ABAIXO TEXTOS - CRÍTICAS - ENSAIOS - CONTOS - ROTEIROS CURTOS - REFLEXÕES - FOTOS - DESENHOS - PINTURAS - NOTÍCIAS

Translate

quarta-feira, 30 de março de 2011

MEU PRIMEIRO LIVRO



Estou tentando editar o meu primeiro livro. Alguém sugere alguma editora? Vocês estariam interessados em ler esses meus contos cinematográficos e íntimos?

PREFÁCIO DO LIVRO “QUARTETO DA SEPARAÇÃO”


As histórias contadas neste livro, embora diferenciadas nas suas tramas, envolvem, nos diferentes textos, os mesmos personagens, o mesmo espírito, a mesma linguagem, o mesmo ritmo encontrado em toda a construção dos seus enredos, formando entre eles uma rede de fatos, intrigas, que se entrelaçam em busca de uma só razão. Essas teias sinistras, patéticas, em que as histórias se movem, nasceram das observações dos fatos, situações, invenções, alucinações, sentidas e vividas, lidas e ouvidas, durante toda uma vida dedicada ao cinema. Este quarteto literário, acompanhado de um filme em DVD, que é cheio de suspense e de surpresas literárias, no que é trágico em alguns momentos e muitas vezes cômico em outros, mescla a linguagem do cinema - imagem e som em movimento - com a arte da construção de um texto livre a partir da admiração do autor pelo escritor Aluisio de Azevedo e pela sua visão única, muitas vezes surreal (anos antes do surrealismo), em compor a sua obra literária. Não importa o estilo, o bom texto tem que ser ágil e inovador, em qualquer tempo, em qualquer lugar, mas para criá-lo se precisam de arte e talento, ferramentas que o escritor maranhense possuía e dominava quando descrevia, com profundo rigor, os vícios e as virtudes do homem do seu tempo. A cinematografia dos sonhos e dos pesadelos, vivida pelos principais personagens desta trama amorosa, passa pelas mesmas reflexões filosóficas desse grande escritor, do qual foram usados alguns textos imprescindíveis do seu conto intitulado Demônios. Este livro, escrito por um autor de cinema, não é um roteiro, mas também não é um romance, mas pode ser um filme a ser imaginado enquanto se lê, onde o leitor pode dirigir as cenas, posicionar a câmara e escolher as lentes usadas para captar a grande salada oculta do amor e da separação e depois editar, misturar as quatro histórias. Enfim, ele pode fazer descobertas, ter visões, revisões, improvisações, aproximar os demônios dos seus algozes, os anjos e mexer com os signos que se encontram no universo comum do pensamento, oscilando entre a traição e a opressão, a posse e a tirania, os interesses e a dor, a perda e os sentidos de afirmação-afinação dos instintos. Peças do nascimento da moral religiosa, do conformismo e do fanatismo. Frutos da intolerância e da loucura na consciência dos homens que experimentam situações limite de conflitos existenciais. Um texto rude escrito sobre situações reais que muito se assemelham à ficção. Um mergulho no universo particular do artista que cada homem tem dentro de si.

Perguntas & Afirmativas



1. Todo dia eu me pergunto: O acidente nuclear do Japão é muito mais grave do que é dito pela mídia? O que pode acontecer se não se interromper o processo atômico das usinas afetadas? E se não houver solução física para conter o acontecido? Será preciso que a população japonesa abandone todas as ilhas? Uma pequena usina atômica sem controle pode espalhar radiação por todo o planeta? Será isso o princípio do fim? O mundo morrerá de um grande câncer?


2. Enquanto isso eu leio nos jornais que as forças do Império atacam Trípoli, provocando com esta violenta ação envolta no manto humanitário da democracia, justificando o que poderá ser a mais sangrenta batalha entre os irmãos árabes e incitando mais ainda uma guerra civil cruel e desnecessária, desorganizando todo o país que demorou anos para solidificar como nação independente que através da suas enormes reservas de petróleo forjou uma economia forte e socializante. Não acredito que o jovem e revolucionário coronel Kadafi tenha enlouquecido com o grande acúmulo do capital para o sustento de uma família burguesa e ocidental, mas, mesmo assim, toda essa loucura só poderá provocar mais ódio e mais morticínio para um povo já sofrido e explorado há séculos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Novas e Antigas Leituras


Estou lendo esses dois livros que recebi de presente de dois amigos, e aconselho ao bom leitor que os encontrem e os leiam também.


Deslimite de Julio Bressane, que pelo passar dos olhos, notei ser uma quase memória do poeta das imagens descrevendo, desvendando, desconstruindo, o limite dos seus mais profundos sentimentos passados, talvez, por alguns dos seus mais emocionantes momentos. (Editora Imago)


O Que é Arte de Tolstoi. Um livro de reflexão do grande escritor russo que demorou 15 anos para ele enxergar algumas da suas mais preciosas conclusões e tentar concluir, terminar, desvendar o que não tem fim. (Editora Ediouro)

sábado, 26 de março de 2011


VERGONHA

Eis aqui uma história que está hoje acontecendo em uma escola estadual de música numa grande cidade do interior do Brasil.
Escola criada e financiada pelo governo, onde o narrador da história, para freqüentar o curso de música ali ministrado, teve até de fazer o vestibular, por sinal muito disputado.
Ele pensava ter entrado em um lugar onde poderia e deveria aprender, em quatro anos, as teorias e as práticas musicais, para depois finalmente se diplomar e se oficializar como músico.
O narrador da história é nascido e mora nesta cidade do interior. É músico autodidata e compositor de belíssimas trilhas e já teve até um disco produzido e editado em CD. Ele só entrou na escola, para se aperfeiçoar e conseguir um diploma que oficializasse a sua profissão e o possibilitasse alçar novos vôos.
Veja que paradoxo ele vive nesta situação vergonhosa por que passa o ensino de música na sua cidade e sinta a vergonha que ele sentiu de ter de viver em um país, em um estado, em uma cidade basicamente universitária, onde a burrice, a incompetência dos gestores públicos, no trato do que está relacionado à cultura e arte, é de dar pena.
Se eles não se preocupam no bom funcionamento das universidades, como podem entender o estudo em uma escola de música.
Tudo fica insuportável quando imaginamos que estamos obrigando um artista a ter, em nome da sua sobrevivência, de suportar tamanha ignomínia...
É mais um caso nesta inútil peregrinação educacional pelas artes nas escolas brasileiras

Vamos ao Narrador:

...ontem tive a primeira "aula de violão"!!!
A turma é composta por mim, e outros dois alunos que nunca haviam segurado um violão e uma professora recém formada no próprio conservatório.
Fiquei meio surpreso quando ela nos mostrou o livro de violão adotado por eles... "é uma revistinha de banca de jornal com músicas da Xuxa"....apenas com cifras ...
Eu achei que essa revistinha serviria apenas para início do curso, mas não, até o sexto período são por elas que as aulas se seguem...
A professora nos ensinou como se segura o instrumento , como se monta os dois únicos acordes da música da Xuxa, e começou em seguida ela própria a tocar com uma "levada" "xácundúm" com o violão completamente desafinado e cantando em um Tom diferente do que ela estava tocando.
Tudo foi muito estranho, pois ela não deu a menor diretriz para os outros dois alunos que não tinham noção alguma de como funciona o violão..., seguia simplesmente tocando seu violão desafinado, esperando que algum milagre fizesse com que os dois alunos conseguissem acompanhá-la.
A situação foi me deixando tão chocado com a falta total de didática, boa vontade e competência que comecei a dar instruções básicas para amenizar o constrangimento que os alunos estavam sentindo com aquela situação...
A professora ao ver que alguém estava "trabalhando" por ela se sentiu a vontade para sacar o celular da bolsa e começar a tratar com seu namorado sobre o que iriam fazer à noite etc...
Por um momento segurei o choro e a raiva de estar ali naquele lugar..., me deu vontade até de gravar ou filmar de forma clandestina o que ali ocorria, pois eu mesmo se não estivesse presente não teria a real dimensão do absurdo.
Comecei a imaginar qual seria o sentido daquilo..., me senti no SUS, no "SOS".
Será que a finalidade desse conservatório é simplesmente "profissionalizar" pessoas? Aumentar alguma estatística em pesquisas sociológicas etc.?
Eu saí e lá tremendo de ódio e revoltado tentando entender o que é aquilo lá... Onde eles acham que vão chegar "trabalhando" daquela forma... É coisa pra "pra inglês ver", não pra ouvir ...
Hoje, agora ao escrever já com a raiva e a tristeza sob controle já consigo um certo distanciamento do fato ocorrido ontem...e retorno aqui na minha tentativa solitária de aprender mais alguma coisa sobre música.
Estou aqui conseguindo fazer alguns exercícios de métodos tradicionais como o do Francisco Tarrega, um espanhol considerado o Pai do violão erudito, cujo nome a nossa professora desconhece por completo.
Tenho aqui também o método Richard Bona de leitura que vem com CD de acompanhamento que possibilita avançar um pouco na leitura e assim vou tentando me alfabetizar mais um pouco. Mas não me desanimei com música não... ela é sagrada!!! ...tanto como ciência, como forma artística de expressão, ambas desconhecidas pela instituição acima citada.
Vou continuar tentando aqui por meios próprios progredir para tentar o mais rápido possível, fazer prova para níveis mais avançados do conservatório a fim de pegar um "diploma profissional”..., que é única coisa a ser oferecida por eles..., porque aprender a linguagem musical é técnica do instrumento, ta difícil...

