ABAIXO TEXTOS - CRÍTICAS - ENSAIOS - CONTOS - ROTEIROS CURTOS - REFLEXÕES - FOTOS - DESENHOS - PINTURAS - NOTÍCIAS

Translate

quarta-feira, 31 de março de 2010

CONCLUDÊNCIA CINEMATOGRÁFICA

O matemático russo Grigory Perelman recusou um prêmio de US$ 1 milhão oferecido pelo Instituto Clay de Matemática (CMI, na sigla em inglês), de Massachusetts, pela resolução da conjectura de Poincaré, um dos maiores mistérios da matemática, informou a imprensa russa.

Tenho vontade de fazer um filme sobre esse matemático russo, sobre a sua história, suas loucuras aflorando no desejo de solucionar o enigma proposto, debruçado em páginas e páginas de números. Números que formavam pinturas abstratas quando enchiam a tela do computador, das máquinas eletrônicas e de tudo aquilo que podia envolvê-lo nos seus estudos sem fim vividos nas noites frias da velha Rússia. Afastando-me no tempo posso vê-lo como um personagem de Eisenstein ou mesmo de Gorki, frio, duro, curtido pela neve rigorosa das estepes russas.

Há informações de que Perelman largou a matemática em 2006 e vive em um apartamento com sua mãe, em São Petersburgo. Segundo vizinhos, o apartamento seria infestado de baratas. Perelman, tido com excêntrico e recluso, solucionou a conjectura em artigos publicados na internet nos anos de 2002 e 2003.

O fato de ter largado de mão a matemática, é que, depois da descoberta, os números passaram a não lhe dizer mais nada. Ele fecha o seu ciclo de vida, de luz, de criação, de tudo enfim, ao fim da resolução de uma conjectura, lembro-me do mesmo teorema proposto por Pasolini: quando se parte de um mundo mais sedo do que o esperado, nada mais passa então a lhe interessar. Nada mesmo. Surge em um último lampejo o caos; rompe o vazio; retorna-se ao leito; apagam-se as luzes; encerra-se a cena.

A conjectura de Poincaré foi formulada em 1904 pelo matemático francês Henri Poincaré. É de difícil compreensão para leigos, mas fundamental para se compreender formas tridimensionais. (... e as forças contidas nelas)

Pelo cinema, desconhecendo física, matemática, astronomia, eu posso até dizer, que todas as artes são desenvolvidas, um pouco, a partir dessa conjectura. Qual é a forma de se criar um filme. Um filme é aberto ou é fechado? Sabemos, por exemplo, que se a densidade da matéria contida no Universo for suficientemente grande, então ele deverá ser um espaço fechado, limitado; caso contrário, deverá ser um espaço aberto, sem limite. Não é extraordinária está relação entre a matemática e o cinema?

Quando a solução do problema foi confirmada, em 2006, ele foi indicado para receber a Fields Medal - considerado o Nobel da matemática, mas recusou o prêmio. Na ocasião, o matemático afirmou que a medalha era irrelevante para ele e o fato de a solução estar correta já seria reconhecimento suficiente...

O grande artista ou o grande cientista, não precisa de prêmios, pois já os possui em sua totalidade dentro de si, mas de reconhecimento do seu trabalho, da sua contribuição ao universo da criação, para seguir propondo novos desafios ao solucionar enigmas de todas as linguagens apresentadas a ele. Qual é a forma do Universo? A Conjectura afirma que todo o espaço tridimensional fechado 'sem buracos' tem uma forma essencialmente esférica.

Esse não é o caso de nosso personagem saído de um livro de Dostoievski. Ele era magro quase esquelético e parecia não tomar banho. Que mistério esse gênio guardava para si mesmo? Nessa pergunta está todo enredo de um próximo filme ou quem sabe de um “Nuveau Roman”?

A conjectura de Poincaré era um dos sete desafios científicos do Milênio e foi o único deles solucionado até agora.

Vamos ter uma aula de matemática sobre a Conjectura?

Parte 01http://www.youtube.com/watch?v=dCplcXMOCVU




terça-feira, 30 de março de 2010

Homenagem

Neste dia em que finalizo minhas tarefas de assistir a todos os filmes concorrentes da Mostra do Filme Livre, eu quero agradecer ao jovem diretor da Mostra, o cineasta Guilherme Whitaker, que tem se mostrado um nobre, um diplomata na delicadeza do trato e no empenho em honrar os seus compromissos, coisa rara hoje em dia. A recuperação do meu filme 100% Brazileiro, para ser exibido com qualidade, tanto trabalho lhe deu, com tantas idas e vindas, latas e mais latas, só foi possível essa produção com muita paciência e abnegação, trabalho extra, foras de suas muitas atribulações, que ele conseguiu chegar com perfeição ao fim.

Fazer cinema é uma tarefa complicada, fazer cinema no Brasil então..., é um dilema.
Assim ando-me sentindo na posição de jurado da Mostra Livre de Cinema, que este ano homenageia os meus 35 anos de trabalhos realizados no cinema brasileiro.
Vi nesta jornada prazerosa, cheia de encontros e surpresas, a maior quantidade de filmes que já assisti de um fôlego só - trinta curtas e sete longas. Estou até agora espantado. Uma massa de cinema experimental, em todos os seus aspectos estéticos, bombardeou minha cabeça. Alguns deles têm produção requintada, outros, produção nenhuma. Mas, aos meus olhos, todos esses filmes têm uma mesma dinâmica: todos foram feitos por pessoas que amam o cinema como expressão máxima das suas criações artísticas. Eu, depois de quase tudo, posso dizer que para um filme existir como cinema, é preciso se sacrificar muitas vezes. Como então posso julgar, entre todos aqueles filmes ali presentes em suas singularidades, qual seria o melhor filme. Tarefa, a meu ver, quase impossível... O que posso dizer dos filmes que mais gostei, é que realmente o cinema de invenção, como diria o Jairo Ferreira, está influenciando de sobremaneira toda uma nova geração de cineastas, que novamente buscam, através de um variado leque de temas, a linguagem estética de um cinema 100% brasileiro.

Conheci e encontrei algumas pessoas interessantes, durante essas duas semanas, o Marcelo Ikeda, a Tetê Mattos, mas a presença do cineasta pernambucano Camilo Cavalcante, pelos salões do CCBB, foi uma surpresa inesperada de acontecer. Ele se apresentou com o seu linguajar coloquial, com a objetividade dos seus comentários, com a sua conversa cantada, sonora, às vezes engraçada, espirituosa e a sua visão política da arte. De cara me simpatizei e pude notar que antes do artista existe ali uma grande figura humana. A arte é o seu reflexo, por isso também humana e grande. Senti falta do Santeiro, do Noilton, do Mourão, mas para equilibrar grandes ausências, tive o prazer de me aproximar, um pouco mais, de outro pernambucano singular, transgressor de dogmas, o cineasta Claudio Assis, que por merecimento e grande luta pessoal, está produzindo o seu terceiro filme de longa-metragem. Salve Pernambuco!

domingo, 28 de março de 2010

CONVITE

A Mostra do Filme Livre 2010 homenageia e apresenta o cinema de José Sette

“Convidamos a todos que estiverem no Rio de Janeiro, nas datas a seguir, que disponibilizem um espaço-tempo para ver, rever e ter visões de um cinema artesão, diferente, descobridor de personagens ocultos na memória brasileira, feito em prosa e poesia, descrevendo e reconstruindo o caos”.

Todas as sessões acontecerão no Centro Cultural Banco do Brasil - RJRua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro. (21) 38082020

Data: 30 de Março (terça-feira) às 20.00 h no cinema
Bandalheira Infernal RJ, 1975, 80min, 35mm

Data: 31 de Março (quarta-feira) às 20.00 h no cinema
Um Filme 100% Brazileiro (cópia restaurada) MG, 1985, 90min, 35mm
E às 17h30min na sala de vídeo
A Janela do Caos MG, 2000, 28min, 35mm – Filme sobre o poeta Murilo Mendes
O Rei do Samba MG, 1999, 71min, DVD – Filme sobre o sambista Geraldo Pereira

Data: 01 de Abril (quinta-feira) às 18.00 h na sala de vídeo
Eu e os Anjos RJ, 2001, 30min, DVD – Filme sobre o Poeta Augusto dos Anjos
Paisagens Imaginárias MG, 2005, 58 min, DVD – Filme de dança e música em um mesmo palco - Isadora Duncam e John Cage.

Data: 02 de Abril (sexta-feira) às 18.00 h na sala de vídeo
Liberdade MG, 2005, 72min, DVD – Filme sobre a abertura política de 1982 com Tancredo Neves e os políticos mineiros.

Data: 03 de Abril (sábado) às 18.00 h na sala de vídeo
Labirinto de Pedra MG, 2003, 80min, DVD – Filme sobre o médico, escritor, memorialista Pedro Nava.

sábado, 27 de março de 2010

FOTOS

FOTOS E VÍDEO DE ANA SETTE NA MFL
video
Sette e Robert Fberg e Robertinho Silva


Lita Cerqueira
Ana Lucia e Lina
Sette e Guilherme

Algumas fotos de Verena Kael de alguns amigos na Mostra Livre de Cinema que continua acontecendo no CCBB até o dia sete de abril.


Urano e um amigo
Fabio Carvalho e Marcelo Ikeda
Ana,Gladys,Ro,Raquel
Guilherme,Leonardo,Emiliano,Rosemberg
Sette e Camilo Cavalcanti

quinta-feira, 25 de março de 2010

Mostra do Filme Livre

Jose Sette e Luiz Rosemberg na MFL - foto de Verena Kael

Tributo Para Quem Sabe Ver

Rosa de Luxemburgo, Noel Rosa, Guimarães Rosa,
Rosa dos ventos, Rose Berg (Man) de Ingrid, Rô(se-li-ne)
de todas as mulheres do planeta, do grande e do pequeno
prazer, do ser generoso e político, polêmico e poético,
construtor de palavras e textos cinematográficos,
que condensa em si, todas as metáforas do mundo.

Ver ti (gem) é coroar de rosas o inaudito, é maturar o pensamento em turbilhões de imagens conectadas ao dilema do ser Homem maiúsculo, existencial naquilo que de mais nobre tece o conhecimento da experiência, decifrando em suas reflexões as verdades e as mentiras, os vícios e as virtudes, de toda uma cultura, de toda uma geração, que deveria nortear os rumos das cabeças bem informadas, pensantes, destas terras brasileiras, de norte a sul, de leste a oeste, mas foram amordaçadas e subjugadas por serem inteligentes e transformadoras.

Vivendo fora do sistema, somos ainda presos pela ditadura do dinheiro, na disputa e no atropelo, que nestes tempos turbulentos, onde são abjetos os valores educacionais, onde paira supremo o ser mercantilistas, onde o belo, o que tem valor verdadeiro, são levados pela enxurrada, pelos monturos de um capitalismo predador e insaciável, deixamos soltos os inimigos que dominam os que pensam dominar a mídia e o conhecimento de poucos e de pinga querem a nossa história.

Nunca seremos perdoados? -“Perdoa-se tudo neste país,
menos a inteligência”, dizia meu amigo Sganzerla. Não
adianta reclamar, discutir, afirmar o que se precisa, o que
se deve fazer... - Para esses ais, nem um copo de água...
Grita-se nos gabinetes culturais de Brasília.

Gritamos de nossas trincheiras: - Lenine revele-se
novamente, eles já estão ficando loucos...

