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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Poesia

Efemérides Caboclas

No longínquo 1500
onde ode aves raras clamam sobre o manto negro da paixão.
A noite infindável. A seara. O Saara.
O descobrimento. A primeira invasão.
A primeira explosão.

O paraíso é invadido barbaramente
pelos portugueses, tal qual os espanhóis,
queimando, mutilando, destruindo,
dividindo as mulheres ao meio
com o facão afiado no corte vaginal.

Varando a terra sagrada
cobrindo-a de sangue
os anjos tocam suas trombetas
entre os índios
batendo borduna contra a cruz.

Anchieta e Vieira
A língua mãe nheengatu se encontrava com o latim
e suas poderosas vozes.

Invadimos a mata dos gigantes adormecidos
Imenso é o silêncio quando falam.

O Manifesto de Jurema
Pai velho e moça nova
Sincretismo de padre.

Todos se envolvem no elixir do pajé
Uma bela e jovem índia de corpo moreno
pintado de urucu passa e encanta o aventureiro
civilizado vestido da cabeça aos pés.

Na casa do caboclo bebendo água de coco
Pedro caminha e depois levita.

No ar uma fé terçã
O brasileiro das matas
Yapacam
A nação dos ventos
Tapiirapé.

Na noite brilham as estrelas
Os pássaros nas árvores
O silêncio

O breve e poderoso silêncio dos ventos
espanta na gávea o mágico observador
em pânico.

No alto barco do descobrimento
A terra é vista da linda ilha de Santa Cruz
0 duro pau brasil e o velho Cabral.
Perdidos na praia

No paraíso do continente dos trópicos.
Nas roupas coloridas do seu colonizador

Nos ricos índios nus com suas vergonhas
expostas tal qual malandro mirando o céu azul
cavalgando com as miçanga e seus brilhos
fazem a troca dos ladrões conquistadores

Em Itacuruçá a pemba vale à pena
Os riscos cabalísticos do caboclo na areia.
O Pegi e as coisas secretas
trazidas pelos negros enterradas
no quintal à sombra do cajazeiro

Do alto de uma paineira todo terreiro
perde-se na mata onde se encontra.

Os tambores batidos com os cachimbos tortos
Na Rua São Pantaleão dos encantados no Maranhão.
Mata, Ramos, Lund, Stradelli, Niemandaju, Nunes.

Estrangeiro amigo, macuco ferido,
perdido morto no igarapé do pós guerra
Flechado pela antropofagia branca
Pelo desentendimento cultural do
Bispo Sardinha até a segunda grande guerra.

As sete cidades irão inflamar a pré-história universal.
Já não bastassem as escritas do alto amazonas
todas cuneiformes contando e cantando a mitologia
grega nas viagens de Ulisses determinadas por uma
língua que ainda permanece em silêncio magistral
escondida no remo mágico dos Maués
interiorizada no noquén das mulheres guerreiras.


O Eldorado amazônico é o Brasil
Na mão da história o destino dos deuses
Na chapada do Espinhaço o diamantino
O mais fino dos homens.

Guimarães, Minas não há mais
No mar, só o ar do deserto
Chagas das montanhas
Na luz e na sombra da noite.

Fostes ontem Lua hoje é Marte no céu.
Na terra a morte do tijuco é contada

O sertanejo é um forte, fonte do saber
enterrado nos tesouros dos Rosas.

Nas grimpas do norte e do nordeste
Há inscrições desconhecidas em misteriosas cavernas

Nas cidades do ouro perdida nas matas
Mataram e sumiram com muitos aventureiros.

Há uma alma forte em negras aflitas
No forte Mina imprime-se e exporta-se
A fera África - A cultura moura
A terra arábica da guerreira imutável.

Do Ceará ao Saara
A divisão atlântica dos sonhos
O chorinho é o bálsamo dos trópicos.

Nas praias infernais e mediterrâneas
Parreiras antigas dos cânticos cobrem
O colosso de Rodes em ruínas

Onde estão os poetas de outrora?
Lusíadas e o céu de Alá
Quando se achará?


Os quinhentos anos já chegaram e você
escravo permanece cego

Entre tamanha terra de infindáveis riquezas
e inúmeros prazeres
O tabu dos jesuítas encantados
com as infindáveis festas de valor religioso e duvidoso
nunca imaginadas pelos europeus deslumbrados
com tamanha fé se vê bem e o mal
o seu ver é sofrer o nosso é gozar
carnaval-salada oculta de todas as poesias

Pessoa é Portugal que Sá Carneiro
em mil e quinhentas lutas.
desfraldou Cabrália na Cruz desfeita
Fez o cardeal a inquisição
Belém, Belém, batem os sinos
Os autos contra o guerreiro
tocam badaladas de horror
nos sinos da matriz.

As duras penas o sonho branco da riqueza fácil
É a cachaça dos engenhos, dos negros,
dos pesadelos indígenas.

No fim das mangueiras e das madrugadas frias
Só resta o terreiro de macumba
Os ratos no deserto
A praça da Paz da zona sul

O mangueiral colorido de verde e rosa
o vermelho estendido e entendido no varal da história

Deixa-me perplexo pensar agora se há glória na glória
de ser colonizador.

Chama-se Brasil o mênade menestrel das desgraças
geométricas de um povo latino americano sem nenhuma história.

Para cada começo sempre existirá um fim.
Nenhuma sombra há de apagar a luz de uma vela.
Poucos papagaios e muitas piranhas nas matas e rios.

Eu tenho vinte anos e não exerci ainda a minha cidadania
Sobra de tudo aqui, pois aqui tudo se dá
Os portugueses nos ensinaram

Goiabada industrial é banana com chuchu
A cachaça e a tiquira
Só é saborosa com caju

O guaraná na mata dos Maués
pinga de mandioca brava com biju

Feijão com angu, sururu, umbu com leite
talha, coalha, espalha energia de um povo
Para o mundo
Para o deleite ufanista do conquistador.

Terra a vista! É o Brasil! Ora pois...

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