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sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Do nosso cineasta colaborador



QUANDO JOVEM NÃO ERA COMIGO
Fábio Carvalho

“O risco de uma primeira faísca na serra
trai os recantos escuros, apavorando um rato;
uma fuga atrás de velharias que crepitam.”
Mário Peixoto


Fui esta noite rever meus amigos que já morreram. Poderia ser durante o dia, como acontecera de outras vezes. Em muitos destes acontecimentos eles vinham me rever. Hoje de noite senti esta necessidade encantada. Era como um sonho, embora eu estivesse bem acordado. Como não sonhar acordado. Já aprendi a dominar de alguma maneira este tipo de viagem, desde muito cedo com o poeta do meu avô. E com o meu pai poeta disfarçado e ainda vivo continuo aprendendo mesmo com as dificuldades naturais. Tem sido assim. Eles têm olhos. A verdade não me interessa nesta pequena altura. Neste caminho não existe volta. Na provecta idade que ainda vou chegar, volto bem com todos a me acompanhar ao nosso bar logo ali no Leblon. Tomara. Nunca antes tinha pensado nesta palavra, sem pensar ela me veio agora. Gostei. Repito: tomara. Eu nesta ilha sem paz. Afinal paz para quê? Todo mundo sabe a resposta para as palavras contumazes.
Tenho que aceitar que a paz é necessária, querer a guerra pega mal para quem está ouvindo. E daí é mais uma pergunta. Quase como que se dane para os ouvidos do entorno. Agora quero só esta palavra. Quero só você. Este é o problema. Como sabemos a vida é uma colisão de vários problemas. Sempre penso em conjunto ainda nem desconfio o motivo. Femininas são as imagens. Elas só têm me provocado por estes dias, temos a noite pela frente. Hoje só volto amanhã. E esta manhã tem peitinhos. Por incrível que pareça me ensinaram que a palavra é masculina. O sintagma. Uma figura de linguagem mulher. Sinuosa e curvilínea. Cheiinha nos lugares certos e adequados. Posso fazer uma manipulação. Não penso em outra mulher sem ser esta que estou escrevendo. Vinte duas e onze. Novamente a imagem me acelerando a vontade.
Depois da síndrome de oito e meio do Paulo Barbosa só posso fugir mais uma vez para o Rio com aquela ruivinha de óculos de grau que dizia que era minha aluna. Quero aprender o que ela disse que tem para me ensinar. Frugívora. Vamos ao mundo animal.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

ENSAIOS MATEMÁTICOS




Numerologia

O ANO
1948
Poderia ter sido
1912
A DESCOBERTA
1967
A REVOLTA
2012
O FUTURO




Nota de um conto



Estava outro dia com alguns conhecidos que comemoravam a passagem do ano quando fui questionado de como eu conseguia viver sem fazer cinema, sem renda financeira certa e segura ou então se simplesmente eu me tornara um poeta andarilho que não precisava de nada. Respondi de pronto: - Trabalho com imagens, desenhos, películas, fitas, kynopoemas, vídeos, arte e muito raramente cinema. Explico-me a vocês, desconhecidos amigos: este sonhador cinematográfico que vos fala não pretende ser um poeta revoltado a mais neste mundo. Desprezo esse mundo. Mundo de negócios onde os homens construíram suas convenções, suas regras, seus entretenimentos consumistas, sua crueldade burocrática. Mundo da usura e da soberba. Assim mal e dito como um revoltado, como um louco sem cura, ele foi execrado pelo poder e pelas instituições políticas e culturais que não conhecem o seu trabalho e por isso mesmo querem destruí-lo, torná-lo esquecido, não visto e não lido, colocando-o no limbo das instituições, antes pela força militares e agora pela miséria democrática. Assim, para esses neófobos e para seus inimigos, em 2012, este poeta andarilho, quer dar uma única e sonora cagada, uma única e silenciosa metralhada numa escarradeira cultural, uma meia bomba enjaulada e nada mais.



Recomposição

REVELE
Revés Invento
O tempo
Remexendo velhos papeis
Descobrindo histórias
Compasso lógico
DADOS PERDIDOS
Há muito esquecido
Do meu ser
CINEMA
Meninos eu vi
Vivi é vil
Pior que a fome
É o progresso
Com sotaque!
Foi
A Light e a Esso
Todo um mal
A terra invade
A imagem digital
Acabou a kodaque
A película queimou
A arte afundou
Mar de merda
BRASIL CINERAL

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Fechando o ano segue o livre texto cinematográfico do nosso cineasta colaborador

ADELE E A LICHIA
Fábio Carvalho

“A liberdade sem precedentes, a entrega total, a busca sem limites
dos símbolos deste nosso mundo como: As drogas, A prostituição,
A política, A poesia, O Mercado Financeiro, A Bolsa, O Amor,
A nudez, O Capitalismo, O uso, O Abuso e o sentido da vida
– todas essas coisas – estão no filme de forma avassaladora.”
Neville D’Almeida


Ela tem os dentes irregulares, contornados por uma boca rosa linda. Se um anjo não trouxer o mar. Não sei quem é ela, sei que ela é boa e canta bem. Tenho sido bastante atrevido. Reparando sem segredo vem a imagem e deixa ver como a boca canta e enlouquece. Todas as cantrizes me pegam forte pela boca, se tocam algum instrumento mal então, minha testa fica marcada indelevelmente de forma que a mente sente e não esquece. Ainda. Como segurar a imaginação, se eu já fiz tudo a seu lado. Que boca. Nem consegui ver seus olhos. Silêncio. Ela voltou. Aos cântaros vou tentar ver se encontro o que já escrevi sem telefonar. Já vi que está todo o mundo olhando. Como assim? Pergunta a voz feminina.
Abri a porta. Fiquei com a dúvida antes de entrar. E a intuição me fez encarar na boa a escancarada manhã a mim apresentada. Sinto saudades da MARINA da GLÓRIA. A gata foi ficando educada, quando pula suas unhas não arranham mais, bem cortadas que estão. SEM ESSA ARANHA. No fim do corredor mora a curiosidade. Minha mesmo. Tenho pensado muito nos corredores. O PRINCÍPIO DO PRAZER. Curioso estranho filme. Que bela frase, começou o balanço para que, assim como não era antes. Perdi tempo. Não precisava comprovar em seguida, disse ela. Passei a gostar das vírgulas, e que música é esta que me atribula embora sem espalhar que já a conheço muito bem. É inegável que estou apaixonado pela ALMA, e no tempo vou conseguir alcançá-la com bastante ardor. Por enquanto ainda acredito que sei filmar melhor do que eu há algumas vidas atrás. Na minha bitola. Virei um falastrão por hora. Inesperadamente esta boca rosa linda fala muito bem. Esta boca que não é a minha. É a boca do desejo. Ou do inferno. Ainda não sei se fala muito. Sei que ela mora longe, em Londres. Longe é só um ponto de vista. Desconfio ver da África sem sombra no arquipélago, ela mulata inteira e nua. É ela a asa da queda louca onde me abismei na boca frágil e trêmula que beija e alivia com afagos rápidos comunicantes. Abomino o amor ao verbo. Isto sim é uma gata. Vamos nos encontrar de novo depois do fim deste princípio bem no início. Ou não. Cadê a interrogação? Parece brincadeira e realmente é. Ela está renitente e emborcada. Vamos dormir de conchinha. Dá para entrar na tentativa de alcançar. Estranhas estas palavras. Fogem a mim. Cadentes as estrelas cheias de desculpas. Falo aqui de Marte. Ela anda muito pausada. Adentro aonde dá no que ela gosta. Agora exato às duas da manhã, imediatamente faço a sua felicidade. Ralentando aquele indescritível andamento. Vinha um coro ao fundo. Que beleza. Por onde ela andará? Para sempre vou procurar. Nada tenho a fazer, senão esquecer do medo que me faz lembrar do esquecido. A londrina não me ilude mais, outras ilusões me perseguem mais de perto, logo ali da França. Com sotaque e tudo. Vamos ao andar que é o que interessa. A visão andando, pode ser em travelling. Sempre a vejo indo e vindo. Como dizemos nós os insuportáveis deste mundo perdido do CINEMA. Sou de escorpião e tem sido triste, mas é verdade. Sei também que a verdade não interessa nem um pouco a mim nem a ela deitada no sofá

sábado, 24 de dezembro de 2011

BOAS FESTAS

Que esta pintura que fiz de presente para Nina, minha neta de sete meses, possa trazer paz e esperança para um mundo que precisa contemplar, sentado em um banco de jardim, as belezas e os sonhos que a vida pode oferecer.


Em busca da Felicidade


Que 2012, contrariando as previsões mais antigas e pessimistas, possa ser um ano diferente sim, ser um tempo onde todos nós reencontraremos o indescritível paraíso que cada um, por mais imbecil que seja, traz dentro de si.

Será um tempo de contrastes fortes e de decisões inadiáveis. Luz e sombra. Preto no branco. Tempo do qual não se pode fugir. Aprisionado em um espaço que precisa ser transformado. É preciso revolucionar para se libertar. Só assim estaremos todos juntos na busca de um mundo melhor.

Essa direção é a meu ver a via única que todos temos para a felicidade.

Viva a luz que brilha em cada criança! Viva a harmonia e a tolerância! Viva a liberdade e o saber! Viva o ser e o não ser! Viva eu! Viva você! Viva a vida!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Loucura Pouca é Bobagem

Está ainda mais perigoso andar hoje no Iraque do que era passar por um campo minado alemão da II Guerra - a qualquer momento você podia explodir.
O exército americano saiu do Iraque e deixou para seus habitantes a herança do caos.
A sua força de guerra na Europa (OTAN), destruiu a Líbia e matou cruelmente um forte personagem da sua história. Antes aprovou com Israel o desumano massacre do povo palestino.
Toda essa carnificina em nome do capital, do absurdo e selvagem ato de dominação - empresas buscando e se apossando dos tesouros escondidos ou guardados em qualquer parte do planeta.
Essa rede dos poderosos não tem piedade, são trançadas pelos deuses da vida e da morte, criam as crises, são belicistas e atacam sem medir conseqüências e no caso árabe o império foi ao pote com uma ganância incontrolável, doentia, chamada barril de petróleo.
Essa gente, que pouca gente conhece, é a mesma que executou as mais terríveis crueldades no distante Vietnam e que implantou ditaduras militares em quase todo continente americano.
O Bush não passou de uma bucha de canhão, não detinha de fato o poder, como todos os últimos políticos que ostentaram o neoliberalismo. É preciso arrancar as máscaras e mostrar o rosto dos verdadeiros donos do farto e ao mesmo tempo declinante império capitalista dos dois nortes: o americano e o europeu e os seus representantes espalhados no mundo. Essa gente, com certeza, hoje pressionam Obama para invadir o Irã... É preciso por um fim nesta barbárie, afinal, estamos entrando em 2012.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

lagoa de araruama - celular - hoje no final do dia
Gazua Poética

O músico-poeta José Vieira, embora não seja Antônio, traz, tanto na música quanto nas afiadas e ocultas imagens poéticas perdidas no espaço-tempo de cada um de nós, o entendimento que domina o sentimento da língua-mãe em apenas três linhas (o quanto couber nestas três linha – velho Rui – Alma velha... idade do tempo... infinito instante... oriental cabeça – haicai! – trinca – bateu.