Luiz Rosemberg Filho conhecê-lo é dividi-lo; dividi-lo é
embaralhar as partes e criar significados; significados que
decifram ícones, objetos do significante de cada imagem,
elaborada por uma inteligência privilegiada; vista como
uma criança inocente onde cada parte, onde a escrita da
vida, do devenir, é sempre o que não tem nome,
porque se oculta no mistério do seu próprio personagem.

Vê-lo é estar contigo. Devorá-lo é sempre uma surpresa.
Entende-lo é sem dúvida um presente dos deuses.

Vi e me lembro dos seus dois longas-metragens (Assuntina e Crônicas). São filmes que você dirigiu que não se fazem mais, mas muitas das cenas e sequências não me saem da memória, na certa devo tê-lo citado em todos os meus filmes (preciso vê-los novamente).

Sei perfeitamente que sem a sua anuência
eu não seria lembrado pelos jovens realizadores da
MostraLivredeCinema. Sei perfeitamente que sem a sua defesa
intransigente o meu filme 100% brasileiro não seria premiado no
Rio de Janeiro. Sei perfeitamente de sua amizade, mas acima de
tudo de sua verdade, quando gosta e escreve sobre o meu
trabalho, a minha obra. Sei de sua cultura cinematográfica e
geral, pois uma não vive sem a outra, e me sinto orgulhoso e
até posso dizer realizado sendo referenciado por você.

É um privilégio é tê-lo como amigo. Por isso, mesmo depois de assistir aos dois curtas-metragens seus pela internet, não consigo me distanciar do tudo dito, de todos os sentimentos que nutrem o meu texto crítico.

Assim peço que me espere um pouco mais e me desculpe o
tempo, pois lhe darei em breve o que sinto e o que vejo em
seu virtuoso cinema, onde a poesia e a filosofia se
unem para criar uma obra instigante, singular, panfletária
e transformadora.

terça-feira, 23 de março de 2010

Mostra do Filme Livre

Jose Sette e Claudio Assis durante a Mostra do Filme Livre - foto Verena Kael
Continuação do texto de Marcelo Ikeda sobre Jose Sette

Apesar da boa repercussão provocada pela exibição no Festival de Berlim e da premiação no Rio Cine Festival (que hoje se tornou o Festival do Rio), Um Filme 100% Brazileiro teve precário lançamento, distribuído pela Embrafilme, já em processo de decadência econômica. Com a recessão do mercado cinematográfico com os anos da Era Collor, Sette não conseguiu viabilizar seu próximo projeto, um filme sobre Teófilo Otoni. Apenas no final dos anos 1990 Sette consegue retomar sua produção. Encantamento de Camargo Guarnieri é um documentário sobre o compositor e maestro de música erudita que, assim como Goeldi, não se baseia em apresentar informações biográficas para o espectador, e sim em promover um mergulho na obra do artista. Desse modo, Sette estrutura seu filme em três movimentos, combinando aspectos que relacionam música, artes plásticas e dança, extrapolando a obra do compositor para evocar a integração entre diferentes formas de manifestação artística.
Nesse período, Sette conseguiu retomar um ritmo de produção, beneficiado pelos editais de apoio à cultura em Juiz de Fora (Lei Murilo Mendes). No média-metragem A Janela do Caos, Sette retrata o universo cotidiano de criação do escritor Murilo Mendes, combinando aspectos ficcionais e documentais, lidando com o difícil gênero do docudrama. Mesmo com poucos recursos, finaliza um novo longa: O Rei do Samba, sobre o sambista Geraldo Pereira. Inspirado pelas chanchadas brasileiras, Sette compõe um filme popular sobre um compositor popular: mulherengo, irreverente mas acima de tudo criativo, original, condenado talvez por amar demais. Recheado de cenas musicais, O Rei do Samba deixa de lado a montagem fragmentada, a agressividade irreverente de seus filmes anteriores, mas preenche de singela poesia o percurso desse esquecido compositor, integrando sua filmografia pela forma como combina ficção e documentário de maneira pouco programática.
Ainda em Juiz de Fora, Sette realiza um curta-metragem singular que, de diversas formas, sintetiza os caminhos percorridos por sua filmografia. Ver Tigem aborda o impacto sentido pelo artista plástico mineiro Arlindo Daibert após uma exibição de Um Corpo Que Cai (Vertigo), de Alfred Hitchcock. Mas como é possível documentar algo tão subjetivo como um sentimento interior, um arrepio de espírito? Para Sette isso se torna possível apenas se mergulharmos no universo criativo do próprio artista, ou seja, a obra de Hitchcock desperta no artista o desejo de se aventurar por lugares desconhecidos no interior de si mesmo, inspirando a realização de uma nova obra. Em paralelo, por sua vez, o próprio Sette se inspira a criar, a partir das relações provocadas por Hitchcock e Daibert, expressas no próprio filme que está sendo realizado. Esse círculo de relações aponta para um novo campo: que o próprio espectador, através desse cruzamento de possibilidades, também possa descobrir os seus próprios caminhos e quiçá se inspire para realizar novas e novas obras a partir de seu olhar. É nessa singularidade da imbricação de caminhos entre o experimental, o documentário e a ficção, que Ver Tigem se revela não só uma homenagem à cinefilia (e Um Corpo Que Cai não deixa de ser um filme expressionista, a eterna fascinação cinematográfica de Sette...), mas ao próprio processo íntimo entre o espectador e a obra, como base de reflexão sobre a natureza do processo artístico. Ou ainda, um bom artista é, acima de tudo, um bom espectador: aquele que sente uma obra e a modifica, mediante o próprio processo criativo. Nesse sentido, é possível ver Ver Tigem como uma nova abordagem das propostas estéticas já apontadas em Goeldi.
Já neste século, José Sette, cada vez mais afastado dos editais e das leis de incentivo, que dominam o modo oficialesco de se produzir cinema no Brasil, prossegue sua filmografia optando pelo vídeo. Prossegue a investigação sobre personagens marcantes da vida cultural mineira com um novo “doc-fic”: Labirinto de Pedra, sobre o escritor Pedro Nava. A partir de sua caminhada derradeira até a Glória, onde veio a se matar, o escritor revê momentos marcantes de sua vida, como o encontro com os escritores modernistas. Continuando suas pesquisas estéticas, Labirinto de Pedra é um filme ficcional centrado na documentação de uma personalidade. No entanto, Sette não se prende aos acontecimentos nucleares da vida e obra de Nava, mas, ao contrário, oferece um passeio prosaico, como se buscasse retratar um cotidiano afetivo relacionado ao universo da criação. Por isso, como em outros filmes, Sette apresenta sua preocupação em articular a presença de um universo cultural, em que as diversas manifestações artísticas se integram e dialogam, combinando o espírito modernista da literatura, as artes plásticas, a dança e a música, entendendo que todas integram um mesmo sentimento de ebulição criativa. Nesse sentido, uma das mais belas cenas do cinema recente de Sette acontece num sarau, em que os escritores modernistas se encontram: para representar os papéis dos “antigos modernistas”, Sette promoveu uma homenagem aos “novos modernistas do cinema mineiro”, chamando cineastas e críticos como Paulo Augusto Gomes, Geraldo Veloso, Ataídes Braga, Fábio Carvalho e Isabel Lacerda, entre outros, enquanto assistem a um espetáculo de dança coreografado por Izabel Costa.
Izabel Costa, por sua vez, motivou a realização de Paisagens Imaginárias. Apesar da simplicidade de sua realização (o média-metragem é apresentado como um “registro de palco” de um espetáculo de Izabel), Sette evidencia a preocupação em integrar dança (o espetáculo de Izabel Costa inspirado na coreografia de Isadora Duncan), música (a composição de John Cage), artes plásticas (o belo cenário elaborado por Waltércio Caldas) e o teatro (a filmagem do palco), como se o cinema (o ato do registro), como um “ponto de encontro” dessas diversas tendências, pudesse servir como um catalisador de novos processos criativos. Nessa mesma linha, Eu e os Anjos une a literatura de Augusto dos Anjos ao teatro, através da peça que Kimura Schetino encena sobre o “maldito” poeta popular, combinando diversos tipos de material, como a filmagem do espetáculo, depoimentos de poetas brasileiros contemporâneos e inusitadas cenas do cotidiano, como nuvens e passeios de bicicleta por um cemitério.
Até que, finalmente, chegamos a Amaxon, longa-metragem recém-finalizado, cuja primeira exibição em festivais a Mostra do Filme Livre tem o orgulho de promover.
Amaxon insere um tom intimista, um tanto atípico à filmografia de Sette, quase um monólogo interior de uma escritora que revê a sua vida. Ainda que Vera Barroso Leite naturalmente ofereça ao filme um tom expansivo, próprio à força de sua presença em cena, sua personagem Laura navega entre os fantasmas do passado e sente os sintomas da solidão. Numa certa perspectiva, Amaxon é sobre um processo de resistência: a necessidade de permanecer criando como antídoto contra a solidão, ou ainda, a luta da palavra contra o silêncio. Laura não deixa de ser uma espécie de alter ego do próprio Sette, reforçado pelo fato de que boa parte das imagens a que Laura assiste é dos próprios filmes de Sette, alguns deles inacabados. Desiludido diante de um contínuo isolamento, Sette busca forças para criar... criando. Nada mais coerente para um cineasta 100% brazileiro.

sábado, 20 de março de 2010

Mostra do Filme Livre no CCBB

José Sette homenageado Jose Sette durante as filmagens de AMAXON
Exibição dos longas, curtas e pré-estréia de AMAXON, além de debate e etc.