O comentário de outro músico:

É muito triste ouvir esse seu relato. Acho que não é de hoje que você deve tirar o pé que todos nós temos fincados na nossa terra. O músico de hoje, mais do que nunca, deve ganhar o mundo. Esse realmente deu uma encolhida. A crise é grande, você sabe muito bem. Um projeto musical não se sustenta mais limitado a um lugar. Deve ter uma base, mas deve também alcançar vôos mais altos. E você meu caro brother tem asas, só tens medo de usá-las. Eu sei que a situação não tá fácil e que é fácil dar conselhos e consertar a vida dos outros, mas bicho pense nisso. Objetive isso.A música, e todo e qualquer aprendizado, tem sua principal etapa no autodidatismo. Só aprendemos quando sozinhos lemos, fazemos exercícios e pensamos. Hoje em dia tudo pode ser conseguido na internet. Rola até curso de música pela internet. Coisa séria. Papo de Berklee e o caralho. Fora todos os materiais didáticos e partituras que dá pra conseguir no soulseek emulem, e outros... Vídeos-aulas piratas que da pra baixar via torrent. Milhares de vídeos aula no youtube...Sugue o que der para sugar desse conservatório. Quanto a essa aula não vá mais, é claro. Só se for para tomar o lugar da professora e receber o salário dela. Os alunos agradeceriam.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Poesia


Natureza Torta

“The mystical city of gold
Glittered with wealth untold
In midst of lake of sapphire blue”


O Império do Ouro

1978 , outubro, 10.30 de uma manhã cinzenta e quente
12 homens armados vestidos de autoridade
Invadiram a terra e expulsaram a vida
Daquele mundo perdido de Deus.

Vila de Getúlio Vargas. Município de Curuça.
100 quilômetros de Belém do Pará.
180 colonos expulsos com suas famílias
das terras conquistadas com suor de seus braços.

Casas destruídas , plantações queimadas
Num cenário simples de fome e humilhação.
Vida difícil
Gente humilde
Calos nas mãos
Nos pés
No rosto
No corpo
Na alma.
Posseiros
Enteados da terra
Inimigos frágeis do poder.
Paraíso da miséria
Amazônia
Natureza morta
Torta
Verde sem cor
Terra
Bebem no teu seio o sangue de teus filhos.
Terra
Túmulos dos que não te renegam.
Há quem pinte sua faceta com rímel
Há quem te vista de seda e nylon
Os que te vestem de chita
Os que te pintam de urucu
Estes estão à margem da vida
Afogados nos rios
Mortos de tocaia
Envenenados
Nunca flechado
Por índios bárbaros e selvagens
Companheiros de infortúnios
Atacados por naturalista estrangeiro
Compõem o cenário deste continente
Amazônia
Terra em estado de sítio
Verde sem cor
Causa perdida.
Infortúnio!
Reza o pobre homem e canta a santa
A espera do milagre de Santa Tereza.

Cantoria...

Morre na pobre cela de um convento
-toda de branco- uma donzela pobre
Os sinos enchem de aborrecimento,
As solitárias monjas com seus dobrões.

Naqueles corações canta a tristeza
Um hino feito de emoções suaves,
E a alma branca de Santa Tereza,
Voa para o céu levada pelas aves.

Tinha no corpo a candidez de um lírio
E a carne macerada de martírio,
Nunca pecou, nem sonhou o que é pecado

Qual avarenta pomba que morria
O cadáver pálido parecia
Uma noiva enfeitada para o seu noivado.

(Simão do Ataúde........ 1906)

quarta-feira, 23 de março de 2011

Botinas Mineiras do Holandês Sonhador

Vincent Van Gogh
SETE PENSAMENTOS IMPERFEITOS

1. Aos olhos da história, o espírito e a vida de Cristo foram libertários. Aos olhos do historiador, o cristianismo e a igreja, foram opressores e trágicos. O homem nasce livre, a sociedade é que o reprime.


2. Na encruzilhada da vida três caminhos a escolher: Todos levam ao caos, ao nada, a morte e ao esquecimento. Pra que escolher um caminho? A quem interessa a redenção? O eterno retorno?

3. A compra ou a venda ilícita de coisas espirituais, como indulgências e sacramentos ou os benefícios eclesiásticos?


4. Ninguém pensa, acredita e professa as mesmas coisas. Não há nada igual entre os mortais. Nem o tempo exato da vida, nem a hora, o minuto, o segundo da sua morte.


5. Se existe eternidade, mesmo na matemática do oito deitado, a morte não existe. É uma questão de tempo e espaço. No eterno matemático só o zero existe. As mesma combinações cósmicas que fizeram surgir esse mundo, este ser, esse vegetal, este mineral, esse animal, no seu tempo e espaço, poderão, no eterno, a partir do nada, do zero, acontecer novamente na primeira fração do infinitésimo segundo que se sucede após a morte.


6. O verdadeiro artista já nasce fora deste mundo, mas nele vive, nele se alimenta, cresce e morre. Como um cometa que se aproxima do sol, ele deixa um rastro em sua passagem, as vezes pequeno, outras vezes grande. Mas todos são luminosos, pois são sinaleiros que indicam direções, evoluções, escrita para os poetas, delírio de poucos, mas eles, os artistas, também se afastam e as vezes desaparecem. Como sabê-los?


7. É preciso desenterrar o que está oculto no buraco negro das crises sociais. A fome indigesta do capital na busca febril do seu alimento é a origem de todos os males, da ganância, da soberba. Mexo com arte – to pobre; mexo com lixo – to rico; dou aula – to pobre; vendo petróleo – to rico; sou povo – to pobre; sou elite – to rico; Rico e pobre assim caminha a humanidade.
Se o homem se abstivesse de roubar, no sentido geral da palavra, o resto todo é admissível a liberdade do existir. Mas como isso é possível? Se cortar a mão do ladrão ele rouba com os pés. Se cortar os pés ele rouba com os olhos. Se o cegar ele rouba com a boca. Se costurar a boca ele rouba a com a alma suja, com ódio no seu coração.

terça-feira, 22 de março de 2011

Uma Nova Bomba Sobre o Japão


SETE PENSAMENTOS IMPERFEITOS

1. NO QUE SE IGUALA A VINDA DO OBAMA AO BRASIL E O ATAQUE A LÍBIA? NO PETRÓLEO!

2. Quando me lembro no alto dos meus sessenta e três anos do envolvimento de todos os governos americanos do norte no mundo, dês da II Grande Guerra, só vejo atrocidades vagando na sua história: as duas bombas no Japão; a guerra da Coréia; o Vietnam; as Ditaduras Militares nas Américas do sul e central; As tentativas de invasão e o bloqueio cruel a ilha de Cuba; o Afeganistão; o Iraque; os Palestinos e agora a Líbia; como acreditar na simpatia, no carisma, na origem e na inteligência do presidente deste país?

3. Se eu penso, logo desisto.

4. Vamos salvar o mundo! Pra quem? De quem? Com quem?

5. Não precisamos da fissão atômica. Nascemos fissurados.

6. Não precisamos de Hollywood. Temos a Tevê Globo.

7. Energia atômica. Bombas. Armas. Radiação...Quem precisa? O Brasil Não!

domingo, 20 de março de 2011

SÃO PAULO - LIVRO - CINEMA


Prezados amigos
Conto com a presença de vocês para o lançamento do meu novo livro, o inédito "FOTÓGRAFOS DO CINEMA BRASILEIRO", pela Coleção Aplauso da Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, com bio-filmografia de 470 profissionais da fotografia do Cinema Brasileiro, dia 28 próximo na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, a partir das 19 hs. Acima o convite. Aguardo vocês.
Abs
A.leão

ABAIXO ASSINADO

Acabei de ler e assinar este abaixo-assinado online: «Libertação imediata dos 13 presos políticos, que protestavam contra a visita de Barack Obama ao Brasil. » http://www.peticaopublica.com.br/?pi=PSTU Eu concordo com este abaixo-assinado e acho que também concordaras. Assina o abaixo-assinado aqui http://www.peticaopublica.com.br/?pi=PSTU e divulga-o por teus contatos.


LOUCURA POUCA É BOBAGEM



“Atlantis,Cristal,Platão”


“Tetragramaton”


“YHWH”


“A árvore da vida”

O FILME QUE ESTÁ FALTANDO SER VISTO
MATA E SILVA;ROGÉRIO SGANZERLA; JULIO BRESSANE; ROLANDO MONTEIRO; JOSE SETTE; TONI NOGUEIRA E A UMBANDA DO BRASIL; AS INSCRIÇÔES PRÈ-HISTÒRICA NOS TRAÇOS DE PEMBA DO TERREIRO DE CABOCLO EM ITACURUÇA NO RIO DE JANEIRO. VASSORINHA DAS ALMAS; ENCANTOS BRASILEIROS. MELEAGRO CINEMATOGRÁFICO.

Em outra oportunidade eu conto toda a história dessa época quando reencontrei o cineasta Rogério Sganzerla e sua mulher a atriz Helena Inês.



SETE PENSAMENTOS IMPERFEITOS

O mundo seria bem melhor se acabasse com a estupidez capitalista de diferenciar os homens pelo seu poder financeiro ou seu status social.

Marx seria mais bem entendido se não houvesse a ditadura do proletariado.

Os movimentos populares em todo mundo carecem de liderança. Não há o que liderar.

Só o estudo, a leitura, o conhecimento e a cultura, transformam a identidade de uma sociedade para o bem ou para o mal.

Há três tipos de fome: a fisiológica; a mercadológica; a circunstancial. Todas são insaciáveis.

Há três tipos de homens: o trabalhador; o religioso; o intelectual. Não confio em nenhum dos três.
Há três caminhos a seguir: à esquerda; à direita; em frente. As três dimensões do inatingível.


