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sexta-feira, 30 de julho de 2010

Roteiro


ROTEIRO DE GILBERTO VASCONCELLOS PARA UM FILME QUASE ECOLÓGICO ( )

(escrito a meu pedido no ano de 2003)

A Idade do Sol

A geografia da biodiversidade Tropical.
A biodiversidade está nas diferenças regionais. Variedade étnica e cultural.
Este é um argumento básico para um documentário que não seja ao molde de um ambientalismo superficial feito pela TV, nem denuncismo apocalíptico anunciando o fim do mundo.
Quem vai conduzir o documentário: a câmera e a voz em off ou algum personagem? Um professor, um jornalista, uma mulher grávida? Um locutor de rádio? Para narrar e articular as escapulidas geográficas de forma didática e compreensível: Norte – Nordeste – Centro - Sul.
E o tempo do documentário? O Banco de dados indígenas? A ecologia Pré-cabral ou depois das caravelas?
Até chegar aonde? No “smog” da Avenida Paulista?
Tudo isso, atenção, nem careta nem louco, deve ser mentalizado e escrito ( roteiro, roteiro, roteiro) para agradar e seduzir a banca dona da grana.
Roteiro – Documentário:
Sobre a biodiversidade nos Trópicos
A primeira cena é o mapa-múndi, o foco centrado na divisão do mundo- regiões frias ou temperadas- situadas no Hemisfério Norte, e as regiões intertropicais no Hemisfério Sul.
Intercalam silêncio, fala e música. Villa Lobos. Vitória do Amor nos Trópicos. Uirapuru. Saudade da Selva Brasileira.
Voz em off. Didática. Voz feminina.
A noção dos trópicos é essencialmente geográfica, podendo ser precisada com o máximo rigor, pois é determinada por dois círculos terrestres chamado o do norte de Trópico de Câncer e o do sul de Trópico de Capricórnio, paralelos ao Equador, distando deste 23° e 27’. Ë essa a zona tropical do Planeta Terra, denominada também Zona Tórrida.I
Do mapa-múndi vai se destacando pouco a pouco o Brasil como o maior país tropical do globo.
Para além do mapa mostra-se a floresta da Amazônia. Floresta úmida. Alvorada, sol e água. O Brasil possui 20% de água doce do planeta terra. Plano longo, demorado. Ênfase no encontro do sol com a água.
Ouve-se um locutor de rádio anunciar que na floresta da Amazônia um professor dialoga com seus alunos. Aula. Expõe a gênese da conquista dos trópicos. A partir da existência do calor favorável à propagação de todos os seres vivos, inclusive germes, fungos, pragas bactérias e parasitas. Os fatores climáticos exercendo ação extraordinária sobre os organismos vivos, tanto plantas, quanto animais, incluindo o homem e todos os mamíferos.
A lição do professor – que é dada por João Amilda Salgado, professor de medicina, UFRGS, especialista em infectologia – sucedem-se imagens da luz e sua ação poderosa sobre o processo de reprodução, variável segundo os animais.
Destaque para as chuvas e o rio. O som das chuvas mixado à voz de Abidu Sayão. O efeito do calor tropical e da umidade sobre o desenvolvimento e proliferação dos organismos, quer do reino animal, quer do vegetal. A fala do professor acompanhando um caboclo na canoa descendo o Rio Solimões. Na bacia do Rio Amazonas existe mais de 2000 espécies de peixes, quantidade dez vezes maior que a de todas as espécies ictiológicas da Europa. Ë impressionante a exuberância da vida tropical. Aí se encontram também 90% de todas as espécies vegetais existentes atualmente no mundo. Não podemos nos esquecer que a bacia amazônica é um exportador de vapor d’água.
Corte para a região do Pantanal. A fim de mostrar que o fluxo de vapor d’água é no sentido norte-sul o ano inteiro.
A chuva que cai no Pantanal é por causa do vapor d’água proveniente da região amazônica. A devastação da Amazônia influencia o clima do Planalto Central, do Pantanal e dos Andes.
O quadro da seca. Nordeste. A questão hídrica vinculada à ecologia. A mudança climática em função do acúmulo de certos gases na atmosfera que provocam o efeito-estufa e o aumento da temperatura junto à superfície da terra. Explicar que o efeito estufa é provocado pelo CO2 lançado na atmosfera.
Mostrar o nível médio dos oceanos subindo um centímetro por ano. A dimensão planetária do problema ecológico. O desequilíbrio global.
A voz do locutor retoma a narrativa. Neste documentário sobre a biodiversidade a Amazônia é o começo, porque aqui tem grande reserva de plantas e árvores. Esse mundo variado de espécies ocorre por causa da maior incidência do sol. A energia solar concentrada nas zonas Equatoriais. O clima quente e úmido. A produção biológica se faz através da fotossíntese.
Brasília. Cerrado. Entrevistar o físico J. W. Baltista Vidal. As causas do desequilíbrio da biosfera. Simultaneamente mostrar no sul do país, Paraná e Rio Grande do Sul, as florestas desaparecendo. A pergunta sobre o uso econômico da Floresta como estratégia de sua preservação.
Na Universidade de Brasília entrevistar o professor de física, José Acioli sobre os bilhões de toneladas de CO2 lançados na atmosfera, em função da queima crescente dos combustíveis fósseis: carvão mineral e petróleo. As principais cidades do mundo padecem de poluição atmosférica com as camadas de fumaça e nevoeiro. A necessidade da transição do declínio dos combustíveis fósseis para a era solar com energia vegetal.
A eterna energia do futuro. As selvas úmidas. O banco de informações genéticas, químicas e ecológicas. A fonte da biotecnologia. A tecnologia do século XXI. No entanto existe o demônio das queimaduras por espúrios interesses pecuniários.
Focalizar a motosserra e a devastação ecológica.
Os bárbaros tacam fogo nas florestas. E o Brasil depende da valorização social e econômica da floresta. É este o desafio da civilização tropical. Anunciado por Gilberto Freyre em sua ciência agrônoma chamada “tropicologia”: no trópico dotado de tanta variedade, é fundamental a recusa da monocultura por extinguir as espécies biológicas. Monocultura é devastação ambiental.
Em Dores de Indaiá, Minas, entrevistar o mineiro Marcelo Guimarães. Agricultura é engenharia biótica. A ecologia tem tudo a ver com ecologia. Ë preciso visitar a escola de Agronomia de Piracicaba em São Paulo. Devemos aproveitar o fungo como potencialidade do solo. O problema é que a política do solo depende do poder.
A verdade é que se conhece muito pouco de biologia tropical, daí o uso de fertilizantes químicos, daí a humilhação científica da mandioca, que não é considerada um arado biológico. O problema do agromimetismo: copiar a agricultura das regiões temperadas e frias.
Encerrar este documentário com homenagem prestada aos cientistas que se opuseram a alienação biológica dos trópicos, como o biólogo Herbert Schubart e o médico Silva Mello. Não adianta sair por aí com biocida para controlar ou matar os insetos.
The End.

terça-feira, 27 de julho de 2010

NOTÍCIAS


Eu nunca tinha visto uma foto de um gato tão expressiva. Embora familiar, parece-me um deus de olhos penetrantes com visões filosóficas de nossa insignificância. Vocês também não acham?

Até que enfim alguma coisa, que esperamos seja nobre, será feita para lembrar a revolucionária menina de Oswald de Andrade, a indômita Pagu. Para celebrar o centenário de nascimento de Patrícia Galvão, a Pagu, um livro será lançado neste ano reunindo a ainda desconhecida produção cultural de seus últimos anos, na cidade de Santos, de 1954 a 1962, quando morreu. A pesquisadora Márcia Costa levantou mais de 300 textos, publicados no jornal "A Tribuna", que mostram o envolvimento da eterna musa do movimento modernista com a cena cultural local, seja como jornalista, poeta ou escritora. "Muitos pensam que ela parou de atuar quando deixou São Paulo", diz a pesquisadora. "Pelo contrário: Pagu foi, antes de tudo, uma amante da cultura e morreu produzindo e difundindo arte.

Fui apresentado a este blog, que passo o link, http://musicabrconcerto.blogspot.com/ , com as mais incríveis gravações dos clássicos poucos difundidos em gravações para download grátis de uma grande discoteca de vinil. Vale a pena uma visita.

Assim caminha o mercado de livro em nosso país. A maioria dos donos de livraria tem apenas um estabelecimento no Brasil. É isso o que mostra o Diagnóstico do Setor Livreiro, que será divulgado. Os que possuem uma loja correspondem a 63% do total de livrarias do país; já os que têm duas representam 11% e os que têm de 3 a 10 lojas são 8%. Na faixa de 41 a 100 lojas são 3%, e as redes que têm de 101 a 200 estão nas mãos de 6%. O estudo, encomendado pela Associação Nacional de Livrarias (ANL), revela também que a maior concentração de livrarias está no Sudeste: São Paulo lidera com 864 lojas. Depois vem o Rio, com 298 livrarias, e Minas, com 268. Não serão lançados antes do mês que vem os oito fundos setoriais que o Ministério da Cultura criará neste ano, atendendo a áreas como música, artes visuais e audiovisual. Entre os principais entraves está o contingenciamento de 50% do orçamento da pasta, já que, sem a liberação desses recursos, não será possível anunciar os cerca de R$ 300 milhões para a empreitada. O fundo das artes cênicas deve receber em torno de R$ 80 milhões.
Acabo de receber alguns poemas escolhidos do agrado do meu filho de Juiz de Fora, MG, o músico Jose Luiz Vieira. São, que ao meu ver, escolheu os melhores dos grandes poetas conhecidos que ele recolheu nas páginas da internet e nos seus livros, que eu repasso para os meus leitores.

Dedução

Vladimir Maiakóvski
Não acabarão nunca com o amor,nem as rusgas,nem a distância. Está provado,pensado,verificado. Aqui levanto solene minha estrofe de mil dedos e faço o juramento: Amo firme,fiel e verdadeiramente.

COMUMENTE É ASSIM

Vladimir Maiakóvski
Cada um ao nascer traz sua dose de amor, mas os empregos, o dinheiro, tudo isso, nos resseca o solo do coração. Sobre o coração levamos o corpo, sobre o corpo a camisa, mas isto é pouco. Alguém imbecilmente inventou os punhos e sobre os peitos fez correr o amido de engomar.
Quando velhos se arrependem. A mulher se pinta. O homem faz ginástica pelo sistema Muller. Mas é tarde. A pele enche-se de rugas. O amor floresce, floresce, e depois desfolha.

ARTE DE AMAR

(Manuel Bandeira)
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.A alma é que estraga o amor. Só em Deus ela pode encontrar satisfação.Não noutra alma. Só em Deus - ou fora do mundo.As almas são incomunicáveis.Deixa o teu corpo entender-s com outro corpo.Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

A Cópula

(Manuel Bandeira)
Depois de lhe beijar meticulosamente o cu, que é uma pimenta, a boceta, que é um doce, o moço exibe à moça a bagagem que trouxe: culhões e membro, um membro enorme e turgescente. Ela toma-o na boca e morde-o. Incontinenti, Não pode ele conter-se, e, de um jacto, esporrou-se. Não desarmou porém. Antes, mais rijo, alteou-se E fodeu-a. Ela geme, ela peida, ela sente Que vai morrer: - "Eu morro! Ai, não queres que eu morra?!" Grita para o rapaz que aceso como um diabo, arde em cio e tesão na amorosa gangorra E titilando-a nos mamilos e no rabo (que depois irá ter sua ração de porra), lhe enfia cona adentro o mangalho até o cabo.