Um cineasta 100% brazileiro, por Marcelo Ikeda
A filmografia de José Sette sempre esteve associada a uma busca não apenas por temas brasileiros mas essencialmente por um modo brasileiro de retratá-los. Nascido em Ponte Nova, município de Minas Gerais, Sette conseguiu driblar a influência do pai, político que chegou a ser eleito prefeito de sua cidade natal, para viver de cinema. Apesar de ter sua carreira cinematográfica ligada a Minas Gerais, Sette iniciou-se no Rio de Janeiro, quando teve contato com os filmes do cinema marginal. Após um breve documentário rodado na Bahia sobre capoeiristas (Cidade da Bahia), que serviu como um “curso intensivo” sobre a prática cinematográfica, Sette de pronto partiu para o longa-metragem, com Bandalheira Infernal, em 1976. O filme pode ser visto como uma espécie de catalogação pessoal da influência marcante do cinema marginal, como já mostra claramente sua primeira sequência: num clima de cinema expressionista, um personagem misterioso entra no “Cine Belair”, onde está sendo projetado o próprio filme. Uma certa vertente política pode ser especulada quando o diretor afirma que seu filme é sobre o Brasil da época: a “Direita” (o personagem de Pereio) perseguindo tenazmente a “Esquerda”, manca, fraca, debilitada. Mas, no fundo, essa é mais uma leitura implícita que explícita no filme, ou ainda, que não se espere o discurso político nos moldes do cinema novo, e sim o caos, o delírio, a fragmentação típica do “cinema de invenção”. Realizado sem roteiro, de improviso, praticamente sem grana e com uma equipe reduzida, a perseguição de Bandalheira , por um lado, retoma a fuga dos personagens de Bang Bang (Andrea Tonacci) e, por outro, incorpora elementos típicos dos filmes da Belair, como atores improvisando nas ruas da cidade entre os transeuntes (à la Sem Essa Aranha). Mas, entre essas influências, Sette exibe suas marcas pessoais, como a opção por uma grande angular que, em boa parte do filme, distorce as relações formais do enquadramento, como um prolongamento de sua opção estética pelo expressionismo. Mais de trinta anos após sua realização, Bandalheira Infernal permanece inquietamente atual, como comprova uma sequência de perseguição dentro de uma favela, cujo realismo cru desmascara tanto o romantismo de um Rio Quarenta Graus quanto o esteticismo publicitário de um Cidade de Deus.
Em seguida, José Sette realizou um conjunto de curtas-metragens, viabilizados por conta da Lei do Curta, que permitia a formação de um mercado específico para os filmes desse formato. Seu curta mais destacado é Um Sorriso Por Favor – O Mundo Gráfico de Goeldi, vencedor de prêmios no Festival de Brasília e selecionado para o prestigioso Festival de Oberhausen, na Alemanha, que ainda hoje permanece como a principal vitrine europeia de talentosos jovens cineastas. Goeldi revela a típica estratégia de José Sette em seus filmes sobre personalidades brasileiras: o que poderia ser mais um documentário didático, repleto de informações descritivas sobre a vida do escritor, o mais típico produto da Lei do Curta, é transformado por Sette num delírio audiovisual, ou ainda, num “poema cinefônico”, um mergulho cru, poético, radical no âmago da obra do artista e da materialidade de seu processo de criação, valorizado pela inventiva montagem de ninguém menos que Rogério Sganzerla. Falso documentário, Goeldi é, na verdade, um filme que utiliza o universo gráfico do artista como matéria-prima para a criação de um universo outro: a arte como amálgama que impulsiona o processo de criação, uma assimilação pessoal de influências para a geração de outras, novas obras. Não é à toa que, em sua parte final, Goeldi se revela um filme sobre o cinema, ou ainda, sobre as relações entre o expressionismo e o cinema, múltiplas, vivas, originais (por exemplo, O Cabinete do Doutor Caligari é visto como uma influência para O Ano Passado em Marienbad). Ou ainda, Sette define o cinema expressionista com uma frase que poderia se encaixar à perfeição para seus próprios filmes: “um cinema que não via, mas que tinha visões”.
Seu próximo projeto foi Um Filme 100% Brazileiro, em que Sette encontra definitivamente sua estética particular de moldar, a partir da ficção, o retrato de fatos documentais. Dessa vez, a base foi a chegada do poeta vanguardista francês (franco-suíço) Blaise Cendrars ao Brasil, na década de 1920 , quando travou contato com os artistas modernistas brasileiros. Mas a visão singular de Sette inverte o fenômeno da “aculturação” brasileira, ou ainda, da suposta “europeização” da cultura brasileira: ao contrário, é Cendrars que, fascinado pelas delícias paradisíacas do solo (e das carnes) brasileiro(as), descobre-se modernista. Sette recria a chegada de Cendrars no Rio de Janeiro em pleno Carnaval, numa sequência de abertura de enorme virtuosismo técnico. Como o próprio título anuncia, não houvepreocupação com um realismo descritivo: é como se todo o filme tivesse um ponto de vista narrativo essencialmente modernista, afim ao espírito vanguardista que envolve a essência desse contato. Para isso, é decisiva a escolha de Sette de representar Cendrars através de dois atores, como se a transformação de Cendrars, a partir do contato com o Brasil, fosse não apenas emocional, mas também física, a ponto de Sette optar por abandonar a deficiência física do escritor.
Em breve o texto completo!

sexta-feira, 19 de março de 2010

CONTO


Fui para o barco, mudei de roupa e comecei a receber as visitas dos marinheiros que eu havia contratado.
Em um carro, neste dia de sol, Julio e Mariana viajam em uma estrada a beira mar. Julio que está dirigindo fala com Mariana.
- E velho dá trabalho!
Demóstenes sentado na cadeira observa quando passam por ele dois personagens e também as suas sombras:
- Eu sou uma criança abandonada pela família...
Marcos pára de andar na sala e olha para o lado onde prostrado está Demóstenes.
- Para com isso homem!
Julio olha para o lado e fala com a sua acompanhante Mariana e assim, esquecendo de voltar o seu olhar para a estrada, quase provoca um desastre com outro carro que vinha em sentido contrário:
- O velho, eu posso chamá-lo assim? Ele tem um nome difícil! Demóstenes..., se precisa de remédio pra viver..., e remédio custa dinheiro... Como o seu filho vai cuidar dele? ... (o som forte de uma freada) Filho da puta! Viu o que aconteceu?...
O velho fica sentado na cadeira dormindo enquanto na sala estão os dois filhos. Ele acorda e fala alto e assustando Gabriel.
- O que vocês estão fazendo ai parados? Tenho fome!
Gabriel se aproxima do velho:
- Pai! Vou lhe fazer um sanduíche...
Marcos:
- Pede uma pizza pelo telefone que eu pago!
Gabriel, não lhe dá atenção e vai para a cozinha fazer o sanduíche.
Marcos vai atrás dele...
Marcos:
- Alem de tudo o velho não tem mais dinheiro... Quando eu estava vindo de Cabo Frio, passei ali na padaria do Manoel, que estava comemorando com seus amigos um dinheiro que ele ganhou de um estranho... Estavam todos bêbados, falavam alto e ouvi, com clareza, a conversa de seus vizinhos... Um dizia para o outro: - ...Também coitado, sua mulher fugiu com outro, muito mais jovem que ele e levou todas as suas economias...
Assim estava aquela pobre família. Vivendo o inferno de uma vida sem sentido. Imaginava eu aquela cena enquanto navegava pelo canal até o cais que ficava em frente do restaurante onde se comia, com voracidade, toda aquela carne vermelha. Ali, eu estava de frente para a cidade e poderia com mais facilidade contratar as pessoas que me ajudariam nesta minha missão.
O dia amanhecia quando recebi a minha primeira visita. Tinha tirado a barba e colocado o meu paletó azul com a gravata amarela. Eu deveria mostrar naquele momento, com aquelas pessoas, que todo o negócio renderia um bom dinheiro e ficaríamos todos ricos.
No carro Julio, tenso, dirigindo, fala olhando fixo para a estrada agora mais movimentada:
- Você ainda não me disse o motivo desta nossa viagem. O que sei até agora não me deu nenhuma garantia. Embora você sendo uma mulher bonita, vou lhe dizer que o seu marido deve ser um pacote completo!
Mariana olha para Julio:
- Julio, não se preocupe com nada, não estamos sozinhos, estamos sendo acompanhados por pessoas que você não conhece. Demóstenes, hoje debilitado, foi e sempre será um ponto de luz no meio dessa escuridão e vou lhe dizer mais: ele ainda é, pra mim, um homem muito bonito... Ele só tem 56 anos!
Júlio olha para Mariana:
- A senhora vai me desculpar, mas para continuar a viagem eu preciso saber um pouco mais a respeito de toda essa história... O que aconteceu com ele? E por que agora ele está assim?
Mariana:
- Julio... Tudo tem o seu tempo... A vida de Demóstenes é uma longa história.

quinta-feira, 18 de março de 2010

CONTO

Poderia ter vindo para Cabo Frio ou Búzios de helicóptero, mas distanciaria o meu objetivo, chamaria muito a atenção para minha pessoa. Pois assim, despercebido, incógnito, atordoado, eu estava chegando à rodoviária e ainda não havia conseguido arquitetar os meus primeiros passos, pois a viagem foi um porre e o meu vizinho não parava de falar.
O ônibus freou bruscamente no sinal vermelho. Um pânico assaltou os passageiros, o motorista não conseguia abrir a porta quando uma fumaça começou a sair do motor que ficava atrás do veiculo. Antes de o fogo começar, eu, que sou magrinho, pulei a janela passando por cima do meu gordo vizinho. O fogo tomou conta do ônibus lotado e não deu tempo de ninguém sair. Para quem queria ficar no anonimato, nada mais espetacular que uma grande tragédia urbana. Com a confusão formada, pessoas correndo, tentando abrir a porta emperrada, eu consegui rapidamente sair despercebido, nada se podia fazer. Só parei de andar quando os gritos de horror das pessoas cessaram com uma grande explosão. Quando dei por mim estava de frente para o grande canal que nutria de água salgada do mar aberto a lagoa morta do Araruama. Procurei um lugar para almoçar e encontrei um restaurante que servia uma carne, uma picanha, de primeira e vi que todos ali, ao lado do grande canal, repleto de barquinhos e de pescadores com seus balaios recheados de iguarias, preferiam o sangue quente de uma carne vermelha. Que contradição! Não me importei e pedi também aquela picanha mal passada que era trazida por um garçom alto e gordo, sem crise, até a minha mesa. Foi o garçom que me deu as primeiras informações sobre a cidade e que me indicou o marinheiro que arrumaria um barco em bom estado para eu realizar os meus propósitos. Acho que o gordo garçom simpático foi com a minha cara de andrógino, o que já era um bom começo. Comi muito pouco, tomei uma cerveja, saí e fui procurar o marinheiro indicado no cais. As águas do canal estavam agitadas e sujas quando me aproximei do velho pescador.
- Boa tarde, meu senhor! Venho aqui indicado...
- Já sei! Ele acabou de me telefonar e me disse que você é exigente... Venha ver! Eu tenho aquilo que vai lhe agradar.
Comprei o barco, levei meus pertences para dentro e pedi para o marinheiro encher o tanque de combustível e as caixas com água doce enquanto eu ia comprar alguns mantimentos.
Eu tinha um endereço, aqui nesta cidade, onde morava uma pessoa que eu precisava ver antes de embarcar. Quando cheguei na rua indicada a casa estava vazia. Fui até a padaria que havia na esquina e procurei pelo balconista, que na certa morava nas redondezas.
- Boa tarde, meu senhor! Venho aqui para saber do paradeiro dos moradores da casa que esta ali fechada...
- Não mora ninguém ali meu senhor...
Retirei do bolso uma nota de 100 reais e mostrei ao pobre padeiro.
- Preciso saber onde foram morar os antigos moradores dessa residência!
O padeiro pega os cem reais e da um sorriso.
- Eles foram embora daqui a mais ou menos um mês atrás. Parece que o professor adoeceu e os filhos o levaram para tratamento...
- Onde estão agora? Perguntei mostrando outra nota de cem que ele pegou com um sorriso aberto.
- Foram morar na cidade de Búzios...
- Só para ter certeza você poderia me dizer o nome deles?
- Por mais duas dessas notas eu lhe digo tudo que sei.
- Meu amigo, eu só não conhecia aquela família, mas sabia dela muito mais do que eu poderia falar: Começo pelo professor Demóstenes, 56 anos – pai de Gabriel e Marcos. Gabriel, 18 anos – filho da sua segunda mulher. Marcos, 28 anos – filho da sua primeira mulher (falecida). Mariana, uma linda mulher de 34 anos – mãe de Gabriel e atual mulher de Demóstenes e por todos nós cobiçada.
Eu podia observar a cena a seguir enquanto navegava no canal:
Na sala de uma casa da classe média alta, o velho Demóstenes está sentado em uma cadeira de balanço:
- Eu sou uma criança e preciso que alguém cuide de mim...
Tudo mentira e falsidade. Marcos está andando na sala da casa como se falasse com alguém.
- Quem vai querer cuidar de um velho de sessenta anos que se acha uma criança?