Alma que de tão velha não poderia ser minha
Marcada em cada vazio pela idade do tempo
Chorando o infinito instante de uma saudade só

José Vieira

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Poesia

SOLIPSISMO
Mais um ano chega ao fim.
A sociedade se entrega ao delírio do nada
Tudo é motivo de festa – até a hipocrisia comemora-se
E no FIM
Nada disso importa nós estamos condenados
A viver, ano após ano, escravos de um sistema ultrapassado
Corrompido na sua base de sustentação – a educação
A busca sem fim do saber, do ser perfeito
Da felicidade de ser livre para pensar e agir como um deus
Viajando no universo da imaginação
Rompendo os espaços paralelos
Esticando e encolhendo os limites do tempo
Navegando em si mesmo
Recompondo a imagem no sextante
Olhando as estrela no cérebro
Compreendendo o que não se pode ver
Vendo o inextricável ser
Lendo todos os livros da biblioteca de Borges
Revendo os inesquecíveis filmes
Fazendo cinema
E no FIM
Compreender que outros anos se passaram
Amigos partiram e inimigos ficaram
Apertam-se os torniquetes econômicos
Mais um ano sem trabalho
O que eu posso comemorar é o que não se compra
A minha liberdade é o seu presente
A arte e o estado criativo é a consagração
Não consigo ver o mundo de outra maneira
E no FIM
Sobra o caroço
O osso
O pão nosso de cada dia...
Nada
Assim mesmo devo ser feliz
Tanta fome e tanta miséria ao meu redor
Não passo fome mas às vezes eu perco o apetite
Tenho costume de não jogar nada fora
Não se joga nada fora
Tudo fica aqui mesmo
Como sempre foi
O mundo gira
Os cachorros ladram
A caravana passa
E no FIM
Desamparo
Abandono
SOLIDÃO

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Do nosso cineasta colaborador


GIRANDO EM UM PEQUENO DESLIZE
Fábio Carvalho

Não fui eu que fiz.
Domínio público

O baterista é histriônico. E como toca. Vou ver qual é a deste baixista. Antes de cara a impressão era boa. Não posso me esquecer da filha do Viana. Como descobrir esta música sem utilizar os claros atalhos que me soam aleatoriamente sem concessão descendo pelo corrimão e ainda encontrando a evolução do plano na cabeça daquela correnteza. Ciências exatas. Tenho que terminar este líquido e tudo mais hoje. Finda a noite, amanhã é outro dia. Se bem que começo a entender que a noite pode continuar até amanhã. Se é que vale a pena, depende desta voz. Que é boa. Várias possibilidades se apresentam. Cada uma melhor que a outra. Mas é ela a melhor. Essa mesma aí bem visível, e como canta sem letra. Só dá ela. Quando vou chegar vendo-a linda dançando nua. Nunca ou talvez já sabendo, vejo através da janela desta limousine insuportável. A dália negra. Nem acredito no que tenho chance de ver com cheiro, som e balanço.Toda para mim. Me foi dada, que privilégio tenho tido. Também nunca cri. Quero poder aprender mais. É sim. Vamos lá atrás desta mesma melodia aprimorada. A emoção musical que ficou. Lhe diz logo em surdina com o vento da madrugada. Todas as suas luzes que não posso esquecer mesmo querendo. Ainda como chegar a nenhum dia. Deve caber aí mais uma vez uma interrogação. Nossa ela voltou e cantou. Como a deformação me impele a só nas horas vagas pensar em CINEMA, alguns anos depois do meu professor RICARDO MIRANDA ter me aplicado da MAIA DEREN, tenho visto repetidas vezes os filmes dela na internet. Descobri sem saber dizer por que, que ela é a única cineasta mulher que verdadeiramente gosto. Não me lembro de outra. Ou seja, estou ferrado. Já sabia. Como esquecer o inesquecível. Esta chuva me trás alguma falta daquela corda do violão arrebentada sem ser ainda reposta por mim. Eu nunca toquei nela a corda rebenta. Quero um dia poder tocá-la, para isto preciso amarrá-la. Deixa a índia criar seu curumim. O recebimento do e-mail do ALAIN BISGODOFU, me trouxe novamente para O MONGE DEVASSO, bom sinal para a inspiração chuvosa nesta sexta-feira antes da meia noite. Que venha. Não tenho mais como correr da ariana lição tentadora que me aguarda: OS CARRASCOS TAMBÉM MORREM. Não sei por que falo só dentro de mim.Vou tentar pensar nos outros. Apenas uma piada. Estou aqui a aumentar a frase para aportuguesar a prosa que anda resoluta demais e repleta de lições curtas, inúteis e bastante desprezíveis no momento que o relógio traduz. A hora é esta. Meu caro. Que faremos CAROLINO amigo? A noite vai ser boa. Na onda sonora ela surge bem branquinha com os cabelos pretos, lisos e desalinhados num corte moderno fora de moda, inesperadamente linda cantando águas DE MARÇO em francês, très sensual, sem defeitos aparentes. Bonita. Talvez bonita demais. Abre a janela. Bel prazer. Flor morena que mora no jardim, logo ali ao lado. Desejo te ver já vendo, e vendo bem, enquadrando de maneira inteiramente original só para te agradar. LANG e BRECHT. Noite alta é meu dia. Que dupla. A jardineira da floresta. A ANTA. Não falem desta mulher perto da mim. Para não lembrar da minha cor. Em homenagem ao meu longo périplo sem farol. Vou mantê-las longe errando no baixo acústico, e ainda tendo à carregá-lo. Ou não. Bom para divagar sem o guada-chuva, nem a sombrinha que desapareceu como nasceu, para ser perdida. Tenho aos poucos detestado o Surrealismo. A tendência sempre foi e é da boca para fora, detestar tudo de que me aproximo, é triste e tem sido. El Cid. Gosto com distância de pensar assim. Vi uma barriga hoje, nunca assim vista por mim, como vinha um homem era pontuda e a mãe jovem bonita e magra, me disse o quanto lhe faltavam posições, naquela etapa gerativa. Sonhei conseguir imaginar. Mas é claro, pensei em outras coisas neste momento. Imaginativo como nem me lembrava desde ontem. Aconteceu na mercearia do português. Ela comprou leguminosas. E ainda me disse que o tomate é uma fruta. Nunca pude imaginar tal verdade. O instrumento é difícil, mas a forma é minha. Por enquanto. A luz da manhã. Voltou a chover, não saio mais, desconfio que há uma vida me rondando aqui mesmo, pelo menos até amanhã com a procura do encontro com a minha bela frase perdida. Enfim conquistamos os desertos. Logo com ela mesma. Parece que é a primeira vez com a tensão dos caminhos conhecidos. Fica como se fosse melhor. Apenas para chover. Tantos cigarros e quantas cachaças na minha vista. Sem catarata. Chega! Finalmente cheguei a esta palavra e a esta exclamação. E hoje como continuar? Não termino mais com interrogações. Passei destas curvas, vou estudar esta nova condição para arriscar de novo como dedilhá-la, parece que para achar sua trilha pelo faro é só e apenas voltar para dentro, descobrir as entranhas entre as camadas das ondas e das espumas, suas páginas sobrepostas rosas e avermelhadas na medida do andamento interior. Molhada e quente. Esquecendo os pareceres e a pedra do muro. Peço para mim alguma perícia, sob o sol do maracujá. Levo sempre pelo ar da viagem a dúvida companheira e gostosa. Com fome sem bula.

sábado, 17 de dezembro de 2011

ARQUÉTIPOS FUTUROS

Por uma rebeldia sem ideologia


Por uma juventude sem causa

Por uma geração sem mácula


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Memória a dois

1966

Comerciantes fecham as portas e homens de ternos e
gravatas perseguem estudantes nas ruas do centro de
Belo Horizonte. Minas Gerais
Nesta arena em que se transformou a vida nacional, os
padres dominicanos, a igreja dos pobres e da renovação
política, nas capelas, onde velas acesas, presos apagados
e freiras comedidas se cruzam e se agitam nas ondas
revolucionárias da criação de um novo partido - os
trabalhadores da fé - o povo humilde reza o bandido.
O neonazista, torturador, profissional liberal, nascido da
miséria mental de uma burguesia moralista e mesquinha,
escondido como um rato nos ninhos sujos e
abandonados nos quartéis espalhado pelo território
nacional, mata, trucida com choque elétrico, porrada e
empalamento, os heróis da pátria. Onde foi parar a
educação, a cultura, a tradição de liberdade e cordialidade
do povo brasileiro? Por onde se perdeu a identidade secreta
das Gerais? Quantos desejam e tecem esta rede danada,
enquanto a arte sagrada de um povo é esquecida?
Pelos palácios esta infâmia vida se não se esquece
vira piada na boca suja de um governante corrupto.
Liberdade! Que merda é qque fizeram com você?
Foges da minha vista... Nunca mais quer me ver?

Não tenho mais tempo!