UM NOVO FILME DE AUTOR E DE ARTE

Como filmar James Joyce, o mais revolucionário criador de todos os escritores modernos, sem falar de toda sua obra?
Como falar com propriedade a respeito de uma obra e de um ser complexo, misterioso, pouco conhecido, que desafia o imaginário do leitor mais preparado, do intelectual mais fino, se não através de um filme.
Como descrever esses labirintos estéticos, lingüísticos e culturais que transformam o compreender e o poder dos homens, tarefa de Hércules e desejos de poucos, em uma única história?
Vejo um novo romance nascendo dentro do filme e a partir de uma estética expressionista, que é à base do meu cinema, em contraponto à marca realista do lado pessoal perturbador dos seus personagens se confundindo com o próprio autor, um aristocrata irlandês que tinha por lei o exercício da solidão.
Terminei o roteiro, um pouco ansioso com o resultado, tímido perante a grandeza desta ousadia literária em nome da liberdade de criação e do cinema.
Posso dizer que esse trabalho de criação foi uma catarse iniciada quando li pela primeira vez o livro de contos Dublinense, que habitava inerte na minha biblioteca há muitos anos.
Assim, a maneira de Ulisses, eu demorei 15 anos para dar esse salto no deserto.
Aqui está pronto o primeiro tratamento deste filme-romance-debochado-de-arte.
Foi concluído com esse texto o primeiro passo para a sua realização cinematográfica.
Não é um roteiro tradicional, dividido em sequências e planos, com definições dos movimentos de câmera. Mas é sim uma narrativa complexa de imagens e sons romanceados que creio fará jus a quem me inspirou a escrevê-lo.
Assim cabe aos que nele vão trabalhar, com os seus talentos, imaginarem como deverá ser a trilha sonora, a fotografia, os efeitos futuristas, a cenografia abstrata, os figurinos centenários, pois por mais pobre que seja a produção o roteiro pede especial atenção para esses itens.
O ideal seria levantar algum dinheiro para produzi-lo... Entrar em algum edital?
Quando penso nisso, tudo se torna distante e sinto o tempo perdido.
Quando acabo de escrever uma idéia eu já sinto a falta de iniciar de imediato a sua pré-produção – as escolhas e convite aos atores, discutir o desenho da fotografia e do som e me divertir em uma leitura comentada do texto... Estou cheio de tesão para começar o filme, gosto muito do roteiro, e principalmente excitado só em pensar em editar o material – um bom filme é no fim de tudo a sua edição.
Tenho a visão de três orçamentos para a realização deste filme: o primeiro zero, ou seja: fazer o possível sem orçamento; o segundo médio, com orçamento suficiente para dar um troco a cada um e levar a filmagem sem passar dificuldade e o terceiro o que eu acho que este filme merece.
Mas no Brasil, todos nós sabemos, as coisas são lentas e às vezes eu vou brochando pelo caminho. Estou disposto a qualquer esforço imediato para tirar esse filme do papel.

QUEBRANTO
Um filme futurista brasileiro inspirado e transmutado da obra do escritor irlandês James Joyce.

INTRODUÇÃO:

Personagens principais:

1. João (jovem (19 anos) e depois maduro (35 anos), usando bigode fino e óculos; velho, 80 anos, barba, branca, óculos e roupa preta) (João pode também ser interpretado por três atores diferentes):

2. Menina do metrô de luz (jovem (20 anos), de rosto angelical):

Coadjuvantes:

1, 2, 3. Mãe, Tia e Beata (as três irmãs) – Atrizes a serem convidadas: VERA BARRETO, HELENA INÊS, MARIA GLADYS

4. Tio (velho): ator a ser convidado - OTÁVIO III

Extras:
1. João (menino de uniforme colegial, 10 anos usando óculos):
2. Capitão (60 anos) - ator a ser convidado: PAULO CÉSAR PEREIO
3. Repórter TV (jovem):
4. Mulher na janela (40 anos) - atriz a ser convidada: MARIANA MORAES
5. Jovem corretor:

Observações iniciais sobre a cenografia, os figurinos e a fotografia do filme:

O cenário acompanha a época, ou melhor, o século. Um cenário Futurista.
Uma parede no cenário não é um fundo neutro, mas negro, com traços de luz expressionista - pode até ser pintada, como um grande telão surreal, ou ver-de-croma, em algumas sequências (p.ex. metrô de luz).
A ação dramática acontece entre paredes de vários formatos de luz: tijolos; cimento; barro; desbotadas; desgastadas; manchadas; de pedra ou de madeira. Em síntese: o metrô de luz que é feito em cromo e as paredes, são os únicos cenários de fundo em todas as cenas internas do filme.
Os outros objetos, que compõem o ambiente e que estão de frente das paredes existem e são trabalhados na ação.
Eles são vistos, excetuando-se o caixão, que é uma sombra projetada como facho de intensa luz branca.
Esses mosaicos de painéis abstratos formam no seu todo um ambiente futurista dos anos de 2011 até 2111.
A roupa do Velho João é preta e surrada.

Algumas palavras em desuso usadas no roteiro.

Dicionário do Houaiss:

Quebranto – suposta influência de feitiço, por encantamento à distância.

Esgalho – ramificação, divisão; resto do ramo que permanece no tronco.

Contubérnio - convivência sob o mesmo teto; grupo de pessoas que coabitam; familiaridade, intimidade, camaradagem.

Gnômon – objeto que, pela direção ou pelo comprimento de sua sombra no plano horizontal, indica a altura do Sol ou da Lua acima do horizonte e, por conseguinte, a hora do dia.

Simonia – compra ou venda ilícita de coisas espirituais (como indulgências e sacramentos) ou temporais ligadas às espirituais (como os benefícios eclesiásticos).

sábado, 19 de março de 2011

Notícia de Belo Horizonte


Poesia

SEM FIM

Escadas tortuosas
Elevam às oitos torres
Ao céu europeu

Catedral formosa
Misteriosos amores
Arquiteto de Deus

Sagrada Família
Explosão expressionista
Gênio espanhol

Castelo de argila
Configuração sinistra
Arcobotantes do sol

Cento e tantos anos
Pedra por pedra
Sonhos tomam formas

Santos guerreiros arcanjos
Milhares medram
Paredes deformam

Se não fosse Gaudi
Audácia transformação
Reconhecimento revolução

Uma religião importada Dali
Lorca Miró Picasso pura inovação
Inspiraram-se na majestosa criação

A dúvida incontrolável
A espera ansiosa
O universo da arte
Caminham assim

Catalão notável
O caos dos contrastes
Do que começastes
É preciso ter fim.

Barcelona - 1987


LOUCURA POUCA É BOBAGEM





“Atlantis,Cristal,Platão”


“Tetragramaton”


“YHWH”


“A árvore da vida”

sexta-feira, 18 de março de 2011

Rapidinhas


Viva o cinema brasileiro!

A Batalha da Ancinav, gravado durante importante assembléia da Abraci,
Jornada Internacional de Cinema da Bahia e numa gostosa feijoada da ABD&C em Santa Tereza, Rio de Janeiro - 2006. Realizado por Noilton Nunes.

Parte 1


Parte 2


Parte 3

http://www.youtube.com/watch?v=mWUo59SenO4


Loucura Pouca é Bobagem

Outros planetas iguais a terra estão nos esperando
http://www.youtube.com/watch?v=9EEpuIB8K8A

Sette X Publicado no YouTube

Manifesto gravado por Marcelo Pegado

Posso dizer que fui constrangido pelas circunstâncias a dizer tais coisas para uma câmera digital num dia de festa...

quinta-feira, 17 de março de 2011

AMAZONAS


ESSA CALOU OS AMERICANOS!!!

Durante debate em uma universidade, nos Estados Unidos,o ex-governador do DF, ex-ministro da educação e atual senador CRISTÓVAM BUARQUE, foi questionado sobre o que pensava da internacionalização da Amazônia.Um jovem americano introduziu sua pergunta dizendo que esperava a resposta de um Humanista e não de um brasileiro.Esta foi a resposta do Sr.Cristóvam Buarque:"De fato, como brasileiro eu simplesmente falaria contra a internacionalização da Amazônia. Por mais que nossos governos não tenham o devido cuidado com esse patrimônio, ele é nosso."Como humanista, sentindo o risco da degradação ambiental que sofre a Amazônia, posso imaginar a sua internacionalização, como também de tudo o mais que tem importância para a humanidade."Se a Amazônia, sob uma ética humanista, deve ser internacionalizada, internacionalizemos também as reservas de petróleo do mundo inteiro.O petróleo é tão importante para o bem-estar da humanidade quanto a Amazôniapara o nosso futuro. Apesar disso, os donos das reservas sentem-se no direito de aumentar oudiminuir a extração de petróleo e subir ou não o seu preço.""Da mesma forma, o capital financeiro dos países ricos deveria serinternacionalizado. Se a Amazônia é uma reserva para todos os seres humanos, ela não pode ser queimada pela vontade de um dono, ou de um país.Queimar a Amazônia é tão grave quanto o desemprego provocado pelas decisões arbitrárias dos especuladores globais. Não podemos deixar que as reservas financeiras sirvam para queimar países inteiros na volúpia da especulação."Antes mesmo da Amazônia, eu gostaria de ver a internacionalização de todos os grandes museus do mundo. O Louvre não deve pertencer apenas à França.Cada museu do mundo é guardião das mais belas peças produzidas pelo gênio humano. Não se pode deixar esse patrimônio cultural, como o patrimônio natural Amazônico, seja manipulado e instruído pelo gosto de um proprietárioou de um país. Não faz muito, um milionário japonês,decidiu enterrar com ele, um quadro deum grande mestre. Antes disso, aquele quadro deveria ter sido internacionalizado."Durante este encontro, as Nações Unidas estão realizando o Fórum do Milênio, mas alguns presidentes de países tiveram dificuldades em comparecer por constrangimentos na fronteira dos EUA. Por isso, eu acho que Nova York,como sede das Nações Unidas, deve ser internacionalizada. Pelo menos Manhattan deveria pertencer a toda a humanidade. Assim como Paris, Veneza, Roma, Londres, Rio de Janeiro, Brasília, Recife, Salvador, cada cidade, com sua beleza específica, sua historia do mundo, deveria pertencer ao mundo inteiro."Se os EUA querem internacionalizar a Amazônia, pelo risco de deixá-la nasmãos de brasileiros, internacionalizemos todos os arsenais nucleares dos EUA. Até porque eles já demonstraram que são capazes de usar essas armas, provocando uma destruição milhares de vezes maiores do que as lamentáveis queimadas feitas nas florestas do Brasil."Defendo a idéia de internacionalizar as reservas florestais do mundo em troca da dívida. Comecemos usando essa dívida para garantir que cada criança do Mundo tenha possibilidade de COMER e de ir à escola.Internacionalizemos as crianças tratando-as, todas elas, não importando o país onde nasceram, como patrimônio que merece cuidados do mundo inteiro."Como humanista, aceito defender a internacionalização do mundo.Mas, enquanto o mundo me tratar como brasileiro, lutarei para que a Amazôniaseja nossa. Só nossa!

terça-feira, 15 de março de 2011

Orson Welles no Brasil


Gostaria de convidá-los a conhecer o livro Orson Welles no Brasil

Fragmentos de um botão de rosa tropical, uma reportagem de 208 páginas sobre um acontecimento político e cultural pouco conhecido em nosso País, que acabo de publicar.