MEDO
Raymond Carver (1938-88), escritor e poeta americano

Medo de ver a polícia estacionar à minha porta.
Medo de dormir à noite.
Medo de não dormir.
Medo de que o passado desperte.
Medo de que o presente alce vôo.
Medo do telefone que toca no silêncio da noite.
Medo de tempestades fulminantes.
Medo da faxineira que tem uma pinta no queixo!
Medo de cães que supostamente não mordem.
Medo da ansiedade!
Medo de ter que identificar o corpo de um amigo morto.
Medo de ficar sem dinheiro.
Medo de ter demais, mesmo que ninguém vá acreditar nisso.
Medo de perfis psicológicos.
Medo de me atrasar e medo de ser o primeiro a chegar.
Medo de ver a letra dos meus filhos em envelopes.
Medo de que eles morram antes de mim, e que eu me sinta culpado.
Medo de ter que viver com minha mãe em sua velhice, e na minha.
Medo da confusão.
Medo de que esse dia acabe em um bilhete infeliz.
Medo de acordar e ver que você partiu.
Medo de não amar e medo de não amar o bastante.
Medo de que o que amo se prove letal para aqueles que amo.
Medo da morte.
Medo de viver demais.
Medo da morte.
Já disse isso.

Infância
Edgar Allan Poe

Não fui, na infância, como os outros e nunca vi como os outros viam. Minhas paixões eu não podia tirar das fontes igual à deles;e era outro o canto, que acordava o coração de alegria Tudo o que amei, amei sozinho

Com usura
(Ezra Pound)
Com usura homem algum terá casa de boa pedra cada bloco talhado em polidez e bem ajustado para que o esboço envolva suas faces, Com Usura homem algum terá paraíso pintado na parede de sua igreja harpes et luzou onde a virgem receba a mensageme um halo projeta-se do inciso, com usura homem algum vê Gonzaga seus herdeiros e concubinas pintura alguma é feita pra ficar nem pra com ela conviver só é feita a fim de vender e vender depressa Com Usura, pecado contra a natureza, sempre teu pão será rançosas códeas sempre teu pão será de papel seco sem trigo da montanha, sem farinha forte com usura uma linha cresce turva com usura não há clara demarcação e homem algum encontra sua casa. O talhador não talha sua pedrao tecelão não vê o seu tear Com Usura não vai a lã até a feira carneiro não dá ganho com usura a usura é uma peste, usura engrossa a agulha lá nas mãos da moça E só pára a perícia de quem fia. Pietro Lombardo não veio via usura Duccio não veio via usura Nem Pier della Francesca; Zuan Bellini não pela usura nem foi pintada 'La Calunnia' assim. Angelico não veio via usura; nem veio Ambrogio Praedis, Não veio Igreja alguma de pedra talhada com a incisão: Adamo me fecit. Nem via usura St. Trophime Nem via usura Saint Hilaire. Usura oxida o cinzel Ela enferruja o ofício e o artesão Ela corrói o fio no tear Ninguém aprende a tecer ouro em seu modelo; o azul é necrosado pela usura; não se borda o carmesim A esmeralda não acha o seu Memling A Usura mata o filho nas entranhas Impede o jovem de fazer a corte Levou paralisia ao leito, deita-se entre a jovem noiva e seu noivo...................contra naturam Trouxeram meretrizes para Elêusis Cadáveres dispostos no banquete às ordens da usura.


SAUDAÇÃO

(Ezra Pound)

Oh geração dos afetados consumados
e consumadamente deslocados, Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol, Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas, Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes e escutado seus risos desengraçados. E eu sou mais feliz que vós, E eles eram mais felizes do que eu; E os peixes nadam no lago e não possuem nem o que vestir.

(tradução de Mário Faustino)

Maiakóvsky - A todas vós que já fostes ou que sois amadas como um ícone guardado na gruta da alma qual uma copa de vinho à mesa de um banquete ergo meu crânio repleto de versos. Freqüentemente me indago: talvez fosse melhor dar à minha vida o ponto final de um balaço.Todavia hoje dou meu concerto de despedida. Memória! Junta na sala do cérebro as fileiras das inumeráveis bem-amadas. Derrama o riso em todos os olhos! Que de passadas núpcias a noite se paramente! Derrama alegria em todos os corpos! Que ninguém possa esquecer esta noite. Hoje tocarei a flauta de minha própria coluna vertebral.

Telefone depois da meia-noite
23:56
de Jose Luiz Vieira
on line?
23:56
na vida?
23:56
a vida é insuportável pra quem a vive,
23:57
assim como a morte é incômoda pra quem a
23:58
vivencia.
Sendo assim,
23:58
abocanho a tua boca na esperança de matar minha sede
23:59
na tua saliva.Mas ao contrário, tua saliva :
23:59
me desseca,me ressaca
0:00
me rechaça
0:00
me seca .
Teu leite qualho,
0:00
oriúndo dos aquários, áridos , ardidos e
desprovidos de vida,
me afogam nas águas do real.
Da insuportável realidade que insiste em ser real

domingo, 25 de julho de 2010

CONTO fim


O VELHO ALEPH
Quinta parte

Em uma casa à beira mar Aleph está com Cabocla na cama. Fazem sexo e fazem amor.
Seus corpos estão suados. - Cabocla você é uma jovem maravilhosa mulher, diz ele, eu seria capaz de vender a alma ao diabo só para ter você comigo toda eternidade... A cabocla carinhosamente responde: E eu daria a minha vida por isso. O telefone celular toca o seu som desconfortável. Alo, sim!... Estarei ai em alguns minutos... Cabocla vai embora, tenho um compromisso agora... Você vai demorar? Não! ... Posso ficar aqui te esperando? Se você quiser? Néon - Metrópoles - Igreja de Deus - Fundada Por Jesus Cristo. A monumental sede da Igreja por ser situada no centro nervoso da grande cidade onde ela possui um luxuoso prédio que abriga todas as outras empresas do holding faz com que muitas pessoas passem por suas grandes portas de madeira trabalhada e vejam, sem saber bem, o que os dizeres daquela placa dourada significam. No seu interior, repleto de corredores e salas, além da grande nave central, pode-se ver várias outras placas, todas escritas em caracteres cifrados. O jovem Aleph continua o seu caminho pelos labirínticos corredores. Um pouco perdido ele pergunta ao passante alguma informação. O passante, funcionário da igreja, com um celular no ouvido, fala alguma coisa e lhe orienta o caminho a seguir. Atrás de uma grande porta de madeira toda trabalhada em caracteres ocultos está a sala onde fica o gabinete do Bispo da Igreja. Aleph entra num grande salão vazio. Ali está o Bispo, imponente, uma única luz azulada lhe ilumina, Aleph o vê através de uma janela - gordo, alto, vestindo um terno que é coberto com uma renda finíssima, muito trabalhada com bordados. Em sua mão uma bengala de marfim. Suas unhas são grandes e bem cuidadas. No dedo indicador um grande anel de pedra vermelha. Seu rosto afilado e expressivo traz por cima da boca larga um longo e fino bigode à maneira de Salvador Dali. Aleph fica ali parado esperando o Bispo recebê-lo. O Bispo, sem deixar de olhar pela janela diz para Aleph. Eu fui filho de pobres operários mortos em uma operação policial no Morro da Saúde? Aleph da alguns passos em direção do Bispo, mas novamente pára. O Bispo continua: Passei então a viver na casa de um rico embaixador, onde os meus pais trabalhavam. O embaixador me tratava como um animal, mas pagava os meus estudos e me dava boas roupas, fui ficando mal acostumado Aleph, muito mal acostumado... Sei tudo sobre você, e sei que você vive isolado, preso a uma máquina (virando-se, da janela para Aleph, pergunta: - Como eu devo lhe chamar Aleph? O Senhor Bispo sabe o meu nome, mas chame-me como queiras, já que sabes o que eu não sei. O Bispo: Sempre me falaram da sua inteligência e do seu saber, Caboclinha, minha doce e suave criança, já me contou os seus segredos, ela pertence à Igreja Aleph! Não pode ser tocada por nenhum mortal... Você consegue me entender?... Nenhum mortal! Aleph recua atônito com a cena e já vai sair quando o Bispo, falando um pouco mais baixo, chama-o: Aleph! Tenho aqui comigo o nome daqueles que mataram a sua família. Oh! Desculpe-me. Ainda irão matar. Cenas da morte dos seus pais e a cara diabólica dos assassinos. - Quero lhe propor um grande negócio, (Aleph vai saindo), não tenha medo! Não vou e nem posso lhe fazer nenhum mal. Ouça, pelo menos, o que eu tenho para lhe dizer... Aleph tira do rosto assustado e suado os óculos negros de luz. Levanta-se da confortável cadeira e grita para o computador: Seu filho da puta por que me desligou agora? Antes me deixasse sofrer a falsidade da vida do que me aprisionar nesta caverna de sonhos perdidos e pesadelos achados... Seja você quem for: é um grande filho da puta!Em todos os monitores as imagens são apenas um chuvisco intermitente, mas abruptamente surgem, um a um, despedaçados, os detalhes do estranho rosto do computador. A boca eletrônica do Rosto em detalhe é quem fala: Aleph! Você está com muita pressa para decifrar o enigma, lembre-se que ele tanto pode te libertar como te devorar. Às probabilidades são às mesmas! Metrópoles. Na rua os carros passam em disparada. As pessoas andam apressadas na calçada que fica de frente do luxuoso prédio da Igreja. Aleph sai do prédio e é seguido por um detetive clássico. Sala de Controle. O Bispo observa de um gabinete de vidro, a conversa de dois cientistas que manipulam um cérebro imerso num líquido incolor dentro de uma cúpula de vidro colocada em uma mesa. Com agulhas longas eles procuram lugares neste cérebro onde possam espetá-las. O romântico mar assola as pedras de cristal. Aleph e a Cabocla estão em um motel que fica à beira mar. Pelo mar claro e tranqüilo, o sol e as árvores, o canto do pássaro, o pequeno cão, todos acompanham o caminho da menina Cabocla. Os seus pequeninos pés brincam na água límpida que vai e que volta nas pequenas ondas que se quebram na areia. Aleph aparece na varanda e acena para ela. Quando Caboclinha lhe vê, ele cai e passa a sentir uma dor muito forte na cabeça, a ter convulsões se contorcer e só melhora quando a Cabocla se aproxima: Aleph! O que foi? O que te aconteceu? Vamos! Levanta! Dê-me a mão! O que aconteceu com você? O Carro despenca no abismo e explode ao bater nas pedras. Detalhe do carro pegando fogo e do motorista sendo queimado, pela janela, do lado de fora do carro, está dependurada uma caixa de metal prateada presa com uma algema no braço do motorista morto. Uma mão arranca a maleta, despedaçando o braço do morto. Os Monitores. Os Policiais. O Encontro de Aleph com o seu aluno bandido e revolucionário. O rapaz explica para ele de como é feita a preparação de um assalto de grandes proporções no intuito de financiar as obras sociais de transformação do morro em condomínio fechado. Um projeto da Igreja. No culto todos gritam em nome de Jesus. São os contrastes do mundo capitalista e a necessidade de ser feliz. O bandido revolucionário é visto entrando no suntuoso prédio da Igreja. Ele tem um encontro secreto com o Bispo. Neste encontro ele fica sabendo do transporte de uma carga preciosa. Na casa da praia. Aleph faz amor com Cabocla. Os Monitores. O Grande Salão da Igreja. O Bispo está de conversa com o Preto Velho: - Senhor Bispo perdeu o controle e a menina está perdida de amor. Está na hora de alertarmos a minha filha do perigo que ela corre. Ora seu velho exu, eu te falei para que cuidasse dela, e agora vá! Traga-me os dois aqui e não me venha com a desculpa que você não sabe onde os dois estão. Não é desculpa, é verdade, não sabemos onde eles estão. O Bispo vai ficando vermelho de raiva e uma fumaça negra envolve o seu corpo enquanto o Preto Velho se afasta assustado. Aleph faz amor no motel da praia com a Cabocla. Os Monitores. A Igreja e o Bispo. As Investigações Policiais. Aleph fala para a Cabocla da descoberta do Bispo do amor que os une e que precisam fugir antes que uma desgraça aconteça. Aleph resolve por o seu plano em prática. Cabocla conta para ele que o Bispo a possuía contra a sua vontade e Aleph fica enlouquecido quebrando alguns objetos da casa. Os Monitores. A descoberta de como ele chegou ali, naquele lugar perdido. O que a igreja e o Bispo tinham com isso. O Bispo marca o dia de levar a encomenda e Aleph sai da Igreja para se encontrar com o seu aluno bandido. Antes de sair, Aleph é preso pelo detetive que o seguia. Todos entram no carro do detetive, o menino bandido guerrilheiro observa a cena, o carro sai com o detetive, o motorista e mais Aleph. O detetive tem em seu braço algemado uma caixa prateada. Todos no carro e partem para uma grande viagem em direção da cidade dos perdidos, no interior do país ao encontro do Delegado a quem deve dar a encomenda do Bispo. No motel da praia a Cabocla esta sozinha a espera de Aleph. Os Monitores. A Polícia. O Carro do detetive chega à pequena cidade do interior. O carro pára para se reabastecer. O bandido-guerrilheiro aparece saindo do porta-malas do carro, onde ele se escondeu e consegue soltar Aleph. O motorista e o detetive saem do carro e atira nos dois mais não acerta e eles se embrenham na mata. O Delegado e Jacaré chegam para o encontro com o detetive. O encontro e a entrega da caixa de metal. Mas como o Delegado diz que só pode pagar o transporte da caixa depois de se achar Aleph, esta entrega não tinha sido ainda feita, diz o delegado com ironia. Surge então a briga e debaixo de um tiroteio o motorista liga o carro, o detetive pula no banco com a mala e o carro sai em disparada subindo a serra. A repetição infinda do desastre na serra quando o carro despenca ribanceira abaixo e explode. Aleph e o guerrilheiro observam a cena do carro explodindo e correm para o local. Sala de Controle. Um corpo estirado nu em uma maca. Muitas luzes o iluminam. Fios presos por toda parte. Chegando mais perto pode-se notar que é o rosto do Aleph. Na conversa dos médicos nota-se que não há mais esperança de recuperação. Os Monitores. A Igreja e o Bispo. O Bispo recebe um telefonema e está satisfeito com o que ouviu. Entra na sala o Preto Velho. O carro cai no precipício. Na explosão a maleta prateada é arrancada com o impacto da explosão e cai ao lado de Aleph e do Bandido Guerrilheiro. Os policiais olham do alto o carro pegando fogo. A Investigação Policial. As nuvens no céu estão negras e carregadas de eletricidade. Na casa caipira cai um raio. Os Monitores. Casa de Praia. Aleph volta ao motel na praia com a maleta na mão. A sua intenção era fugir com a menina e com aqueles diamantes... Vendo Cabocla assassinada, liga para a polícia e sai em direção da cidade desesperado. Metrópoles. Motel da Praia. O carro da polícia com o Delegado chega ao motel. O lugar está cheio de policiais. O quarto de motel onde se hospedava a Cabocla está todo desarrumado. O delegado entra no quarto observando tudo, passa por ele dois detetives; um deles, depois de fazer um ruído grotesco com a boca, tece um comentário: ... Que desperdício, era uma bela mulher! Um corpo nu de mulher está estirado no chão sobre uma poça de sangue. O delegado aproxima-se do corpo, passa a mão nele como se o revistasse a procura de alguma coisa. Jacaré tenta colocar a mão no cadáver, mas é contido pela voz forte do delegado que se aproxima do corpo estirado a procura do rosto. Muito sangue. O assassinato foi brutal. Os Monitores. A Igreja. Aleph chega a porta do prédio entra no hall com a maleta na mão e é barrado pelos seguranças que se comunicam com telefones celulares. Aleph então sobe acompanhado por um segurança. Antes de entrar na sala para se encontrar com o Bispo, ele é revistado. O Bispo recebe-lhe com certo cinismo. Na hora de abrir a maleta com os diamantes, guardado entre eles está uma pequena pistola que Aleph saca e dispara atingindo todos os tiros no Bispo. Os diamantes se espalham pelo chão. Os seguranças que entram apressados atiram em Aleph. O sonho que se transforma em um pesadelo. No motel da praia estão o Delegado e seus ajudantes. Cabocla está agora sendo coberta por um lençol. O Delegado: Olha Jacaré! Falamos nela e olha ai o seu cadáver... Entra no quarto, o Pai de Santo, levado por um policial até onde está o corpo da filha. O policial levanta o lençol e o homem reconhece a filha. Com o rosto transtornado, chora quando aproxima-se dele o Delegado. O Preto Velho fala chorando para ele: Seu Delegado, foi Aleph quem matou a minha filha? Seu Delegado foi ele? Ela tinha que pagar o preço combinado e aí está o resultado... Foi ele quem executou o serviço. O Delegado fica nervoso: Ele, quem, homem de Deus? Aleph, a mando do todo poderoso Bispo. O que o Bispo tem a ver com tudo isso? Pergunta o Delegado para seu auxiliar: Mas que diabo é esse Aleph? O Preto Velho histérico: É ele mesmo, Aleph, todo poderoso filho de Belzebu... O Delegado perde a paciência: Leva este maluco daqui! (Pega o seu ajudante pelo braço) - Vamos procurar o Aleph e estará tudo resolvido. Igreja de Deus. O Bispo e Aleph são levados para uma sala de cirurgia. Os dois são postos lado a lado e se interliga entre eles uma grande quantidade de fios. Aleph passa para o Bispo às energias vitais para que ele sobreviva. Os Monitores. Igreja de Deus. O delegado chega ao hospital e procura por Aleph. Encontra-se com o Bispo inteiramente recuperado na cama enquanto Aleph dá os seus últimos suspiros. Alguns fios ainda estão ligados entre os dois. Mas o Bispo já consegue abrir os olhos e falar com o Delegado. Os Monitores. Aleph desliga todas as chaves da energia que ilumina o ambiente. Apagam-se todos os monitores. Não se ouve mais a voz eletrônica do super computador. Aleph, já envelhecido e caminhando com dificuldade consegue sai da grande tenda negra e chegar ao deserto. Mais alguns passos e descobre atônito que com mais alguns passos estará lá vivo e pulsante na loucura da grande metrópole. Ao chegar a rua movimentada pode notar vindo em sua direção a Caboclinha, linda, fagueira e sorridente. Antes dos dois se encontrarem o Pai de Santo surge com uma arma atirando e acertando Aleph com vários tiros fazendo com que seu corpo seja jogado para traz com violência. O Bispo vendo a cena entra em desespero e começa a se contorcer, a entortar o rosto, a virar os olhos, sofrendo um ataque com dores horríveis. Sala de Controle. O Bispo começa a piorar dizendo coisas sem sentido para que os médicos não deixem que Aleph morra, pois a transfusão de sua alma ainda não tinha sido completada e ele ficaria para sempre vegetando em cima daquela cama. Os médicos chegam, mas ele já estava morto para a vida e tinha se tornado um grande, gordo e enorme repolho e assim ainda viveria por muitos anos.