quarta-feira, 17 de março de 2010

CONTO

Um ônibus em péssimo estado segue em alta velocidade pela estrada a beira da grande lagoa.
- Ora, porra! O que eu fiz da minha vida?...
Perguntava-me, enquanto observava a água poluída da lagoa de Araruama, que faz tempo era transparente e pura quando por aqui aportei pela primeira vez.
-Todos os irresponsáveis predadores que administraram esses vilarejos que circundam esse antigo paraíso aquático, deveriam ser presos e ou pagarem pelos crimes cometidos com o povo dessa região outrora aprazível... Que calor anda fazendo!
O ônibus passava lento pela estrada. Eu estava atrasado no meu horário de chegada, por causa da viagem movimentada e perigosa, a Cabo Frio. No caminho centenas de casas fechadas ou a venda, passavam pelas janelas do ônibus cheio e mal cheiroso. Verdadeiras e tristes cidades fantasmas.
- Quer dizer que esses idiotas conseguiram matar o turismo expulsando os frequentadores que movimentavam a economia desse balneário? Ou eles imaginavam que as pessoas não se importariam de encontrarem consigo mesma, boiando. entre umas e outras braçadas, nas águas salgadas, hoje fétidas, insalubre e de cor marrom, da lagoa antes cristalina?
Foi o que eu perguntei ao meu vizinho de poltrona que olhava atônito para os meus longos cabelos.
- A empresa que cuida de nossa água e do esgoto informou que a água esta própria para o banho e que obras de dragagem estão sendo feitas
– Meu amigo, você esta perdendo o seu tempo, aqui eles só se interessam por obras que possam trazer lucro imediato, político e financeiro, e é nessa disputa, nesta corrida do ouro negro que jorra no mar, que surgem os aproveitadores e os oportunistas, que de todas as maneiras, com auxílio da mídia, conseguem enganar a todos.
- Por um tempo! Respondi, sem muito entusiasmo.
- Até quando eles sofrerem na pele as feridas da sua ignorância política... Pensei alto.
Eu estava de saco-cheio, tinha perdido o emprego na cidade de São Paulo. Fui mandado embora pelo diretor da tevê onde eu já trabalhava a mais de 10 anos! Ali estava eu, só, em direção de uma pequena cidade paradisíaca, banhada pelo sol e pelo mar azul, onde não conhecia ninguém. Precisava passar por isso para tomar uma decisão definitiva na minha vida.
- Evolução ou morte! Esse é o caminho que eu procuro seguir...
- Então, o que você esta fazendo aqui neste lugar provinciano?
- Me desprovi do belo, do que podia ainda me encantar e parti para um mundo desconhecido...
Como vocês podem notar, pela foto acima, sou um ser andrógino, diferente, perdido, inusitado, que a pouco estava se esbaldando nas noites paulistanas de orgias incontáveis...
- Você veio a passeio ou a trabalho? Perguntou-me o vizinho de janela.
- Vim a trabalho, respondi.
Sempre fui precavido, nunca falo a verdade a um estranho. Deve ser herança dos ensinamentos do meu pai, um ativista do partido comunista, mas que viveu como um burguês. Primeiro foi diretor de novela na tevê, fez grandes sucessos. Ficou rico da noite pro dia. Depois da morte da minha mãe, em circunstâncias misteriosas, ele se tornou um empresário do ramo das pedras preciosas e passou a ser o maior exportador desse país.
- Que contradição! Na juventude um revolucionário comunista e na meia idade um empresário capitalista...
Morreu atropelado me deixando uma fortuna incalculável. Mas nem sendo filho de quem eu sou, eu não consegui, com esse meu jeito diferente de ser, ficar nos quadros da poderosa emissora.
- Gosto de trabalhar, mas posso ficar a toa e ninguém manda em mim. Gosto de criticar o que não é certo. Não tenho compromisso com nada. Sempre falo o que me é dado falar. Faço o que quero, tentando, é claro, não incomodar ninguém. Mas se incomodar alguém, o que eu posso fazer? ... Ah sim! Vocês querem saber o meu nome? ... Podem me chamar de ninguém, ou de Boquinha de Anjo se vocês preferirem. E já vou dizendo logo de pronto: mesmo com esta cara, eu gosto mesmo é de mulher e as mulheres me adoram nesse meu jeito andrógino de ser.

segunda-feira, 15 de março de 2010

CRITICA

UM FILME DE MARCELO IKEDA COM CRISTINA ACHÉ
Acabei de assistir o filme de Marcelo Ikeda, um jovem economista,
agora professor, que faz também cinema e me senti na obrigação de
tecer alguns comentários sobre esses 25 minutos
que ele me presenteou. Se não fosse por detalhes, que julgo importantes, eu consideraria “Carta de Um Jovem Suicida” uma obra prima.
Primeiro o filme é de quem sabe o que quer com o fazer cinema. É precioso na decomposição do espaço-tempo da ação dramática e poético na dramaturgia da interpretação da atriz, mãe conformista em uma terra de cegos de espíritos e pobres de prazer. O conhecimento das artes plásticas no enquadramento do ponto de leitura ou da memória, chega a ser clássico. A trilha, a maneira
de Cage, traz-nos a voz do silêncio, com toda a sua música realçando o movimento da imagem muda, em toda a dramaticidade do adeus final e dos incompreendidos apelos entre o filho e a mãe, entre o ser e o não ser.
Ikeda mostra o talento de quem sabe escrever cinema na
criação cruel do texto da carta do filho rebelde, que é atual, verossímil e
pertinente ao suicida no contexto dramático da história.
O movimento sutil da câmera, no extraordinário e estudado plano-sequência,
identifica, por fim, o grande artista das imagens que nele habita.
O que me incomoda no filme é o ator suicida estar de cueca, ou calção, deitado
na cama – ou ele deveria estar nu ou totalmente de roupa. O retorno dele a ação é,
a meu ver, totalmente desnecessário, pois divide o tempo da memória na ação
poética do movimento sem fim, quase pendular, do plano-sequência.
O texto off da carta deveria ter iniciado quase no começo do filme – provocando um maior suspense e valorizando a sua leitura, se não, como esta, a voz deveria ser a masculina do suicida – com, é claro, uma maior interpretação dramática.
No mais, raramente eu vejo um filme de média-metragem ficcional e descritivo feito com tanta sensibilidade. Ikeda, isto é apenas o começo...

sexta-feira, 12 de março de 2010

CONVITE CINEMATOGRÁFICO

“Convido a todos que estiverem no Rio de Janeiro, nas datas a seguir, que disponibilizem um espaço-tempo para ver, rever e ter visões de um cinema diferente, descobridor de personagens ocultos na memória brasileira, feito em prosa e poesia, descrevendo e reconstruindo o caos”.

A Mostra do Filme Livre 2010 homenageia e apresenta o cinema de José Sette.

Imperdível!
Serão exibidos 12 trabalhos do cineasta, onde se destacam o lançamento de AMAXON, a cópia recuperada de UM FILME 100%BRAZILEIRO e do filme BANDALHEIRA INFERNAL.

Todas as sessões acontecerão no Centro Cultural Banco do Brasil - RJRua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro. (21) 38082020

Obs.: senhas ½ hora antes

Data: 23 de Março às 17.00 h no cinema

Um Sorriso Por Favor – O Mundo Gráfico de Goeldi
MG, 1981, 21min, 35mm
Direção e Fotografia: José Sette. Roteiro e Produção: José Sette e Mario Drumond. Edição: Rogério Sganzerla. Elenco: Ronaldo Brandão, Eduardo Rodrigues, Lina Continentino.

Ver Tigem
MG, 2002, 8min, 35mm
Direção, Produção, Roteiro, Fotografia e Edição: José Sette.

Encantamento de Camargo Guarnieri
MG, 1999, 37min, 35mm
Direção e Fotografia: José Sette. Produção: Sylvio Lanna. Roteiro: José Sette e Mario Drumond. Montagem: Marta Luz.

Data: 23 de Março às 20.00 h no cinema

AMAXON (primeira exibição)
RJ, 2010, 86min, Beta Digital
Direção, Roteiro e Edição: José Sette. Elenco: Vera Barreto Leite, Otávio III. Narração de Ava Rocha. Produção Ana Sette – Fotografia Marcelo Pegado – Trilha Sonora Emiliano Sette e Jose Luiz Vieira. Participação Especial: Paula Vilaça, Ligia Duran, Guará Rodrigues e Waly Salomão.

Data: 30 de Março às 20.00 h no cinema

Bandalheira Infernal
RJ, 1975, 80min, 35mm
Direção, Produção e Roteiro: José Sette. Fotografia: Toni Nogueira. Elenco: Paulo César Pereio, Suzana de Moraes, Rodrigo Santiago e Maria Gladys.

Data: 31 de Março às 20.00 h no cinema

Um Filme 100% Brazileiro (cópia restaurada)
MG, 1985, 90min, 35mm
Direção, Produção, Roteiro e Fotografia: José Sette. Produção: Marcus Lage. Produção executiva: Tarcísio Vidigal. Montagem: José Tavares de Barros. Elenco: Paulo César Pereio, Odete Lara, Wilson Grey e Maria Gladys.

Data: 31 de Março às 17h 30min na sala de vídeo

A Janela do Caos
MG, 2000, 28min, 35mm
Direção, Produção e Roteiro: José Sette. Fotografia: Mauro Pianta. Edição: Damião Lopes.

O Rei do Samba
MG, 1999, 71min, DVD
Direção e Produção: José Sette. Roteiro: José Sette e Reis de Minas. Fotografia: Mauro Pianta. Edição: Papaulo Martins. Elenco: Gérson Rosa e Rosana Silva.

Data: 01 de Abril as 18.00 h na sala de vídeo

Eu e os Anjos
RJ, 2001, 30min, DVD
Direção, Roteiro e Edição: José Sette. Fotografia e camera: Tamur Aimara, Guga Barros e Caio Caravelli. Elenco: Kimura Schettino e depoimentos de Ferreira Gular, Ledo Ivo, Ivan Junqueira e Alexei Bueno.

Paisagens Imaginárias
MG, 2005, 58 min, DVD
Direção, Fotografia e Edição: José Sette. Roteiro e Produção: Mario Drumond. Elenco: Bailarina Izabel Costa e a pianista Ana Terra.
Data: 03 de Abril às 18.00 h na sala de vídeo

Liberdade
MG, 2005, 72min, DVD
Direção e Edição: José Sette. Roteiro e Produção: José Sette e Mario Drumond. Elenco: Ronaldo Brandão e Tonico Mercador.

Data: 04 de Abril às 18.00 h na sala de vídeo

Labirinto de Pedra
MG, 2003, 80min, DVD
Direção, Roteiro e Edição: José Sette. Produção: Maria Bitarello. Fotografia: Felipe Hutter. Elenco: Natálio Luz e participação especial de Maria Gladys.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Novamente um conto

As Três Raças Tristes No País Do Futuro

Uma metáfora brasileira

O mar e a floresta.

Composição musical

América sol
América sal
América só

Nheengatu caraíba
Acoaba potacatu
Ecopucu morubixaba...

Brasil 1500

Cenas das caravelas portuguesas no filme “O Descobrimento do Brasil” de Humberto Mauro. Música de Villa Lobos.

A festa dionisíaca e teatral do primeiro encontro das Índias com os portugueses.

- A meia légua da terra alguns homens andavam pela praia. Eram pardos, todos nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha. Uma delas era toda tingida, de baixo a cima de vermelho, e certo era tão bem feita e tão redonda, e sua vergonha (que ela não tinha) tão graciosa, que muitas mulheres da nossa terra, vendo-lhe tais feições, fizera vergonha, por não terem a sua como ela.

O Paraíso.