O primeiro capítulo do volume poderá ser lido no seguinte endereço: http://www.guesaaudiovisual.com/OWFragmentosCap1/LivroOrsonWelles.htm

O trabalho, que contém mais de 60 fac-símiles de documentos (cartas, memorandos, orçamentos, roteiros,etc.) e recortes de jornais, também poderá adquirido no mesmo link Qualquer comentário será apreciado.

Sérvulo Siqueira

domingo, 13 de março de 2011

Mostra de Cinema

Começou no dia 10 e vai até o dia 31 de março a X Mostra do Cinema Livre no CCBB do Rio de Janeiro e neste ano, também, no CCBB de São Paulo. Uma seleção do melhor do cinema inventivo, poético e de vanguarda que se faz hoje no Brasil. Imperdível! Visite o site do Festival e fique sabendo do horário e da programação. www.mostradofilmelivre.com/
Eu estarei lá no Rio, no dia 25 de março, na exibição de Um Filme 100% Brazileiro.

sábado, 12 de março de 2011

A VIAGEM DA PALAVRA

Este texto estava guardado nos meus arquivos e resolvi publicá-lo aqui no blog com a saudade da inteligência desta figura mitológica que tando me ensinou principalmente com a leitura do livro "Ideograma" - organizado e apresentado por ele. O seu texto sobre Fenollosa é esclarecedor– Para lembrá-lo aqui está uma boa entrevista feita pelo poeta Claudio Daniel com o nosso inesquecível Haroldo de Campos.
— a Haroldo Eurico Browne de Campos (1929-2003), in memoriam —

A Viagem da Palavra
por Tempos e Espaços

por Claudio Daniel

Uma escritura entre machados de jade e leões microcéfalos, espiral inscrita em espirais, para o jogo de espelhos e pupila. A saga de Haroldo de Campos move-se como rapsódia de cantos ou círculo de mandalas, onde idéias e formas mesclam-se numa geografia de outras luas possíveis ou cifradas constelações verbais. Partindo da geometria estrutural de Mallarmé e da desarticulação semântica de cummings, que inseminaram a jornada concreta, o poeta erigiu, em seu fazer pós-utópico, inusitadas arquiteturas da palavra, que nos surpreendem pelo impacto de suas combinações cromáticas e musicais. Assimilando recursos e processos do engenho barroco, da imagética oriental e da lírica metafórica dos épicos gregos, entre outros pontos luminosos, o autor construiu um fabulário de imprevistas formas de narrativa poética. Cântico do presente, de uma época conflituosa e interrogante, sua obra nos seduz pela capacidade esfíngica de apresentar não respostas, mas desafios e mistérios, estimulando a aventura de novas aventuras verbais. Transcriador de obras como a Comédia de Dante, o Fausto de Goethe e a Ilíada de Homero, além dos mais inventivos autores da modernidade — Joyce, Pound, Maiakovski, Khlebnikov, entre outros —, Haroldo de Campos apresenta, no conjunto de sua criação, um diálogo vivo com a literatura de todos os tempos.

CD: A tese do fim do ciclo histórico do verso permanece válida, em sua opinião? É possível ainda a experimentação no campo verbal, ou o futuro aponta para o fim da poesia como arte da palavra, superada pelos novos meios eletrônicos?

Haroldo: Entendo — é isso que exponho no ensaio Da Morte do Verso à Constelação: o Poema Pós-Utópico (em O Arco-íris Branco, Imago, RJ) — que, com a crise simultânea das ideologias e das vanguardas, todo o radicalismo futurológico está já posto em questão. Estou com os que pensam que o processo da modernidade ainda não se concluiu: o que ocorre é a incidência epocal do momento pós-utópico, passando-se a encarar uma agoridade em poesia, onde os contributos do passado e as reconfigurações inventivas do presente de criação são urgidos a operar e co-operar num circuito recíproco. Quanto aos meios eletrônicos, podem trazer um novo e fecundo instrumental para a criação (como já o estão fazendo, veja o caso paradigmal de Augusto de Campos e as personalíssimas intervenções de Arnaldo Antunes). Sou, porém, dos que acreditam na sobrevivência e na pervivência do livro como objeto.

CD: Nesta época em que vigoram teses sobre o fim da história e das ideologias e o eclipse das vanguardas, qual é o sentido da idéia de invenção?

Haroldo: A idéia de invenção continua sempre vigente, mas em dialética permanente com a tradição. O poema pós-utópico nasce pontualmente nessa conjuntura dialetizada, onde são muitas as possibilidades combinatórias do passado de cultura com a agoridade, a presentidade, a imaginação criativa, a invenção.

CD: Como surgiu o projeto de fazer a tradução integral da Ilíada? O que este épico representa para a imaginação e o fazer poético contemporâneo?

Haroldo: O projeto de “trans-helenizar” a Ilíada homérica foi insuflado pelo constante entusiasmo de Ezra Pound e de James Joyce pelo rapsodo grego. Mas o foi também pela opinião de Auerbach, para quem as duas matrizes poéticas do Ocidente são a obra de Homero e a Bíblia hebraica. Um constante e atento instigador, durante o curso do trabalho (dez anos, como a Guerra de Tróia...) foi Trajano Vieira, jovem helenista , professor de grego da Unicamp e tradutor (excelente) do trágico clássico da Hélade. Por outro lado, eu retomo e atualizo radicalmente a lição de Odorico Mendes, virtual patriarca oitocentista da transcriação no Brasil. Recuperei Odorico, duramente rejeitado por Sílvio Romero, Antonio Candido e Wilson Martins em meu ensaio “Da criação como tradução e como crítica”, de 1962, publicado em Metalinguagem e Outras Metas (1992).

CD: Comente a evolução de sua pesquisa sobre os poemas bíblicos. Pretende publicar novas traduções nesse campo, após o Qohelet e o Bereshit?

Haroldo: Tenho pronto um novo livro de transcriações de textos bíblicos, reservado para a editora Perspectiva, a ser publicado ainda neste ano. Contém: o episódio de Adão e Eva (a segunda história da criação); o episódio da Torre de Babel e a íntegra do Cântico dos Cânticos (Shir Hashirim). Estou escrevendo um prólogo geral para o volume (breve) e alguns comentários sobre os capítulos II a VII do Cântico, pois só o capitulo I estava por mim traduzido quando o publiquei na Folha de S. Paulo. As duas outras partes do tríptico contido no livro já foram, também, publicadas na Folha.

CD: Escrito sobre Jade reúne traduções de poetas clássicos chineses; O Manto de Plumas recupera, em nosso idioma, a música poética do teatro nô. O diálogo permanente com a cultura oriental ainda estimula a sua criação?

Haroldo: Ainda, como sempre. Ambos esses livros estão há muito esgotados. Preparo uma nova edição de cada um deles, incluído, no primeiro, Mao Zedong, como poeta de estilo clássico; no segundo, material sobre a encenação de Hagoromo realizada e protagonizada por Alice K., dançarina, coreógrafa e atriz especializada em nô.

CD: Em A Maquina do Mundo Repensada (2000) há um discurso poético que navega por conceitos científicos e filosóficos sobre a origem do universo. Qual é a gênese desse livro? De onde vem seu interesse por cosmogonias?

Haroldo: Meu interesse é antigo. Está já em A Arte no Horizonte do Provável (1ª edição, Perspectiva, 1969) e na introdução que escrevi, sob forma de ensaio, para a Pequena Estética de Max Bense; mais recentemente, o estudo sobre ordem, caos e acaso que figura na ultima edição, ampliada, de Mallarmé (Perspectiva). Ademais, fui amigo pessoal do maior físico teórico brasileiro, Mário Schemberg, cuja casa freqüentei assiduamente. Minha amiga Guita Ginsburg foi assistente de Mário no Instituto de Física da USP. Tenho um filho, Ivan Pérsio, que é doutor em Química pelo Instituto de Química da USP e professor titular da UNIP; tenho também um sobrinho (Roland, filho de Augusto), que é professor de Física da Universidade de Brasília, especialista em cosmologia. Ambos esses dois rebentos da família Campos são muito interessados em humanidades (artes e literatura).

CD: Crisantempo (1998) é um livro multipolar, que reúne peças inspiradas por suas viagens a países como Japão, Israel, Estados Unidos e releituras de poetas de diferentes tempos e espaços. Esse diálogo criativo com outras culturas é uma resposta, no campo da poesia, à idéia de um mundo sem fronteiras?

Haroldo: Na Nota Prévia a meu livro A Operação do Texto (1976; a nota está datada de junho de 1975) eu já falava em tradução como “transculturação”, expandindo no tempo e projetando na história a idéia prático-teórica de “transcriação”. O conceito de “transculturação” foi usado, alguns anos depois, em âmbito literário-cultural pelo crítico uruguaio Angel Rama (Transculturación Narrativa en América Latina, 1983), embora entre nós ninguém tenha se preocupado em fazer essa ligação. (Rama, talvez não se saiba, fez uma versão hispânica de meu ensaio A Arte no Horizonte do Provável e publicou-a na revista venezuelana Poesía n. 19/20, Valencia, 1974.) Antes, bem antes de nós ambos, o conceito já havia sido elaborado e aplicado em âmbito antropológico pelo grande africanista cubano Fernando Ortiz (Los Bailes y el Teatro de los Negros en el Folclore de Cuba, 1951). Essa premissa, completada pela noção de Weltliteratur (literatura universal), que está em Goethe e está no Manifesto Comunista, de Marx e Engels, dá resposta a sua indagação sobre o ideal de um “mundo sem fronteiras”, onde, como queriam os autores do Manifesto, as literaturas regionais seriam superadas em prol da constituição de um patrimônio cultural comum, universal.

CD: O barroco está presente em sua escritura desde O Auto do Possesso (1950), mas é na prosa experimental de Galáxias (1984) que essa vertente se manifesta de modo mais nítido. Comente o processo de criação dessa obra.