sexta-feira, 23 de julho de 2010

CONTO cont.

O VELHO ALEPH
Quarta parte

Uma luz prateada atravessa as frestas do telhado. Na tela do Vídeo aparece um rosto. Um rosto eletrônico: - É hora de acordar. Uma força negativa se aproxima de você. Preparar o estado de alerta! Desligando o condutor da memória! Desligando-nos... O jovem acorda de um sono profundo, estica o braço e retira da mesa os óculos escuros. Levanta-se da confortável cadeira, caminha até a janela de onde se observa à noite no deserto. Aproxima-se do monitor onde está estampado um rosto eletrônico frio e azulado: - Nada está acontecendo aqui Aleph, tudo está quieto, por que fomos desligados? Aleph escreve então no quadro de luz uma frase: “A solidão é minha companheira inseparável”. Pode-se notar a dificuldade que ele tem com a escrita e o ato de escrever torna-se, pela lentidão dos movimentos, uma espécie de pintura. Aleph pergunta para o rosto: Quem é você? - Sou aquele que vai te acompanhar pela eternidade e sou aquele com quem você precisa se comunicar... Comunicar? Não escrevo mais nada e não quero falar mais com você... O que é que você quer agora? Conversar! Conversar? Você deve estar louco! - Louco?... Não sei o que significa... Agora já sei o seu nome... Você tenta me confundir. Faz quanto tempo estamos aqui? Mais tempo que o necessário, você não se ajuda... Olha que lá fora é muito pior... Não foi isso que te perguntei! Mas é o que eu sei te responder. Não fui programado para memorizar datas. Só sei cuidar dos seus sonhos, de sua segurança, de suas esperanças... Minha segurança? Isto aqui se tornou uma prisão! Meus sonhos? Não mais me interessam. Esperança? Não sei o que é isto. Não é tão ruim assim. Você está vivo! O jovem, cansado, recoloca os óculos de luz na mesa, senta-se na cadeira e diz para o monitor: - Só quando não estou acordado. Desliga o rosto do monitor. - Aleph! Ligue-me novamente, por favor. - Você não está feliz? Eu estou! Todos nós estamos. Estática e computação gráfica. O professor está arrumando as suas malas e ao seu lado está a caboclinha. - Hoje à noite é sua menina! Eu não sou mais menina, professor! Eu tenho notado..., o que você está fazendo aqui? Eu soube que o senhor vai nos deixar mais cedo e que recebeu um convite para viajar, ir morar no exterior... (Silêncio) Me leva com você, vai! Me deixa ir junto, por favor, eu posso cuidar do senhor... O Senhor está no céu e não sou tão velho assim, mas quanto à viagem... É ainda uma idéia, meu sonho é montar um grande processador de dados, um super computador, e esse é um lugar para onde só se pode ir sozinho. Eu quero ir também! Eu juro que não vou atrapalhar... (A cabocla se aproxima com o rosto e o corpo bem perto do rosto e do corpo do professor) Fala que você não gosta nem um pouquinho de mim! Vamos, fala! A casa caipira é atingida por um raio. No seu interior o homem de chapéu de abas largas atira na cabocla com a espingarda que estava em sua mão. Nos monitores de tevê a voz do computador insiste em chamar por Aleph que acorda colocando os óculos: - Desligando conexão, reativando o sistema orgânico... Aleph! Você tem de estar atento, muita gente depende de você, poderíamos dizer a humanidade inteira, mas isso é te dar muito valor, não é Aleph? Por que me chama assim? O Rosto eletrônico: - Como deveria chamá-lo Aleph? - Você sabe, não comece com esse jogo que sou capaz de desligá-lo. O que adianta acabar com a única imagem neste deserto. Você viverá de tédio meu velho?... Um verdadeiro Inferno! - Aleph não é o meu nome e não admito transferências. Diga-me: o que está acontecendo lá fora? É dia. Temperatura ambiente: 12 graus negativos. Nenhuma comunicação estabelecida. Presença muito forte de carga negativa cercando a casa... Mostrando imagens externas. Aleph: De onde ela vem agora? Vem por baixo, de dentro da terra, das profundezas abissais, do caos telúrico, do mais profundo ela procede... E já se aproxima... A tenda começa a tremer, uma vibração mais forte faz com que a luz se apague, ficando só o Rosto iluminado na tela do vídeo: Você tem de descobrir, antes que seja tarde, o que é aconteceu entre você e aquela menina? Que menina? Você sabe quem... Vamos, faça um esforço! A Cabocla? A tenda e os telões do seu cenário param de vibrar, a luz volta a iluminar o quarto e tudo retorna ao normal. O jovem coloca novamente os óculos de luz. Estáticas. O Professor e a menina se encontram na rua e entram em um restaurante. - Que bom que você veio Caboclinha, venha, vamos sentar. Que lugar agradável. Obrigada professor por me convidar. Deixei o professor na escola. Desculpe-me, Aleph. Assim está melhor. O que vamos pedir? Peça você que eu te acompanho. Camarões ao Mandarim é uma especialidade da casa. Agora me conte sobre a escola, os amigos, os namorados; você continua estudando? Aleph, assim você me deixa encabulada! Por que eu perguntei sobre o namorado? Por quê? Você sabe... Eu sei? Sabe de quem eu gosto? Eu só gosto de você! Pronto, disse!O Garçom chega com os pratos e os apetrechos para fazer o camarão. O Professor pega na mão da Cabocla e os dois trocam olhares e sorrisos. O Garçom serve o vinho. Um brinde. O cozinheiro oriental chega à mesa e inicia o ritual que é fazer um simples camarão flambado. O camarão ainda vive e se contorce na frigideira quando é flambado pela labareda. O Carro caindo e depois explodindo. O Delegado e os dois policiais estão na sala dos troféus. O Delegado recebe um telefonema. O Delegado levantando-se, desligando o telefone e acendendo o seu cigarro com o velho isqueiro: Delegado: Vai Jacaré que a lagoa está cheia de piranha... No restaurante, o camarão cai vivo na frigideira contorcendo-se de dor e vira um pequeno monstro. Cabocla assustada levanta-se da mesa. O Professor tenta acalmá-la e os dois saem do restaurante para a praia. No carro de polícia o delegado acende o seu cigarro e fala para seu companheiro Jacaré: - Sabe Jacaré que aquele corpo que encontramos carbonizado, sem o braço, ainda não me convenceu... Ele podia ter colocado um morto vivo no seu lugar. Mas doutor! O presunto tinha as características do procurado e o braço foi decepado na queda... O rosto estava deformado, o corpo carbonizado não havia nenhuma característica que pudesse se confrontar com as fotos que tínhamos. E a família? Os amigos? Todos foram ao enterro? Houve reconhecimento do presunto?Todos reconheceram o presunto senhor delegado!Delegado: Aquela gente não é confiável, não tinham dúvidas? Reconheceram o defunto queimado em muito pouco tempo. Você não acha jacaré?E àquela garota? Ela poderia ser sua amante! Delegado: Tenho certeza disso!E então?Vamos reiniciar a investigação; reabrir o processo; achar o canalha!Uma língua de fogo se aproxima da tenda no deserto. Aleph arranca os óculos do rosto e joga-o por cima da mesa. Levanta-se da cadeira e começa a andar de um lado para o outro da pequena sala. O Rosto no computador: Aleph, se insistir em não se alimentar, as forças externas lhe serão impiedosas. O que adianta tudo isso? Você não tem saída... Alimentar-me com o que? Não sei quanto tempo já estou aqui... Não sei se estou vivo ou se morto estou... Não sei mais de nada. Não se assuste com as imagens, elas são do seu alimento, da sua força, o seu objetivo... É a luz que pode te salvar... Que luz é essa? Meu objetivo é sair deste pesadelo... Sair da sua negra sombra. Posso abrir aquela porta e simplesmente partir... O Rosto: - Para onde meu filho?Aleph:- Pra fora! O Rosto: E o que você espera encontrar, lá fora?Aleph: - A vida... O Rosto: - Eterna?... Aleph (colocando os óculos): Eu não sou seu filho, não sou uma máquina, sou um homem só! Você só me acorda pra encher meu saco?