Filme: Terra em Transe - Glauber Rocha

Neste janeiro de 1969 acontece o que todos previam: O Império mostra suas garras e os ratos saem pelos esgotos. Comemora-se com um ato fálico a vitoria em honra da burguesia - Não sei se é a festa que compõem o fato ou se é o fogo que constrói o fôlego - mas é o ato do fato que retrata o fogo da sociedade folgazona e boçal que usurparam o poder. A fera das américas está de volta, solta nos homens do ditador presidente, matéria fósmea - fodam-se - vamos a guerra revolucionária pela fome endêmica dos incautos na terra de Santa Cruz. Antônio das Mortes, de norte a sul um só povo, uma mesma língua - doente - indigentes - pobre - um banquete de mendigos num bangue-bangue de canalhas. De uma nação rica e nobre só restou miséria, indignação, escravidão e fome. 69 é o pão com mortandela no circo dos horrores. Nos pênaltis sofremos sôfregos soluços em jogo de bola - copa do mundo - identidade de um povo torturado pelo milagre . No carnaval o futebol deixa Brasília desesperada. O poder assume a propriedade das origens das famílias e dos colonos. A revolução agrária e todas outras reformas de base, do povo, transformaram-se no templo do nada. O brasileiro é um pobre sonhador que acordou derrotado pelas manhãs frias de um abril sem fim. Dia da mentira. Retrocedemos. Perdemos tudo sem um só tiro de morteiro na estupidez culta de um escritor burguês e na inteligência estúpida de alguns políticos oportunistas. A UDN que liderou essa bossa nova autofágica, deu-nos um golpe quase mortal e por tantos mortos apresentados fará a lenda tardar a se consumir. Hoje, imprime-se a realidade. Pobre imprensa, todo dia do Correio da Manhã o pais se esgota censurado no Jornal do Brasil - Inteligência militar - cultura de importação made América do Norte, um tiro de canhão, muita boçalidade, luta de espada, ungida com muita merda, hoje são as metas nacionais. 1969 - O país só é grande com a bola no pé. No Rio da praia ou em São Paulo do café, Pelé faz o gol, joga-se o certo com a alegria do pobre que dura pouco, forma-se um rei - Um rei da vela - Alienígena e genial João, Coltrane, Gilberto, Rosa, Cabral, equilibrando-se ao lado do AMOR SUPREMO, do eterno silêncio entre duas notas. A música faz o resto. Viajando nos poemas dedicados à Alice - descobrirmos o paraíso. E o Brasil sai perdendo sem Pixinguinha, Noel, Clementina, Mário Reis, Lupicínio, João do Rio, Machado, Augusto, Oswald, Goeldi, Stradelli, Nunes, Villa, Mauro, Peixoto, Euclides, Silva Ramos. Enlouquecido no ar - viajando no cometa - Jimi e Joplim - Oh! Divina Comédia - Augusto Conte - pálida dialética positivista da qual Rousseau é seguidor - Mestre Guilhotine e a revolução – Quero morar em Paris - Artaud, Baudelaire, Mallarmé - chega de ser o alimento do predador! Vocês não sabem do risco que me fizeram sofrer! Não nasci para ser herói – Cuidado: Este texto poderá me levar aos porões do capitão Leite no Dops da Avenida Afonso Pena...


quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

As garotas sax do nosso colaborador que cria no seu texto pontilhado solenemente os sons de uma pauta musical

SÓCRATES COMO EPÍGRAFE
Fábio Carvalho

As pessoas que amam a música são absurdamente irracionais.
Gostariam que todos ficassem perfeitamente calados justamente
quando gostaríamos de ser absolutamente surdos.
Oscar Wilde



De novo olhar estes seus olhos me faz voltar a mim. Não é fácil. Basta aprender sambar dobrado. Como você escreve o que já escreveu? Sou eu tocando neste teclado com um domínio violento e carinhoso além de mim. Ave Maria Nossa Senhora. O BARBEIRO DE NITÉROI. Ah! Helena do Almirante, linda flor de Cascadura, juro pela falsidade das mulheres, que faço tudo o que quiseres. Por ti serei poeta e trovador. Apenas uma exclamação já basta. Então foi assim. E agora por onde ir nesta região do Rio que conhecia tão bem, no entanto esqueci. Considerando que ninguém ouviu A NOIVA DO CONDUTOR, muito menos eu, vou resolver a questão deste filme de uma maneira musical sem ficar contanto historinhas para as criancinhas dormirem. Elas que pelo direito mereciam já estar dormindo, bem acomodadas, sonhando em conjunto com todas as outras adultas reunidas nesta acolhedora embarcação solta no mar. Participando ativamente do sono do crescimento salutar. Juntos até jamais. Não quero fazer parte desta e nem de outra rede contrária ao horário da infância, ou melhor, para não perder o fio da meada, que se dane a nossa vizinhança, considerando todo tempo do mundo que já acabou. Acolá ao soar desta clarineta, good lucky my baby, ela pôs meu prato. Night blue. Belo espaguete à putanesca com mangericão. Da Rússia ou da Prússia, pode ser a pergunta e no espaço está havendo alguma invasão, como você continua depois de uma vírgula? Refiro-me àquilo que eu já tinha escrito, ou podemos começar a pensar. Mais uma vez sem saber por que falo no plural. Esses os modernistas que se explodam, eu também, ainda para tudo aceitamos que devemos justificações. Temos que conceder. É uma pergunta. Coloco ponto ou interrogação? Existe o ponto e vírgula, como todos sabemos. Aonde posso usá-lo? Não quero e não aceito. Nem me permito repetir. E ainda tenho que perguntar: para quê? Tenho exasperado para me conter. Chega a ser até fácil com esta cantora cantando esta música. Não devemos dar uma parada tão profunda quanto a do ponto e vírgula, ela disse. Novamente no plural. Ela vai tomar banho, fico só imaginando o que é uma boa para a hora. De novo. Logo ela. A imagem. O cinema brasileiro está tão ruim que só pode melhorar. Pior impossível. Mandou o ROGÉRIO SGANZERLA, há muito para hoje em dia. Quem sabe até o amanhã. Copacabana meu amor. Tudo é importante. A metafísica do bar. Uma serena paciência, que figurava extraordinária exalando deste presidente gênio: ALMEIDA SALES. No paraíso o tempo não corria, e o homem nasceu para viver na eternidade. Disse ele. Todos sempre soubemos, mas tivemos que nos adequar, não encontramos como fugir. Até amanhã sei me livrar do perigo, o pior é que o sol já está nascendo. Como chegar ao samba na sua mais ampla tradução? As lágrimas candentes caíram sobre a sua bela liberdade. De quem, mais uma pergunta sem resposta. Cantantes como o duo feminino quando ali se apresentava naquela inadequação. O submarino está demais. Vou ver se me lembro o que ia escrever. Variadas distrações agradáveis me distraíram e desviaram a minha flecha certeira que lancei naquela recepção. Daqui a pouco acerto ou pelo menos tento. De dentro dos meus olhos e da evolução do fogo nesta aparente paz dominical, enquanto as meninas conversam lá embaixo, vislumbro que almoçar é o melhor a fazer. Vamos ver se ela dá a reabilitação a partir daí. Sonho de mulher. A subida daquela fugidia imaginação fez escurecer aquela tarde que ainda era clara, nada mais que o inconfundível despertar da loucura. Como um homem sobrevive? Não houve nenhuma palavra. Veio o temporal.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

POESIA

Gozo


Esta luz de néon invade o cosmo
Vinda do fundo do cabaré

Na minha alma um sonho
Um átomo, um corpo estranho
Tamanha luz, incêndio não é

Entre estranhas entranhas conhas
Penetro procurando o coração
Câmaras, caminhos, passos

Apressados insistentemente
Pêndulos sem nenhum propósito
Balançam na gangorra
Roubam na escuridão

O insólito ar dos meus pulmões
Deseja no sono do seu quarto
Declamar a triste trova do delírio

Empuxo extraordinário, correio de mão
Gritos de princípio, coelho do mato, luz
Credo cruz, fim da matéria, puro martírio


domingo, 11 de dezembro de 2011

QUE SAUDADE DA NINA

NOTÍCIAS DE BH-MG NOTÍCIAS DE BRASÍLIA

Finalmente o Governo lança projeto para estimular cultura na educação básica



BRASÍLIA - Os ministros da Educação, Fernando Haddad, e Cultura, Ana de Hollanda, assinaram nesta quinta-feira (8) acordo de cooperação técnica para ações de estímulo à cultura dentro de escolas de educação básica, do ensino infantil ao ensino médio.

O projeto, que terá investimento majoritário da pasta da Educação, contará inicialmente com R$ 80 milhões para viabilizar ações como promoção de leitura, por meio do recrutamento de monitores e ampliação de acervos de livros, e divulgação do cinema nacional. O programa prevê alcançar 1 milhão de estudantes no país.

Esse tipo de ação coordenada está previsto no Plano Nacional de Cultura, que deve ser lançado na semana que vem pela ministra.

"Nós sentimos a necessidade hoje de aproximar as agendas dos dois ministérios para fazer da escola um ponto de cultura e dos pontos de cultura locais onde a escola possa utilizar para motivar os estudantes", disse Haddad. A ideia, segundo ele, é estabelecer um segundo turno de atividades nas escolas.

JORGE ANTUNES, UM COMPOSITOR SUBVERSIVO


Esse é o título do concerto que apresentará algumas das obras de Jorge Antunes que, em diferentes momentos de sua carreira, incomodaram os detentores do poder, transgrediram as normas vigentes e foram censuradas.

O concerto se realizará na sexta-feira, dia 16 de dezembro, às 20h00, na Sala Cássia Eller da Funarte de Brasília. Os ingressos custam R$ 10,00 e R$ 5,00.

Uma obra eletroacústica abrirá o concerto: Auto-retrato sobre paisaje porteño. Essa obra foi composta em Buenos Aires em 1969. Nela Antunes monta um retrato sonoro dele, sobre fundos musicais que reportam ao Brasil e à Argentina. Um jogo de vozes com a palavra "General" foi motivo para a censura da obra.

Cabra da Peste, composta em 1964, incomodou a ditadura militar. A letra da canção, também de autoria do compositor, foi considerada subversiva. A peça foi censurada.

Outra obra polêmica é Seis Missivas BB, de 1997. Durante vários anos Antunes apresentou projetos ao CCBB, pedindo apoio e patrocínio para suas óperas. Seguidas vezes recebeu recusas. No início de 1996 o CCBB encomendou obras novas de 34 compositores. A Jorge Antunes coube compor uma obra para canto e piano. Havia chegado a hora da vingança. Antunes juntou as cartas recebidas que negavam apoio a seus projetos, e as musicou. Foi censurado.

