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segunda-feira, 20 de junho de 2011

O TEATRO OFICINA



Zé Celso recebeu o jornal Folha de São Paulo para uma longa conversa sobre sua visão de teatro e mundo. Seguem trechos da conversa.

ANHANGABAÚ DA FELIZ CIDADE

Quem vai usufruir do Anhangabaú da Feliz Cidade? Tenho 74 anos. Estou passando a bola já. O projeto significa uma tomada de força da revitalização da espécie humana sobre a especulação financeira. O Bexiga é o chacra de São Paulo e está degradado, cheio de craqueiro, de ladrãozinho. Não vamos fazer um teatro de bairro. A gente quer fazer um espaço cosmopolita. Vamos fazer estúdio, biblioteca, universidade antropófaga, creche. A educação começa no ventre da mãe.
MUDANÇAS

Estamos vivendo um momento mundial de rejeição a esse tipo de coisa que se pretendia construir aqui, que era um shopping e um centro executivo. A infraestrutura não é a macroeconomia, é vida, corpo, natureza, terra. Boa parte da humanidade passou a acreditar nisso. Essa percepção cria uma ambiente favorável para a imersão do nosso projeto. Esta percepção só não é recente na nossa trajetória. Ela já explodiu em 67, com nossa montagem de "O Rei da Vela" e logo em seguida com "Roda Viva". A tropicália retomou Oswald, que tinha retomado os indígenas. Até então a cultura começava em Anchieta.
REVOLUÇÃO DA VIDA

Em 68, o mundo se paganizou. Deixou de ser messiânico, de ter crença nas ideologias, nas religiões, e começou a sentir muito a terra, o corpo, essa coisa toda. Depois houve uma contrarrevolução. Mas essa contrarrevolução não destruiu a revolução da vida. Não tem coisa mais natural do que a transformação. Quem não se transformar dança. Tenho 53 anos de teatro, sou prova palpável de que as coisas se transformam. Como eu ia imaginar que Silvio Santos estaria trocando terreno?
VODU

Devo muito a esta contenda com Silvio Santos, porque com isso tive um adversário. Aprendi muito com ele. Cada peça que nós fizemos foi um vudu contra ele, um rito antropófago para comer meu adversário. Se a gente ganhar, vamos ter uma transformação artística. A gente caminha para isso. Para esse teatro ligado a uma multidão. Não a multidão do ibope, mas a carnavalesca. Aquela que faz você se perder. Você é mais do que nunca você mesmo quando está dançando e cantando na multidão.
TOMBAMENTO

No dia 24, vai fazer um ano que o Teatro Oficina foi tombado como patrimônio artístico-histórico do Brasil. No parecer de Jurema Machado, ela recomenda que o entorno seja comprado e desapropriado para que o projeto AnhangaBaú da Feliz Cidade possa ser realizado. O documento sugere que os governos estadual e municipal de São Paulo se mobilizem para que o projeto seja construído. Dia 24 vai acontecer uma "Noitada", encontro no Teatro Oficina para tornar este fato público. Quero que o Silvio Santos venha.
POLÍTICA

Logo no início do governo Lula, ele determinou 10% de corte em todos os orçamentos. O ministro da Justiça bateu o pé e o Lula voltou atrás. Os artistas estão dispostos a falar com o ministro da Fazenda, com a Dilma, para despertá-los para a importância que a cultura tem no país nesse momento. A formação cultural do PT é péssima. Acredita que a cultura serve para educar. A cultura não serve a ninguém. Está a serviço da vida. Não existe educação se não tem cultura. Você pode criar um país nazista, educar um rebanho. Cultura é diferente. Está na raiz da vida, está na impermanência das coisas, na necessidade de criação, na dimensão, no senso crítico, no sonho, na utopia.
ANA DE HOLLANDA

Se Ana de Hollanda sair, vai vir gente com ainda mais dificuldade. Escrevi uma carta pessoal à Ana, em que digo que ela está com o poder nas mãos. Em vez de tapar os olhos, deve abrir e ver que os artistas estão explodindo. É só dar as mãos para esses artistas, que ela se reforça como Ministra da Cultura. Ela tem que assumir que é de uma família de artistas, filha do Sergio Buarque de Holanda, que canta, que foi gestora cultural. Ela tem que estar desse lado. Com o crescimento cultural, o Brasil produziu uma força de produção cultural enorme. Isto não pode ser abortado.
EXPLOSÃO CULTURAL

Ficou engatilhada uma explosão cultural no Brasil. Os dois ministérios da Cultura e a própria evolução política e econômica do Brasil propiciaram uma força de criação cultural enorme. O orçamento para a cultura foi cortado. Não podia. Durante o governo Lula, a antropofagia esteve no poder. A continuidade dele estava engatilhada no plano cultural. Ainda está. Os artistas estão prontos. A gente está como os revolucionários árabes. Eu me sinto como em 68, estou com a mesma potência de criação que tive que em 68. O mundo chegou ao auge da decadência do capitalismo. Está em um momento de efervescência extraordinária. Os artistas estão num estado maravilhoso. Não via um público assim desde 1968.
TEATRO