quinta-feira, 22 de julho de 2010

CONTO cont.

O VELHO ALEPH
Terceira parte

Metrópoles. Aleph está deitado, estático, amarrado na cama. Observa assustado uma televisão onde o rosto de um médico, quase de frente do seu rosto molhado de suor, se mistura as imagens de uma criança nascendo. À noite de uma grande cidade. A sala está arrumada, limpa, com cadeiras novas e uma mesa com vários computadores. Esta é a sala de aula do colégio que funciona no bairro de periferia. Na sala um rapaz de óculos, de cor negra, com mais ou menos 16 anos, o mais novo da turma, sentado na frente, gordinho, levanta a mão e faz uma pergunta para o jovem professor: professor, eu posso ir ao banheiro? O riso é geral. O professor sorri permitindo a saída do aluno segurando a calça, apertado, fazendo careta. Uma menina cabocla, vestindo uma blusa colante que realça o seu corpo de mulher, levanta o braço e diz: professor! Os dirigentes da nossa comunidade me pediram para ser, em nome deles, portadora do convite para a festa que faremos hoje à noite... Todos na sala batem palma e gritam em uníssono: Viva o professor! Viva o professor! Os dois rapazes, que fugiam da polícia, entram apressados na sala de aula. A turma olha assustada. O professor interrompe a aula. Um deles, com os gestos mais feminino, senta-se em uma cadeira vazia e solta os longos cabelos que estão presos por dentro de um boné - é uma menina - mas é o rapaz que fica de frente para o professor, com o rosto molhado de suor, que fala: Estamos atrasados? Mas, como todos vocês podem ver, corremos muito... Mas chegamos a tempo, não é?... O professor aponta a outra cadeira vazia para o jovem - Senta-se meu jovem! Você é sempre bem-vindo. Silêncio. O Professor fica comovido vira-se para a cabocla: Eu agradeço o convite e pode confirmar minha presença... Mas como eu estava dizendo, todos estes anos passados aqui e aqui vividos nesta comunidade, na guerra do saber contra a ignorância do ser nenhuma derrota sofremos, chegamos vitoriosos a esse último ano. Ano da despedida, de novos horizontes para todos vocês, de um caminho novo pela frente... Quero dizer que vocês me deram muitas alegrias e que hoje, vendo os nossos esforços espelhados nos rostos de cada um, sinto que estou mais perto de todos e da mesma maneira, junto com cada um de vocês, vejo-me preparado para esse novo desafio... O professor pára de falar e fica meio assustado quando chegam, invadindo a sala, dois policiais. O policial mais arrogante pergunta:Entraram dois garotos aqui na sala, não entraram? Silêncio. Todos os alunos estão assustados e balançam suas cabeças negando o fato. Os policiais: Não? Olha! São perigosos marginais... O Professor, colocando-se entre os policiais e os alunos: Eu peço aos senhores que saiam da sala, pois aqui não entrou ninguém, é claro, além dos senhores que já estão atrapalhando a minha aula. Meu senhor! Tenho informações que eles entraram aqui! Não sou seu senhor e, por favor, eu já disse o que tinha para lhes dizer. Agora se me permitem, se me derem licença. Os dois policiais saem, mas ficam olhando a sala pela janela. O menino que saiu para ir ao banheiro volta aliviado com um grande sorriso no rosto. Na sala todos sorriem. Os policiais vão embora. Silêncio. Em outra sala menor, mas luxuosa com as paredes cobertas com os mais bizarros troféus misturados as armas de vários calibres, está sentado, fumando um cigarro, rindo entre uma baforada e outra, atrás de uma mesa. onde fica uma estatueta com a balança da justiça, o delegado... - Mas me conta essa história novamente, parece até piada, é inacreditável. Mas em que enrascada ele se meteu! Também quis subir muito alto. Do interior à periferia das grandes cidades, em seguida sai do morro para os salões da sociedade e depois volta ao morro para despencar e morrer queimado. Não posso acreditar! É como se diz lá na Bahia: maior é o coqueiro, maior é o tombo do coco que cai. (Traga uma baforada do cigarro pensativo) Vocês viram o corpo?...Um policial olha para o outro policial e acena com a cabeça negativamente. Silêncio. Em outra cena pode-se ver o carro explodindo. Os dois policiais olham para o carro pegando fogo lá no fundo do precipício. Depois de algum tempo de observação eles entram no carro da polícia e descem a serra. Em detalhes a cena do fogo no carro. O dia anoitece na grande cidade. No morro é festa na quadra do colégio. Na festa estão presentes, além da comunidade, os chefes da contravenção, com seus ternos brancos e seus guarda-costas. Os pastores da igreja com seus ternos escuros e a bíblia na mão. Um preto velho Pai de Santo vestido de branco com rendas e miçangas. Rostos, muitos rostos do povo brasileiro... A festa está animada. Um regional toca um samba lascado acompanhado por vários tipos de tambores, alguns africanos, puxando o ritmo para o batuque de terreiro. A nova música faz com que todos dancem como se estivessem em transe. O Professor chega só. Aproxima-se dele um rapaz e uma menina, acompanhados por outros jovens. O rapaz é o seu aluno atrasado, tem a barba rala, o seu cabelo longo preso por sua boina preta enfeitada com quatro estrelas vermelhas, lembrando o ícone de um guerrilheiro. Ele está acompanhado da sua menina. Todos estão armados. A movimentação é notada pelos donos da festa que esboçam um descontentamento com àquelas presenças. O aluno aproxima-se do professor. A cabocla que acompanhou a sua entrada na quadra corre ao seu encontro. Professor! Você é um homem corajoso e de valor. A sua presença aqui ensinando e trazendo dignidade a nossa comunidade é motivo de orgulho para todos nós... Só viemos aqui para lhe agradecer... Obrigado amigo! Depois da festa eu preciso conversar com você, encontre-me no bar do buraco quente... Neste momento todos se aproximam do professor para cumprimentá-lo. Podemos ouvir alguns comentários sobre aquele encontro nas rodas dos convidados. Em diversos grupos, em varias situações, algumas pessoas comentam a mesma coisa: O Professor não deveria ter deixado os garotos participarem de sua turma. A velha guarda não está nada satisfeita com a presença deles aqui na quadra. Dizem que o professor está apaixonado pela caboclinha, que é filha de santo e não pode namorar com ninguém. É o seu último ano aqui na comunidade. Ele está indo embora. Um dos convidados, que é tratado como “O Bispo”, aproxima-se do Preto Velho - Você chama aquele rapaz que está com sua filha, que quero conversar com ele. O Professor? Agora? Não, seu exu velho! Você chama o professor só depois que você proibir a nossa menina, a nossa filha, de se encontrar com ele. Vamos encontrá-lo na Igreja. Eu mando te avisar. O Bispo volta a falar para os que estavam ao seu lado enquanto Preto Velho se afasta. A menina foi reservada ao Bispo todo poderoso... Eu avisei ao Preto Velho que com ele não se brinca e ela já não nasceu para viver na terra, não deveria se aproximar desse professor... Agora pode estar tudo perdido. Vamos embora! A festa continua. O grupo de jovens comandados pelo garoto desce o morro. Entre alguns barracos eles encontram outros jovens que sobem o morro apressados. Todos estão armados. O garoto saca de sua metralhadora e começa o tiroteio. O Líder do outro grupo se esconde num casebre e consegue fugir com outros companheiros. O Bispo e seu grupo de macumbeiros, que neste momento desciam o morro, são pegos de surpresa e se arrastam no chão para não serem atingidos, sujando de terra suas roupas brancas. No alto do morro, onde acontecia a festa, podia-se ouvir os últimos tiros que ecoavam nos ouvidos dos convidados. Neste momento de medo e desconfiança acaba-se a festa e todos saem agitados. Silêncio. Na tenda do deserto Aleph sai da cama e passeia nos corredores do infinito cenário. O Professor desce o morro acompanhado agora pela cabocla e seu pai. No bar do buraco quente saem os últimos bêbados e passam pelo professor sentado em uma das mesas. O dono do bar faz um sinal que vai fechar. O dia amanhece na cidade e no campo. O camburão da polícia sobe a serra da Pedra. No seu interior está o delegado e mais dois policiais, além de um sujeito vestido com um macacão cheio de ganchos. O delegado entre uma e outra baforada no seu charuto diz para os que estão sentados no banco de trás. Este sujeito enganou o chefe, mas eu sei diferenciar o homem do animal que habita nele, nunca foi o gênio que dizia ser, era uma besta, passava por esperto, muito vivo, mas era uma besta - um gênio ou uma besta? Não há dúvida, sempre foi e será uma besta e se estiver morto será uma besta quadrada! O chefe vai levá-lo ao inferno. Achava-se no céu e pensava que poderia viver feliz depois de tudo que fez? Estive com ele algumas vezes. Vivia nas altas rodas. Subiu na vida à custa do chefe e depois queria nos enganar - Por que parou? O delegado perguntou para o policial que dirigia o carro. - Foi aqui que o carro caiu, chefe! Respondeu o outro. O delegado bafora o seu cigarro apagado e, resmungando, reacende-o à maneira americana com um velho Zippo. Olha para o motorista. Olha para o seu ajudante Jacaré - Agora vamos ver o que o gênio fez Jacaré! Do alto o delegado olha o despenhadeiro e mal consegue ver os destroços do carro lá embaixo... - É bem alto Jacaré, fica difícil ver alguma coisa - diz em tom de deboche - Ir lá embaixo, nem com helicóptero! Eu não disse chefe! O bicho está morto e nesta hora já deve estar queimando no inferno. Cala essa boca Jacaré, analisemos as probabilidades: aquele sujeito é muito esperto, qual é a melhor maneira de ser esquecido? Jacaré! Você pode imaginar que aquele sujeito caiu e morreu ou então... Então? ...- Ele falseou um desastre, com o nosso testemunho e num lugar inacessível, tudo muito bem estudado, preparado para o momento certo: quando ele não pudesse mais existir. É isso... É isso. Jacaré você vai ter de descer. - Ficou louco? Desculpe chefe... O senhor está brincando. (Um sorriso maroto) - Não estou não, foi por isso que trouxe aqui o Pierre, um francês da Interpol especialista em alturas, ele vai até lá, num pulo... (sorri para o francês) Você vai ver... Achou que ia te mandar Jacaré? Você agora me assustou, chefe! Pierre tira do carro seus apetrechos, garras, alças, corda, lanterna sofisticada, Etc.. Jacaré, espantado, amarra a corda no eixo da velha camioneta corroída pelo tempo e entrega a outra ponta ao estranho francês. Pierre começa a descer as íngremes escarpas. O dia vai chegando ao fim. Lá debaixo, entre as sombras de árvores frondosas, só se vê a luz distante de uma lanterna. Silêncio. É noite.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

CONTO cont.