Haroldo: Galáxias é o momento de plena afloração do barroco no meu processo textual, preparado por uma pré-história que se encontra em Ciropédia ou a Educação do Príncipe, Claustrofobia e num poema quase programático como Xadrez de Estrelas. De início (1963), pensei nesse meu texto longo como um ápice da prosa, dominado pela vontade épica, pela diegese. Verifiquei, porém, com o evoluir do projeto, que se tratava antes de uma vis epiphanica, de um poema longo imagético-visionário, percorrido por farrapos de narração. A descrição do meu processo de trabalho está em Dois Dedos de Prosa sobre uma Nova Prosa (revista Invenção n. 5), título que hoje eu retificaria, escrevendo Dois Dedos de Prosa sobre um Novo Poema.

CD: Mário Faustino estudou as possibilidades do poema longo moderno a partir da leitura dos Cantos de Ezra Pound e da Invenção de Orfeu de Jorge de Lima. Finismundo (1990) é uma investigação poética que caminha nesse sentido?

Haroldo: Finismundo (como Galáxias, porém num outro diapasão) vai, certamente, nesse sentido.

CD: Seus ensaios teóricos e traduções de autores como o cubano Lezama Lima exerceram forte influência sobre os estudos do neobarroco. A seu ver, qual é a informação nova que essa corrente literária traz para a poesia atual?

O neobarroco (incluídos sob essa denominação nomes como os dos cubanos Lezama Lima, Carpentier, Cabrera Infante, Sarduy e Kozer; dos brasileiros Guimarães Rosa, Jorge de Lima, Mário Faustino e Leminski; dos colombianos León de Greiff, poeta, e o Gabriel Garcia Marques de Cem Anos de Solidão; para sequer mencionar os aspectos barroquistas de Trilce, de Vallejo, Altazor, de Huidobro, En la Masmédula, de Girondo, Blanco, de Paz, Canto General, de Neruda e certos poemas conceptistas-combinatórios de João Cabral) é um fenômeno criativo de fundas implicações no passado e no presente da Ibero-América. Sua variante platina é o “neobarroso” de Néstor Perlongher, Arturo Carrera, Lamborghini e do uruguaio Roberto Echavarren. Também no argentino Saúl Yurkiévich, radicado há muitos anos na França (professor da Sorbonne, editor-testamenteiro de Cortázar, admirável ensaísta que se ocupa da “vanguardia”), se encontram — em sua poesia experimental — evidentes rasgos neobarroquistas.

CD: A Coleção Signos, que você dirige para a editora Perspectiva, tem publicado livros de vários poetas brasileiros mais recentes, como Frederico Barbosa, Arnaldo Antunes, Carlos Ávila, Antonio Risério e Régis Bonvicino. A seu ver, como esta a poesia brasileira atual?

Haroldo: Há bons nomes a considerar (para não mencionar figuras já em plena maturidade ou em sábia pós-maturidade, como Sebastião Uchoa Leite e o mineiro Affonso Ávila, este, ademais, um notável especialista do barroco). Horário Costa, já com 40 anos, é um de nossos melhores poetas-críticos. Há, ademais, um promissor grupo de mulheres em ascensão (Claudia Roquette-Pinto, Angela de Campos, Janice Caiafa, do Rio; Lenora de Barros, em São Paulo), precedido no tempo por Josely Vianna Baptista e Alice Ruiz (de Navalha na liga e Pelos pelos), e por essa admirável sobrevivente de tantas lutas culturais que é Laís Corrêa de Araújo. Uma poeta de qualidade quase ignorada no sul é Marize Castro, autora do surpreendente Marrons, Crepons, Batons. Mas há também uma forte equipe masculina: Frederico Barbosa, Carlos Ávila, Antonio Risério, por exemplo. Nela registro com prazer a sua presença (Claudio Daniel). É óbvio que não pretendo ser taxativo nesta minha simples enumeração exemplificativa. Não quero deixar de acrescentar a esse elenco o livro Baobá, de Letícia Volpi, com que você me presenteou, recomendando-o à minha apreciação. Reconheço — e gostaria de dizer-lhe — que a moça promete: “tiene el duende”, como diria García Lorca.

CD: Quais são os seus projetos atuais? Está trabalhando em um novo livro de poemas?

Haroldo: Sim. Organizo, com a assistência gráfica de minha mulher, Carmen, um novo livro de poemas. Como o fazia por superstição Júlio Cortázar, eu, embora não supersticioso, participo da idéia de que não se deve mencionar o título de livros in fieri.

Claudio Daniel publicado na revista et cetera, nº 1, Curitiba, 2003

quinta-feira, 10 de março de 2011

Celukino Pedro Maciel; Guimarães Rosa; Arlindo Daibert

video

Celukino Tudo em P

Este som foi gravado em Nova Yorque na apartamento do pianista brasileiro Aloisio Milanez com Emiliano Sette cantando e tocando violão. As imagens e edição foram feitas por mim aqui em casa pelo celular.

video

terça-feira, 8 de março de 2011

Loucura Pouca é Bobagem

Nave espacial do tamanho da terra!

Poesia


Desenho de Osvaldo Medeiros
Festa Pagã
Jose Sette - 7 de março de 2011


É carnaval
Estou em casa
Pago alto os meus pecados
Crianças histéricas
Gritam no meu ouvido
Os pais não falam
Gritam mais que as crianças
A música baiana toca alto
Na casa vizinha
O carnaval do vale tudo
Na outra casa ouve-se o funk- rap carioca
No mais alto volume em inglês ou português
Ou seja lá o que for aquilo
Fruto da contribuição dos negros americanos
Depois dos black panters
Tenho certeza do total desentendimento da língua
Dos negros latinos...
Os black onças
O que é isto aqui? É a cópia do inferno capitalista
O que é que tudo aqui se tornou?
Um bando de comando consumista
Calcinhas, camisinhas, garrafas e muita putaria pela internet?
Pusilanimidade! Eu nunca imaginei que chegasse a tanto...
Coleção de Mp3 o máximo em tecnologia da pior qualidade
No mais alto som que os aparelhos aquentam
Assim está o brasileiro distorcido
Milhares de néscios em altas frequências
Ninguém merece um ruído tão grande
O que adianta democracia sem educação?
Estou tal qual aquele personagem
No conto do Machado de Assis
Que se encontra com Prometeu
No final do tempo o fim de tudo
E se diz condenado a ser o último
Ser que caminha pelo mundo
Faz mais de 2000 anos
Tinha a idade do seu encontro com Cristo
A quem ele mandou apressar os passos
Na via-crúcis...
Não sei quem sofre mais: ele, eu ou prometeu?
Jogo de paciência entre a cruz e a borduna
Assim não vejo a hora dessa festa acabar
Vocês carnavalescos que me perdoem
Carnaval sem o samba bom não vale nada
Cadê o samba bom? As marchinhas?
Os seus autores ocultos?
A classe média está sempre na merda
Não consegue prestigiar a si mesma
Perdeu sua identidade popular
Ninguém sabe mais nada
Cada dia aumenta o número dos candidatos
A cada visita recebida nas casas vizinhas
Uma com piscina e outra mais pobrezinha
Ocupadas pelas classes em ascensão
É tudo que tenho visto e ouvido neste quintal
A cada ano que passa vai se tornando o mais puro lixo
Espelho do país nos meus vizinhos temporários
Brigando através da disputa do maior volume de som
Quem tem mais power nas suas caixas
Stockhausen teria orgasmo e Guarnieri uma parada cardíaca
São mais de cinco anos que tenho aqui vizinhos visitantes
Diferentes famílias a cada carnaval
Em cada festa de final de ano
Casa de aluguel por temporada é emboscada
De uma madame classe média alta suburbana
Pobre Brasil
Tudo coberto com fantasias de muito luxo
Por debaixo do tapete o lixo
Das sórdidas composições do poder
Por uma mídia venal e descompromissada
Com a história da nossa cultura
Com a identidade brasileira
Fico tentando exaustivamente analisar
Antropologicamente e sociologicamente
Essa situação emocional diferenciada
Que a todos envolvem nestas comemorações
Com muita paciência nada consigo saber
Chego ao fim de um dia inteiro de axé
Espirro sem parar minha alergia
Agora tudo me incomoda
Minha cabeça dói – 18 horas
Três dias aqui
Cadê a Bahia cantada por Ari e Dorival...
Ninguém ouve mais maracangalha...
A nova música baiana romântica é boçal
Os baianos podem gostar que não faz mal
Ao vivo em HD na Tevê de cangalha
É madrugada, a cervejaria rola solta
Solto uma gargalhada louca
Todos gritam numa catarse doentia
Entre palavras e palavrões
Pais e filhos falseiam alegria risos trêmulos
Quero ajudar, suportar, orientar, transformar
Tudo em vão
Penso em chamar a polícia
Que barbaridade o inferno ou a repressão
Colocar os meus 1000 watts a prova
Explodir o som alheio
Jogar confete metálico na rede elétrica
Cortar os fios ou soltar morteiros
Apontar em direção dos alto-falantes
Não tenho coragem suficiente para tanto
Resta-me o consolo que em mais dois dias
Tudo se acaba
Vou ser perdoado
Posso descansar
Voltar aos clássicos
Ao silêncio
Aos pincéis
Aos textos
A mim

domingo, 6 de março de 2011

Um Outro Olhar


Fidel Castro: a inevitável guerra da Otan
(Extraído do CubaDebate)