Os brancos portugueses com as pardas índias
O desembarque dos Padres Jesuítas

O Trágico

Na praia um padre jesuíta carrega uma grande cruz feita de madeira.
Na mata um índio carrega a sua borduna.
Da praia, entrando na mata, caminha o padre com a cruz.
Na mata o índio aproxima-se da praia e observa o movimento dos portugueses.
O jesuíta vê o índio.
O índio vê o Jesuíta.
O Jesuíta mostra a cruz.
O índio vê a cruz e mostra a sua borduna.
O Jesuíta se aproximando vê a borduna e mostra novamente a cruz.
O índio mostra agressivamente a sua borduna.
O Jesuíta levanta a cruz ao céu mostrando ao índio a sua redenção.
O índio levanta a borduna ao céu e, com precisão e força no seu golpe, ataca o Jesuíta na cabeça. O mártir jesuíta cai sobre a cruz desfalecido.
O índio corre na mata.
O Jesuíta gravemente ferido tenta se levantar, não consegue e esticando o braço, numa cena dramática, com a mão aberta, trêmula, em direção do céu, o padre ensangüentado pede pela vida do índio dizendo: - perdoa-lhe meu pai, ele não sabe o que fez...

As armas portuguesas cortam, dilaceram e matam o índio.
Os índios fogem na mata. Os mosqueteiros cospem fogo atrás.
Índios acorrentados. Escravos dolentes.

A mata atlântica.

Anchieta escreve seus versos na areia e depois levita na mata.

Os bandeirantes cortam as montanhas de Minas.

- Brasil! Terra do futuro! Do futuro das grandezas! O manto verde que te cobre, perde-se no infinito...

O manto verde das montanhas.

O amarelo do ouro, o verde das esmeraldas, o negro do ferro.
As velhas cidades e o barroco das artes.
O primeiro povoado brasileiro. A miscigenação das três raças tristes.

- As pedras sagradas; as montanhas e as serras; o ouro; as flores e os frutos milagrosos da mata; as esmeraldas; as cachoeiras; os rios, lagoas e toda a beleza natural deste paraíso e seus habitantes - os homens - depois de cem anos de civilização, já mostram as feridas do inenarrável progresso a que foram, a força, submetidos...

Navio Negreiro!
Escravos acorrentados.
O chicote, o sofrimento e a morte.

Composição musical

Refrão
QuilombolaZumbiQuilombo
ZumbiGangaZumbaZumbi

No ferro e na chibata.
Morto o índio preguiçoso
Suas riquezas escondidas

De ouro e da prata
Véio nêgo musculoso
Nesta terra maldita

Numa escravidão vergonhosa
300 anos se passaram
Um espinho se fez rosa
Quando Zumbi encontraram

Fugiam para a Liberdade
chegaram a Palmares
onde os quilombos cresciam

Em Pernambuco, mais da metade
ficaram com Zumbi, era tarde
Ganga Zumba e a paz morriam

Ó Liberdade!

O mulato Antônio Soares
Encontrou o nêgo solitário zanzando na mata
e matou, assim, sem piedade,
a facadas, salvo engano,
O Zumbi dos Palmares.

A cana de açúcar. O Engenho. Os portugueses matam os negros que fugiam. O negro no trabalho dos engenhos. O Batuque. Macumba. Terreiro. Despacho.

O padre jesuíta pregando aos escravos de uma plantação de cana.

- Sois imitadores de Cristo porque padeceis em um modo muito semelhante o que o mesmo senhor padeceu na sua cruz e em toda a sua paixão... A paixão de Cristo parte foi de noite sem dormir, parte de dia sem descansar... Cristo despido e vós despidos;

Reportagem mostra a pobreza atual em que vive o povo brasileiro.

- Cristo sem comer e vós famintos. Cristo em tudo maltratado e vós maltratados em tudo. Os ferros, as prisões, os açoites, as chagas, os nomes afrontosos, de tudo isso se compõe a vossa imitação

As montanhas das Minas Gerais.
Ouro Preto e as cidades históricas.

As imagens seguem em parte a letra da música.

Composição musical

O Romanceiro da Inconfidência de Cecília Meireles.

Atrás de portas fechadas,
à luz de velas acesas,
entre sigilo e espionagem
acontece a Inconfidência.
Liberdade, ainda que tarde
ouve-se em redor da mesa.
E a bandeira já esta viva
e sobe na noite imensa.
E os seus tristes inventores
Já são réus pois se atreveram
a falar em liberdade.
Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda.

Tiradentes e a Inconfidência mineira.
Aleijadinho - Congonhas – Passos.
A Paixão de Cristo com figuras em tamanho natural.

Cena do Julgamento de Tiradentes.
Na corte a sentença do Juiz.

- Condenamos o alferes Joaquim da Silva Xavier que seja conduzido pelas ruas públicas ao local da forca, e nela morra morte natural, para sempre, e que, depois de morto, lhe seja cortada a cabeça e levada a Vila Rica, aonde, em lugar mais público dela, seja pregada em um poste alto, até que o tempo a consuma e o seu corpo será dividido em quatro quartos e pregados em poste pelo caminho de Minas... Declaro o réu infame, e seus filhos e seus netos, e sua casa será arrasada e salgada, para que nunca no chão se edifique...

As fazendas coloniais.
As plantações de café.

Composição musical

- O Brasil é o inferno dos negros. Purgatório dos brancos. Paraíso das mulatas.

Casa Grande e a Senzala.
O branco brasileiro-português faz amor com a mulher negra escrava-africana.

O quadro de Pedro Américo do grito da Independência compõe a cena.
D. Pedro estava sentado a sombra de uma grande árvore. Ao seu lado estava o Padre Belquior e mais atrás, distante dos dois, alguns fazendeiros.

D. Pedro I : - Eles me perseguem, querem me deserdar.., me rebaixaram a mero delegado das cortes... O rei D.João me quer de volta a Portugal e ainda quer mandar prender o José Bonifácio...E a Igreja o que quer? O que pensa disso, Padre Belquior?
Padre: - Se Vossa Alteza não se faz rei do Brasil, será, prisioneiro das cortes portuguesas e talvez deserdado por elas. Não há outro caminho senão a Independência e a separação. É o que o povo quer. E a voz do povo é a voz da igreja.
D. Pedro I, levantando-se: - Pois se é isso que todos querem... De hoje em diante estão quebradas as nossas relações; nada mais quero do governo português e proclamo o Brasil para sempre separado de Portugal... Independência ou Morte (sussurrou baixinho).

Depois vem o assassinato de Joana Angélica de Jesus.

Na cena do assassinato dela os soldados, fieis a Portugal durante a luta pela Independência, entram no convento a procura do seu irmão, um patriota inflamado, Joana Angélica, protegendo o arrombamento da sua clausura, é morta a golpes de baioneta.

No interior de uma Igreja barroca um padre e um homem conversam:

O homem: - Mas Padre, na Bahia a franciscana Joana Angélica de Jesus morreu em nome da Independência! O bajulador do Bonifácio está com o poder e com a amizade de D. Pedro. A repressão anda cada vez mais violenta. Estamos perdendo os nossos companheiros... Meu Deus será que foi para isso que aconteceu a Independência? Para que o conservadorismo, o latifúndio e o comércio exportador pudessem mandar sozinhos, sem os estrangeiros, nesta terra infeliz?! ... A nossa bandeira nacional deveria ser a da Inglaterra! Afinal não são os interesses britânicos que vão, com sua insaciável ganância, comandar a nossa economia? Os homens do governo só faltam falar inglês de tão contentes, pois agora já podem negociar diretamente com eles. É pra isso que o povo da Bahia tem ainda derramado o seu sangue?

O Padre: - Pare com isso, seu idiota! Se quiser fazer um comício sai na rua! O que você está pensando? Que a sua gritaria vai alterar alguma coisa? ...

D. Pedro, sentado no trono, recebe com sono varias pessoas e depois, levantando-se vagarosamente, fala para corte:

D.Pedro I: - O Governo, dado aos últimos acontecimentos, pois um fim a Confederação do Equador, que conspirava contra a união nacional tentando formar um estado independente, republicano, dentro do Brasil. Comandadas no mar pelo Almirante inglês Cochrane e na terra pelo Brigadeiro Francisco de Lima e Silva, as forças imperiais dominaram a cidade do Recife e o chefe rebelde republicano Paes de Andrade fugiu a bordo de um navio. Os outros revoltosos já foram presos e condenados...

Cenas que antecederam o fuzilamento de Frei Caneca.

Populares revoltados são presos. Torturas. Chibatadas. Ninguém consegue colocar a corda do enforcamento no pescoço do frei. Um soldado oferece com a mão, em cena dramática, a corda da forca para algumas pessoas que se recusam a pegá-la. Condena-se o frei ao fuzilamento.

Fuzilamento do Frei Caneca.

- Os castigos infligidos por D. Pedro aos rebeldes foram tão severos como os que costumavam ordenar as antigas autoridades portuguesas. De nada valeram os pedidos de clemência. A execução do Frei Caneca no Recife foi dramática: todos os carrascos se recusavam a enforcá-lo, como determinava a sentença da condenação, sendo necessário recorrer ao fuzilamento pela tropa.

Pessoas conversam em vários pontos da cidade.

A oposição se organizava em várias províncias. Diante da ameaça de uma guerra civil, aconselhado pelos ingleses, D. Pedro sai com sua família do Brasil para Portugal e no seu lugar deixa o príncipe D. Pedro de cinco anos sob a tutela de José Bonifácio de Andrade e Silva.

A Revolução Liberal de 1842.

Cena do deputado Teófilo Ottoni, saindo de sua casa no Rio de Janeiro, deixando a mulher grávida, na calada da noite, montado em sua besta Montanha, disfarçado com um grande chapéu, sai na direção das Minas Gerais.
Teófilo Ottoni se aproxima dos dois soldados que guardam uma velha ponte de madeira mostrando o seu passaporte. Enquanto os soldados olham para o documento, ele, de súbito, esporeia violentamente o animal, lhes solta à rédea, e investe num galope, frenético e furioso, através da ponte intransponível que corta o rio Paraibuna aos gritos de Viva a revolução! Viva a república! E, ao se encontrar com os revolucionários mineiros, espalha a falsa notícia heróica que São Paulo ainda resistia com bravura a revolução, conseguindo com uma mentira manter o espírito revolucionário dos mineiros.

Teófilo Ottoni e Davi Canabarro, General-em-chefe do exército farroupilha da república de Piratini.

Davi Canabarro: - Vai para dez anos que a República de Piratini, fora da comunhão do Império, se bate, galhardamente, no improviso dos entreveres. Agora o Governo Imperial, mais uma vez, oferece a paz aos farrapos. As negociações estão sendo conduzidas por Caxias. Queremos a paz com o reconhecimento da República de Piratini, mediante a federação com o Império. Se, porém, a condição for recusada, ofereço-lhe os melhores oficiais rio-grandenses para reacendermos a revolução na província de Minas. Sem embargo, antes do mais, o governo de Piratini quer ouvir a palavra do líder liberal, do mineiro Teófilo Ottoni.
Teófilo Ottoni: - A resolução é difícil. De um lado a tendência do meu espírito republicano e revolucionário. Do outro lado, a unidade nacional. Se me assusta uma guerra civil, mais me assusta ainda o aparcelamento do Brasil. Nunca fui separatista. Digo-lhe com lealdade: de Minas e de São Paulo não devem os farroupilhas esperar nenhum retorno revolucionário. E chamo-lhe a atenção para o fato de, no poder, os chefes liberais de Minas e São Paulo fazerem aos revolucionários do sul a mesma guerra que lhes movem os conservadores.

Pinturas, desenhos e retratos que retratam a Guerra do Paraguai.