O VELHO ALEPH
Segunda parte

Na sala de um hospital, uma médica faz uma pergunta para o médico: O senhor mandou me chamar? É sobre o paciente número 666 77 - Aleph? O que aconteceu?... O velho está deitado em uma cama que faz parte do cenário. O seu jovem rosto é iluminado pela luz de um monitor de computador que acabava de acender. O computador começa a imprimir na tela enquanto uma voz metálica acompanha o texto. Nada é mais forte do que o esquecimento! (repetidas vezes) A voz metálica se repete - Você precisa se esquecer de todas as outras coisas que vem te atormentando, seu pensamento e sua memória, estão, vamos dizer, fragmentados. Aleph, não resista! Esquecendo-me não consigo me descobrir. Aleph! O tempo está ao seu favor. Este tempo já passou! Sei tudo e não sei nada. Como é possível? Sei que não tenho salvação e passo todo o tempo tentando me salvar. Sei quem sou, mas não sei quem fui, nem o que serei e para onde vou. Sei que me chamo Aleph e sei que você nunca me falou o seu nome, por exemplo, o Computador... Você quer saber o meu nome? (Risos no fundo) Sim! Não vejo a graça... Você tem nome? De todas as combinações do alfabeto. De todos os alfabetos! Do presente e do passado. Meu nome é ninguém... Mas me chame de alguém, se assim você desejar. Você não se lembra do seu passado? O passado, às vezes, morre antes da gente... O diálogo prossegue cada vez mais rápido na tela projetada nas nuvens. Não se consegue mais ler os textos eles se confundem com as letras e frases que com as nuvens flutuam no ar. Elas vão se transformando, se misturando, em computação gráfica, em todas as escritas. Uma música, aos poucos, se sobressai aos ruídos do teclado. Em um cenário real, talvez um hospital, um homem jovem, vestido de jaleco branco, diz para uma mulher, vestida da mesma maneira, palavras em uma língua estranha. A mulher pega um aparelho no bolso e apertando um botão faz a tradução: ele se chama Aleph e é o personagem principal das nossas pesquisas. A Mulher, loura, alta e estranha, esboça um sorriso. No quarto escuro a luz azul penetra pelas frestas das janelas mal fechadas e pela porta totalmente aberta um vulto passa na contra luz fechando a cena. É noite. As nuvens no céu movem-se desordenadamente. Sopra o vento na fumaça que sai do fogão. A jovem e bela morena, uma cabocla da terra, prepara o café no fogão de lenha. O vento fica forte e abre a janela de madeira com violência deixando entrar uma luz azulada, tênue, que vem de fora. A cabocla corre para fechá-la. Do lado de fora da casinha caipira, com a fumaça saindo pela chaminé, pode-se ver, vazando a serra, fazendo o décor, a pedra da esfinge, o soberbo megalítico metálico banhado pela luz prateada da lua cheia. Uma coruja empalhada a tudo observa do galho alto de uma árvore. Dentro da mesma casa, debruçada no mesmo fogão de lenha, coberta pela fumaça, está agora outra mulher, bem mais velha, feia e enrugada, quase uma bruxa, que mexe o caldeirão cheio de um caldo grosso, fervendo, gosmento... Ouve-se um ruído fantasmagórico, um ranger de ferro com ferro. Olhando para a porta de madeira, por onde entra um fio de luz prateada, a mulher pergunta com dúvida: É você?... A porta é aberta com violência. Ela se sustada e grita. Na porta um vulto grande de chapéu e capa. Uma figura diabólica em silhueta recortada pela luz vermelha que vem de fora, envolto em fumaça, com uma arma, uma escopeta, em uma das mãos. Com a outra mão, retira da cabeça o chapéu de abas largas, deixando à mostra os seus dois pequenos chifres e as suas unhas compridas. Estando sempre na contraluz o seu rosto não é visto. O dia chega com a luz do sol invadindo a janela da casinha caipira. Nuvens carregadas movem-se no céu. Tons de cinzas e alaranjados. Do alto, das nuvens desordenadas iluminadas pelo sol fraco do inverno, observo as paisagens pré-históricas das minas - um morro sinuoso atrás de outro e de outro mais sinuoso ainda atrás deste. Uma estrada de terra e cascalho passa pela soberba Pedra que tem a forma de uma esfinge metálica. Um carro antigo, levantando poeira, em alta velocidade, derrapa nas curvas da serra que circunda o megalítico descomunal. Quanto mais o carro sobe, mais a estrada fica estreita, mais perigoso torna-se o percurso. A música que no início era calma, agora é frenética, concreta, industrial. As rodas no cascalho solto. Detalhes do comportamento dos pneus na estrada poeirenta. O carro em velocidade derrapa rente ao precipício. Detalhe das rodas paradas derrapando no cascalho. O carro desgovernado, caindo no abismo e explodindo ao bater nas pedras. A explosão e o fogo.

Dois policiais andam na rua de uma grande cidade. Um pouco à frente da polícia, dois rapazes entram num beco escuro. Mais à frente ainda, duas crianças - um menino negro e uma menina morena, magras e maltrapilhas - pedem esmola à senhora que desce emperiquitada de um luxuoso carro. Os policiais vendo as duas crianças insistirem com a senhora, por bajulação, manda as duas se afastarem. O Policial, gordo, com uma cara de porco, empurra as duas crianças. O Policial: Garotos vão em frente, seguindo o seu caminho... E bem depressinha, se não as coisas ficam pretas para os dois. Às duas crianças, depois de alguns passos, olhando assustadas para os policiais, tentam fugir. Fugindo entram no beco onde os dois rapazes estão fumando um cigarro de maconha. Os dois policiais, que acompanhavam as crianças, olham para os dois rapazes um pouco mais distante em atitude suspeita e súbito, num impulso, precipitam-se sobre eles gritando e correndo, empunhando os revólveres, em louca disparada. Os Policiais: Permaneçam onde estão. É a Polícia! ... (Bis, quantas vezes necessários). Os dois rapazes saem correndo. Os policiais atiram. As duas crianças, esquecidas na confusão, voltam para onde estavam e, com uma navalha que o menino tira do bolso, encurralam a madame que observava, com outros transeuntes ali parados, os acontecimentos. O menino é quem fala chamando a atenção da senhora. Menino: Me dá logo sua bolsa se não vou te cortar todinha...A corrida dos adolescente e dos policiais nas ruas e becos da cidade. A mulher assustada, quase em pânico, entrega a bolsa para as crianças que saem apressadas. A mulher grita, pede socorro, olha para os cidadãos, mas ninguém faz nada, estão apáticos, como se estivessem dopados, autômatos e estranhos.

terça-feira, 20 de julho de 2010

CONTO

O VELHO ALEPH
primeira parte

Clara noite.
Lua cheia.
Deserto.
Silêncio.
Nada se move.
Nada está vivo.
Nas areias (prateadas pela luz)
Há sombras (nas carcaças)
Soterradas.

No horizonte, na contraluz da lua que morre, pode-se notar o sutil movimento da areia nas dunas distantes. Pode-se ouvir chegando o som do vento assobiando, vindo em velocidade, acompanhando a intrépida tempestade, contornando as dunas como um rastilho de fogo aproximando-se perigosamente.

Uma grande tenda negra armada no deserto. No se interior existe um único ambiente. Um grande cenário iluminado por um labirinto de néon. As paredes que dividem o espaço são compostas por vários panos pintados sobrepostos uns aos outros. Universo teatral. Ali caminha um velho enigmático homem pelas mil e uma noites do seu estranho mundo.

Neste cenário, todo traçado em labirintos disformes, sobressai os grandes panos pintados em azul, vermelho e verde, misturados às telas brancas e pretas, desenhando os corredores dos salões deste ambiente futurista.Todas essas mil e uma telas de grandes proporções encontram-se no infinito de suas perspectivas formando um túnel sem fim de luzes e cores.

Só e usando óculos de lentes espessas e verdes é que podemos aproximar de uma janela pintada no grande cenário. Brilhava a luz solar, atômica, por trás do cenário. Era preciso pegar no fecho de luz virtual para abri-la. Observa-se então o movimento da velha mão enrugada, branca e lenta. Lá fora, vinda do deserto azul, cortando o cenário, uma faixa da intensa luz amarela invade a janela.

O rastilho de fogo reaparece refletido nas lentes dos óculos fundo de garrafa. O velho, balançando a cabeça, para um lado e para o outro, desaprova o que havia observado na janela. Com os olhos fundos e cansados ele olha com pouco interesse para a tela azulada do monitor de tevê que está à sua frente.

Aquela era uma das muitas televisões ali espalhadas, era a maior entre as dezenas de telas que se interligavam, dividindo imagens e informações, formando uma grande rede de computadores e monitores.

Um rosto pálido, simpático, jovem, dividido em pedaços de luz, entra em todos os monitores. Um mosaico humano de formas digitais. O velho, que cultiva a barba e longos cabelos brancos, ao ver todos aqueles monitores com um rosto frio olhando em sua direção, sofre uma mutação: O velho, agora iluminado, vira o rosto amargo e passa a observar o piso do chão quadriculado. Olhando para o tabuleiro preto e branco, expressando ânsia de vômito, transtornado, vomita uma luz esverdeada. As luzes de néon apagam-se. Então ele se levanta apressado e corre tonto, torto, para um canto do labirinto escuro. Nervoso acende a luz de uma forte luminária clareando de amarelo o canto do cenário. Aproximando-se rapidamente das cores espalhada nos telões e a elas se misturando, o velho homem enlouquecido nos labirintos que formam juntos corredores de sombras multicoloridas em um espaço infinitamente branco. Estas sombras transformam-se em um quadro de luz repleto de frases, citações, aforismos, todas elas escritas e impressas no ar com letras e tintas de várias cores e tamanho. O velho observa com atenção aquelas frases que vão surgindo no espaço num gravitar mágico formando nuvens de letras. Entre algumas datas famosas, umas se destacam das outras. No outro canto da sala, está empilhado, como se fosse uma escultura cibernética, uma série de aparelhos eletrônicos, monitores e velhos computadores. Todos eles estão ligados e funcionando. No fundo, em uma torre alta decorada com pequenas luzes que piscam sem parar, funciona um grande ventilador de longas hélices girando em velocidade. Em outro cenário, os telões são pintados com desenhos de linhas geométricas que formam, no seu conjunto, perspectivas clássicas gregas, dando um sentido de profundidade às paredes distorcidas do pequeno quarto. O velho, este estranho ser, retira com cuidado da grande torre de luz que alimentam os computadores, com suas mãos trêmulas e enrugadas, uma fina placa de ouro. Sua pele branca, muito fina, carcomida pelo tempo, vai tornando-se aos poucos avermelhada. E seus olhos, antes opacos, brilham como que a vida, a luz e o calor, voltassem novamente ao seu corpo quase morto.
As luzes da torre, uma a uma, vão se apagando. O grande ventilador vai perdendo a velocidade e o movimento de suas pás torna-se lento. Suas veias, roxas e salientes, vistas nos mínimos detalhes, injetadas de sangue, saltavam-lhes aos olhos como se fossem explodir. O fenômeno acontece por todo o seu corpo. O calor aumenta. O sangue pulsa. Os seus dedos afilados, com largas unhas esculpidas no marfim, delicadamente pegam o charuto apagado levando-o até à boca avermelhada. Tudo agora em volta do cenário nos parece muito mais velho. Teias de aranhas mortas se espalham pelas pesadas curvas do teto da tenda de lona negra. O rosto do velho homem está se deformando. O monitor que está à sua frente continua funcionando. Na tela o número 3010 se transforma no número 2010.