DIFERENTEMENTE do que acontece no Egito e na Tunísia, a Líbia ocupa o primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento Humano na África e tem a maior expectativa de vida no continente. A educação e a saúde recebem atenção especial do Estado. O nível cultural da população é certamente maior. Seus problemas são de outra natureza. A população não carece de alimentos e de serviços sociais essenciais.
O país precisava de mão-de-obra estrangeira abundante para realizar planos ambiciosos de produção e desenvolvimento social. Dessa forma, proporcionava emprego a centenas de milhares de trabalhadores egípcios, tunisianos, chineses e outras nacionalidades.
A Líbia dispunha de enormes receitas e reservas em divisas depositadas nos bancos dos países ricos, com as quais adquiriu bens de consumo e até mesmo armas sofisticadas, fornecidas precisamente pelos mesmos países que agora querem invadi-la em nome dos direitos humanos.
A gigantesca campanha de mentiras, lançada pela grande mídia, deu lugar a uma grande confusão na opinião pública mundial. Vai levar tempo até que se possa reconstituir o que realmente aconteceu na Líbia — e separar o real dos fatos falsos que foram divulgados.
Emissoras sérias e prestigiadas, como a Telesul, foram obrigadas a enviar repórteres e cinegrafistas às atividades de um grupo e às do bando contrário para relatar o que realmente acontecia.
As comunicações foram bloqueadas, os diplomatas honestos arriscaram suas vidas atravessando bairros e observando atividades, de dia ou de noite, para informar o que estava acontecendo. O império e seus principais aliados empregaram os mais sofisticados meios para divulgar informações distorcidas dos acontecimentos, entre as quais se devia inferir as características da verdade.
Sem dúvida, os rostos dos jovens manifestantes em Benghazi, homens e mulheres com um véu ou sem véu, expressavam indignação real.
Pode-se ainda ver, em contrapartida, a influência exercida pelo componente tribal nesse país árabe, apesar da fé muçulmana compartilhada abertamente por 95% de sua população.
O imperialismo e a Otan — seriamente preocupados com a onda revolucionária iniciada no mundo árabe, onde se gera grande parte do petróleo que sustenta a economia de consumo dos países desenvolvidos e ricos — não podiam deixar de aproveitar o conflito interno na Líbia para promover a intervenção militar. As declarações feitas pela administração dos EUA desde o primeiro momento foram categóricas a este respeito.
A situação não poderia ser mais propícia. Nas eleições de novembro, a direita republicana desferiu um golpe contundente no presidente Obama, um especialista em retórica.
O grupo fascista "missão cumprida", agora apoiado ideologicamente pelos extremistas do Tea Party, reduziu o alcance do atual presidente a um papel meramente decorativo, que põe sob risco seu programa de saúde e a incerta recuperação da economia, devido ao déficit orçamentário e ao crescimento incontrolável da dívida pública, que já batem todos os recordes históricos.
Apesar da avalanche de mentiras e da confusão criada, os Estados Unidos não conseguiram impor à China e à Federação Russa a aprovação, no Conselho de Segurança, de uma intervenção militar na Líbia, ainda que tenham conseguido obter, no Conselho de Direitos Humanos, a aprovação dos objetivos visados nesse momento. Em relação à intervenção militar, a secretária de Estado declarou em palavras que não admitem a menor dúvida: "Nenhuma opção é descartada".
O fato real é que a Líbia está agora envolvida numa guerra civil, como havíamos previsto, e as Nações Unidas nada puderam fazer para impedi-lo, exceto pelo fato de que seu próprio secretário-geral lançou uma boa dose de lenha na fogueira.
Os atores talvez não imaginassem que o problema é que os próprios líderes da rebelião abordaram esse complicado tema declarando que rejeitavam toda e qualquer intervenção militar estrangeira.
Várias agências de notícias informaram que Abdelhafiz Ghoga, porta-voz do Comitê da Revolução, declarou na segunda-feira (28): "O restante da Líbia vai ser libertado pelo povo líbio". "’Contamos com o Exército para libertar Trípoli’, assegurou Ghoga durante o anúncio da formação de um ‘Conselho Nacional’ para representar os municípios do país que estão nas mãos da insurgência. "
"’O que nós queremos é informação de inteligência, mas que, em caso algum, afete nossa soberania aérea, terrestre ou marítima’, acrescentou ele, durante um encontro com jornalistas nesta cidade localizada mil quilômetros a leste de Tripoli."
"A intransigência dos líderes da oposição sobre a soberania nacional reflete a opinião expressa espontaneamente por muitos líbios à imprensa internacional em Benghazi", informou a AFP na segunda-feira passada.
No mesmo dia, uma professora de Ciência Política da Universidade de Benghazi, Abeir Imneina, disse: "Há um sentimento nacional muito forte na Líbia. ‘Além disso, o exemplo do Iraque amedronta o conjunto do mundo árabe’, ressalta, referindo-se à invasão norte-americana de 2003 que deveria levar a democracia a esse país e, em seguida, por contágio, a toda a região — uma hipótese completamente desmentida pelos fatos."
Prossegue a professora: "’Sabemos o que aconteceu no Iraque, que se encontra em plena instabilidade e certamente não queremos seguir o mesmo caminho. Não queremos que os americanos venham para acabarmos nos arrependendo por Kadafi’, continuou essa especialista."
"Mas, segundo Abeir Imneina, ‘há também o sentimento de que é a nossa revolução — e cabe a nós fazê-la’."
Poucas horas depois da publicação desta informação, dois importantes órgãos de imprensa dos Estados Unidos, The New York Times e The Washington Post, apressaram-se em oferecer novas versões sobre o assunto, conforme informou a agência DPA no dia seguinte, 1º de março: "A oposição líbia pode solicitar que o Ocidente bombardeie as posições estratégicas das forças leais ao presidente Muammar al-Kadafi, informou hoje a mídia estadunidense."
"O assunto está sendo discutido dentro do Conselho Revolucionário líbio, detalham o The New York Times e o The Washington Post em suas versões online."
"The New York Times salientou que essas discussões podem manifestar a crescente frustração dos líderes rebeldes diante da possibilidade de que Kadafi recupere o poder."
"Caso as operações aéreas se realizarem no âmbito das Nações Unidas, estas não implicarão intervenção internacional, explicou o porta-voz do Conselho, citado pelo The New York Times".
"O conselho é formado por advogados, acadêmicos, juízes e membros proeminentes da sociedade líbia."
Afirma a notícia:
"O The Washington Post cita os rebeldes reconhecendo que, sem o apoio do Ocidente, os combates às forças leais a Kadafi poderiam durar muito mais tempo e custar uma grande quantidade de vidas humanas." Vale ressaltar que nessa relação não é mencionado um único trabalhador, agricultor, construtor, alguém associado à produção material, um jovem estudante ou um dos combatentes que participam das manifestações. Por que o esforço para mostrar os rebeldes como membros proeminentes da sociedade, reivindicando o bombardeio dos Estados Unidos e da Otan para matar os líbios?
Um dia saberemos a verdade, através de pessoas como a professora de Ciência Política da Universidade de Benghazi, que com tanta eloquência narra o calvário que matou, destruiu casas, provocou desemprego e forçou milhões de pessoas no Iraque a migrarem.
Nesta quarta-feira, 2 de março, a agência EFE apresenta um porta-voz rebelde conhecido por fazer declarações que, na minha opinião, afirmam e ao mesmo tempo contradizem as notícias de segunda-feira: "Benghazi (Líbia), 02 de março. A liderança rebelde líbia pediu hoje ao Conselho de Segurança da ONU que lance um ataque aéreo ‘contra os mercenários’ do regime de Muammar al-Kadafi."
"‘Nosso exército, por seu papel defensivo, não pode lançar ataques contra os mercenários’, afirmou o porta-voz rebelde Abdelhafiz Ghoga numa entrevista coletiva em Benghazi".
"‘Um ataque aéreo estratégico é diferente de uma intervenção estrangeira, a qual rechaçamos’, sublinhou o porta-voz das forças da oposição, que sempre se posicionaram contra uma intervenção militar estrangeira no conflito líbio."
Com qual das muitas guerras imperialistas esta se parece? Com a da Espanha em 1936, a de Mussolini contra a Etiópia em 1935, a de George W. Bush contra o Iraque em 2003 ou a qualquer uma das dezenas de guerras promovidas pelos Estados Unidos contra os povos da América, desde a invasão do México em 1846 até a das Ilhas Malvinas em 1982?
Isso, sem excluir, é claro, a invasão mercenária da Baía dos Porcos, a guerra suja e o bloqueio a nossa pátria ao longo de 50 anos — data que será completada em 16 de abril.
Em todas essas guerras, como também a do Vietnã, que custou milhões de vidas, prevaleceram as justificativas e as medidas mais cínicas.
Para aqueles que têm alguma dúvida sobre a inevitável intervenção militar que terá lugar na Líbia, a agência de notícias Associated Press, que considero bem informada, publicou hoje: "Os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) desenvolvem um plano de contingência, baseado no modelo das zonas de exclusão aérea, estabelecida sobre os Balcãs na década de 1990, caso a comunidade internacional decidir impor um embargo aéreo contra a Líbia, disseram diplomatas".
Mais tarde, concluiu: "Os funcionários — que não podiam dar os seus nomes por causa da delicadeza do assunto — indicaram que as opções têm como ponto de partida a zona de exclusão aérea imposta pela aliança militar ocidental na Bósnia em 1993, que contou com a autorização do Conselho de Segurança, e os bombardeamentos da Otan no Kosovo em 1999, QUE NÃO FUNCIONOU."
Quando Kadafi, coronel do exército líbio, inspirado em seu colega egípcio Abdel Nasser, derrubou o rei Idris I em 1969, com somente 27 anos de idade, aplicou medidas revolucionárias, como a reforma agrária e a nacionalização do petróleo. As maiores receitas foram dedicadas ao desenvolvimento econômico e social, particularmente aos serviços educacionais e de saúde da reduzida população líbia, situada em um imenso território desértico e com pouquíssima terra cultivável.
Sob aquele deserto existia um extenso e profundo mar de águas fósseis. Tive a impressão, quando conheci uma área experimental de cultivos, que aquelas águas, em um futuro, seriam mais valiosas que o petróleo.
A fé religiosa, pregada com o fervor que caracteriza os povos muçulmanos, ajudava em parte a compensar a forte tendência tribal que todavia subsiste nesse país árabe.Os revolucionários líbios elaboraram e aplicaram suas próprias ideias em relação às instituições legais e políticas, que Cuba, como norma, respeitou.Nos abstivemos por completo de emitir opiniõe sobre as concepções da direção líbia.Vemos com clareza que a preocupação fundamental dos Estados Unidos e da Otan não é a Líbia, mas sim a onda revolucionária desatada no mundo árabe que desejam impedir a qualquer preço.É um fato irrefutável que as relações entre Estados Unidos e seus aliados da Otan com a Líbia, nos últimos anos, eram excelentes, antes que surgisse a rebelião no Egito e na Tunísia.Nos encontros de alto nível entre a Líbia e os dirigentes da Otan, nenhum deles tinha problemas com Kadafi. O país era fonte segura de abastecimento de petróleo de alta qualidade, gás e, inclusive, potássio. Os problemas surgidos entre eles durante as primeiras décadas haviam sido superados.Foram abertos ao investimento estrangeiros setores estratégicos, como a produção e a distribuição de petróleo.A privatização alcançou muitas empresas públicas. O Fundo Monetário Internacional exerceu seu papel "bem-aventurado" na instrumentalização de tais operações.Naturalmente, Aznar se desfez em elogios a Kadafi, assim como Blair, Berlusconi, Sarkozy, Zapatero e até o meu amigo, o rei da Espanha, desfilaram diante do zombeteiro olhar do líder líbio. Estavam felizes.Ainda que pareça que estou zombando, não é assim; me pergunto simplesmente por que querem agora invadir a Líbia e levar Kadafi ao Tibunal Penal Internacional em Haia.Acusam-no durante as 24 horas do dia de disparar contra cidadãos desarmados que protestavam. Por que não explicam ao mundo que as armas e, sobretudo, os equipamentos soisticados de repressão que a Líbia possui foram fornecidos pelos Estados Unidos, Reino Unido e outros ilustres anfitriões de Kadafi?Me oponho ao cinismo e às mentiras com que agora se quer justificar a invasão e ocupação da Líbia.A última vez que visitei Kadafi foi em maio de 2001, 15 anos depois que Reagan atacou sua residência bastante modesta, onde me levou para ver como tinha ficado. Recebeu um impacto direto da aviação e estava consideravelmente destruída; sua pequena filha de três anos morreu no ataque: foi assassinada por Ronald Reagan. Não houve acordo prévio da Otan, do Conselho dos Direitos Humanos nem do Conselho de Segurança.Minha visita anterior havia sido em 1977, oito anos depois do início do processo revolucionário na Líbia. Visitei Trípoli, participei no Congresso do Povo Líbio, em Sebha. Percorri as primeiras experiências agrícolas com as águas extraídas do imenso mar de águas fósseis. Conheci Benghazi, fui alvo de uma calorosa recepção. Se tratava de um país lendário, que havia sido cenário de históricas batalhas na última guerra mundial. Ainda não tinha seis milhões de habitantes, nem era conhecido o enorme volume de petróleo leve e água fóssil. As antigas colônias portuguesas da África já haviam se libertado.
Em Angola, haviamos lutado durante 15 anos contra os bandos mercenários organizados pelos Estados Unidos sobre bases tribais, o governo de Mobutu e o bem equipado e treinado exército racista do Apartheid. Este, seguindo as instruções dos Estados Unidos, como hoje é conhecido, invadiu Angola para impedir sua independência em 1975, chegando até os arredores de Luanda com suas forças motorizadas. Vários trabalhadores cubanos da construção civil morreram naquela invasão brutal. Foram enviados para lá recursos com a máxima urgência.Expulsos de Angola pelas tropas internacionalistas cubanas e angolanas até a fronteira com a Namíbia, ocupada pela África do Sul, durante 13 anos os racistas tiveram a missão de liquidar o processo revolucionário em Angola.Com o apoio dos Estados Unidos e de Israel, desenvolveram armas nucleares. Possuiam já o armamento quando as tropas cubanas e angolanas derrotaram, em Cuito Cuanavale, suas forças terrestres e aéreas eles já possuiam a bomba. Em desafio a isso, os cubanos e angolanos empregaram táticas e meios convencionais e avançaram até a fronteira da Namíbia, onde as tropas do Apartheid pretendiam resistir. Duas vezes na história nossas forças estiveram sob o risco de serem atacadas por esse tipo de armas: em outubro de 1962 e no sul de Angola, mas nessa segunda ocasião, nem utilizando essas bombas a África do Sul teria conseguido evitar a derrota que marcou o fim do seu sistema odioso. Os fatos aconteceram sob o governo de Ronald Reagan nos Estados Unidos e Pieter Botha na África do Sul.Disso e das centenas de milhares de vidas que a aventura imperialista custou, não se fala.Lamento ter de recordar estes fatos, quando outro grande risco se abate sobre os povos
árabes, porque não se resignam a seguir vivendo vítimas do saque e da opressão.A revolução no mundo árabe, que tanto temem os Estados Unidos e a Otan, é a dos que carentes de todos os direitos, diante dos que ostentam todos os privilégios, chamada portanto a ser mais profunda que a que em 1789 se desatou na Europa com a tomada da Bastilha.Sequer Luís XIV, quando proclamou que o Estado era ele, possuía os privilégios do rei Abdulá da Arábia Saudita e muito menos a imensa riqueza que jaz sob a superfície do quase desértico país, onde as transnacionais ianques determinam a extração e, portanto, o preço do petróleo no mundo.A partir da crise na Líbia, a extração na Arábia Saudita aumentou em um milhão de barris diários, a um custo mínimo e, consequentemente, só por esse único fato os lucros desse país e de quem o controla aumentaram bilhões de dólares por dia.Que ninguém imagine, entretanto, que o povo saudita nada em dinheiro. São comovedores os relatos das condições de vida de muitos trabalhadores da construção civil e outros setores, que se vêem obrigados a trabalhar 13 a 14 horas por dia com salários miseráveis.Assustados pela onda revolucionária que sacode o sistema de pilhagem que ali prevalece, depois do que ocorreu com os trabalhadores do Egito e da Tunísia, e também com os jovens desempregados na Jordânia, os territórios ocupados da Palestina, Iêmen e inclusive o Barein e os Emirados Árabes, que têm rendas mais elevadas, a alta hierarquia saudita está sob o impacto dos acontecimentos.Diferentemente de outros tempos, hoje os povos árabes recebem informação quase instantânea dos acontecimentos, embora sejam extremamente manipuladas.O pior para o status quo dos setores privilegiados é que os teimosos fatos coincidem com o considerável aumento dos preços dos alimentos e o impacto demolidor das mudanças climáticas, enquanto os Estados Unidos, o maior produtor de milho do mundo, gasta 40% desse produto subsidiado e uma parte importante da soja para produzir biocombustível para alimentar os automóveis. Com certeza, Lester Brown, o ecologista mais bem informado do mundo sobre produtos agrícolas, poderá nos oferecer uma ideia da atual situação alimentar.O presidente bolivariano, Hugo Chávez, realiza um esforço tenaz em à procura de uma solução sem a intervenção da Otan na Líbia. Suas possibilidades de alcançar o objetivo serão maiores se conseguir a proeza de criar um amplo movimento de opinião antes, e não depois, que aconteça uma intervenção, e os povos não vejam repetir-se em outros países a atroz experiência do Iraque.
Final da reflexão.

