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segunda-feira, 17 de junho de 2013

UM CONTO DE REI


NA SEQUENCIA VEIO A OPÇÃO CHUVA
Fábio Carvalho
Para fazermos algo novo, é preciso regressar
às origens, à humanidade na infância.
A Eva da minha escolha é quase um animal.
Exato por isto é casta, apesar de nua.
Paul Gauguin
Além de tudo, podemos chegar lá, onde talvez ainda não imaginássemos. Que tal? Tudo bem, nem precisa responder, não era exatamente uma pergunta, embora parecesse. Foi só uma obrigação iniciática. Ela me veio lívida e leve, de uma maneira ardente pousou na ponta do meu nariz, mesmo eu percebendo disfarçadamente como não soubesse nada, ela fingiu fúlgida e magnífica aquilo que já sabia. Indecifrável, sugou o talo até extrair a última gota. Depois ainda espremeu liberando um restinho de seiva. Não peça para eu trair minha natureza, eu quero a paz, quero a ordem quero apenas a explosão de tudo. E muito mais. Muito tudo. Respondi em pensamento para o mundo todo ouvir. Explorando a aventura da vida, seguir aprendendo, somos tão juvenis ainda. Onde vou descansar minha asa, em que casa abrigar minha dor. Vou tangendo a saudade. Nas noites que varei. E o Galo venceu, se é que isso vale alguma coisa. Finalmente fui à dentista em plena Segunda-Feira de tarde. Fui a pé e encontrei na infalível sala de espera com a pedagoga mãe da Iara, colega de colégio da minha filha, que inesperadamente segundo a mesma disse, se tornou minha atriz. Nem me lembrava, a Dr.Valéria, seguindo minhas direções me dispensou novamente. Mesmo eu gostando só fez isto porque ela vai viajar e meu tratamento é meio demoradinho. Também nem estou com nenhuma dor maior. Sei não. Realmente neste momento só me resta o cinema que é a mais louca ilusão. Ela a bela. Sem recursos vou ter que trabalhar. Por outro lado gosto do meu trabalho, coisa que não deixa de ser um privilégio que me foi dado. Fruí um demasiado tempo de boreste, livre no paraíso local, bem dizendo a toa na maré, o que também requer certo posicionamento profissional. Podemos olhar diferente. Nem de cima nem de baixo, nem de lado algum, a visão e a palavra exatas podem ser um sentido só. Nem lembro o que significa isto, vamos direto para o assunto que é cinema: Medéia do Lars Von Trier. Há seis meses tenho visto este filme. A gazela desceu a florida Rua do Ouro vestindo uma inquietante bolsa vermelha, de óculos verdes escuros claros enquanto falava ao celular.
Este instrumento tu mereceste ouvir. Disse novamente meu amigo ido através das ondas Megacubo, infelizmente nesta vida não nos encontraremos mais. Digo nesta vida que passou. Uma nova vida se apresenta. Reconhecemo-nos lá onde for sem sombras de dúvidas. A esperança é cega. Você tem claro seu propósito de vida? Neste vôo irado no céu imaculado do teu rosto sem pecado. A boca vermelha na arrebentação. Vamos à matinné, na cena mais triste o amor quer ficar. Ondas sonoras em segredo. Será que o cinema existe mesmo? Estou prestes ao longe para saber. Barravento. De uma experiência muito fecunda nasceu em mim este filme que nem sei mesmo como fiz. Sem Sincronia – Jimi Hendrix e a Fonoaudióloga. A ordem pode mudar. Incrível minha viagem ao passado interior. A câmera e eu. Há muito não a tinha ou andava com ela a câmera na bolsa tira-colo. Quase a perdi. Tinha esquecido como ela era. Sem esforço lembrei. Estranhas conhecidas sensações. Vivemos tardes juntos durante anos luz. Tudo bem ninguém precisa saber. Melhor que antes. Posso dizer que fui magistralmente batizado pela possibilidade de novo única de fazer de uma maneira límpida e mágica o que sempre fiz com alguma dificuldade de mentirinha. Finalmente a música tocou, posso desligar por hora. Boa noite Cinderela. Neste filme que começo a montar, tive a sorte de conseguir ter várias cintilantes participações sem convite, todos atenderam ao meu chamado mental. E claro, eu estava na hora