O teatro tem um poder extraordinário. Foi poderosíssimo nos anos 1960 no Brasil, polarizava toda a movimentação política. Com o AI-5, foi castrado. Logo em seguida veio a televisão, que comprou todos os artistas. Foi o fim de uma geração de atores, com raríssimas exceções, como Raul Cortez. A maioria virou móveis e utensílios, constituiu outra classe, ganhou fortunas vivendo num outro mundo.
NOVELA

Tinha de enfrentar meus tabus. O Oswald de Andrade diz: vá direto ao tabu. Quando me convidaram [para participar da novela "Cordel Encantado", da Globo], estava saindo das "Dionisíacas", estava exausto. Mas tinha que enfrentar esse tabu. De repente me vi no Rio de Janeiro gravando uma cena de um casamento do tipo da Kate [Middleton] e do príncipe William. Tinha que dizer: "Esse casamento não pode continuar". Queria falar: essa novela não pode continuar. A Amora [Mautner], diretora, pedia para eu olhar para a câmera. Queria que eu ficasse dentro do personagem --e eu não cabia nele.
TELEVISÃO

Descobri que o Projac tem o potencial de uma universidade. E isso tem que estar nas mãos dos brasileiros, tem que estar a serviço da arte. Não pode só estar a serviço da auto-ajuda, da novela de costumes, dessa coisa da Globo. Pode até ter isso, desde que tenha também arte. A RAI italiana bancou Pasolini, Antonioni. A TV Sueca bancou Bergman.
DRAMA

Teatro não tem mais nada a ver com drama. Por isso sou da "tragicomediaorgia". O drama está ligado à sociedade freudiana, lacaniana, patriarcal, capitalista, familiar, enfim, à sociedade que nós conhecemos. As pessoas vivem para seus problemas menores. Ficam sofrendo para decidir se vão namorar fulano ou ciclano. Isso não é nada diante da vida.
TEATRO EM PRAÇA PÚBLICA

Meu teatro se contrapõe a isso pela própria forma de estádio. Quer ver o teatro da cidade, como na Grécia, com público de futebol. Tragédia quer dizer canto do bode. É o canto dos bodes econômicos, sociais, amorosos. O teatro canta em praça pública. E isso comove a multidão. Produz a catarse, reforça a percepção do ser humano como ser que tem poder de aceitar ou recusar o destino.
SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

A vida humana é extremamente vulgarizada. Foi transformada em pessoa jurídica, em commodity. As pessoas estão acomodadas nos papeis que a sociedade do espetáculo nos dá. O Teatro Oficina explode com esse espetáculo.
ANARQUISTA COROADO

Como diz Artaud, teatro é lugar de anarquista coroado. Você se coroa e pode fazer o que quiser. É o lugar onde a humanidade percebe sua loucura, sua grandeza, sua dimensão coral também. O teatro tem a pretensão de levantar a espécie humana. Não pode ficar resumido a uma sala de espetáculo em que as pessoas vão assistir como se estivessem na frente de uma tela de televisão. Ou então a teatrinhos de vanguarda. Isso é a decadência do teatro.
PÚBLICO

Quando fiz "Roda Viva", os jovens de 68 invadiram o palco e fizeram a peça praticamente sozinhos. Essa geração continha todas as revoluções e foi reprimida. Nessa ocasião o teatro tinha um público imenso. Não era passivo. Não via essas peças que fazem sucesso hoje. As pessoas estavam querendo uma transformação.
DUPLO

Tem o José Celso Martinez Corrêa, 74 anos, RG tal, CPF tal. Tem esse, mas esse não tem importância nenhuma diante do outro, do duplo. Nós todos temos o duplo, que é aquele que transcende nossa pessoa jurídica, tem contato com a percepção do mundo. O teatro, por incrível que pareça, é o lugar onde você pode sair de todos os personagens, de todas as cascas. E, quando você sai das cascas, entra em contato com uma energia muito maior. Aí que você cria arte.
BUSCA

Arte não é intelectual. O cérebro precisa estar ligado às outras partes do corpo que são perceptivas. Senão, é uma pobreza. Por isso que meu teatro cada vez mais trabalha com dança, música.
CONTRARREVOLUÇÃO

Tanta coisa mudou no mundo. A onda libertária está muito forte. Liberdade da mulher, do gay, essas coisas todas eram reprimidas e avançaram, determinando uma contrarrevolução muito forte, que é a dos evangélicos, dos católicos, da homofobia. Esses movimentos fundamentalistas estão ocupando o lugar da cultura. O homem se indaga. E se tem uma resposta mais imediata na religião, prefere. A da cultura é mais complexa.
UNIVERSIDADE ANTROPÓFAGA

É a escola que estuda tudo que é rejeitado pela universidade, como os tabus. O Bexigão é a semente desse projeto. Será um Bexigão contínuo, para todas as idades. Não tem sentido não ter contato com a infância, com a vida, com a maternidade.
DROGAS

Sou mais do que a favor da legalização das drogas. Tratam a questão do narcotráfico com estupidez. Não tem nada a ver com droga, a questão é o armamento. A percepção humana é muito maior do que a gente pode imaginar. A droga abre as portas da percepção. Existe indução química para fazer com que o cérebro entre em ação e perceba coisas que estão armazenadas nele.

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