As outras obras do programa também criaram polêmica em suas estreias. O trio Três Impressões Cancioneirígenas, de 1976, ironiza o nefasto AI 5, em momento em que o ato de exceção dos militares ainda estava em vigor.

Na última obra do programa, Polimaxixenia Sideral, Antunes faz variações com um maxixe, ironizando o preconceito que a intelectualidade muitas vezes tem com relação ao saber popular.

O GEMUNB: Sidnei Maia, flauta; Leonardo Neiva, barítono; Marcus Lisbôa Antunes, violino; Félix Alonso, clarineta; Mariuga Lisbôa Antunes, piano; Guerra Vicente, violoncelo; Jorge Antunes, direção, sons eletrônicos e computador.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Roteiro de um curta metragem impressionista

Roteiro de um curta de 14 a 21 minutos
Dois a três minutos de imagem por página escrita
Primeiro Tratamento.

Escrito por Jose Sette

Férias
As nuvens passam ligeiras no céu azul acinzentado. No mar as ondas quebram e se agitam. No rosto molhado de Artur a expressão do desespero:

- Eu sempre achei que eu era alguém, hoje vejo que sou ninguém, matéria do caos, nada mais do que pó espalhado nas cinzas de um vulcão que se torna extinto. Não sofro a angústia dos abnegados, dos conformados. Já não preciso do aplauso dos contentes desconhecidos e dos amigos descontentes. Alimento-me de sonhos utópicos, só hoje pude perceber isso...

O Rosto de Artur está agitado, tenso.

- Eu não estava só! Sei o que é a solidão. Trabalho dia e noite sem descanso. Obcecado não consigo retirar da minha cabeça as ferramentas da criação e da arte, que neste dia se mostrava confusa, se repetia, se embaralhava, não resistia a uma crítica sincera, não me dava mais prazer...

- Na minha cabeça passava um anúncio de um sujeito bebendo uma cerveja na garrafa. Ai, eu pensei: Seria bom se a boa arte viesse engarrafada, era só abrir e beber.

Roxane da à mão e ajuda a Artur a sair das águas revoltas. A expressão do rosto molhado de Artur vai ficando mais suave e chega a sorrir quando ele conclui o seu pensamento

- Essa imagem da arte engarrafada não me saia da cabeça - a imagem do mundo contemporâneo! Imaginei que estava enlouquecendo...

O rosto de Artur de olhar lânguido está sereno e seco

- Procurei imediatamente um psicólogo, pois passei a somatizar os meus desejos em todas as garrafas... – você precisa sair de férias, disse-me ele, descansar e andar sem pensar em nada, totalmente zen, pela praia deserta, pode até ser na Polinésia...

Roxane olha para Artur

- Foi aí que encontrei você... Eu vinha andando pela praia deserta quando lhe vi saindo cansado do mar e preocupada me aproximei oferecendo ajuda e só ai eu vi que você estava bem...

- Não estava nada bem... Sou-lhe grato por isso... Você sabe me informar se estamos muito longe da pousada? Perdi o senso de orientação e me afastei sem me preocupar em voltar...

- Um pouco longe, o senhor vai dar uma boa caminhada para chegar lá antes do anoitecer. Mas não se preocupe que te acompanho até a pousada e no caminho paramos quando estiver cansado...

- Obrigado, mas não me chame mais de senhor... Eu sou Artur e você?

- Roxane...

- Roxane, parece-me que nos conhecemos, eu tenho quase certeza disso. Você gosta de poesia?

- Gosto muito, já li a Divina Comédia...

- É como disse Caronte antes de atravessar Virgílio e Dante pelo rio: - Aqui parado eu já posso lhe dizer como cheguei, depois de atravessá-los, andando pelo mundo, podem escrever os nossos destinos.

- Isto está do livro?

- Não, eu inventei.

- Então vamos Artur! Vamos andar mais um pouco?

A praia deserta de areia branca. Os dois caminham com lentidão. Artur gesticula enquanto fala. Andando mais devagar, mostrando cansaço, Artur segura o braço de Roxane...

- Essa região é ainda uma das poucas preservadas... Aqui se toma banho de mar sem sair envenenado pelas águas pestilentas que banham toda a costa ...

- Eu sei, sou bióloga, luto contra tudo isso, esse também é o meu lugar predileto, uma pequena mostra do que era o paraíso, só aqui me sinto bem.

- Ora, mas que coincidência!... Uma jovem bióloga de férias para me fazer companhia. Estou encantado. Temos muito que conversar...

- Sim!... Mas agora vamos andar um pouco mais, estamos longe e não quero deixar a noite chegar.

- O que você carrega nesta mochila?

- Roupas, um cobertor e uma pequena barraca...

- Pra que tudo isso?

- Eu ia acampar antes de encontrá-lo...

- Não modifique seu passeio por minha causa, eu posso chegar sozinho de onde vim.

- O caminho de volta é longo e vai ser um prazer... Vamos andando?

- Aceito a sua companhia se você me permitir parar para conversar de vez em quando.

Roxana sorri e os dois continuam a lenta caminhada pela praia deserta.

- Você sabe o que eu estou pensando agora? ...

- Não! ... Fala!

- Falo! (sorri) Mas tenho medo de não ser entendido por você.

- Sou formada em defesa pessoal, sei me defender...

- Magrinha desse jeito?

- É isso que você tinha medo de dizer?

- Dizer o quê?

- Que eu sou magrinha (sorri).

Os dois param de andar.

- Quero lhe dizer é que faz muito tempo que eu não me sinto tão bem... Há pouco tempo o mundo, este paraíso que torno a ver em toda a sua exuberância, não tinha o menor valor...

- Isto é um elogio ou uma constatação?

- Estou me sentindo um garoto que descobre a vida no olhar de uma menina que ele acabara de conhecer. Pronto disse o que verdadeiramente sinto...

- Fico lisonjeada com essa energia de vida que acabei lhe passando...

- Espero não estar abusando da sua paciência e zelo com esse velho desconhecido, mas é que nele se opera um milagre...

- Sou paciente quando me aproximo do desconhecido; do que me parece oculto e ao mesmo tempo inteligente. Um artista que quis mudar de mundo, sabendo que essa operação não seria um milagre mas uma conquista de trabalho político-biológico da natureza do homem que é se transformar para conquistar uma nova vida...

- Só posso lhe dizer obrigado... Meus Deuses de Acrópoles! Não tenho mais palavras, você me surpreende a cada momento desta travessia. Tenho tantas coisas para falar e tantas outras para perguntar...

- Temos muito tempo para conversar, mas agora vamos andar um pouco mais?

- Sim..., um pouco mais.

Andando a beira mar Artur não pára de falar.

- Você está cheia de razão. A pouco não consegui misturar o meu corpo com as turbulências das águas do mar e precisei quase me afogar para encontrar você ali esperando por um ser que nunca conseguiu dominar ou se equilibrar nessas ondas...

- Os humanos são um dos poucos mamíferos que controlam a própria respiração e é um dos poucos animais terrestres que respiram tanto pela boca quanto pelo nariz.

- Porque pensam com inteligência!

- As águas são nossas amigas, não tenha medo do mar Artur ele é o avô de toda a natureza.

- Os animais, quando jovem, nadam melhor e mais rápido, mas os velhos animais quando mergulham tendem a se afogar...

- Quando um bebê acaba de nascer, já tem uma incrível capacidade de mergulhar! Somente animais aquáticos ou semi-aquáticos já nascem sabendo mergulhar. Você não ia se afogar...

- Eu sei que não... Imagine se eu ia perder tudo isso que está me acontecendo... Roxane me fale mais de você.

- A Ciência do Mar é o meu trabalho. O meu grande amor. Pesquisar as formas de vida animal, vegetal, das formações geológicas, correntes marítimas, nível das águas, marés, é o destino que me está reservado.

- O mar é o seu grande amor... Que coisa romântica para uma menina cheia de vida. Não existe em você outra vida, mais social, festas e namorados...

- A vida aquática é mais rica e variada que a vida terrestre. Eu atuo na sua preservação, nada é para mim mais importante hoje no mundo, eu viajo sempre, nunca estou em um só lugar, assim não existe tempo para namorar.

- Roxana, eu estou cansado, podemos parar um pouco? Preciso descansar...
Artur senta-se na areia enquanto Roxane mergulha nas ondas e nada com uma naturalidade como se estivesse em seu meio. Artur a observa com toda a sua atenção e mostra-se preocupado quando seu corpo passa um longo tempo submerso sob as ondas.

- Diz à ciência que nós humanos evoluímos a partir dos macacos que desceram das árvores, adotaram uma postura ereta, aperfeiçoaram-se biologicamente até chegar ao ponto que hoje estamos. A mulher é a imagem viva de tudo isso, digna e pura, é arte bela e perfeita de toda essa revolução biológica. Que mistério extraordinário provocou está radical transformação?

Roxane sai da água e se aproxima de Artur que esboça um sorriso.

- Fiquei preocupado com você enfrentado e sumindo entre as ondas bravias...

- Artur, enquanto nadava eu pensava que não seria melhor eu ir até a pousada e pedir uma ajuda?

- Eu te peço que não faça isso, não preciso de ajuda nenhuma, já te disse que há muito tempo não me sinto tão bem... Vamos continuar o nosso passeio.
Artur levanta-se da areia e faz uns exercícios mostrando a sua disposição.

- OK Artur! Você me convenceu, vamos continuar no nosso caminho...

- Você sabe o que está acontecendo aqui? Em alguns momentos, me parece ser uma ficção, um filme, um texto sendo escrito, um poema que surge como uma sinfonia e me deixa encantado, é como se eu vivesse um paraíso, uma espécie de déjà-vu do cinema americano da década de 50. Mas isso não é do seu tempo...

- Não é do meu tempo, mas os filmes estão ai para serem vistos e eu os assisto todos. Adoro cinema. Assisti faz pouco tempo alguns clássicos do cinema americano, mas do passado o que eu mais gostei foi do cinema italiano, eu esqueci de te dizer mas eu também amo a Itália.

- Eu também amo a Itália, mas gosto mais do cinema expressionista alemão, da estética japonesa, da vanguarda francesa e dos gênios do cinema americano... Mas não vamos falar do passado, quero viver o futuro, o novo mundo! Só ele pode ser moderníssimo.

- A primeira coisa que você me disse é que já não gostava do que fazia...