O velho torna-se um pouco mais jovem, saboreando o momento reacende novamente o charuto apagado e comemora a mudança das datas, timidamente, esboçando um sorriso. Aproveita para esticar as pernas e saborear a fumaça daquele que parece ser a sua última tragada. De repente muda de posição em direção à mesa, pega no teclado e com firmeza, com uma rapidez espantosa, passa a digitar as teclas do computador que está à sua frente.

A voz perdida, baixa e grave do velho, acompanha o diálogo impresso na tela do monitor:
- Estamos retornando um milênio e fumo esse charuto apagado pela milésima vez. Não desejo a imortalidade, nunca a desejei, sei disso hoje e não vai mais adiantar mostrar-se no monitor com esse seu sorriso de que tudo vai bem, que hoje eu vou... Vou morrer no deserto e me libertar para sempre de você... (O rosto no monitor tenta falar, mas não se ouve a voz)... Você pode falar à vontade que não estou te ouvindo, aqui o silêncio é mortal. Esta situação tornou-se insuportável. Não quero mais me comunicar, não quero mais receber mensagens, não quero mais esse pesadelo. Tenho esse direito... Por mais que eu me afaste desse tormento, mais ele vem ganhando terreno. Porra chega! Hoje o merda aproximou-se um pouco mais... sinto à sua vinda, o seu cheiro de enxofre, sua energia é o seu mal. Vendo você estampado no último monitor que deixei ligado, tenho ânsia de vômito e o meu ser e os meus sentidos perdem-se num deserto de maldades... Hoje é a última vez que escrevo nesta merda. Não! Não quero mais escrever as minhas experiências para depois vivê-la. Não acredito em nada disso... Sei bem quem você é... Você me fez perder a noção do tempo - já não sei quem eu sou e nem o porquê permaneço aqui. Quero apenas morrer. Esquecer tudo. Partir para sempre. Desliga-se o monitor. A escuridão total. O mais profundo silêncio.

domingo, 18 de julho de 2010

Poesia

1971
Zeus, o que é isso?
Essa merda, isso tudo
São palavras?
Soluços impessoais, solos grotescos?
Somente você Maria Gladys, revolucionária da espécie
Sente o doente deleite estando em Lancaster entre os negros.
Pelé, Mangrove com sobremesa de banana e sorvete
Uma vela acesa na noite escura
Um sarro em Noting Hill Gate.
No Brasil, lá distante, o milagre e o sangue quente
Derramados no arame farpado da fodida prisão.
No corredor encurralado e estreito a tortuosa tortura.
No labirinto da cidade de brinquedo eu me perdi.
No orgasmo do medo todos nós nos perdemos
Histórias sem vida, morte sem glória
Londres é o meu segredo
Zeus ,e agora, o que faremos ?
Eu estou querendo voltar para casa
Retornar ao lar, ao abrigo atlântico, ao Olimpio tropical
Aqui não posso mais ficar ingleses do após guerra.
Sou um náufrago... Um oceano nos separa... Coisa de otários.
Sou um homem comum, um Zé ninguém.
Cultivo os sentimentos humanos e só lá, na minha terra, posso me fazer entendido.
Maria a novela nacional nos espera.
(A palavra vingança se pronuncia depressa é como passa o tempo e no ano que vem o dinheiro também - ácido, droga de exportação, para nos dar prazer e mil brigas de morte neste festão sidéreo, os viajantes, os nossos amigos, burocratas do sistema, estigmatizados pela estupidez, não entram e nem passam pela porta, mas também renunciar a toda retribuição do amor é um sacrifício que só o ódio está pronto a oferecer)
Todos nós nos vingaremos na hora certa eu tenho certeza.
Não se deixe incrédula diante da miséria insurgente.
Aqui, ela existe mascarada de nobreza pelos becos mais sombrios e lá, com nosso povo sofrido, pelo menos dá samba.
A violência ainda não subiu os morros da cidade e ninguém nos conhece, aqui é tal qual a Madri de Franco.
O generalíssimo em guardas de quarteirão,
Todos me chamam pelo nome, e sabem onde me encontrar.
Maria é hora de voltar, não resta mais dúvida.
Pego hoje mesmo um avião - e foda-se a prisão?
Você se esqueceu.
Todos se esquecem muito fácil de suas histórias, não eu!
Tenho ainda que descascar muitas bananas até recuperar toda a minha dignidade.
É preciso retirar as ferraduras que machucam as patas da besta para que ela possa novamente e se tornar selvagem, bela, livre e todo o resto volte a normalidade.
Brigadeiros, Almirantes, Generais, retirem os cascos para o país voltar a sua normalidade democrática. Mas não faça uma nova revolução como esta. As intrigas foram longe demais e destruímos a cada hora nossos tesouros ainda escondidos numa juventude valorosa aqui perdida nas mesas do rei Artur.
Neste rico país tem um povo pobre mas ainda feliz, não deixem que isto se acabe.
Não deixem o samba morrer.
O rock só é bom para quem aqui viu que merda que é o rock.
Deixem que nós todos possamos voltar à praia que tanto amamos, aos bares e rodas de chopes que nos mata de saudade. Que falta eu sinto de uma empadinha de galinha e de um caranguejo.
Do arroz com feijão e do angu com quiabo e uma franguinha mineira. Aqui não tem isso não. São as mulheres mais feias do planeta. Uma merda. Que palidez meu poeta. Zeus me tira daqui. Chega de exploração. Pirataria moderna, testas de ferro desta ilha miserável, nossos hospedeiros são nossos algozes e estão cansados de tamanha marcha e contra marcha.
Jovens, filhos de uma conjuntura falida de idéias e atos, aqui nada dá e ao contrario de lá onde tudo deu para quem nada fez e vive rico como um rei e assim ainda esmolamos o nosso exílio.
Não vou mais ao cemitério visitar o túmulo de Marx, já que não posso mais ficar aqui, vou pra Paris, lá me sinto feliz. Adeus Maria, meu país perdidos em Lancaster rod.W3 fumando Number one. Guloise aqui me vou.

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Pesquisa

METAMORFOSE

Para transformar o processo entre o capital e o castelo, eu, que não sou comunista, estou usando emprestadas, adaptadas, metamorfoseadas, algumas máximas de Marx (Groucho – 1890 -1977) nos diálogos Kafkanianos feitos para uma mãe de santo do meu próximo filme em homenagem a atriz Maria Gladys.


"Alô...? Serviço de quarto? Manda subir um quarto maior"

"Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros"

"Ele pode parecer um idiota e falar como um idiota, mas não se deixem enganar: ele é realmente um idiota"

"Eu nunca esqueço um rosto, mas, no seu caso, vou abrir uma exceção"

"Do momento em que peguei seu livro até o que larguei, eu não consegui parar de rir. Um dia, eu pretendo lê-lo"

"Você tem o cérebro de um garoto de quatro anos e eu aposto que ele ficou feliz por ser livrar dele"

"Por que eu deveria me importar com a posteridade? O que a posteridade já fez por mim?"

"Justiça militar está para justiça assim como música militar está para música"

"Se eu abraçar você mais forte, eu vou sair do outro lado de você"

"Fui casado por um juiz. Deveria ter pedido um júri também"

"Ou ele morreu ou meu relógio parou"

"Lembram-se rapazes, nós estamos lutando pela honra desta mulher, coisa que ele, provavelmente, nunca fez"

"Por que eu estou com ela? Ela me faz lembrar de você. Na verdade, ela me lembra você mais do que você mesma lembra você!"

"Por trás de cada homem de sucesso há uma mulher, atrás dela está a esposa dele"

"Fora um cachorro, o livro é o melhor amigo do homem. Dentro do cachorro é escuro demais para ler"

"Política é a arte de procurar problemas, encontrá-lo, diagnosticar errado e, então, aplicar todos os remédios errados"

"Idade não é um assunto interessante. Qualquer um pode ficar velho. Tudo que você precisa fazer é viver o bastante"

"Um brinde às nossas esposas e namoradas: espero que elas nunca se encontrem!"

"Mande duas dúzias de rosas para o quarto 424 e escreva "Emily, eu te amo, no verso da conta"

"Eu não gostei da peça, mas eu a vi em condições adversas - a cortina estava levantada"

"Aqui temos um homem com a cabeça aberta - dá até pra sentir a brisa que vem de lá"

"Inteligência militar é uma contradição em termos"

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Exigência e Confissão


Meu voto é da Dilma!

Tenho certeza que sendo uma mulher a nova Presidenta e se ela for eleita no primeiro turno pela vontade da maioria, será mais sensível a importância que tem que se dar a todas as artes brasileiras para a libertação definitiva do Brasil do domínio estético, lingüístico e econômico que é submetido a mais de 500 anos.

A arte precisa da força da mulher, da guerreira, de uma mãe dedicada, delicada musa do saber. Só uma mulher sensível não tardará em ver a importância de uma ação imediata em defesa de nossa identidade cultural tão abandonada e esquecida.

Quanto a indústria cinematográfica basta o novo governo garantir 50% do mercado do audiovisual aos programas, documentários e filmes, distribuídos e exibido nos cinemas, televisões, vídeos e dvds do país, a produção nacional, que a nossa arte se sustenta, se produz, criando muitos empregos, prestigiando os nossos atores, músicos, escritores, diretores, os nossos artistas, a nossa história com o melhor, porque o audiovisual abrange com nobreza todas as artes.

Estamos todos empobrecidos culturalmente e ninguém mais sabe de nada.
Uns dependem dos outros, e todos dependemos do julgamento dos funcionários burocráticos que manipulam verbas gigantescas e ainda temos de beijar as mãos dos nossos verdadeiros inimigos: o cinema estrangeiro de quinta categoria, um lixo importado principalmente da matriz roliudiana, que assola as mentes doentias dos deslumbrados, enchendo os bolsos dos patrocinadores desta invasão cultural que são os exibidores e os distribuidores da indústria internacional do entretenimento de quinta que domina o mercado nacional.

Precisamos privilegiar a indústria do conhecimento. Os meus filmes nunca foram exibidos neste dito mercado. Posso até dizer que hoje temos milhares de títulos de bons filmes inéditos que não chegaram a sair das prateleiras empoeiradas, dos arquivos pessoais, dos laboratórios, das cinematecas, etc.

Aqui em Cabo Frio, onde moro, como em todas as cidades de porte médio, não se tem cinemas nem teatros funcionando para a arte brasileira. De toda a produção nacional dos últimos cinco anos pouquíssimos filmes foram exibidos nestas cidades com seus dois cinemas de shopping, a não ser àqueles que vinham com o aval da produção Rede Globo ou com a distribuição programada das grandes empresas estrangeiras.

E onde se vê a tevê propagandeando suas produções, vêem-se as salas existentes cheias exibindo o lixo enlatado - é o sucesso do que nada nos diz em contraponto ao fracasso do luxo de tudo que se tem para dizer!

A nossa força é à força da nossa arte, da nossa cultura, da nossa identidade brasileira. O que estamos esperando? Que as forças ocultas se apresentem novamente?

Por um novo governo livre e por uma nova política cultural amarrada!

Mas afinal: O que são as terríveis "forças ocultas" e por que elas podem novamente engessar o país?