A guerra do Paraguai foi a página mais sangrenta da história militar brasileira. D. Pedro II já havia completado 46 anos quando foi assinado o tratado de paz de uma guerra onde morreram quase meio milhão de pessoas. Do Paraguai, com uma população estimada em 600 mil habitantes, sobreviveram 200 mil dos quais 30 mil homens. O país foi aniquilado. Para o Brasil, que perdeu 100 mil homens nos campos de batalha, nenhuma recompensa de ordem material que compensasse tanto sacrifício e atos de heroísmo. Nesta guerra não houve vencedores, nem vencidos, só sobreviventes.

Com o fundo do último quadro retratado no plano anterior faz parte da sala onde dois senhores, um velho fazendeiro e um jovem burocrata conversam.

O Fazendeiro: - A Princesa libertou os escravos e os colocou aonde?
O Burocrata: - São milhares de negros vagando por ai sem rumo, sem casa, passando miséria. Que abolição é essa que retira do negro o direito a casa e a comida.
O Fazendeiro: - Mesmo sem liberdade, na minha fazenda, a senzala era ainda assim um abrigo e havia sempre algumas regalias, você sabe! ...
O Burocrata: - O Brasil vai de mal a pior. Não temos mais mão de obra barata, o salário nos cafezais está tornando a colheita, a cada safra, mais cara... E o Imperador está descansando em Petrópolis!
O Fazendeiro: - E esta reunião, nunca mais que acaba?
O Burocrata: - O Visconde não vai resistir à pressão dos militares heróis da guerra do Paraguai.

Sai por uma porta um militar dizendo:

Militar: - O Visconde de Ouro Preto telegrafou ao Imperador apresentando a sua renúncia!

Exterior de um pátio de uma guarnição militar.
Montado num cavalo está o marechal Deodoro da Fonseca.
O marechal retirando o boné da cabeça grita:

Marechal: - Viva a República!

O Visconde de Ouro Preto surge no pátio defrontando-se com o marechal, cavalo a cavalo, fazendo o Marechal desmontar do seu cavalo. O marechal vendo-o começa a falar em sua direção.

Marechal: - Nos pântanos do Paraguai, muitas vezes atolado, sacrifiquei minha saúde em benefício da pátria...
Ouro Preto: - Muito maior sacrifício faço eu, marechal, em ouvi-lo falar...
Marechal: - Vossa Excelência quis fazer do cadáver moral de sua pátria o pedestal de suas tristes glórias.
Ouro Preto: - Algum dia me fará justiça.
Marechal: - Justiça eu estou lhe fazendo agora! Considere-se preso!

Um lago de águas claras, onde se reflete o azul, a luz de um céu nordestino com poucas nuvens.

Cenas fantasmagóricas dos personagens passando pelos acontecimentos, pelas imagens relacionadas a Canudos. Todas elas são refletidas no espelho d”água.

- Aqui, nesta represa, aconteceu o massacre de Canudos - O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão! - A profecia de Antônio Conselheiro estava certa. A cidade destruída de Canudos com todos seus habitantes mortos já não mais existe. O sertão virou mar e o mar virou sertão no açude de Cocorobó.

Aqui, neste palco, onde morreram milhares de brasileiros, começa o Brasil moderno.

Brasil 1900

Na mata o lago. No monte Santo o céu azul. Nas nuvens escuras o relâmpago.
Subindo o monte Santo as três raças tristes: O índio, o branco e o negro.
O céu com o mar na mata.

Composição musical
Sousândrade em homenagem à república nascente

Novo Éden
Banidos do paraíso: olhando para trás,
D’espelho que se parte o relampagueamento
D’estampido seguido e que cegueira faz
Que d’alma a dor profunda apaga no momento,
Viram... um lago! ao longe ... um monte! ... nada mais.
Iam pensando: essa onda... o monte... o céu que estronda ...
Quem dessa água a desgraça? ... quem desse monte a graça ? ... traz...

Sobrados em ruas antigas do Rio de Janeiro.

O Clima é soturno.

No interior do sobrado varias pessoas participam de um velório.
O morto está deitado em sua cama cercado de personagens femininos que liam versos.
Alguém bate na porta.
Um dos presentes vai abri-la.
Surge do exterior um jovem poeta que entra para visitar o morto.
Todos olham para o desconhecido.

- Na noite em que faleceu Machado de Assis, quem penetrasse na vivenda do Poeta, em Laranjeiras, não acreditaria... No quarto do escritor um grupo de senhoras - ontem meninas que ele carregara nos braços carinhosos, hoje nobilíssimas mães de família - reliam-lhe antigos versos. No salão de visitas viam-se alguns discípulos dedicados. Não se compreendia que uma vida que tanto viveu outras vidas desaparecesse no meio de tamanha indiferença, num círculo limitadíssimo de corações amigos... Neste momento ouvem-se umas tímidas pancadas na porta principal. Abriram-na. Apareceu um adolescente de 18 anos no máximo.

Um dos presentes pergunta para o jovem que segue em passos lentos em direção da cama onde dorme o poeta adorado.

- Qual é o seu nome jovem poeta?

- É desnecessário dizê-lo: Aqui ninguém me conhece; e eu não conheço ninguém; não conheço nem o dono da casa, a não ser pelas leituras dos seus livros, que me encantam. Por isso ao ler nos jornais da tarde que o escritor se achava em estado gravíssimo tive o pensamento de visitá-lo. Relutei contra essa idéia, não havia quem me apresentasse, mas não logrei vencê-la. Desculpem-me! Portanto, se não me é dado ver o enfermo, dê-me notícias certas do seu estado.

O senhor que havia perguntado o seu nome pega no braço do jovem anônimo - vindo da noite – e o conduz ao quarto... Não disse uma palavra. Ajoelhou-se. Tomou a mão do mestre; beijou-a num belo gesto de carinho filial. Aconchegou-o depois de algum tempo ao peito. Levantou-se e sem dizer palavra, saiu. Na porta perguntaram-lhe novamente o nome... Ele diz: -.... Mas deve ficar anônimo.

Qualquer que seja o destino dessa criança, ela nunca mais subirá tanto na vida. Naquele momento o seu coração bateu sozinho pela alma de uma nacionalidade. Naquele meio segundo - no meio segundo em que ele estreitou o peito moribundo de Machado de Assis - aquele menino foi o maior homem de sua Terra.

Uma seleção de pinturas e artes gráficas dos principais artistas que participaram da Semana de Arte Moderna.

No palco do Teatro iluminado está Mário de Andrade, Villa Lobos, Oswaldo de Andrade, na platéia a elite paulista.

Música de Villa Lobos

- Cinco vezes o magricelo do Mário de Andrade tentou entrar no palco do Teatro Municipal e não achava coragem; cinco vezes o maestro Villa Lobos tentou iniciar a sua música e o seu calo doía; cinco vezes Oswaldo pediu silêncio e não foi atendido - a gritaria, a impaciência do público, a antropofagia dos famintos, a burguesia ensandecida com a explosão modernista, não se continha frente ao novo, a pateada perturbou o sarau, o sentimento conservador da elite paulista desejava enforcar um a um, nos finos assobios de suas vaias.

Revolução de 30.
Lampião, Maria Bonita e Corisco.
Getúlio e o Estado Novo.

- O Paraíso ainda não está preparado para o novo, a Europa, principalmente a França, a civilização vivia uma vibrátil e autêntica atmosfera vanguardista, aqui, com a economia baseada essencialmente na agricultura, sendo ainda o café o principal produto de exportação, com a crise do capital internacional - estocamos e queimamos toneladas de café - o Brasil pegava fogo. A crise se alastrava. Era a hora do novo, da transformação, da construção da justiça social, mas veio a guerra e a guerra se faz no Brasil de muitas maneiras...

Juscelino
Inauguração de Brasília
A Bossa Nova

- Finalmente, depois de muito tempo, os brasileiros acreditavam que agora o futuro estava chegando e que a felicidade, as oportunidades, estava sendo criadas para todos sem distinção. O País estava alegre, crescendo, o trabalho era respeitado e podia-se até sonhar com a utopia de Pindorama. Mas, de repente...

O Golpe Militar. A morte dos estudantes. Tortura. Prisões e atentados

A busca do ouro em Serra Pelada.

- Foram quase trinta anos de tristeza e sofrimento. Novamente a sociedade se organizou e passou a exigir os seus direitos perdidos, o Brasil precisava sair do subdesenvolvimento e finalmente emergir, com todo direito, como uma grande nação...

Grandes concentrações de gente nas praças. A festa da democracia.
As imagens jornalísticas seguem o texto:

- Miséria e banditismo! Atrocidades de todos os lados, da polícia e do ladrão! Mortes e mais mortes! Estas são as imagens das grandes cidades transformadas em metrópoles do medo e da covardia.

Cenas de Televisão - jornalismo.
O massacre de crianças na igreja da Candelária.
O Movimento dos sem terra.
A grande estrada corta a mata.
A destruição da floresta amazônica.
O suicídio dos índios, perdidos e sem identidade cultural, miseráveis pelas cidades e estradas de rodagem – terra dos sem fim

A educação dos miseráveis ou os miseráveis da educação?

Informará Luis da Câmera Cascudo:

- O Mar é o avô do homem.

- A Floresta Amazônica é a deusa da natureza.

O rio tortuoso leva o mar de merda em que tudo se transformou.

- Acabamos todos os dias com um pouco mais das florestas onde se escondem toda a beleza e a riqueza deste grande país. Paraíso tropical. 500 anos de civilização. A mata fechada, os homens, os índios, os sonhos, ainda resistem e às vezes, para nossa emoção, se confundem pequeninos, com o mar verde esmeralda da costa brasileira.

1000 anos depois do renascimento da esperança no país do futuro ainda não encontramos a deusa da liberdade cósmica que tantos de nós almejavam.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Robertinho Silva

Estou publicando aqui, neste blog, todos os textos curtos, quase contos, às vezes crônicas, entrevistas redesenhadas textualmente, sobre temas que julgo importantes para o conhecimento geral. Textos que tenho medo que se perca com o tempo. Assim, seguindo o impulso desse momento, publico hoje uma velha conversa que tivemos, Eu, Ana Sette, com o músico e percussionista Robertinho Silva que foi, junto com o pianista, compositor, maestro, Luis Eça e o baixista Luis Alves, um dos autores da belíssima trilha musical do “Um Filme 100% Brazileiro”, produzido e dirigido por mim em 1985.
(ao lado foto de Luis Eça e Luis Alves)

A idéia era que desses textos e dessas “entrevistas”, nascessem sempre bons filmes...

Batuque de Cozinha

As origens e o desenvolvimento do ritmo e da percussão no Brasil, partindo do batuque de terreiro no Rio de Janeiro, suas histórias, seus personagens, sua memória, na voz de alguns dos nossos melhores músicos é matéria de origem nobre, é madeira de lei, é cultura de informação étnica, sociológica e de registro cinematográfico de importância histórica que não poderá deixar de ser documentada.

Viajando pela natureza tropical de nossas matas e florestas, pela correnteza do rio, pelo vôo das aves, buscamos e descobrimos, através do silêncio, os sons que originaram as primeiras manifestações musicais do homem.

Descobrimos que os tambores e a percussão deles, é a manifestação sonora mais próxima à natureza das coisas da nossa terra. O batuque da cozinha é o que mais mexe e penetra na alma e no corpo do homem brasileiro.

Vindos da África, nos porões dos navios negreiros, os tambores, ainda hoje existem. São peças de uma beleza indescritível. Hoje, com toda evolução, quase são outros instrumentos. Couros sintéticos, plástico e até conjuntos eletrônicos que permitem infinitas outras combinações sonoras.