- Sentia que nada que eu havia feito ou viesse a fazer fazia algum sentido...

- Mas como você pode pensar isso..., o simples fato de estarmos andando em uma praia deserta, momentaneamente, um só instante em uma fração do tempo, em qual sentido supera a obra, que é um pensamento que tende a ser constante?

- Em nada, eu sei, o um faz parte do outro...

- E não está sendo agradável aos sentidos estarmos aqui agora?

- Você deve ser um anjo?

- Não sou nada!

- Uma mulher de outro planeta?

- Não! Simplesmente uma mulher defensora do que está ainda vivo...

- Eu estou vivo?

- Só você pode responder a essa pergunta...

- Nunca conheci uma mulher assim... (Artur resmunga baixinho)

- Olha o céu Artur, o azul é mais azul quando o dia chega ao fim, assim temos que aumentar nossos passos para chegarmos a tempo na pousada...
Artur e Roxane aumentam os passos na sua caminhada nas areias da praia deserta. Artur começa a suar e a mostrar profundo cansaço.

- Roxane nós temos de parar um pouco, preciso descansar...

- Vamos sentar ali naquela árvore e aproveitar de sua sombra.

- Puxa Roxane se você quer me dar vida não me faça correr novamente.

- Desculpa-me Artur, mas precisava saber se poderíamos chegar à pousada antes do anoitecer, mas vejo que você não vai conseguir, vamos ter que passar a noite aqui...
Roxane abre a sua mochila e de lá retira um facão e um cantil. Artur se assusta com a lâmina afiada brilhando na luz amarelada do sol.

- Artur bebe um pouco desta água que eu vou catar lenha para uma fogueira...
Roxane embrenha-se na mata fechada enquanto Artur bebe no cantil e tenta se levantar mas não consegue.

Artur está contemplando o por do sol quando Roxane retorna com vários feixes de lenha seca. Artur levanta-se com dificuldade para ajudá-la. Eles montam a barraca e preparam a fogueira.
O sol se põe enquanto formam-se nuvens carregadas no horizonte. Roxane senta-se do lado de Artur e pega na sua mão.

- Não tenha medo eu estou do seu lado...

- Só tenho medo de que esse tempo de felicidade passe muito rápido.

- Só o espaço é findo, o tempo é eterno e o resto é besteira...
Os dois em silêncio olham para o mar. A noite chega e Roxane levanta-se para ascender à fogueira.

- Sabe Artur no que eu estou pensando é que esta noite vai fazer frio e só tenho um cobertor...

- Eu já sinto um frio terrível...

- Você jogou a sua roupa na areia e eu peguei...
Roxane abre a mochila e entrega as roupas de Artur que imediatamente põe-se a vesti-las. Depois ela retira o cobertor e enrola-se nele.

- Você está com fome? Tenho aqui duas barras de cereais, você quer?

Artur faz um gesto afirmativo com a cabeça. Roxane senta-se ao seu lado e lhe entrega uma barra e passa a comer a outra. Artur mal consegue comer um pedaço.
Roxane levanta-se e vai para o lado da fogueira se esquentando. Retira o cobertor e o biquíni molhado vestindo uma blusa e uma calça de moletom. Artur olha com avidez a cena.

- Como você é linda Como você me inspira com sua beleza pura!Tenho vontade de retratar esse momento para sempre. Como eu estou feliz ao seu lado!

- Eu também estou feliz em estar aqui...

Na frente da cena o mar.
No céu de um azul profundo quase negro pipocam relâmpagos.
Roxane deixa Artur passar a mão pelo seu corpo. Artur sente um imenso prazer. Como quem vai dormir ele escorrega lentamente a sua cabeça para o colo de Roxane.
Começa a chover e a chuva encharca os dois que permanecem na mesma posição durante algum tempo. A fogueira se apaga. Tudo escurece ao azul profundo.
O sol acorda no horizonte azul amarelado, não há nuvens no céu.
Na praia está o corpo morto de Artur. Ele está sozinho deitado de lado na areia branca e límpida do paraíso.
Atrás da cena mórbida está a pousada.
Um carro de luxo estaciona na frente da recepção.
O motorista abre a porta do carro e dele saem finamente vestidos Artur e Roxane. Ele nervoso segura Roxane com firmeza pelo braço, olhando-a com expressões faciais sérias e com um charuto na boca compõem as máscaras da tragédia gregas. Roxane ao contrário de Artur, anda como se desfilasse e demonstrando deslumbramento sorri com falsidade para o nada. Os dois, depois da cena teatral, entram na pousada.

FIM

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Memória

Último Texto postado pelo
lúcido jornalista Fausto Wolff
que é bom ser lembrado...

À sombra do medo em flor

Dêem a chefia da portaria ao mais dócil empregado e logo ele se tornará um tirano
Já escrevi em algum lugar que, enquanto não nos revoltarmos contra o conceito de democracia que considera sagrado o direito de uma minoria escravizar o resto, jamais chegaremos à condição de seres humanos. Seremos sempre caricaturas, títeres perdidos na ventania, sempre com cara de “desculpe, não era bem isso que eu queria dizer”.
Enquanto não se der a revolução da humanidade contra a tirania, enquanto deixarmos que nos humilhem para que possamos continuar vivendo, teremos de suportar algumas imperfeições, certos espinhos colocados em nossos sapatos ainda na infância que não podemos ou não queremos tirar.
Uma dessas imperfeições é a constatação de que, à medida que envelhecemos, vamos nos tornando mais medrosos. Quando deveria acontecer o contrário: à medida que envelhece, o homem deveria tornar-se mais corajoso, porque mais sábio, mais justo, mais conhecedor dos seus deveres e direitos.
Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, todos os dentes e era um sujeito bonito, era também dado a papagaiadas. Certa vez, ainda noivo (havia noivados e até virgens naquela época), estava no falecido Bar Castelinho, tomando um chope com minha futura mulher, quando um dos donos de uma revista para a qual eu escrevia sentou-se à nossa mesa e se comportou de forma grosseira.
Gentilmente, mandei que se retirasse, pois já tinha de aturá-lo o dia inteiro e não pretendia fazer isso quando estava namorando. Fui despedido no dia seguinte. Na hora, a sensação foi boa, mas eu era muito jovem para perceber que os rateios estavam contra mim.
Outra imperfeição: ser burro, viver e conhecer o mínimo do seu potencial energético interior e, além disso, ter de suportar a consciência da sua mortalidade. Algumas pessoas percebem isso, mas, como são ignorantes, aceitam o princípio nada otimista de que a vida é um absurdo porque acaba na morte e, como dizia Camus, o homem vive e não é feliz. Essa constatação é tão angustiante que, sem uma garrafa ao alcance da mão, é difícil resistir à tentação de não dar um tiro na têmpora.
Hoje em dia, em pleno século 21, a grande maioria de escravos aceita essa condição fingindo não saber dela, fingindo que a vida é assim mesmo. Uns entram com o pé e os outros com o popô, uns com o pescoço e os outros com a foice. Excetuando os psicopatas que, aparentemente, já nascem tortos, alguns poucos escravos se rebelam e saem fazendo bobagens: roubando, assaltando, matando, estuprando.
Quando isso acontece, todos ficam com cara de tacho, fingindo que não têm nada a ver com o peixe. Em seguida, os políticos pedem “responsabilidade criminal aos 16 anos”. Logo, pedirão responsabilidade aos 15, 14 e cosi via. Cosi via significa que aumentará o número de crianças assassinadas ao nascer; aceitação literal da loucura religiosa de que o homem já nasce pecador. Claro que essa lei só valerá para crianças pobres.
Sou contra a pena de morte, mas, como a tragédia, mesmo quando coletiva, é sempre individual, o que eu faria se matassem alguém indispensável à minha vida? E se alguém tirasse a vida de uma pessoa e, ao fazer isso, me deixasse aleijado interiormente pelos anos que me restam?
Como não acredito na Justiça e também não acredito que podemos julgar oficialmente os efeitos sem punir as causas, eu simplesmente mataria o assassino. E o faria pessoalmente, com as minhas mãos.
Em seguida, cidadão exemplar que sou, me entregaria ao juiz. Não teria resolvido nada, mas como sou humano em estágio ainda bárbaro, pelo menos isso atenuaria um pouco a minha dor.
Como vejo a coisa hoje? Dêem a chefia da portaria de um edifício ao mais dócil dos empregados e logo ele se tornará um tirano para agradar ao poder imediatamente acima dele.
O poder ama a si mesmo e aos poderosos. É tão implacável na sua injustiça que consegue convencer mais de 100 milhões de brasileiros adultos de que devem escolher entre o algoz da esquerda e o da direita. E nada acontece.
Postado no JB em 06/09/2008

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

EU JOGANDO TÊNIS COM POLANSKI
Fabio Carvalho

É que desta vez o tema proposto não passava de um simples pretexto,
um ponto de partida, e Vigo se apegara a uma questão em que se empenhava
profundamente e de coração: o respeito pela sua liberdade.
Paulo Emilio Salles Gomes