Do que me lembro, as "forças ocultas" levaram a morte o presidente Getúlio Vargas.

As "forças ocultas" fizeram com que o presidente Jânio Quadros abandonasse o governo por não poder por em prática a sua dita política nacionalista

As "forças ocultas" derrubaram o governo trabalhista do presidente João Goulart.

As "forças ocultas" impuseram 20 anos de ditadura militar no país.

As forças ocultas imaginaram e realizaram no país uma rede de comunicação que cobriria e orientaria os cabeças-ocas em todo o território nacional, defendendo os seus interesses e destruindo o que ainda restava da nossa identidade cultural e política.

As "forças ocultas" criaram o pânico das "diretas já" e eliminaram, depois de enaltecer ao Olímpio, o presidente Tancredo Neves.

As "forças ocultas" entregaram o país a um Sarney e a dois Fernandos.

As forças ocultas entregaram o país de bandeja aos piores interesses nacionais e internacionais. Aos mais incompetentes pseudos-democratas eleitos a custa de muitos milhões de dólares e de uma mídia avassaladora.

As "forças ocultas" também permitiram a eleição de um operário para a presidência, no firme propósito de mostrar a nação a incompetência do pensamento e a prática administrativa dos partidos ditos de esquerda no mundo capitalista (mas deram com os burros n`águas).

As "forças ocultas" estão se preparando, se organizando, com engenho e arte, para mais um golpe contra o povo brasileiro.

Com perspicácia, calma e estratégia, as "forças ocultas" vêm conquistando, passo a passo, o seu programa de dominar e escravizar o mundo, a inteligência humana, aos seus mesquinhos interesses.

Deveríamos nos adiantar neste histórico processo e entregar de vez a Amazônia, dando de pinga o resto do país aos interesses internacionais?

É o que eles querem!

É como disse um político reacionário na tevê:
- "Prefiro no governo uma direita nacionalista inteligente do que um grupo de revolucionários imbecis".

Quanto ao cinema, ou melhor, ao audiovisual, eu acho que esse movimento de libertação e de reforma política financeira e estrutural da arte brasileira deve, como primeiro passo, priorizar a exibição de todos os inéditos e desconhecidos filmes de longa e curta- metragem.

Filmes que foram produzidos nos últimos 40 anos, unidos ao melhor da literatura, do vídeo, das artes plásticas, do teatro, da dança e da música brasileira, em um circuito público e universitário que abrangesse todo o país.

Com a boa vontade e a participação das grandes redes de comunicação, das empresas estatais, com o apoio do Minc e dos governos estaduais e municipais, levaríamos e discutiríamos à nossa cultura cinematográfica com o nosso povo, em uma grande mostra itinerante da arte brasileira.

Enquanto isso, o novo governo eleito para avançar com o socialismo, em silêncio, sem brigas, com apoio de todos, avançará na reforma do sistema, sem esquecer-se dos artistas na constituição das novas leis de incentivo e de proteção as nossas diversidades culturais.

Que história é essa que a arte brasileira deve participar das regras do mercado.
Em verdade estamos nós todos à venda? Sinto que em bem pouco tempo, se nada acontecer, todos os nossos desconhecidos e bons artistas, a nossa juventude rebelde, a resistência criadora e esquecida de velhos realizadores, estará totalmente massacrada, sem trabalho e faminta. O silêncio imposto a vanguarda criativa através das sistemáticas negativas de apoio aos seus projetos e no mínimo uma vergonha.

A minha opinião é que na reforma deva-se criar no Ministério da Cultura em composição com o Ministério da Educação varias carteiras de apoio ao cinema. Uma para os filmes de arte - sem burocracia, sem os lobistas e intermediários. Outra para projetos culturais, documentários, com a garantia no mínimo de exibição nas televisões. Outra para o cinema experimental e de vanguarda.

Sou a favor de que se produza filmes de entretenimento, água com açúcar, de altos orçamentos, para os grandes circuitos de cinema, produções internacionais, e que o Minc empreste a juros subsidiados às verbas necessárias a realização dos mesmos. Mas o dinheiro tem de voltar e se houver prejuízo, os riscos serão do produtor e não do erário.

Sou a favor dos ingressos padronizados para o controle das bilheterias.
Sou a favor de se taxar o cinema estrangeiro exibido no Brasil.
Sou a favor da volta da Lei do Curta.
Sou a favor da volta do antigo Concine e/ou da efetivação de uma nova Ancine, com o atributo de desenvolver, regulamentar e fiscalizar todo o mercado audiovisual brasileiro, inclusive a televisão.

Sou a favor da criação de uma carteira para filmes de baixo orçamento, que deverão premiar àqueles cineastas que já obtiveram reconhecimento da crítica nacional e internacional com seus filmes de curtas e de longas-metragens.

Sou a favor da criação de uma carteira para o financiamento de curta-metragem, onde todos poderão participar com o seu segundo filme.

Tudo deve passar pelo ministério da cultura, ou pela secretaria do audiovisual, que deverão estar fortalecidos pela união dos realizadores de cinema.

Sou a favor de se criar, em cada cidade com menos de 500 mil habitantes, os novos Centros de Cultura Popular, com sala de exibição digital, galeria de arte, biblioteca, videoteca e palco para pequenas apresentações de teatro, palestras, músicas e recitais de poesia.

Acho que estou falando de propostas discutidas e aceitas por uma grande parte
da comunidade artística e livre do nosso novo cinema .

Fica aqui, em poucas linhas, a minha contribuição para a consolidação definitiva, agora ou nunca mais, da arte cinematográfica brasileira.

O meu filme mais caro custou 100 mil dólares - da extinta Embrafilme - Um Filme 100% Brazileiro - e nem por isso deixou de ser premiado em três festivais do Brasil e no Festival de Berlim na Alemanha.

E pelo sucesso, como estímulo, eu nunca mais tive outro financiamento do estado. Embora tenha produzido por conta própria mais de vinte filmes. Nenhum novo longa-metragem foi produzido com dinheiro público – fui, sem querer, amaldiçoado!

Vejo hoje jovens realizadores com dois, três filmes produzidos com a renúncia fiscal em produções milionárias, que nada significam para a história da arte cinematográfica e mesmo antes de serem exibidos, finalizados, já foram esquecidos. São estes erros de avaliação que devem ser corrigidos.

É preciso que a futura presidenta tome conhecimento de que nada foi feito pelo governo Lula em defesa de nossa política cultural. Não adianta financiar 600 cinemas pelo BNDES e entregar o ouro na mão dos bandidos, dos distribuidores internacionais, que tanto prejuízo vem dando as artes visuais brasileira.

Por um novo Brasil eu voto novamente no PT, eu passo novamente a acreditar que alguma coisa de bom, de revolucionário, de original, vai vir dessa mulher guerreira, mineira, nascida na vanguarda trabalhista do inesquecível líder Leonel Brizola.

terça-feira, 13 de julho de 2010

POESIA

Delírios do Adeus
Não joguem fora os meus livros, velhos
Não me atormente demais, eu insisto
Com os meus olhos sujos, peço aflito
Dê ao meu filho meus discos, vídeos
Meus textos e bota fogo no resto
No que sobrou, todo luxo, tudo lixo
Inútil morto de luto
Não se preocupem se eu vou, eu volto, amável
Não é queixume, coisa que não faço
Vou para o mar onde tudo se transforma
Dormindo no seu rumor infindo
Morto não sinto o tempo passar
Acordo vivo com a memória amiga
Sonhando acordado a glória de uma terra antiga
Mas filho amigo se morrer é ser o fogo no mato
É ser o rio correndo pro mar e uma mulher que quer dar
Sempre é bom lembrar: onde o natural desafio é o limite
Do insondável ninguém consegue escapar.

domingo, 11 de julho de 2010

Deus não existe

Infelizmente meu amigo Milton Campos não conseguiu a graça suprema de sair do coma, falecendo nesta madrugada. Deus não atendeu o meu pedido, deus não existe. Já não se faz milagre como antigamente e o amigo se fez passado deixando no seu rastro a poeira cósmica da saudade.

NOTÍCIA

Só agora entendo quando o poeta mineiro Murilo Mendes envelhecido dizia que não voltaria mais ao Brasil, pois não conhecia aqui mais ninguém. Morreu pouco tempo depois em Portugal.

A pior coisa que existe com o passar dos anos, não é a fraqueza nem as dores do corpo; não é a vista sem foco e a memória que se apaga aos poucos; não é a falta de trabalho nem da excitação existencial; não é a desilusão que nos arrasta a solidão; tudo isso tem remédio.

A pior coisa de quando a idade tarda é a perda daqueles personagens que trafegam com intimidade em sua existência e fazem parte da sua história, que são os seus amigos.

Não há remédio para o vazio que se apossa dos sentidos quando a querida imagem de um amigo é fragmentada, tornando-se aos poucos retalhos perdidos, às vezes desfocados, na memória de cada um que ficou.

Ontem o fogo queimou até as cinzas o personagem mais irrequieto; o ator mais dinâmico; o poeta mais controverso; o ser mais exagerado; o produtor mais exaltado, que fez uma ponta no meu filme, não finalizado, Inside, o amigo eternamente jovem Ezequiel Neves.

Hoje recebo a trágica notícia do internamento, em Belo Horizonte, em coma irreversível, do meu amigo Milton Campos. Admirável fotógrafo mineiro.

Tenho a vontade na fé que se estabeleça uma corrente espiritual e que ela promova a recuperação imediata da sua saúde. Só assim eu posso acreditar em um piedoso deus todo poderoso.

