cuba e Natal, foram os festivais escolhidos para testar o filme. Amaxon foi recusado pelos dois. Recusaram uma obra nova, de vanguarda... Na certa que não entenderam o que Amaxon queria colocar em discussão. Pensei: Foda-se! Não vou defender a obra e nem atacar os medíocres que não me selecionaram, mas aposto com o Sérgio Santeiro, que não chegou ali nada parecido com a cinematografia, a estética e a linguagem poético-revolucionária, proposta por esse meu novo filme de ficção.

É como eu disse a um amigo pelo telefone: - Há algo de estranho com a minha fortuna crítica..., ou serei eu a ficção?

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

2010


Meu Cinema Brasileiro

Em 2010 o filme “Bandalheira Infernal” comemorará
os seus 35 anos de existência e o “Filme 100% Brazileiro”
25 anos.

Em 1975 fiz o meu primeiro filme de longa-
metragem, Bandalheira, sem roteiro, experimentando,
provocando, instigando, anarquizando a
linguagem cinematográfica imposta pelo regime
militar, repressor e predador, e por uma elite
brega, ignorante e pretensiosa.

Trabalhei financiado pelos amigos e amantes
do cinema. Há trinta e cinco anos mantenho
o meu sonho por um cinema de arte, livre,
poético, inventivo, antropofágico e mnemônico.

Por um cinema que provoque a nossa memória,
nossa inteligência e nosso existir.

Para definir a minha trajetória na arte cinematográfica
é preciso saber da minha geração. Saber que no país invadido,
há mais de cem anos, por manifestações cinematográficas de todas
as espécies e gêneros, temos hoje, como predominância estética,
os pequenos e os grandes lixos novelescos proveniente de toda
uma produção estrangeira, principalmente a americana, a de roliude,
com suas novidades tecnológicas, efeitos especiais, para contar
historietas e influenciar o mundo dos colonizados, injustiçados, em
sua grande maioria, a adorar o deus bestial do sucesso, do
dinheiro, do consumismo doentio, da fome do mercado, a
qualquer custo, onde poucos mandam, e quase
todos são vendidos e obedecem por força da mídia, submissa aos
grandes interesses, com os investimento na cultura direcionado as
produções que seguem a métrica reboante do pior
que se faz na indústria do entretenimento, tornando-nos,
novamente, imbecilizados pelo paradigma do sucesso
estrangeiro e pela incipiente conquista do mercado nacional,
tanto no cinema quanto na televisão.

Depois do movimento cinemanovistas dos
anos 50 e 60 e do jovem cinema de resistência
dos anos 70 e 80, a partir 1990, o cinema
brasileiro vem buscando, como um todo,
com raríssimas exceções, esse modelo
conformista imposto pela política cultural servil dos
nossos incautos governantes, e pelo deslumbre dos
burocratas de plantão, dos produtores e exibidores
comprados, na maioria por dinheiro de fundações de
capital estrangeiros, imaginando assim, pelo excesso
imagens e sons de quinta categoria, convencer os
nossos jovens estudantes, futuros cineastas, que
trabalhando com esta linguagem inocente, muitas vezes
beirando o ridículo, conquistará o seu espaço
perdido público.

Ledo engano, deles e nosso, de ficarmos cegos, calados,
surdos e sem voz, isolados, como uma grande ilha,
prestes a ser varrida por uma onda gigante.

A maioria dos filmes nacionais é de pequena
produção, os mais privilegiados vêm sendo
financiados com orçamentos médios pelas leis
de incentivo. Todas essas “fitas” produzidas ou
são mal exibidas, ou não são exibidas, por falta
de interesse dos produtores e de seus
patrocinadores. Assim, algumas centenas de
latas de bons e raros filmes, são guardadas nas
prateleiras das produtoras, quando existem, ou
em casa, quando se têm, na espera de salas
específicas - cineclubes, festivais, etc., para que,
pelo menos, possam ser exibidos.

Esses raros filmes de arte têm a simpatia
de um público específico, composto de pessoas
que lêem, que apreciam a boa arte, que gostam de
poesia,de serem instigados pela criação, pela invenção,
pela inteligência degustando o mistério de
composições, as vezes bizarras, sem fanfarras de
produção, mas sempre criativas e transformadoras.