- A floresta, o rio, a cachoeira, os pássaros, as folhas, o tronco caído no meio da mata, são coisas do passado.

- No início, é a natureza a grande mãe de todos os sons, de todos os instrumentos, de toda a música.

O feiticeiro, ao lado da fogueira que ilumina a boca da caverna do homem primitivo, sopra a sua flauta vertical produzindo um breve bramido.

Uma boca indígena vermelha sopra a folha verde retirada da árvore centenária, cuidadosamente enrolada no dedo, produzindo um pio contínuo.

Pássaros de todos os tamanhos e cores saltam nos galhos das árvores.

- O homem primitivo imitava o som da natureza para saciar a fome dos
Deuses e dos animais para saciar a fome dos homens.

Os negros batem palmas. Mãos negras em detalhe marcam o ritmo das palmas.

Um ameríndio sopra uma concha no alto de uma pedra de frente para o mar.

Na praia o nascimento de Macunaíma.

Uma criança negra nasce de uma índia.

O índio sopra em uma flauta de bambu.

- Fui nascido e criado no Rio de Janeiro entre a montanha e o mar.

A mata.
Siluetas de fortes negros que batem nos troncos ocos das árvores caídas no chão coberto de folhas secas, provocando um som grave que ecoa pela mata.

Na mata o índio brasileiro cantarolando balança o maracá

(combinação dos ritmos).

- Sou filho do povo do tambor e do povo do maracá.

Um bebê negro brinca no terreiro. (Passagem de tempo). Uma criança negra, um pouco mais velha, dá os seus primeiros passos no mesmo terreiro.

- Eu não tenho tia, tio, nem avó, nem avô. Da minha família só pai, mãe e
irmãos. Meu pai veio de Pernambuco fugido. Ele não conheceu o seu pai e nem a sua mãe, foi criada pela avó. Ela também não conheceu nem o pai, nem a mãe, foi adotada. Sinto que eu e a minha família pertencemos a grande família brasileira, de origem muito antiga, muito mais antiga que o descobrimento, cunhada na escrita das pedras do Amazonas.

Fotos antigas da natureza e dos casarios da zona norte carioca. Na cozinha brincando uma criança negra de 6 anos, descobre o ritmo colocando em uma latinha um pouco de milho e feijão para balançar em seguida na cadência repetida do som do chocalho.

- Eu não sei da onde veio a minha musicalidade. Como eu não conheci meus ancestrais, também não sei como tudo isso começou.

Zona Norte carioca, suas casas e bairros.

- Não sei nada sobre a música popular dos três séculos coloniais. O que eu sei é que este povo misturado, feito de portugueses, africanos, espanhóis, ameríndios, trazia junto com as falas deles, as cantigas e danças que a colônia escutava.

As casas ficam mais isoladas no bairro. O urbano torna-se, dobrando uma esquina, rural.
Há pouca luz na rua. Som ao longe de batuque de terreiro.

- Fui criado nessa região. Quando garoto, descobri que lá tinha choro, candomblé, umbanda e depois, mais tarde, samba.

Terreiro de Candomblé. Batuque.

- Do dilúvio de instrumentos que os escravos trouxeram para cá, vários se tornaram de uso corrente, o ganzá, a cuíca e o atabaque, instrumentos de percussão que prestam a orgia rítmica, dinâmica, incisiva, contundente mesmo, da música brasileira.

- A história do tambor é sugestiva e poderosa, a mais cheia de densidade
mágica e de expressão social no continente africano e regiões onde suas raças influem. As peles de mamíferos, ofídios e até humanas, que cobriam os tambores de Uganda, custavam à vida de um homem quando renovadas.

Os gatos nos morros.

- Sacrificam-se até hoje, nos morros do Rio de Janeiro, os gatos que vão
chorar nas peles das cuícas e dos tamborins a alma carioca do samba.

A CASA DAS MINAS.

Coleção de tambores em todos os seus detalhes e ornamentos. Soa o tambor no fundo da sala. A morena requebra os quadris.

- O Tambor é, visivelmente, um instrumento social, independente, bastando imprimir ritmo para excitar o bailado, passar a informação e agradar os deuses.

A Cidade do Rio de Janeiro em diversos e antigos ângulos.

- Capital do país desde 1763, o Rio de Janeiro era o destino de levas de brasileiros livres e escravos, alem de africanos vindos diretamente de seus países de origem, transformando a cidade numa espécie de síntese da cultura popular do país.

Pelas ruas antigas do Rio caminham quatro senhores negros sorridentes e elegantes: João da Bahiana, Pixinguinha, Donga e Heitor dos Prazeres. Caminham até chegar à casa da Tia Ciata.

No caminho observam um músico ser preso pelo pecado de portar pela rua o seu violão.

- Em 1912, Nair de Teffé – a Rian – casada com o Presidente Marechal
Hermes da Fonseca abriu o Palácio do Catete para saraus de música popular, mas mesmo assim, os muitos sofrimentos impostos aos músicos e poetas aconteciam pelas ruas das cidades do Brasil.

É festa na casa da Tia Ciata. É festa no Rio antigo. Estão todos na cozinha quando o regional acompanha Donga cantando uma de suas gravações.

- Havia perto da Praça Onze, no Rio de Janeiro do início do século, um refúgio do samba onde os mestres da música popular se reuniam, era a casa de Tia Ciata, e lá estava Donga, Pixinguinha, João da Bahiana, Heitor dos Prazeres e Sinhô. Nesta casa, que sempre estava em festa, nasceu o samba.

Rio antigo.

- É nesta cidade do Rio de Janeiro, que vamos encontrar um ritmista, como ele gosta de ser chamado, um dos mais criativos deste país de ritmos ardentes, contagiosos, marcantes, inebriantes, propiciatórios à música popular contemporânea brasileira. Seu nome? Robertinho Silva.

Roberto Silva, fala como que estivesse cantando, encantado, e se acompanha criando um ritmo nos instrumentos selecionados:

- Fui nascido e criado em Realengo, zona norte da cidade, no ano de 1941.

Bairro de Realengo na Zona Norte do Rio.
Roberto passeia pelo antigo bairro.

- Sou um carioca do sertão. Realengo na minha infância tinha um rio onde se pescava cascudo e traíra. Isso aqui parecia uma cidade do interior das Minas Gerais. Com o tempo fui descobrindo que de Realengo à Santa Cruz formava-se uma área com sangue musical correndo pelos trilhos no trem da Central do Brasil. Meu pai era militar e também militante do Partido Comunista. Acho que este lado inteligente eu herdei dele.

Viagem de trem de Realengo até a estação da Central do Brasil.
:
Roberto Silva, depois de se apresentar retorna contando a sua experiência em todas as fases que passou pela música popular, suas influências, seus amigos e descobertas de novos ritmos.

Durante esta viagem Roberto fala sobre o Batuque Carioca. Origens e conseqüências.

- Eu sou Erê. Eu sou moleque. Eu sou carioca do sertão.

Uma fonte importante da música popular é a feitiçaria com suas cerimônias em que o canto e a dança dominam.
Nos cultos de direta origem africana – Candomblé, Macumba, Xangô – até hoje se consegue recolher música originalíssima.

Realengo, zona norte do Rio.

- Na minha infância aqui tinha um rio, onde a gente pegava cascudo e traíra. Tinha um clima de cidade do interior. Eu me considero um carioca capiau. Tem um clima de interior no subúrbio do Rio de Janeiro.

É com os africanos que o Lundu chega ao nosso país. Trata-se de gênero musical e dançam de par solto, com sapateados, batucadas, remelexos dos quadris e a sensual umbigada. É através do Lundu que o negro deu à música brasileira a sua característica mais importante: a sistematização da síncope. O maxixe em quase tudo lembra o Lundu.


- Meu pai veio de Pernambuco fugido. Meu pai era pedreiro e carpinteiro. Meu pai era orgulhoso, uma pessoa muito inteligente, ele era Pernambucano, ele era pobre financeiramente, mas muito rico de inteligência. Se o vizinho tinha uma super vitrola que estava na moda ele ralava para ter igual ao do vizinho. Eu ficava orgulhoso, porque a gente era pobre mais tinha uma vitrola igual a do vizinho da classe média. Daqui a pouco eu vou chorar. Eu me emociono quando me lembro disso. Nós tínhamos uma criação rígida. Não podíamos ir para rua de noite, só até certa hora. Eu e meus irmãos, a noite, dormíamos num quarto só, eu saia da cama, pegava um lençol e cobria para esconder a claridade da luz vermelha da super moderna vitrola. Minha mãe, quando acordava de noite, me pegava escondido sob o lençol ouvindo as transmissões das casas noturnas do Rio de janeiro.

Em 1852, um conjunto de bombos e tambores liderados pelo sapateiro português invade as ruas do Rio de Janeiro. Era o Zé-pereira, um bloco ruidoso e contagiante. Nascia assim, com a percussão, o carnaval carioca. O Barão do Rio Branco afirmou: “Existem no Brasil, apenas duas coisas realmente organizadas: a desordem e o carnaval”.

- Com tempo fui descobrindo que de Realengo ( zona militar) a Santa Cruz (fim da linha Central do Brasil – o matadouro) era uma área com sangue musical. Na praça do canhão de Realengo meu pai tinha uma vila de casa (construídas por ele) que alugava para soldados do exercito que vinham do interior do Brasil, para fazer carreira militar. Em 1958, quando surgiu a Bossa Nova, um ano antes, meu pai tinha um inquilino, seu Mário que era padeiro. Ele tocava violão. Foi a primeira pessoa que me influenciou. Vi o violão de perto e cheguei estudar um pouco, mas o meu negócio era o batuque. Através do Seu Mário é que eu comecei a praticar a percussão tocando o pandeiro e pegando informação. Minha formação foi através do Rádio. Desde pequeno eu ouvia Radio. Eu não dormia, eu sofro de insônia desde garoto, sofro até hoje. Não sei se foi por causa da música. Eu sonhava em um dia tocar em Copacabana, na Cinelândia, nos Dacings da Avenida. E olha: tudo isso eu consegui!

Em sua formação a música brasileira recebeu contribuição dos indígenas, dos colonizadores e dos negros. Musicalmente, o africano tem o mais forte caráter entre os três elementos étnicos que se fundiram para formar o perfil cultural brasileiro.

- Meu pai achava que pelo fato da gente morar em frente do quartel do exercito, achava que eu seria músico, que eu ia tocar na banda militar. O sargento do exército dizia que “o futuro desse menino está feito, ele vai ser nosso”. Só que meu pai não sabia o que rolava dentro da minha cabeça. Eu sonhava em viajar pelo mundo. O Jazz, por exemplo, eu descobri através do Rádio. Um dia eu sintonizei o rádio numa música diferente, era o jazz.

O Jazz nos Estados Unidos e o samba no Brasil mostram como se diversificaram, no contato com o elemento branco, as influências musicais negras na América.

- Em 1995, quando eu participei de um Festival de percussão em Recife, eu me toquei que o meu lado musical veio do meu pai. Eu vendo aqueles tambores do Maracatu, eu me arrepiava todo, aí eu tive certeza que alguém da família do meu pai tocava tambor, tinha sido batuqueiro. Sim! Quando eu nasci, minha mãe, Dona Justina, disse para o meu pai: Vamos dar o nome de Roberto, por que é nome de artista. Ela me dizia que quando eu nasci, tava tocando no radio uma música chamada “Brasil pandeiro”...Voltando a falar da minha iniciação musical, do choro, dos bares da vida.... Em 1958 eu ouvi João Gilberto no radio. Chega de Saudade mudou minha cabeça.