e no lugar certos. A começar com o Sávio Leite, que como ele disse agora além de ser meu ator fetiche, é também meu produtor fetiche já que emprestou a câmera. Aliás, fetiche é uma palavra bem lembrada para falar sobre um filme erótico musical. Político como toda poesia sabe ser. Puta merda! É esta a expressão. Ou puta que o pariu, também é bom. Ou ainda, phoda-se, como parece bom título. Uma brisa que a juventude traz, me soprou esse ph. Encontrei todos meus livros prediletos que tinha perdido há anos. Estão ainda todos comigo, e livros pesam e pensam. Sem dúvida um bom presságio e continuando o Galo perdeu para o Peixe. Sinalizações de todas as categorias. Vou ficar quietinho em casa, para quê sair? Pelo menos durante esta noite em que todos estudam a mesma cartilha, que já os acompanhava desde pré-infância. Ou melhor, no jardim do Éden, quem sabe. Onde andará a Verônica, que era minha coleguinha na escolinha do Rui Flores, no começozinho das nossas aventuras perambulando pelos muros e telhados da pequena e arborizada Belo Horizonte. Nunca mais nos vimos, mesmo assim, ainda me lembro muito bem dela. Dia 13 de junho do ano 13, hoje é dia de Santo Antônio, acordei depois de um sonho que contarei em seguida. Antes dia 12, estive na hora do almoço no bar do Cabral, quando encontrei pela última vez com o Anselmo. Já explico porque, depois de encontrar um livro fabulário que durante um grande período se escondeu numa caixa de papelão que estava perdida dentro de mim. Nem sei para quê carregar tantas caixas. Vou nesta noite para a Pamp’s de novo, para mim este chamado significa mais um presságio. Hum. Mais montanhas, quero ir para a Serra do Itatiaia no Rio, ficar no hotel que o Guignard morou. Pelo menos um pouquinho. Eu não me contenho, não caibo em mim. Depois de várias carraspanas de todas as mulheres e até dos amigos ao meu redor vou ter que me conter e parar de beber e fumar, pelo menos por um tempinho. Não deve doer tanto assim. Ai de mim. Pararei com este papo de aranha que detesto. Prometo só para eu mesmo. Fui até Ouro Preto todos estavam lá sem mim, de volta vou à Praça ver os músicos com todos os ouvidos desligados até domingo, quando volto a ouvir o Big. Se tudo der certo. Topo tudo menos trair- me. Mamãe me ligou e não era nada como não poderia antes nem ter imaginado depois na Sexta-feira, sozinho, ouvi o Astor Piazzola de repente, sem imaginar. Só escrevi. Depois ainda o céu Ave Maria, como nunca tinha rezado no bar nem em lugar algum, foi minha primeira vez de novo. De ordem natural. Que elevação. Vou comer uma sardinha da hora. Apareceram os africanos naquele caminho agradável e gostoso. Deu até vontade de dançar, como tenho aprendido neste período francês. Ainda veio o coro feminino, era muito ao mesmo tempo, facilmente eu dominava em todas as frentes seria uma questão de idade? É uma pergunta sem respostas, apenas mais um pequeno exercício muito subjetivo. Porque me negas tanto assim a primavera, se sabes que a última quimera existe no mundo. Teus olhos. Em que lago, em que céu, em que mar se oculta? Os índios me contaram em segredo. A tarde cai. Longo é o beijo do amador, bandida. Gaviões e Passarinhos do Pier Paolo Pasolini com o inclassificável Totó. Uccellacci e Uccellini. Vendo este filme pela qüinquagésima vez, pude compreender sua moderna montagem parabólica e ferina. Um filme totalizante como o cinema. No escuro da Praça da Liberdade os bancos laterais são ocupados por casais de vários gêneros que entrelaçam suas pernas, mãos e bocas e balbuciam sons inaudíveis, esquentando toda a atmosfera ao redor, enquanto são circundados pelos caminhantes. Um passeio pelas suas Alamedas à noitinha, serve como um belo e motivador exercício de voyerismo. Também o que seria de mim sem essa imagem, imediatamente vamos queimar o filme. A câmera filma o pensamento. Lúbrica.

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