Sem a mínima remuneração, este cinema
de resistência, faz com que muitos de seus
bons diretores, produtores, atores e técnicos,
sem aposentadoria, sem economia,
a cada dia que passa, sentirem-se mais ainda
encurralados pelo sistema predador.

- Vivemos como mágicos, sem renda, endividados.
A cada filme produzido, ficamos mais pobres e só
permanecemos ainda em pé, pela força da crença na
arte e pela necessidade mortal de poder criar novamente.

Mas como criar sem ter o direito de viver com
alguma dignidade? Todos os dias encontro
bons artistas que estão a beira de um ataque de
nervos por falta de uma política
justa na produção, distribuição e exibição
do verdadeiro cinema brasileiro

Aos grandes produtores, as verbas
milionárias da renúncia fiscal, verbas
que são distribuídas através dos
editais e leis, pelas empresas e
simpatizantes empresários, que querem
se aproximar das estrelas e astros da
última revista da moda, ou a todos
aqueles que participam desta ou
daquela turma, simpáticos a
este ou aquele produtor de tevê, ou
melhor: todos aqueles que tem a benesse
desta importada estética, cópias sem a menor
importância, que domina as novelas e os filmetes
das grandes redes da televisão brasileira.

Nas universidades, jovens sedentos
de saber buscam o conhecimento
necessário para que possam rodar
(filmar) o seu primeiro curta-metragem.
Tudo tem de ser financiado pelo Estado?
Eles são milhares de entusiastas da sétima arte,
são estudantes e artistas que pensam e vivem o sonho
de um dia fazer o seu primeiro longa-metragem.
O que eles podem fazer? Onde eles podem chegar?

O velho cinema, outrora revolucionário, hoje
milionário, sonha com o Oscar, com roliudi
e com a América, que é do norte.

O jovem cinema tem que abandonar esta
vontade cega de estar incluso no sistema
estabelecido pelos padrões dominantes,

É preciso ser rebelde e transformador da arte,
buscando a nossa identidade cultural no
conhecimento e no descobrimento, para
podermos criar uma imagem livre das amarras
dominantes.

O meu e o seu Cinema Brasileiro
nascerá desta prática: um filme feito
e distribuído no cinema e para a televisão,
com as mãos e com a cabeça, independente
e de baixíssimo custo, digital ou não,
onde se valorizará principalmente uma
nova estética cinematográfica, uma nova
idéia, novos atores. Um cinema que
seja instigante, transformador, que não
veja, mas que tenha visão, que seja lentes
especiais para um enquadramento total e
abrangente do homem e das artes brasileiras
escondidas no contexto da vanguarda, do novo
e do que é universal.

domingo, 22 de novembro de 2009

Meu próximo filme

Sérgio Bandeira
Herói Marginal

Um musical? Um policial? Uma comédia? Um dramalhão? ...

Uma obra aberta?

Qual será o fim dessa história?

Apresentamos nossos personagens:

Erodino é o nome do nosso herói marginal.

Erodes é o nome do seu pai.

Maria, sua mãe, já tinha uma filha de seu primeiro casamento quando casou com Erodes, que por não gostar do nome da menina, passou a lhe chamar de Erundina, embora não fosse esse o seu nome de batismo.

Erundina tinha sete anos quando Erodino nasceu.

Herodes, moralista e religioso, batia em Maria quando ela estava grávida, pois cismava que o filho que ela esperava seria fruto de uma traição.

Erodinho nasceu prematuro, em casa, no bairro classe média da cidade.

Sua mãe não teve tempo de chegar ao hospital, morreu quando ele nasceu.

Erodinho! Assim ele era chamado quando criança.

Erodes começa a beber e a brigar com o filho e com sua filha de criação.

Erodes trabalhava como chefe de segurança da noite no shopping da cidade e dormia em casa de dia.