Fidel Castro Ruz, Havana, 22h32 de 3 de março de 2011

sábado, 5 de março de 2011

FOTOFOLIAS





É CARNAVAL A ATRIZ MARIA GLADYS (fotos de Ana Sette) A RAINHA DO CINEMA DA VANGUARDA BRASILEIRA FOI COROADA A RAINHA DO BLOCO “ME BEIJA QUE SOU CINEASTA” QUE FECHA O CARNAVAL NA QUARTA FEIRA DE CINZA NA GÁVEA SOB O COMANDO DA GRANDE ATRIZ - ESSE ANO NÃO VAI SER COMO AQUELE QUE PASSOU!...

quinta-feira, 3 de março de 2011

JOGANDO CONVERSA FORA

OCA MODERNA

No governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, remeti ao Ministério da Cultura o esboço de um projeto que poderia, a meu ver, revolucionar o saber cultural em nosso país. A idéia não foi entendida pelo Senhor Ministro, ou não havia, em verdade, interesse pelo tema cultura brasileira, vivíamos no auge da globalização.

Era uma idéia simples que nasceu da importância e da espontaneidade de um movimento cultural que eu vivi no início dos anos 60. Nesta época a UNE promovia com o apoio do Governo do Presidente João Goulart, encontros dos estudantes e jovens brasileiros com algumas das principais personagens do nosso universo cultural. Assim surgiu, por todo país, momentos singulares na nossa história.

Podíamos, antes do golpe militar, conviver informalmente, conversar e trocar experiências com alguns dos grandes artistas daquela época: escritores, poetas, músicos, pintores, escultores, diretores de teatro e de cinema, atores e atrizes, fotógrafos, técnicos renomados, que viajavam pelo país para participarem e incentivarem esses sensacionais encontros com uma juventude, que está hoje e sempre, sedenta de saber.

Durou pouco tempo na cidade de Belo Horizonte, onde eu morava, essas verdadeiras quermesses intelectuais onde tudo se ouvia e de tudo se aprendia um pouco.

Esses encontros festeiros e ideológicos modificaram muitas cabeças, a minha foi uma delas.

Eu tinha 15 anos em 1963 quando conheci algumas das melhores figuras da nossa inteligência e sei o quanto isso me foi importante. Escrevi, nesta época, o meu primeiro roteiro de um filme de longa-metragem “Cidade Sem Mar” sobre a juventude mineira.

Acredito que a nossa presidenta Dilma tenha freqüentado alguns desses encontros na sua época.

É preciso refazer hoje “modernamente” esses encontros temáticos com os jovens do tão carente interior brasileiro. Eles têm o direito de usufruir também do melhor que o universo das artes brasileiras pode oferecer e aprender, em polêmicos debates e palestras, o pensamento dos nossos criadores de cultura que, na sua grande maioria, não tem aonde exibir, expor, ou com quem discutir as suas obras.

Esse é o mote principal desta velha idéia: criar vários espaços com arquitetura própria, de norte a sul do país, onde se possam promover os encontros do povo brasileiro com os representantes da sua cultura geral e conhecer, discutir e até comprar suas obras.

Fiz o desenho detalhado do espaço imaginado/necessário e também um pré-orçamento dos custos, ou do que poderia ser gasto na construção de um centro de cultura em cem cidades do interior brasileiro. Infelizmente perdi o arquivo em minhas mudanças. Tenho certeza que Oscar, o velho gênio da arte do novo, ou um jovem arquiteto de vanguarda, faria de bom grado esse singelo projeto arquitetônico.

Esses centros de cultura, que chamo de “OCA MODERNA”, pois o projeto arquitetônico se assemelhava a essa conhecida casa do índio brasileiro, só poderá ser viável se houver a união do Governo Federal com os Estados, Municípios e uma grande vontade política de transformar culturalmente o país.

Lembro-me que nos meus cálculos de então, verifiquei o quanto o erário havia gasto com as grandes produções que até hoje não se justificaram. Essas verbas monumentais de incentivo poderiam ser muito mais bem empregadas construindo, em varias cidades carentes de informação, muitos destes centros de cultura.