De novo me encontro no mundo negro. SOUL. WOMAN IS THE NIGER OF THE WORLD. Que beleza saber seu nome. Logo ao meio dia desta segunda-feira chuvosa. Tenho que aproveitar este estado aliterado para fazer alguma coisa. Cumprir esta etapa. Deve ser legal ser negão no Senegal. A caveirinha à corda que comprei na banca de manhã, debaixo da chuva, vai ser o início do filme que procurava. Está fácil. Tenho que complicar um pouco. Resta apenas um contato. Que bom. Apenas um contato. Que cara de pau. PICK POCKET. Beleza sem igual. E figurou onde o inesperado ainda não figurava. Era a transfigura, ao menos imagino que era. Jamais vou interromper a imaginação, quando toca o celular. Ao mesmo tempo chega uma mensagem, a culpa é desta música. Driblei as duas, de súbito retornei ao craque que sou pelo lado esquerdo, mesmo sendo destro. Que bomba de trivela tenho na canhota. Completamente autônoma. Agi por si só ao seu bel prazer. Antes de qualquer comando meu. Será que ela é minha? Esta velha perna. PILAR ZAMORA. Que belo nome. Será que ela é argentina ou boliviana? Pseudônimo de uma atriz ou guerrilheira urbana? Sem cerimônia vou para Paris. Cidade luz. Cantada por uma bela mulher negra, forte, altiva e dona de um corpo que só ela teria. Com a elegância além da excelência, ornada no esplendor daquele momento sem repetição. Subiu junto com a escada rolante. E como brilhava. Que bela boca. Fez o vento quente esfriar. Nenhuma delas, por mais que me ocupassem, conseguia me desestabilizar ao ponto de não mais seguir o movimento do zigue-zague. Tento sempre assobiar. A lição é bem passada. Sei não. A dúvida é minha parceira. E o que é pior: gosto dela. Alguém já viu um golfinho macambúzio. Cada vez estou mais intransigente e irresponsável com as relações que não sejam de ordem natural. Deve ser a IDADE DA TERRA e suas influências que invariavelmente são recorrentes. Lembrei neste instante da sintaxe. Boa lembrança. Amanhã é domingo. Gosto e não gosto. Enfim, temos e habemos de atravessar mais este. Com uma satisfação imponderável. Ainda é fácil. É só saber. Disse o mágico para sua PARTNER com PIERRE CLEMENTI. Menti. Só um pouquinho. Finalmente uma luz cinematográfica. Esta é a minha e sua missão. Desta altura já não mais podemos escorregar. Também escolheria imediatamente o sândalo. Irrefutável. Que admirável é esta palavra. Como negar seu significado absoluto? A certeza não existe da necessidade desta interrogação me imposta, segundo o jovem crítico, me auto imposta. Quer queiram ou não. Senti uma sombra me assombrando, vou fumar um cigarro ainda. São coisas que acontecem ouvindo MOZART. AMADEUS. Apenas uma loucura momentânea e continuada, também o vizinho está fazendo uma festa para crianças, e nós do lado de cá fazemos filmes para adultos. Agora a pergunta é: nós quem? Tantos nós. Quantas horas são? Acabou de perguntar a outra personagem. E vou lá saber, acho que são meio dia para as quatro. Muito cheirosa. Mesmo assim, esta forma de perguntar vai rebaixá-la à condição de uma das primeiras coadjuvantes para figurante, sem dó nem pena, acho que ela necessita levar uns anos de aprendizado conquistado e merecido. Novamente a mente, mentirosa. Ela gosta, quer e precisa, estou aqui para isto. Esta tarde vai ser boa, amanhã ao acordar melhor ainda após ter sido desenterrado no Père Lachaise e navegado ao vento para essa posição de visão. Achei. É o quadro. Ela gosta de se exibir. A entrada é fazer sua felicidade. Delicadamente. Aplaudida a morena carnuda recoloca o vestido vermelho na sua exuberância, em seguida, calça os sapatos pretos e impolutamente mente, para agradar, que vai conseguir dormir na casa da sua amiga recente naquela alcova ali desarrumada. Vamos ao cinema. Juntos para ser melhor a ilusão. Por onde andarão meus óculos?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

PREMIO JOSE SETTE

FESTIVAL DE CINEMA PRIMEIRO PLANO
Na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais...

Esse ano, novamente foi entregue ao melhor vídeo regional da zona da mata mineira, o prêmio José Sette. Junto a tradicional cachaça dessa vez resolvemos entregar também um certificado- HQ, para registrar melhor o prêmio. O desenho foi feito por mim e inspirado em um vídeo na internet chamado: manifesto José Sette. O texto do certificado foi feito pelo Marquinho, Terra e eu. Espero que goste.Engraçado é que a direção do Primeiro Plano resolveu imitar o Prêmio José Sette e também distribuiu cachaça para todos os ganhadores. Segundo eles, há dois anos os ganhadores da mostra nacional reclamam que o melhor prêmio é o regional José Sette. O ganhador desse ano foi: Veredas Santeiro, documentário, 19min. direção:Leandro domith. Saudações alvinegras,Leo Ribeiro - Cineasta de Animação
Prêmio José Sette - Melhor Vídeo Regional
Festival Primeiro Plano, Juiz de Fora - MG.
Algumas palavras sobre José Sette:
Juiz de Fora continuava a mesma: os ônibus subindo e descendo a Rio Branco,
os estudantes levantando e descendo copos de cerveja nos bares de São Mateus,
o Paraibuna passando suas águas barrentas sob as pontes que o sombrejam
na Avenida Brasil, quando, de repente, se escutou pelas ruas da cidade uma
voz grave e misteriosa: “- Ação! Corta! Genial!”
Era a voz do cineasta José Sette, diretor de filmes como Bandalheira Infernal,
Um Filme 100% Brasileiro, Um Sorriso Por Favor- O Mundo Gráfico de Goeldi,
Amaxon, que, no final dos anos 90, trouxe pra estas terras uma câmera 35mm
não blimpada, uma câmera Super 16mm com lentes e filtros desgastados e um
turbilhão de ideias que saiam daquela cabeça inquieta de poucos cabelos. Pronto,
era o que faltava para que a cachaça do cinema se instaurasse por aqui!
Na época, éramos todos universitários. Alguns de nós já estavam habituados
com o vídeo, mas a magia que existia em um set cinematográfico era algo novo
para todos. Ficamos definitivamente seduzidos por outro ciclo, outro ritmo... Os
24 quadros por segundo da câmera cinematográfica passaram a conviver com
as cadências das nossas vidas e da própria cidade. As centelhas cinematográficas
que saltavam de José Sette - um genuíno “animal cinematográfico” - foram
cruciais para que várias pessoas de Juiz de Fora optassem pela sétima arte. De
uma forma generosa, anárquica e poética, ele nos brindou a verdadeira possibilidade
de se fazer cinema.
Juiz de fora não foi suficiente para José Sette. Seu tempo na cidade há muito se
findou. Porém, acima das obras produzidas aqui, como O Rei do Samba, A Janela
do Caos e Ver Tigem, deixou amigos, influências e saudades. Como forma
de agradecer pelos anos de convivência e por suas inconfundíveis gargalhadas,
criamos esta modesta homenagem: o Prêmio José Sette de Melhor Vídeo Regional.
Nossa intenção é compartilhar com a nova geração de realizadores da
Zona da Mata Mineira a inspiração, liberdade e alegria que nosso amigo nos
trouxe. Com ele, aprendemos que fazer cinema tem que ser um ato mágico e visceral.
Se você ganhou este certificado e esta garrafa, cuidado! Pois, segundo as
palavras do velho Sette: “O cinema é uma cachaça! Só tem porta de entrada,
não tem porta de saída..”
.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Eu e os Universitários

Ontem fui exibir o meu filme sobre o poeta Augusto dos Anjos para alunos e professores da Universidade Estácio aqui da cidade de Cabo Frio.
Uma noite agradável com a platéia atenta ao desenrolar da projeção do documentário poetico “Eu e os Anjos”. No final da sessão, na conversa que tivemos, descobri com profunda alegria que a narração experimental e de invenção deste filme, diferente esteticamente para eles de tudo aquilo que estavam acostumados a assistir, provocou em muitos o estalo, a epifania, o sentimento de que estavam de frente para uma arte 100% brasileira.
Tenho certeza que depois de assistirem de camarote o universo poético de Augusto, maravilhosamente interpretado pelo ator mineiro Kimura Schetino e se deliciarem com os comentários de Ferreira Gulart, Alexei Bueno, Ledo Ivo e Ivan Junqueira, aqueles jovens sedentos da verdadeira cultura nacional tinham mais um bom motivo para pensarem na existência de outro universo do saber poético histórico brasileiro, riquíssimo e ainda muito pouco explorado.
Finda a conversa acalorada sobre o Brasil de hoje e influências e semelhanças filosóficas de outros autores na obra do poeta, nos levantamos e saímos felizes por podermos contemplar, depois do estalar dos ossos, da degenerescência do carbono e do amoníaco, da matéria imbele, com mais liberdade as dicotomias melancólicas da nossa insignificante existência.
Depois fomos comemorar, como sempre fazemos, em um bar-restaurante da cidade.
Isto tudo graças ao professor Paulo Cotias que com gentileza diplomática está abrindo as portas da inteligência universitária cabo-friense ao meu cinema. Obrigado amigo!
Não obstante ao sucesso do acontecido senti a falta dos meus amigos do batepapocafé e dos amantes da sétima arte e da poesia que habitam essas terras caiçaras. Mas não se desesperem, ano que vem tem mais.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Crítica musical no Jornal do Brasil


Ava Banda lança'Diurno'

Lucyanne Mano

Quem ainda não ouviu, nem assistiu a Ava Banda, pode ter uma certeza: trata-se de uma aposta bastante diferente do que vem acontecendo no meio musical nos últimos tempos.
Nana Carneiro da Cunha toca violoncelo e traz uma sonoridade não muito usual em bandas musicais.
Daniel Castanheira é percussionista e enriquece sua performance com uma excêntrica diversidade de sons.
Emiliano 7 toca violão e, além da linguagem brasileira, busca novas sonoridades em suas cordas.
De Ava Rocha, que dá nome à banda, vem a voz grave e a interpretação que compõe música e imagem.
O encontro desses talentos individuais aconteceu em 2008, com a proposta de fazer música de maneira livre e inspirada em outras zonas que não são só a musical, percorrendo o cinema, o teatro, as artes plásticas, a literatura, num exercício experimental continuado, híbrido.
O resultado pode ser conferido em Diurno, primeiro CD que acaba de ser lançado pela Warner. São quatorze faixas, entre composições autorais e de outros artistas, que confirmam a originalidade desta ousadia.
Em tempos de internet, Ava é, sem dúvida, música para curtir.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Cineasta Colaborador

AS MULHERES NÃO MORREM
Fábio Carvalho

Tudo era muito forte, feito sob o signo da paixão.
Eu me deixava levar pela procura da beleza, com que Lúcio sonhara.
Monstros, sim, feitos com paixão e beleza.
Paulo César Saraceni

Depois que me mandei com a música, fui me deparar com O GERENTE projetado no centro do belo prédio do Arquivo Público Nacional, ao ar livre, cercado por altíssimas Palmeiras Imperiais, observado de cima por uma magnífica lua desconhecida, completamente cheia e amarela. A LUA VEM DA ÁSIA. Como todos sabem era sexta feira onze do onze do onze. Não sei se por sugestão, senti uns sinais estranhos. Continuo me sentindo estranho até hoje. Só encruzilhadas se abrem para mim, nunca sei em qual janela me enquadrar e adentrar. Sem dúvidas escolho e decido em qual delas, me aprofundar. Erro sempre decidido. Ontem era segunda feira. Depois de um hiato de uns sete meses, voltei ao Palácio das Artes para ver pela primeira vez SAGRADA FAMÍLIA e rever a figura genial do SYLVIO LANNA. Rhythm Blues. Que viagem, hem meu. Sofisticadíssimo. Eu já sabia e vivia, mas era criança e entendia tudo, mesmo sem saber este foi o problema que estava sendo criado. Recorrentes as motivações problemáticas e as atrações do choque. Tudo naturalmente natural. Guaraná aos Guaranys. A partir daquele momento a chuva de prata pegou para valer. Naquela outra noite sobramos eu, o OTÁVIO III e uma meia garrafa de um seleto Finca La Linda na Praça da BETH e de SÃO SALVADOR. Era Flamengo ou Largo do Machado? Bebemos um pouco no bico. Guiné Bissau, Moçambique e Angola. Numa relax, numa tranqüila, numa boa. Com uma olho de peixe nos meus olhos em movimento panorâmico, o desenho ficou completamente circular e as bordas ligeiramente deformadas. Anotou o professor PAULO AUGUSTO GOMES. A deformação necessária. Uma doença, velho. Nesta segunda no P. A. também revi, através do som, meu outro professor o doutor JOSÉ SETTE. Que privilégio. Sei que era para poucos. Não tive mais como fugir do sintagma que há algum tempo vinha me perseguindo. Depois de anos luz em pé, a população ali naquela praça mais que dobrou. Já passava da primeira hora do dia doze, quando a maravilha morena que figurava deitada no coreto pensou em ir embora. Resolvemos sentar um pouco e a garrafa continuou em pé no primeiro degrau abaixo de nós e acima do chão. Tão bonita. Falávamos do futuro do O MONGE DEVASSO. Claro estava. Tanto que vi de longe uma mulher negra de ombros nus carregada de sacolas de plástico se aproximar, e num gesto inesperado certeiro, pegar a garrafa, dar um grande gole e continuar sua marcha sem rumo em linha reta. Os vizinhos do banco lateral gritaram com ela, o OTÁVIO também. Ela parou se virou de frente para nós, estufou os peitos, sacudiu as cadeiras e deu outro grande gole e na seqüência outro, terminando com o líquido roxo da garrafa. Enfiou o vidro verde escuro vazio em uma das sacolas se virou e foi embora. Como poderemos descrever uma experiência mística e lisérgica?

domingo, 27 de novembro de 2011

Cineasta das Multidões

Oscar Maron e sua filha Teresa
Acordei hoje com a triste notícia da morte de um grande amigo cineasta, jornalista, escritor, editor, professor e mestre do Iching, meleagro carioca, amante do futebol, flamenguista apaixonado, “meu querido”, Oscar Maron, um amigo que vai nos deixar com muita saudade e muitas lembranças de bons momentos vividos.
Um artista singular, alegre e gozador como poucos, espirituoso e bom observador, tinha a alma popular e comunicativa, embora de política, de falsidades ideológicas, nada sabia, pois a ele só interessava o que estava dentro do homem ainda guardado e não o que ele representava e interessava em ser.
Um homem sincero desprovido de vaidades terrenas. Conhecedor profundo dos cultos afro-brasileiros, de Confúcio e dos mistérios orientais. Babalorixá no candomblé, xangô respeitado por muitos na umbanda, era um chefe espiritual da minha descrença quando nos encontrávamos, mostrava-se protetor de quem estava perto.
Quando o conheci era um jovem bonito que estava casado com a atriz Maria Gladys e que lhe deu uma filha, Maria Teresa, hoje também atriz.
Fiz com ele, como fotógrafo, dois filmes: um sobre o cineasta Carlos Manga e a Atlântida e outro sobre o escritor Mario Filho, filme que o levou ao Festival de Cinema na Índia, na cidade de Goa, terra oriental que fala a nossa língua e que havia lhe convidado para exibir o seu filme sobre um dos maiores cronistas esportivos do futebol brasileiro, proporcionando-lhe, no final de sua vida, viajar a um país onde se concentra a gênese religiosa do nosso planeta, um lugar estudado e de estudos ocultos, cultuado e místico, que ele sempre quis conhecer e estudar.
Sim, foi ali escolhido pelos seus deuses o lugar feliz aonde ele deixaria o seu corpo sofrido, agora inerte, sem dor, para navegar em espírito de luz, pelo saber daquilo que ele acreditava com uma fé inquebrantável, a imortalidade da sua alma.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Revisitando o cinema

Cena do Filme Sagrada Família exibido essa semana em Belo Horizonte MG Sylvio Lanna,

o seu filme Sagrada Família, é um dos mais experimentais filmes brasileiro, onde se une o clássico barroco- mineiro das imagens com a arte abstrata e quase concreta do som do caos.

Resultando em um filme de linguagem poética criado nos detalhes tortuosos dos movimentos de câmera e trabalhado na estética oriental dos planos lentos e
soturnos classicamente editado através
da belíssima fotografia em preto e branco do Thiago Veloso.
Maravilha!!!De Lanna!

Inesquecíveis momentos passamos juntos neste filme de juventude rural e surreal




NOTÍCIA DE PERDA

INFELIZMENTE O MEU COMPUTADOR PESSOAL DEU PANE, QUEBROU NOVAMENTE, POR ESSE MOTIVO ESTAREI TRABALHANDO NESTE BLOG EM CONDIÇÕES PRECÁRIA.
TENTAREI ARRUMAR O MESMO O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL...
SÃO OS MALES DA TECNOLOGIA, QUANTO MENOS VOCÊ ESPERA ACONTECE...

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Notícias de São Paulo

Acontece em São Paulo, nesta quarta-feira, o lançamento da segunda edição do "Dicionário de Filmes Brasileiros Curta e Média-Metragem", de Antônio Leão da Silva Neto.

Revista, corrigida e ampliada, a nova edição contempla 22 mil filmes, 1.270 páginas, em todos os formatos, inclusive digital.

A apresentação do livro é de Raquel Hallak, o prefácio de Francisco Cesar Filho e a orelha da capa de Alfredo Sternheim.

O lançamento está prevista para às 20h00, na Escola da Cidade, Rua General Jardim 65, Centro (atrás da Praça da República, quase em frente a sede da Aliança Francesa).

Mais informações podem ser acessadas em

http://www.revistain.com.br/noticia_online/cultura/2724_dicionario_de_filmes_brasileiros__curta_e_media_metragem.html.

História da Cachaça

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer até que uma consistência cremosa surgisse.

Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou.

O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor.

No dia seguinte, encontraram o melado azedo fermentado. Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo.

Resultado: o 'azedo' do melado antigo era álcool que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente. Era a cachaça já formada que pingava. Daí o nome 'PINGA'.

Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de 'ÁGUA-ARDENTE'.

Caindo em seus rostos escorrendo até a boca, os escravos perceberam que, com a tal goteira, ficavam alegres e com vontade de dançar. E sempre que queriam ficar alegres repetiam o processo.

(História contada no Museu do Homem do Nordeste).

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

A ESTÓRIA E EU João Rudge

Sempre gostei de estórias, logo sou suspeito.

Mas lá estava eu hoje, lendo, enquanto minha avó dormia ao lado e a televisão passava um jogo de futebol, quando mais uma vez uma estória me abraçou. Terminei o livro assim, no meio de tudo, mas ao mesmo tempo, completamente alheio de tudo que me cercava. Entre um capítulo e outro, parava para olhar minha vó e dar uma espiada no jogo, mas logo queria voltar para o que o livro me contava, sobre o que ele contava sobre mim.

Perto do fim, chorei. Não chorei prantos, não fiz barulho. Chorei quieto e sozinho, um choro que não me causou vergonha, nem orgulho. Foi um choro calado, daqueles que o olho mareja, e transborda uma, ou quem sabe no máximo duas linhas salgadas pela face. Mas que peso que esse sentimento tem. Porque por dentro, mexe com algo inalcançável até momentos antes. Me faz parar e sentir. Sentir algo tão novo, que ainda não tem nome e nem explicação. E é engraçado, porque nesse momento solitário, eu me sinto mais humano e, consequentemente, mais próximo de todo o mundo.

Pois só mesmo assim, consigo entender como um homem, no Uruguai dos anos 50 escreveu algo tão próximo de mim, que me fez relacionar tão diretamente com as angústias, felicidades, sensações que ali ele escreveu. Eu tive uma relação muito mais próxima com ele, do que com muitos que cruzam meu caminho. Me deu vontade de poder falar pra ele "eu te entendo" ou quem sabe, até mais honesto, "obrigado por me entender".

É me identificando, ou quem sabe me projetando (não importa) nas estórias, que eu vejo unidade no ser humano, que eu me aproximo dos outros. Acho que foi esse sentimento que me fez acreditar que queria ser diretor de cinema, ou escrever um livro, ou achar qualquer forma de poder viver contando estórias. Hoje já não acho mais tão importante ser eu quem as escreva, basta-me poder ler-las, ver-las, ouvir-las. Saber que alguém derramou sobre papel, película ou qualquer coisa que o valha, algo verdadeiramente honesto. Porque dentro de toda ficção, existe uma verdade muito poderosa. Existe a verdade sobre quem ali se derramou.

Um dos grandes motivos de não ter seguido esse caminho - o de contar estórias - é exatamente este, a vergonha que sinto ao escrever. É tão difícil escrever honestamente, sem se talhar, sem se adaptar. Eu enxergo olhos lendo esse texto neste exato momento que eu o escrevo, e já me envergonho. E uma estória só é realmente boa se tiver esta honestidade.

Então, escrevo isso como homenagem a estória que acabou hoje. Escrevo para ao menos também ser honesto com quem me foi verdadeiro. Escrevo, como que a balançar meu braço me despedindo de um breve amigo que vai embora. Escrevo, tentando gritar para a estória que já se afasta: “eu te entendo, e obrigado por me entender”. Entende?



Comentário quase crítico

josé sette

Adorei a sua estória, mas eu prefiro o termo história, acho mais abrangente.

Você escreve e desenha muito bem, só não se exercita e ainda não se dedica ao especial universo do traço, mas o tempo não tem limite.