Erodino tinha dez anos, quando viu o seu pai Erodes, chegando do trabalho, acordar, molestar e depois bater em sua irmã, Erundina, agora com dezessete anos. Erundina amava Erodino e foi ela quem lhe despertou o desejo e depois passou a lhe ensinar, na ausência do pai, de como ele deveria se comportar com as mulheres. Recebia do irmão o carinho que não tinha com o velho Erodes. Erodino lhe prometia que um dia lhe tiraria das garras covarde do pai.

Erodino era uma criança tímida, mas não tinha medo, falava pouco e nunca chorava. Sempre solitário, escondia-se pelos cantos da casa e andava de cabeça baixa pelas ruas da cidade.

Ali perto havia dois grandes comerciantes: o dono da joalharia, o Senhor David, com seu filho Mateus, de cinco anos e a dona de uma loja de roupas, a Senhora Judite, com sua filha Madalena, um pouco mais nova.

Erodino, um dia, andava pelas ruas, quando avistou uma criança que ia ser atropelada. Por puro instinto, corre em direção do menino, que está parado no meio da rua pegando alguma coisa (um bolo de dinheiro) que estava no asfalto. Dinheiro perdido pelo seu pai quando, com ele, atravessava a rua. Muita gente assistiu a cena. O pai do garoto estava do outro lado da rua, distraído, quando sentiu falta do menino, surpreso, vendo a cena, corre para pegar o filho salvo da mão de Erodino.

Erodino salvou o menino Mateus de cinco anos! Comentavam as pessoas na rua e todos foram cumprimentar o jovem herói. Pela primeira vez na sua vida havia sido respeitado, cresceu sua auto-estima, neste dia foi até aplaudido...

A cidade banhada pelo sol e pelo mar situa-se em uma região, em um ponto turístico, muito procurado por estrangeiros em busca de suas famosas praias, repletas de mulheres louras e morenas, amazonas de poucas roupas.

Cinco anos depois Erodino, com quinze anos, andava com seu amigo Mateus pelas ruas do bairro. Mateus foi quem abreviou o nome de Erodino, o seu ídolo, para Erói, o seu protetor.

Erói vivia na rua. Na sua casa o seu pai continuava a maltratar Erundina.

Quando ele fez 20 anos, tentando separar uma briga do pai, que batia com um cinto de couro na sua irmã, esmurrou o velho bêbado que caiu desmaiado. Erói fugiu definitivamente de casa e passou a viver na casa do malandro Pedro, seu amigo de infância, que comandava o tráfico no bairro, levou com ele Erundina.

Erói passou a vender droga para manter o seu sustento.

Seus principais fregueses eram os amigos ricos de Mateus.

Erói vivia com Erudina, mas amava Madelena, que amava Mateus, que não amava ninguém.

Erundina esta com 32 anos, Erói com 25 anos, Mateus com 20 anos e Madalena com 19 anos.

Mateus, Madalena e Erói, andam a beira mar, na praia vazia...

Assim começa a história do Herói Marginal.

Assim termina uma parte dessa história.

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Dois casos e uma medida

TRÊS AMIGOS E UM CANHÃO

Caboclo Sete Lira
Uma história real

Outro dia estava entrando na galeria do café, vindo na contraluz da história, quando percebi, caminhando em minha direção, a figura simpática, alegre e carioca, de um ícone da cidade, tratado ainda hoje, aos 63 anos de idade, carinhosamente, pelos amigos, pelo diminutivo do seu nome.

Conheci-o, este sujeito simpático e inteligente, cheio de idéias criativas e apreciador das boas coisas da vida, sendo-me apresentado por um amigo comum. Pouco tempo depois, em uma reunião na casa do mesmo amigo, conheci o outro personagem desta minha história: era, a primeira vista, um jornalista simpático, bem informado, jocoso, irônico, inteligente e bem humorado, de quem me tornei amigo.

Nosso primeiro personagem estava com a sua fisionomia cansada quando o encontrei em frente daquela insuportável televisão. Sentamos a mesa e ele, depois de algumas conversas, me mostrou seu olho direito avermelhado, bastante irritado. Disse-me então que aquilo, uma forte infecção nas vias respiratórias, muito lhe incomodava. Já havia sido operado, pingava remédio todos os dias, etc. e tal, mas nada adiantava.

Sendo eu filho de um médico e por não cuidar bem dos meus dentes, sou um fumante inveterado, tive que descobrir remédios alternativos que me ajudassem a manter em dia a minha higiene bucal. De todos os líquidos, químicos e naturais, que eu experimentei - um só, somente um, de fórmula antiga, famoso lá no interior das Minas, feito a base de álcool e ervas fina, foi que resolveu os meus problemas. Faço uso dele quase todos os dias. Há mais de vinte anos. Nunca mais tive infecção e nem dores de dente. O que de melhor eu podia indicar ao meu amigo, para o seu sofrimento, do que esse santo remédio?

Levantamos das cadeiras e fomos à farmácia comprar o milagroso produto. Expliquei a maneira que eu usava o elixir: primeiro passe o fio dental, com força, nos dentes e lave. Segundo, escovar os dentes normalmente e só depois de bem lavado é que chega a hora de jogar puro, entre os dentes, o líquido vermelho e denso na boca... Encontramos em seguida com o jornalista que bebia um mate com limão e deixei os dois velhos amigos conversando.

Passa todo um dia. Estou em casa escrevendo. O celular toca. Já é noite. Atendo. Do outro lado da linha ouço o famoso chamado do jornalista, quando me telefona: - Alô! 1,2,3,4,5,6,7, meu caro caboclo, disse ele, você quase matou o nosso amigo comum... Eu respondo: - O que aconteceu? ... - Sette, eu vou lhe passar o consulente e ele vai lhe dizer... - Alô Sette! Sou eu, meu querido... – O que aconteceu? Perguntei assustado. – Olha! Joguei metade do vidro daquele líquido vermelho na minha boca e segurei com valentia a queimação infernal que eu passei imediatamente a sentir. Queimava-me a boca, os olhos, o nariz e a garganta, como que se eu estivesse ali tentando engolir uma brasa acesa. Lembrava-me da sua orientação de não cuspir, de maneira nenhuma, o elixir, não antes da queimação passar. Cerrava os dentes e queria gritar de dor. Resistia, e, para aliviar o sofrimento, pulava de um lado para o outro e, em seguida, abaixava e subia a cabeça, num frenesi de assustar os menos avisados. Enquanto eu me contorcia, o amigo palhaço que me acompanhava, que estava a minha frente, observando-me com os seus olhinhos miúdos, arregalou os olhos, esticou os lábios e passou a fazer passos e passos de macumba, como se recebesse um santo, dizendo com voz de preto velho: - Óxente! Caboclo Seu Sete da Lira baixou, sarava! Ele esta cuspindo fogo! Ó caboclo malvado, deixa esse Omi em paz!... Não resisti ao personagem representado pelo nobre amigo e cuspi longe todo o líquido que estava na minha boca. Que alívio me deu, não sei se consigo fazer toda essa experiência novamente... Disse-me ele rindo.

Corte cinematográfico. A bateria do telefone celular acaba. Silêncio. Voltei, chateado com essa minha mania de dar conselhos médicos, a trabalhar no texto do meu novo filme... “Herói Marginal”. Foi quando imaginei a cena dos dois zombeteiros, fazendo pilhéria, dançando no terreiro... Parei de escrever e não consegui mais parar de rir de mim mesmo.


Elixir do Pagé

Como esse mundo esta ficando mais careta, moralista, teocrático, tecnocrático, fundamentalista, personalista, néscio, estúpido, violento, brocha, etc., eu pergunto aos amigos de Cabo Frio se eles conhecem ou se já leram “Elixir do Page”, o livro raro de Bernardo Guimarães? Eu possuía o exemplar 0280, do qual fiz uma cópia. Trata-se de dois poemetos, “de inspirado trovador”, publicados pela primeira vez em 1875. É como disse o maranhense Artur Azevedo: “É raro o mineiro que o não saiba de cor... Há na província espalhadas um cem números de cópias deste Elixir...” Poemas eróticos, obscenos, ou sei lá como classificá-los! Que julguem os amigos da província. Vamos apresentá-los!