sábado, 10 de julho de 2010

ENTREVISTA

"Monopólio da mídia atrasou o movimento da sociedade"
"O País não tem dirigentes comprometidos em mudar o quadro regulatório das comunicações"
No Brasil, a legislação não estabelece limites à concentração e àpropriedade cruzada dos meios de comunicação. Ainda ocorre, no país, ochamado "coronelismo eletrônico", que compromete as relações entre ospoderes público e privado, imbricados numa complexa rede de influências. Para enfrentar o problema, é preciso mexer no quadro regulatório do setor.Propostas não faltam, e elas vêm basicamente do movimento social. Mas não há governantes que se comprometam de forma definitiva com a formulação depolíticas públicas de comunicação, nem mesmo a partir dos resultados edemandas da 1ª Confecom.
De acordo com Israel Bayma, engenheiro eletrônico, conselheiro da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), militante há mais de duas décadas pela democratização dos meios de comunicação no Brasil, não há sequer candidatos às próximas eleições presidenciais que estejam realmente interessados em transformar o quadro caracterizado pelos "donos da mídia" no país.
Leia a entrevista concedida ao e-Fórum.
O que mais contribuiu para a prevalência da concentração de mídia no Brasil?
Israel Bayma - A legislação. O Código Brasileiro de Telecomunicaçõesé de natureza concentradora. Ele não estabelece restrições à propriedade cruzada [quando uma empresa ou grupo possui diferentes tipos de mídia. E os limites estabelecidos, ele os mascara, à medida que permite ao mesmoproprietário deter em algumas regiões o número máximo de emissoras, e em outras regiões também um número máximo de emissoras. Não estabeleceu limites à concentração e à propriedade cruzada.
Podemos dizer que o chamado "coronelismo eletrônico" ainda vigora no país?
I.B. - Segundo a professora Suzy dos Santos quando o termo "coronelismo" foi usado por Victor Nunes Leal, referindo-se ao final no século XIX, início do século XX, definia as características das relações deprodução que se estabeleciam no Brasil naquele momento, que saía do estado agrário para um estado industrial.
Esse termo ainda se aplica hoje. Só que as relações de produção sedão por aqueles que detêm o poder e a propriedade dos meios de comunicação. Seja de que natureza midiática for - rádio, televisão -, ainda continua exercendo o mesmo papel de controle político. Haja vista as recentes alianças que são tomadas no âmbito de sustentação do atual governo, e provavelmente das mesmas bases de sustentação do próximo governo. Suzy dos Santos, juntamente com Sérgio Capparelli, define coronelismo eletrônico como "um sistema organizacional da recente estrutura brasileira de comunicações,baseado no compromisso recíproco entre poder nacional e poder local,configurando uma complexa rede de influências entre o poder público e o poder privado dos chefes locais, proprietários de meios de comunicação".
Frente às novas tecnologias, como as grandes empresas de comunicação estão se organizando para manter o controle?
I.B. - Elas buscam estender seus tentáculos às novas mídias. Há uma denúncia dos grandes oligopólios mundiais, que controlam não só a mídia tradicional [rádio, televisão, cinema], mas também as novas mídias, como ainternet. Haja vista os grandes grupos - Google, por exemplo - de tecnologiada informação, que estão se estendendo aonde é possível. Acho que nada se alterou. Marx continua atual no que ele previa: que os oligopólios capitalistas tenderiam a crescer. O modo de produção é o mesmo.
A participação dos políticos como donos dos meios de comunicação continua a mesma?
I.B. - Até 2008 [quando Bayma sistematiza no livro Democracia e regulação dos meios de comunicação de massa - publicado pela FGV Editora - um estudo traçando um mapa do financiamento político do setor de comunicaçãonas eleições de 1998-2004], não identifiquei nenhuma mudança. De lá para cá,não verifiquei. Mas não vejo mudanças que possam ter levado a alterar aquele quadro. A não ser a composição acionária [das emissoras de propriedade de políticos], de um proprietário transferindo cotas para os filhos, osparentes, os "laranjas", ou comprando de outros.Mudanças que podem ser identificadas são as que envolve uma utorizações para rádios comunitárias. Houve um aumento muito grande de concessões para essas rádios pelo governo federal - e isso, evidentemente,muitas vezes em troca de apoio político. Então o coronelismo eletrônico ocorre bastante.
É possível pensar em desenvolvimento nacional, mantido o oligopólionas comunicações?
I.B. - Eu não tenho elementos para afirmar se o oligopólio amarra ou não o desenvolvimento. Do ponto de vista da democracia, ela tem avançado independente dos meios de comunicação. Aqui ou alhures. Aonde os meios decomunicação tentaram impedir o avanço democrático nas últimas décadas, elesforam empurrados, a exemplo do que aconteceu na Venezuela. Não vejo como um jornal que tenha perdido tiragem, uma televisão que tenha perdido audiência, ou um grande grupo televisivo que tenha perdido audiência para outro grande grupo televisivo possa impedir o desenvolvimento do país. Também a qualidade das produções tem caído independente da democracia. Há um movimento da sociedade que questiona vários programas de televisão. Mas isso tem ocorrido a bem da democracia.E também não é pela concentração, porque tem veículos até de natureza pública em que a produção é de péssima qualidade. Não tenho elementos para uma análise mais precisa, mas claro que, em vários países do mundo, a história mostra que o monopólio da mídia atrasou o movimento da sociedade. Seja aqui, seja, por exemplo, no socialismo real da Europa. Veja a eleição do Chávez [Hugo Chávez, presidente da Venezuela],apesar do monopólio midiático lá no país, ele foi eleito. Aqui no Brasil,com o Lula, idem. E não se pode dizer que não houve avanço democrático aqui. O próprio debate eleitoral ocorre. Hoje, apesar do monopólio dos grandes grupos, com suas candidaturas próprias, não se pode dizer que não esteja havendo um debate público e democrático sobre as eleições. Estamos vivendo um ambiente democrático que é liberal. Mas estamos.
E para a comunicação em geral, qual o efeito desse monopólio?
I.B. - Ele não pode se perpetuar sob hipótese alguma, porque há deter um momento que eles [os donos dos grandes veículos de comunicação] vão intervir, quando sentirem seus interesses mais profundos ameaçados. O monopólio, o oligopólio nunca é benéfico. Aqui no Brasil, ele estádentro dos limites. Houve alguns momentos que eles se insurgiram, como naquestão do Conselho Federal de Jornalismo, na tentativa de se criar uma LeiGeral de Comunicação Eletrônica. Na própria Conferência Nacional deComunicação eles se insurgiram. São momentos em que a gente se sente ameaçado, mas existe uma atuação da democracia.
Então, a democracia avança, apesar disto. Por quê?
I.B. - Porque a humanidade avança democraticamente. As conquistas dos trabalhadores ao longo da história da humanidade têm empurrado osatrasos dos grilhões do capitalismo. Até para a experimentação de modelosmenos repressivos. As experiências socialistas do Leste europeu que amargaram derrotas e amordaçaram em vários momentos as liberdades, elas foram vencidas e vem algo novo aí pela frente. Eu não sou pessimista nesse sentido, agora, o caráter revolucionário das novas mídias é que eu não vejo.
As novas mídias não são revolucionárias? Por quê?
I.B. - Porque os grandes grupos já as controlam. Independentementedos tuiteiros, dos blogueiros. A internet só avança para a classe média, que tem acesso. No Brasil, só 13 milhões de pessoas têm acesso à internet. Dosmais de 190 milhões de habitantes 191,5 milhões em julho de 2009, segundo oIBGE], 40 milhões não têm nem telefone. Tanto faz estar no twitter ou fora dele. No interior do Maranhão, onde mais de 200 mil famílias não têm energiaelétrica, isso não faz diferença. Lá, ouve-se e assiste-se a rádio e a TV Mirante, do grupo Sarney [O grupo é dono de 22 veículos no Maranhão. Veja aqui a participação do Sistema Mirante na região.
Os novos meios digitais de comunicação não poderão minimizar o poderdos donos da mídia?
I.B. - Não. Como já falei, eles [os donos da mídia] estão participando direta ou indiretamente das novas mídias. Acho que apenas vai mudar o modo de produção. A ferramenta, ou vai ser banda larga/internet ou televisão, mas os meios vão ser os mesmos. Não vai haver alteração. O número de pessoas no país que têm acesso é muito pequeno,comparativamente, ao número de leitores de jornais e livros, e nada foi alterado com a internet. A natureza revolucionária da internet é tão relativa quanto foi a imprensa escrita no início do ano de 1700, quando Gutenberg inventou a imprensa escrita e não houve grandes transformações de natureza revolucionária. Para mim, a internet não tem essa base revolucionária, porque ela foi apropriada pelo Estado e os grandes meios de produção. Nem sou desses sonhadores que acredita que a internet vai ser a grande mídia nos próximos anos - haja vista a eleição do Obama [Barack Obama, presidente norte-americano] nos Estados Unidos, presidente que pouco se diferencia doseu antecessor [ex-presidente, George W. Bush].
No Brasil, quais políticas de comunicação poderiam eliminar aconcentração dos meios?
I.B. - Não acredito que nenhum dos candidatos tenha interesse em mexer no quadro regulatório dos meios de comunicação no país. Participei dodebate nas últimas seis eleições, na formulação de políticas públicas para a democratização da comunicação e ninguém quis colocar em prática essasformulações. Não creio que isso seja possível. Senão, era só implementar tudo o que o movimento social propôs e repropôs, em 1989, 1994, 1998, em 2002, em 2006. Mas já não creio que haja um governo comprometido com o quese propunha lá, como, por exemplo, o fim do monopólio dos meios de comunicação.
Hoje, o que você acrescentaria nessas formulações?
I.B. - Banda larga para todos os brasileiros. Como no caso da energia elétrica. Eu fui um dos formuladores do Luz para Todos, coordenador na Amazônia do programa, e sempre defendi também banda larga para todos.
Você diz que nenhum candidato tem interesse em acabar com omonopólio. Mesmo com a Conferência Nacional de Comunicação, nada mudou?
I.B. - Eu quero que nos próximos debates seja cobrado de cada candidato [a presidente do País] uma posição clara, item por item, do que foi aprovado na Confecom [Conferência Nacional de Comunicação, realizada de14 a 17 de dez/2009, em Brasília]. As decisões da Conferência são resultadodo acúmulo dos debates da comunicação nos últimos 20 anos. A maioria do queestá escrito ali, foi Daniel Herz quem escreveu, eu mesmo copiei, o PT assumiu e disse que ia implantar, mas não implantou nada. Tem que impor objetivos, senão é perda de tempo.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

História de Cinema

Neville de Almeida fotografado por Fabio Carvalho em Ouro Preto MG

Um pouco da curta história dos 114 anos do cinema brasileiro

Sete meses depois de os irmãos Lumière inaugurarem o cinema, em Paris, com a primeira projeção do que viria a ser a sétima arte, a cidade do Rio de Janeiro pôde assistir à primeira sessão de cinema do Brasil, mais exatamente no dia 8 de julho de 1896.Em 1897, Paschoal Segreto e José Roberto Cunha Salles abriram, na rua do Ouvidor, a primeira sala de cinema, "Salão Novidades de Paris", ficando, para o ano seguinte, a projeção do filme inaugural do cinema brasileiro, rodado por Afonso Segreto, com imagens da Baía de Guanabara.Em 19 de julho de 1898, o irmão de Paschoal Segreto, Afonso Segreto, rodava o primeiro filme genuinamente nacional no Rio de Janeiro. Tratava-se, na verdade, de um documentário, com cenas da Baía de Guanabara.Ao retornar da Itália, a bordo do navio Brésil, Afonso fez tomadas para o filme que pretendia rodar em solo brasileiro. O primeiro plano cinematográfico mostra o navio entrando na Baía de Guanabara, estreando equipamentos modernos para a época, trazidos do exterior.A seguir, até 1907, o documentário seria o gênero predominante. Cenas sobre o cotidiano carioca e filmagens de locais como Largo do Machado e a Igreja da Candelária, com o mesmo estilo dos documentários franceses do início do século.A partir deste ano, diversas salas de projeção foram inauguradas tanto no Rio quanto em São Paulo, fazendo com que o período entre 1908 e 1912 fosse considerado a belle époque do cinema brasileiro. Até mesmo um centro de produção foi criado no Rio, mas logo suas atividades diminuíram, com a entrada de fitas norte-americanas no país.
A invasão de filmes norte-americanos no circuito brasileiro, logo no início deste século, não impediu o aparecimento dos ciclos regionais de cinema em Campinas (SP), Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul, na década de 20. No município de Cataguases, em Minas, o cineasta Humberto Mauro produziu "Os três irmãos" e "Na primavera da vida", em parceria com o fotógrafo italiano Pedro Cornello. O paulista José Medina, após uma experiência com curtas metragens, realizou, em 1929, o clássico "Fragmentos da Vida". Também em 1929 foi lançado o primeiro filme brasileiro totalmente sonorizado: Acabaram-se os Otários, de Luiz de Barros, além de ter sido rodado no Rio o vanguardista "Limite", de Mário Peixoto, que se baseou nas tendências européias da época.Cinédia: este é o nome do primeiro estúdio de cinema do Brasil, instalado no Rio de Janeiro por Adhemar Gonzaga, no ano de 1930, e que levava ao público comédias musicais e dramas populares. Em 1934, Carmem Santos montou ainda a produtora carioca Brasil-Vita Filme, que contou com Humberto Mauro no seu quadro de cineastas. Em 1941, surgiu a Atlântida, filmando as inesquecíveis chanchadas (comédias muito populares, de custo baixo), que marcaram época. Filmes como Não Adianta Chorar, de Watson Macedo, e Nem Sansão Nem Dalila, de Carlos Manga, fizeram enorme sucesso.No fim da década de 40, foi fundada a Vera Cruz, considerada na época a "Hollywood brasileira". O estúdio foi instalado em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, por um grupo de empresários, que tinha à frente do projeto o italiano Franco Zampari e o cineasta pernambucano Alberto Cavalcanti, convidado para dirigir a empreitada. A intenção era rodar filmes bem ao estilo hollywoodiano. Técnicos de outros países, inclusive, vieram ao Brasil para trabalhar em algumas produções, como "Floradas na Serra", de Luciano Salce, e "Tico-Tico no Fubá", de Adolfo Celi. O filme "O Cangaceiro", rodado em 1952 por Lima Barreto, conseguiu entrar no circuito internacional – foi premiado no Festival de Cannes em 1953 -, começando uma fase de histórias sobre o cangaço.Fonte: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística