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terça-feira, 19 de outubro de 2010

METAMORFOSE

Sétimo Movimento

No gabinete do prefeito estão Sérgio, Henri e o Padre. Estão em silêncio. Sérgio, o mais agitado, começa a falar...

Sérgio:
- Olham meus amigos, eu não posso acreditar que um ser invisível, uma entidade perturbada, possa nos derrotar, sem ao menos nos dar o direito da defesa... Não vamos deixar o pânico mover as nossas ações...

O Padre:
- Não tem pânico e nenhum fantasma... A coisa é simples: foi aquela menina que deixei com o Brandão na igreja quem matou o coitado...

Henri:
- A menina matou Marcos, depois matou Mario, o Souza e por fim o Brandão e tudo isso em menos de um dia? Essa história não tem lógica e nem ela é essa pessoa...

O Padre:
- O que não tem lógica é você querer defender uma menina que bem mal conheceu e se enamorou em um passeio de barco... Tenha piedade Henri!

Sérgio:
- Vamos começar a solucionar esse problema eliminando a estranha...

Sérgio retira da gaveta a sua pistola, o coldre, coloca na cintura a arma e olha-se no espelho.

Sérgio:
- Vamos à guerra!

Henri e o Padre aproximam-se de Sérgio.

Henri:
- O que você vai fazer Sérgio?

Padre:
- Vai fazer o que é correto: se for possível prender aquela menina para averiguações...

Henri:
- E se não for possível, matá-la!

Padre:
- Sim! Por que não?

Henri:
- Eu não acho justo, não pode ser ela, eu a conheci e sei quem ela é...

Padre:
- Hora do confessionário! Quem ela é meu filho?

Henri:
- Ela é a filha do santo... Ela é a santa do terreiro.

Padre:
- Ela é a Santanaz em pessoa...

Henri:
- Péssimo trocadilho!

Sérgio:
- Chega de conversa fiada! Não temos tempo a perder! Vamos invadir é por logo fim a este tormento...

Henri:
- Vamos com você!

Padre:
- Vamos juntos!

Sérgio:
- Soldado capelão! Isso é uma ordem! Permaneça onde esta e não se mexa enquanto eu não voltar. Quero avisá-los que me parece que não receberemos auxílio externo para essa empreitada... Também não precisamos. Vocês não acham?

Sérgio sai sorrindo do gabinete. Henri e o Padre ficam parados, sem ação, durante um tempo.

Henri:
- Você viu o que você fez? Ele vai sair matando e nós seremos co-responsáveis por mais esse massacre de inocentes... Vou sai atrás dele e tentar contê-lo.

Padre:
- Nada poderá impedi-lo de fazer justiça...

Henri:
- Justiça?!...

Os dois saem também do gabinete. Nós o acompanhamos. A rua está vazia, já é noite.


Movimento de Passagem 7

Na estrada um carro de reportagem se aproxima da cidade. No seu interior, além do motorista, uma repórter e um fotógrafo conversam.

Repórter:
- Que lugarzinho complicado essa cidade do Eldorado... Dominada por ex-policiais que se envolveram em total corrupção, essa comunidade, rica em petróleo, não criou escolas, não deu andamento aos empreendimentos sociais, não cuidou do saneamento básico da cidade, enfim não fez nada que pudesse melhorar a qualidade de vida do seu povo. A cidade não se desenvolveu e hoje, com o caos que aqui se instalou, sumiu o dinheiro, apareceram processos e cassações, os turistas abandonaram a cidade e o que antes era o folclore hoje é a miséria.

Fotógrafo:
- Como é possível ter tanto dinheiro e tanta miséria em um só lugar?

Repórter:
- Depois do grande desastre ecológico, com o vazamento de óleo que manchou a costa de Eldorado exterminando a pesca e o turismo, deixando a cidade abandonada, quem podia foi-se embora daqui.

Fotógrafo:
- E os sete homens de ouro?

Repórter:
- Quando todos comemoravam a conquista eleitoral com a reeleição do capitão Sérgio, foi descoberto um grande desfalque no caixa da prefeitura. O processo corre na justiça. E como desgraça pouca é bobagem, só hoje foram cometidos na cidade quatro assassinatos, que por coincidência ou circunstância, eram os quatro homens fortes do prefeito... Assim caminha Eldorado em direção do abismo.

Fotógrafo:
- Eu publiquei um livro de fotos das belezas naturais dessa região antes do desastre e depois outro livro com o documento fotográfico da tragédia. Você viu esses meus livros?

Repórter:
- Do momento em que peguei seu livro até que o larguei, eu não consegui mais parar de rir. Um dia, eu pretendo lê-los...

Fotógrafo:
- Não entendi a piada...

O carro reportagem entra em Eldorado e seu farol ilumina a cidade às escuras.

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