Nesta crônica você consegue passar pelo frio texto emoção na descrição da cena literária. O segundo parágrafo é o exemplo disso. A descoberta do autor “uruguaio” é outro grande momento.

Neste singelo texto você se supera na autocrítica paradoxal do não querer ser sendo um exímio relator de um momento único e pessoal.

A leitura descobrindo o novo e o novo descobrindo a literatura como forma de expressão. Existe coisa melhor?

Vai em frente nos seus relatos, crônicas, contos e um dia finalmente, quem sabe, essa luz interior ilumine essa conexão entre o ser, o sentir e o transmitir emoções que nesta história do seu Eu é de maneira única tão bela.

Notícia de São Paulo

Lançamento do livro

sábado, 19 de novembro de 2011

Notícias de Belo Horizonte

ASSISTA AO FILME e S(saiba mais)Sagrada Família

CONTRA CAMPO II

Três elementos constituem, na história, as condições essenciais de todo desenvolvimento humano: o primeiro é a animalidade humana, que representa a economia social e privada. O segundo é o pensamento, que formaliza a ciência e a arte. O terceiro é a revolta, que dignifica a liberdade.

O verdadeiro artista já tem o pensamento fora deste mundo, mas nele vive, nele se alimenta, cresce e morre.

Como um cometa que se aproxima do sol, ele deixa um rastro em sua passagem, às vezes pequeno, outras vezes grande, mas todos são luminosos, pois são sinaleiros que indicam direções, evoluções, escrita para os poetas, delírio de poucos.

No turbilhão da vida os grandes artistas também se afastam e às vezes desaparecem no caos.

Saio de casa e vou até o bar da esquina. Subo e desço as escadas. Atravesso corredores e labirintos. Vejo ali o brasileiro na sua essência, dionisíaco, sambando solitário na sua alegria de estar vivo.

É preciso desenterrar e caminhar sobre o que está oculto no buraco negro das crises sociais.

A fome indigesta do capital está na busca febril do seu alimento, origem de todos os males, da ganância e da soberba.

Mexo com arte – to pobre; mexo com lixo – to rico; dou aula – to pobre; vendo petróleo – to rico; sou povo – to pobre; sou elite – to rico.

Rico e pobre. Assim caminha a humanidade.

Se o homem se abstivesse de roubar, no sentido geral da palavra, o resto todo é admissível na liberdade do existir. Mas como isso é possível? Se cortar a mão do ladrão ele rouba com os pés. Se cortar os pés ele rouba com os olhos. Se o cegar ele rouba com a boca. Se costurar a boca ele rouba a com a alma e com o coração.

O mundo seria bem melhor se acabasse com a estupidez capitalista de diferenciar os homens pelo seu poder financeiro ou seu status social O século vinte foi e será um século de adivinhadores Um século oculto. Um século de prosa Poético cósmico sorrateiro infiel Um século dada Um século isto Ismo e aquilo

Um século capital
Nem liberal Nem libertário
Ditatorial No geral formal
Um século de medo e de infâmia
Um século literário e Cinematográfico Maldito e desafiador

Um século às vezes revolucionário
Principalmente na arte do saber
Um século experimental
Explode o indivíduo
Despedaça o homem
Retorna-se a gênese
Começa-se de novo
Descobre-se a verdade
Desnuda-se o amanhã
Um século de palavras
Um século de milhões
Um século cristão
Seremos lembrados
Queira você ou não

Vou roubar essa cena! Vou me encharcar no delírio digital de uma nova tecnologia. Vou compor um poema. Vou me perder no universo incomensurável dos vídeos do Youtube. Vou morar em roliude!

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Reflexões

Lendo alguns dados da ONU sobre o desenvolvimento humano e fiquei espantado com os números ali expostos onde o Brasil sempre permanece com os piores índices.
Na Noruega, o país mais bem situado nesta tabela comparativa, a esperança de vida chega aos 81 anos; nos EUA 78; em Cuba 79; na Argentina 75 e no Brasil 73 anos.
Anos de escolaridade: na Noruega 12,6; nos EUA 12,4; em Cuba 9,9; na Argentina 9,3; no Brasil 7,2.
Índice de mortalidade infantil (crianças com menos de ano de idade mortas entre mil): na Noruega 2,8; em Cuba 4,6; nos EUA 6,5; na Argentina 12,3; no Brasil 17,3.
No Indicador de Desenvolvimento Humano (IDH) a situação piora. Existem 187 países listados, mas só 47 países estão com o seu desenvolvimento humano muito elevado e o mais alto índice continua com a Noruega 0,943; os EUA 0,931; neste grupo da América do Sul só entra o Chile em 44º lugar com índice 0,805 e termina com a Argentina com o índice de 0,797. Depois vem o Uruguai no 48º lugar; Cuba no 51º ; a Venezuela no 73º ; o Brasil no 84º.
Como podemos ver pelos números que o Brasil está ainda muito mal em suas políticas sociais.

Grécia, Itália e os sagazes sarcasmos de Marx sobre os “governos técnicos”.
Marcello Musto

Se retornasse ao debate jornalístico no mundo de hoje, analisando o caráter cíclico e estrutural das crises capitalistas, Marx poderia ser lido com particular interesse hoje na Grécia e na Itália por um motivo especial: a reaparição do “governo técnico”. Na qualidade de articulista do New York Daily Tribune, um dos diários de maior circulação de seu tempo, Marx observou os acontecimentos político-institucionais que levaram ao nascimento de um dos primeiros “governos técnicos” da história, em 1852, na Inglaterra: o gabinete Aberdeen (dezembro de 1852/janeiro de 1855).
A análise de Marx é notável por sua sagacidade e sarcasmo. Enquanto o Times celebrava o acontecimento como um sinal de ingresso “no milênio político, em uma época na qual o espírito de partido está destinado a desaparecer e no qual somente o gênio, a experiência, o trabalho e o patriotismo darão direito a acesso aos cargos públicos”, e pedia para esse governo o apoio dos “homens de todas as tendências”, porque “seus princípios exigem o consenso e o apoio universais”; enquanto os editorialistas do jornal diziam isso, Marx ridicularizava a situação inglesa no artigo “Um governo decrépito. Perspectivas do gabinete de coalizão”, publicado em janeiro de 1853.
O que o Times considerava tão moderno e bem articulado, era apresentado por Marx como uma farsa. Quando a imprensa de Londres anunciou “um ministério composto por homens novos”, Marx declarou que “o mundo ficará um tanto estupefato ao saber que a nova era da história está a ponto de ser inaugurada por cansados e decrépitos octogenários (…), burocratas que participaram de praticamente todos os governos desde o final do século passado, frequentadores assíduos de gabinetes duplamente mortos, por idade e por usura, e só mantidos vivos por artifício”.
Para além do juízo pessoal estava em questão, é claro, o de natureza política. Marx se pergunta: “quando nos promete a desaparição total das lutas entre os partidos, inclusive o desaparecimento dos próprios partidos, o que o Times quer dizer?” A interrogação é, infelizmente, de estrita atualidade no mundo de hoje, no qual o domínio do capital sobre o trabalho voltou a tornar-se tão selvagem como era em meados do século XIX.
A separação entre o “econômico” e o “político”, que diferencia o capitalismo de modos de produção que o precederam, chegou hoje ao seu ápice. A economia não só domina a política, fixando agendas e decisões, como retirou competências e atribuições que eram próprias desta, privando-a do controle democrático a tal ponto que uma mudança de governo já não altera as diretrizes da política econômica e social.
Nos últimos 30 anos, inexoravelmente, o poder de decisão foi sendo transferido da esfera política para a econômica, transformando possíveis decisões políticas em incontestáveis imperativos econômicos que, sob a máscara ideológica do “apolítico”, dissimulam, ao contrário, uma orientação claramente política e de conteúdo absolutamente reacionário. O deslocamento de uma parte da esfera política para a economia, como âmbito separável e inalterável, a passagem do poder dos parlamentos (já suficientemente esvaziados de valor representativo pelos sistemas eleitorais e majoritários e pela revisão autoritária da relação entre Poder Executivo e Poder Legislativo) para os mercados e suas instituições e oligarquias constitui, em nossa época, o maior e mais grave obstáculo interposto no caminho da democracia. As avaliações de Standard & Poor’s, os sinais vindos de Wall Street – esses enormes fetiches da sociedade contemporânea – valem muito mais do que a vontade popular.
No melhor dos casos, o poder político pode intervir na economia (as classes dominantes precisam disso, inclusive, para mitigar as destruições geradas pela anarquia do capitalismo e a violência de suas crises), mas sem que seja possível discutir as regras dessa intervenção e muito menos as opções de fundo.
Exemplos deslumbrantes disso são os acontecimentos dos últimos dias na Grécia e na Itália. Por trás da impostura da noção de um “governo técnico” – ou, como se dizia nos tempos de Marx, do “governo de todos os talentos” – esconde-se a suspensão da política (referendo e eleições estão excluídos), que deve ceder em tudo para a economia.
No artigo “Operações de governo” (abril de 1853), Marx afirmou que “o mínimo que se pode dizer do governo de coalizão (“técnico”) é que ele representa a impotência do poder (político) em um momento de transição”. Os governos já não discutem as diretrizes econômicas, mas, ao contrário, as diretrizes econômicas é que são as parteiras dos governos.
No caso da Itália, a lista de seus pontos programáticos ficou clara em uma carta (que deveria ter sido secreta) dirigida pelo Banco Central europeu ao governo Berlusconi. Para “recuperar a confiança” dos mercados, é preciso avançar pela via das “reformas estruturais” – expressão que se tornou sinônimo de dano social – ou seja, redução de salários, revisão de direitos trabalhistas em matéria de contratações e demissões, aumento da idade de aposentadoria e privatizações em grande escala.
Os novos “governos técnicos” encabeçados por homens crescidos sob o teto de algumas das principais instituições responsáveis pela crise (veja-se os currículos de Papademos e de Monti) seguirão esse caminho. Nem é preciso dizer, pelo “bem do país” e pelo “futuro das gerações vindouras”, é claro. Para o paredão com qualquer voz dissonante desse coro.
Mas se a esquerda não quer desaparecer tem que voltar a saber interpretar as verdadeiras causas da crise em curso e ter a coragem de propor e experimentar as respostas radicais exigidas para a sua superação.
Marcello Musto é professor de Ciência Política
na Universidade York, de Toronto.