A união do Governo do Brasil, Ministério da Cultura, com os Governos Estaduais e Prefeituras Municipais, viabilizariam facilmente essa idéia que para dar certo teria de começar com 100 cidades pilotos. Cidades de 100 até 500.000 habitantes.

Um governo que pretende compreender e espalhar por todo esse país o prazer do conhecimento de nossas coisas, o desejo de consumir as coisas nossas, tem de olhar essa idéia, ou outra similar, com uma visão fina direcionada para a expansão do mercado, no futuro, com a nossa sonhada libertação cultural, isto é: é preciso urgentemente abrir espaços de exibição para toda a criação da arte nacional.

Imaginei que no governo do Presidente Lula, o Ministro Gil, implantasse alguma coisa semelhante e possibilitasse esses espaços de encontros, mas ele saiu com os “pontos de cultura” que, a meu ver, hoje poderiam ser a “ponta de lança” na criação destes centros culturais.

Fico imaginando o meu caso: dirigi na década de 80 o Palácio das Artes em Belo Horizonte e por isso sei da importância, para qualquer cidade do mundo, dos espaços públicos como esse. Sei também como muitos outros sabem que onde se é o produtor, diretor, escritor, realizador dos seus trabalhos, se houvesse a possibilidade de exibi-los e debatê-los com os jovens do Brasil, com a certeza de que haveria 100 salas para lançar os filmes, expor as pinturas, recitar os poemas, cantar e tocar suas músicas, experimentar o teatro, debater cultura e criatividade, ou simplesmente mostrar a sua arte, na certa, eu e muitos outros artistas realizadores, por muito pouco, agora e no futuro, poderíamos começar a viver dias melhores.

Imaginei a Oca Moderna sendo dividida em cinco salas: Sala 1: Cinema digital e pequeno palco para esquetes de teatro, apresentações de música, recitais de poesia, palestras, etc. Sala 2: Videoteca e Internet (possível mini-biblioteca de alguns livros sobre arte). Sala 3: Exposição e artesanato. Sala 4: Café bate-papo. Sala 5: Banheiros.

Um amigo a quem eu disse que escreveria novamente ao governo sobre essa minha idéia, me falou: - Se nesses anos todos eles não cuidaram da educação, não criaram as escolas de tempo integral do Darcy Ribeiro, não aplicam uma lei (a lei do curta) aprovada que leva a jovem arte brasileira aos cinemas, o que te faz pensar que eles darão atenção aos seus centros de cultura? Ele tem razão, pensei, vou jogar conversa fora...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Um filme de terror

Política pública da Vergonha

O que aconteceu com Vera Lúcia nesta grande cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, foi esse descaso vergonhoso, aqui narrado, que mostra a total incompetência e desrespeito dos responsáveis pela saúde da nossa gente. O pior é que todo esse horror anda também acontecendo em muitos outros hospitais e postos de saúde de todo o país.
Quem não tem seguro de saúde para bons médicos e bons hospitais que se dane...

O CIRCO DOS HORRORES DA "NOVA JUIZ DE FORA"
Vera Lúcia Ciuffo (*)

O que anda acontecendo nessa cidade em termos de atendimento à saúde é o caos total! No dia 9 de fevereiro passado, sofri um AVC - Acidente Vascular Isquêmico - prontamente diagnosticado por um médico que estava presente no local onde perdi os sentidos. Graças à sua pronta interferência, o SAMU me recolheu e me conduziu ao HPS- Hospital de Pronto Socorro de Juiz de Fora, pois não tenho plano de saúde. Lá chegando fui prontamente atendida pela equipe de plantão, que me comunicou que eu seria internada, para fazer os necessários exames e a observação do quadro. Aí, minha gente, começou a minha "via crucis" Os corredores do HPS estão lotados de macas, cadeiras e gente espalhada por todos os cantos. Me instalaram, então, "confortavelmente", ao lado de uma senhora que lá estava desde o dia 6, portadora de um tumor na base do cérebro, aguardando transferência para a Santa Casa, onde se submeteria à uma ressonância que diagnosticaria a evolução do tumor para os devidos tratamentos. Bem, então fui instalada ao lado dela, na porta do elevador, por onde transitavam os profissionais, os carrinhos de refeição, de roupa suja e limpa, tambores de lixo, enfim, todo o movimento era feito ali. Privacidade zero. O barulho ensurdecedor. As pessoas transitam pelos corredores como se estivessem saindo de um baile. Gargalhadas, conversas e o bater das portas do elevador impediam qualquer possibilidade da gente se recuperar, ou no meu caso, da pressão ser estabilizada. O auge do absurdo foi atingido, quando a acompanhante da minha companheira de porta de elevador, precisou trocar a fralda geriátrica da mesma. Foi efetuada uma operação BBB, entre ela e minha filha para que ela pudesse ser trocada, sem que as pessoas que circulavam pelo corredor e os elevadores não invadissem a sua privacidade, literalmente. Vejam bem: ela tem mais de 70 anos, cabelos brancos e esse absurdo acontecendo a ela - uma humilhação que não se deseja ao pior dos infratores. Falando neles, há também uma circulação pelo bendito elevador, de presidiários que entram algemados e cercados de policiais armados, entre nós. Sugeri a minha filha que fotografasse o tal elevador e suas hóspedes, e ela o fez... Foi vista por alguém, pois logo depois fomos removidas daquele local para outro, com a desculpa de que ali não tínhamos conforto. Seria cômico, se não fosse trágico: nos colocaram em outro corredor, na passagem para o necrotério, laboratórios, refeitórios de funcionários, etc, etc. Privacidade zero. Mas o pior é que estávamos ao lado das caixas coletoras de lixo hospitalar, lixo comum, devidamente classificados (risos); só faltaram colocar ao pé de minha maca placa: "Lixo da Nova Juiz de Fora".
Nós, seres humanos, cidadãos dessa cidade, ao lado, comparados ao lixo do hospital. O barulho continuava, as pessoas transitando por entre nossas macas, com outro pequeno agravante: as baratas que saiam das latas do lixo, circulavam também por ali, obrigando as acompanhantes a matarem os insetos. Uma dessas acompanhantes jogou um "cadáver" dessa barata, no meio do corredor, às 23 h, e essa demonstração de sujeira ficou ali como um troféu até às três da madrugada, embora circulassem pelo corredor, pacientes, acompanhantes, pessoal da manutenção e limpeza. No total foram cinco baratas circulando entre nós. Haviam mais, mas eu acabei dormindo extenuada por umas duas horas, e parei de contar. Ah sim, pedi que fotografassem também a área de "internação" no lixo. Depois de uma megaoperação que incluiu a interferência da equipe o deputado Federal Julio Delgado e alguns conhecidos, fomos ambas transferidas para o segundo andar. Achei que finalmente, nossos problemas estariam resolvidos... Ingênua pretensão. O problema estava apenas começando. Lá em cima, a equipe desdobra-se na tentativa de atender aos pacientes da melhor forma possível...mas, não conseguem. Por lá a coisa está complicada.No nosso quarto estava uma senhora aguardando transferência para um cirurgia de vesícula há precisamente 45 dias! Vejam bem: não são 46 horas, nem minutos, são dias! Ela chegou por lá em 1 de janeiro de 2011 e lá permanece até agora, sem solução, sem resposta, sem nada. Também tivemos que trazer as roupas de cama de nossa casa. No HPS da "Nova Juiz de Fora", não há roupa de cama para os pacientes em número suficiente para todos os leitos. Se alguém, por acaso, sujar a roupa por problemas de incontinência urinária, ou algo similar, fica no colchão de plástico, não há o que fazer. Acabamos emprestando roupa de cama para as companheiras de quarto, além de fraldas descartáveis geriátricas tamanho G, que compramos para ajudar a uma companheira de quarto com medo de que ela sujasse a cama e tivesse que dormir sobre um cobertor, em meio ao calorão e à falta de roupa de cama no HPS, que aliás, é lavada em Xerem, terra do Zeca Pagodinho, na Baixada Fluminense. Aqui por perto, em Minas, ou mesmo na cidade, não há lavanderia que dê conta dos lençóis dessa unidade. Mas, ainda não terminou o circo de horrores. Não há papel higiênico na unidade, os pacientes tem que trazer os seus próprios rolinhos de casa. No banheiro que usávamos, não há porta. Caiu e ninguém mais a colocou de volta, mas para que porta, não é? Tolice! Toma-se banho e usa-se o sanitário à vista dos acompanhantes masculinos da área feminina (risos). Em vista desse aspecto bizarro do hospital, compramos uma cortina de plástico, à guisa de porta para o tal banheiro. Justiça seja feita: os funcionários lotados nessa unidade são de uma dedicação e uma responsabilidade ímpares, em número insuficiente tentando servir aos pacientes da melhor maneira, desdobrando-se, tentando encontrar panos e lençóis para atender às demandas. Para enriquecer mais esse universo surreal há a proibição de acompanhantes usarem vestidos, bermudas, decotes e saias - normas da casa. Ou seja: dormir em meio à baratas, usar banheiros sem portas, esperar 46 dias uma solução, pode. Só não se pode usar vestidos, saias e decotes, a critério de inspeção dos finíssimos seguranças que ficam na portaria do hospital... É de rir para não chorar. Mas, as normas da casa permitem acompanhantes masculinos em alas femininas, criando constrangimento às demais pacientes "hospedadas" nessa bagunça organizacional. Pois bem: acabei de sair desta filial do inferno, um lugar onde as mínimas normas de higiene e respeito humano são desrespeitadas a toda hora. Num universo de coisas surreais e bizarras, não sei qual seria o maior destaque. Termino então com a pérola que um dos funcionários nos brindou ao reclamarmos das baratas nos corredores: "Não se preocupem e nem se assustem, baratas e ratos no HPS são normais" Se isso é normalidade: parem o mundo que eu quero descer. E Deus nos livre de sermos internos desse sistema de saúde precário e porco dessa "Nova Juiz de Fora"!

(*) Vera Lúcia Ciuffo, 62 anos, é psicóloga, viúva, cinco filhos,
filha de Ernani Ciuffo, autor de sambas antológicos.