Fruto da fusão do samba com soluções harmônicas mais requintadas, extraídas do Jazz, a bossa nova teve como marco o disco Chega de Saudade em 1959, do cantor e violonista baiano João Gilberto. Esta maneira intimista de cantar e a batida quebrada do violão explorando o contratempo influenciaram toda uma geração de instrumentistas, cantores, compositores e arranjadores.

- Nessa época meus amigos lá de Realengo, não tinham acesso à loja de disco ouviam tudo pelo rádio. Meu irmão mais velho tinha uma coleção de Glen Miller... Mas eu no fundo não gostava... Eu achava bonito, mais meu coração não estava pedindo aquilo. Meu irmão José era coroinha. É olho do Padre... Eu já tinha outra cabeça. A minha primeira bateria foi construída por mim... A primeira bateria foi assim: os moleques da rua pegavam uma lata de manteiga ou uma lata de banha, a gente pegava uma folha de saco de cimento vazio do material do meu pai e botava encima da lata, amarrava com barbante e passava cola feita com farinha de mesa até dá um som. A minha primeira bateria de verdade foi minha mãe que me deu. Nessa época estava morando na minha rua um baterista, um dia de tarde eu apareci, devagarzinho, desconfiado no quintal da casa dele - passei pela cerca viva toda florida e meti a cara. Ele me perguntou se eu tocava. Eu falei: mais ou menos! Essa coragem veio do meu pai... Ai eu falei que gostava de tocar bongo e maracas. Na verdade meu bongo era um banquinho que meu pai tinha feito para uma prima manicure. Ele me mandou sentar na bateria e eu toquei meu primeiro ritmo: BAIÃO. Nunca tinha sentado numa bateria. Deveria como sou carioca tocar SAMBA. Mas olha o privilégio! A região onde eu morava era uma comunidade nordestina, chorinho, samba de Padre Miguel, candomblé, toque de marcha militar, os rudimentos de caixas do método americano eu já ouvia desde garoto. Banda de coreto e os toques dos tambores do exército. Tudo passava em frente da minha porta.
- Ouvia o trem passar em cima do rio, às 5 horas da manha, eu fazia ritmo com o barulho do trem. Quando eu ia da minha casa até o armazém comprar alguma coisa para minha mãe, eu sempre estava com uma vareta na mão para brincar na beira do rio, eu botava as varetas na grade e ia correndo fazendo barulho. Tirando um som. Achando o ritmo. Gastei muito tamanco fazendo ritmo. Fazia som com tamanco. Olha! Eu gosto de samba mais não sou sambista.

A música popular brasileira é a mais completa, mais totalmente nacional, mais forte criação da nossa raça até agora.

- Quando eu ouvia jazz no início não sabia que os músicos eram negros. Eu sou do jazz. A negra nata da música americana.

A síncope é uma característica rítmica de um som articulado em tempo ou parte de tempo fraco que se prolonga sobre um tempo ou parte de tempo forte, causando a sensação de antecipação do apoio natural do pulso.

- Havia também um centro de umbanda em volta da minha casa. O tambor batia o tempo todo. Realengo era um lugar distante que tinha muito pouca ligação com o centro do Rio. Era rural. Eu não sabia de nada. Gostava de ouvir o tambor. O tambor sempre me chamava atenção. Os toques de umbanda, os tambores da Folia de Reis, etc. Os toques de candomblé exigem mais de você do que os da umbanda. Minha mãe tinha um centro espirita e tinha um tocador de tambor chamado Nelson, que era uma fera, um dia ele faltou e eu me atrevi a tocar. Outros toques que influenciaram o batuque carioca foram os ritmos do nordeste. Como eu fui criado numa comunidade nordestina também sofri muitas outras influencias.

A Congada é praticada do Ceará ao Rio Grande do Sul. O Reisado sai do nordeste e passando por Minas chega ao Rio de Janeiro. O Maracatu nasceu no Recife. O Bumba-meu-boi é uma dança dramática nascida no Norte, sendo o Maranhão seu principal palco. O Balaio é brasileiro da gema e procede do Nordeste. O Maxixe é uma dança popular de 1870 que veio do Lundu. O samba, como dança, deve ter surgido em Angola, onde a umbigada era o seu ponto culminante. E o Xaxado pertence ao grupo de lampião, o Rei do Cangaço. Os cangaceiros fazem dos seus rifles suas damas e seguem sem volteio, arrastando suas sandálias pelo chão levantando a poeira do terreiro num bailado rápido e vigoroso.
- O samba me pegou através de Jorge Negão, que era ritmista da Portela. Ele tinha um bloco que se reunia na padaria perto da minha casa. No samba eu me encantei pela frigideira. A Portela fazia um toque de pandeiro diferente de hoje, um toque rufado.

Dos gêneros musicais que influenciaram a música urbana incluem-se a embolada, cultivada pelo grande Almirante e por Noel Rosa, na fase primitiva do rádio brasileiro e também o baião, o coco, maracatus e caboclinhos e alguns pontos de candomblé.

- Eu sou contemporâneo de Elton Medeiros, Ney Lopes e Wilson das Neves. Que é meu grande ídolo. Pra mim, o mestre dos mestres era o baterista Suti . Um baterista malabaristas. TV TUPI. Apresentações ao vivo. Coisa rara. Um grande professor. Descobri através do Rádio. Ele solava “Apito no Samba” do Luís Bandeira. Carro chefe/ música para bateria. Anos 50. Luís Bandeira foi crooner da boite Drink c/ Caubi Peixoto com o qual eu trabalhei em 1964. A Orquestra Tabajara tem culpa de eu não saber nadar... Domingo minha família saia para a praia e eu ficava ouvindo ao meio-dia na Radio Nacional a orquestra Tabajara. Plínio Araújo era meu ídolo. O baterista Juquinha que foi o primeiro baterista a fazer o toque da Bossa Nova e o primeiro a tocar com Joao Gilberto. Ele tocava baixinho com a vassourinha, suave como o João gostava. As minhas primeiras influencias musicais, na bossa nova, foram o Milton Banana, o Do Um Romão e o Edson Machado.

Um pouco do gênio do Edson Machado

- O Edson marcou muito a minha vida. Quando eu era garoto ele era conhecido como Edson Maluco. Raul de Souza diz que quem inventou o samba no prato foi o Godolfredo que era militar e não gostava de tocar alto. Um dia o Edson e Raul viram ele tocando e o Edson pediu para dar uma canja e saiu arrebentando no prato. Isso na gafieira de Bento Ribeiro. A primeira vez que vi o Edson Machado tocar foi no Cassino Bangu - Ed Lincom no contrabaixo, Ribamar no piano, Araken no trumpete e o Edson na bateria. Para ver o quarteto tocar tive de tomar coragem e tomei umas “peruas”. Pulei o muro do clube, porque eu era muito pobre e pobre não entrava no clube. O Edson arrasou. A maior emoção da minha vida foi ver o Edson ao vivo. Era o ano de 1958. Edson Machado é o Samba Novo. Edson tinha uma concepção toda sua de tocar bateria. Não fazia concessão nenhuma. Muita dignidade. Tocava com a bandeira do Brasil encima da bateria. Aprendi muito com ele. Um grande sambista, melhor: uma escola de samba na bateria. Edson me conheceu em 1967 no Dancing Avenida. Eu tocava com “Os Copacabanas” que era um repertório barra pesada para caramba. Nessa época, do Dancing, começaram a falar de mim: “Tem aí um garotinho novinho, que além de tocar bem ainda lê música. O pessoal da zona sul começou aparecer e um dia Edson estava lá. Eu estava super concentrado, tinha estudado muito. Edson disse: Muito bem, Roberto! Você esta tocando muito bem! Edson saiu de Copacabana para me ver e já sabia meu nome. Isto foi demais. Depois do primeiro encontro com Edson ficamos amigos. Edson cheio de dificuldades financeiras morava em Santa Teresa, foi aí que eu encontrei um apartamento para ele em um prédio da Prado Júnior em Copacabana. A bateria para o Edson era sua mulher. Chamava ela de Tulipa. Tulipa era preta ou tulipa era dourada.... Edson chegou no Rio no dia do arroxo do Collor. Ficou louco e ligou para a mulher dele em Nova York e ela, impaciente o dispensou. Aí ele ficou por aqui, duro, abandonado, humilhado e acabou morrendo. Edson me ensinou como usar os pratos, os tambores. A bateria do Edson tinha harmonia e ritmo. As pessoas tem dificuldade em ver isso. Os bateristas sofrem de preconceito até hoje no Brasil.O Bossa Três acabou. O último foi o Vinhas. Tião Neto, Luís Carlos Vinhas e Edson Machado. Aqui jazz o Bossa Três. Edson para mim é o Brasil encima de uma bateria.

Finalizando a história.

- Na minha infância eu ouvia muito que baterista que não lia música era batedor de tambor de couro. Eu não queria ser batedor de tambor de couro. Queria ser músico. Músico completo! Estudei muito para chegar onde eu cheguei.O Wilson das Neves apareceu na minha trajetória musical quando tocava na orquestra de Lilo Panicalli. Era um baterista diferente, lia música de ouvido e sofria varias influencias, incluindo o Jazz. Ele me clareou. Além de ler ele interpretava muito bem. O Dom Um Romão foi o mestre da Bossa Nova. Ele africanizou a bossa. Entre todos, era ele que tinha o toque mais africano. Dom Um foi a primeira pessoa que me levou ao Beco das Garrafas. Fui ver o Raul de Souza e Leni de Andrade no show “Só se for agora”. Ele tem hoje 75 anos. Doa a quem doer, foi ele o cara que trouxe o batuque africano para a Bossa Nova. O Mestre Marçal é a minha Escola de Samba. Ele sempre foi uma pessoa muito respeitada no samba. Eu não tinha acesso a ele. Só fui conhecê-lo em 69 na gravadora Odeon. Ele era o ritmista, o maior dos cuiqueiros. A maioria das gravações de 50 / 60 foi feita pelo Mestre Marçal. Ele inventou o toque do tamborim, chamado de teleco-teco, que hoje está sendo desprezado pelos novos ritmistas. No momento estou fazendo um resgate desse toque tradicional. Caetero – é o toque atual do tamborim da escola de samba. Sinhô foi o primeiro autor a projetar o Samba na sociedade carioca. O Brasil não tem memória. Posso citar alguns nomes e ritmos que fizeram o batuque carioca: Sinhô e Donga, Clementina de Jesus (Jongueira), Darcy do Jongo, Aniceto do Império (pai dos partideiros), Folias de Reis, Congados, Geraldo Pereira, Xangô da Mangueira, Luís Gonzaga, Jackson do Pandeiro (trouxe o coco), João do Vale (maranhense), tambor de crioulo, os bois do Maranhão, o Milton Nascimento, Gilberto Gil (afoxé, samba de roda), Paulinho da Viola, Jorge Benjor, Elton Medeiros, Ney Lopes, Wilson das Neves, as tradicionais Escolas de Samba: Mangueira, Portela, Salgueiro, Império Serrano e o Mestre Marçal...

Roberto sai andando da Estação Central do Brasil, atravessa a Av. Getúlio Vargas, passa pela Praça da República e chega à Estudantina, onde já se encontram seus amigos e convidados, então sobe as escadas até o salão onde os músicos já estão tocando. No palco a bateria vazia e todos os instrumentos de percussão estão arrumados e armados com vários microfones a espera da participação do grande homenageado da noite.