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domingo, 20 de março de 2016

UM CONTO DE REIS

A AEROMOÇA PANAMENHA

 Fábio Carvalho


Quando uma forte crise de apendicite o deixou longo tempo preso à cama, assim afastado do trabalho burocrático, o francês Henri Matisse, começou a se dedicar com mais afinco a pintura. “Antes o cotidiano me aborrecia. Ao pintar, passei a sentir-me gloriosamente livre e tranquilo”, dizia. A observação do quadro, “Luxo, Calma e Volúpia”, com suas pinceladas isoladas, levou-me à descoberta da evolução para uma crescente busca pela pureza da forma, da linha e das cores, chegando ao ponto máximo de congruência na visão dos gouaches découpées, os trabalhos de colagem com papel recortado. Ali, falando com meu umbigo, resolvi o problema do conceito da montagem-bricolagem do filme “Hierba Buena”, melhor dizendo: do confeito. O pensamento do tempo interno, nesse filme, deve nascer da superfície, do externo em direção as camadas interiores, um palimpsesto musical, como num olho-cinema-coração, nessa questão de ordem.  Ao contrário do que geralmente se apresenta em movimento inverso especialmente no chamado “teatrão”, na dramaturgia das novelas televisivas e frequentemente também no cinema. Aqui em Cuba brilha o signo dos quadros mobiles, bestas selvagens na mais livre tradução. Assim posto, minha compreensão daquele organismo sensual tornou-se maior, exige-se uma preparação maior, senão seria como o chute do cara que pegou na orelha da bola. Minha proposta foi esquecer-lembrando do Bunuel e crer puramente na forma- imagem, como Rosellini/Saraceni, fazendo da musica a mais subserviente escrava de seus poderes mágicos. Ela a imagem. Um filme feminino-político-libertário e imparcial, ou seja, uma missão quase impossível.  O bamboleio incidente de revelações imagéticas do cinema do Doutor Sette, inventou para mim nessa etapa de imersão, uma nova possibilidade de aprendizado pela linha dos desenhos na pedra da linguagem. Era tudo cinema. Então tive que ouvir a imagem. Não teria como fugir de mais uma construção maneirista em um momento tão drástico da situação, como ouvi a menina falando para outra no canteiro do meio da avenida: é melhor ter os dentes tortos do que não tê-los. Comecei com as explosões do Santiago Alvarez no texto do José Marti, filmado na truca com o nome de “El Tigre saltó, y muito... pero morirá...morirá!!!  Continuei com afirmações que ouvi numa entrevista do Rogério Sganzerla: a investigação da verdade deve seguir também um caminho verdadeiro, isto foi citado por Eisenstein usando Marx no seu celebre ensaio sobre a imagem e o som: que o processo de busca da verdade também seja um processo verdadeiro para se encontrar essa verdade, que pode ser a minha, a sua ou a do expectador, na verdade são várias verdades. Temos o famoso aforismo que diz: quando duas pessoas começam a acreditar na mesma verdade ela deixa de ser verdadeira.  Depois me meti a ler A Evolução Criadora do Bergson e me ferrei, estou há mais de uma semana na primeira página, leio e releio, devo estar ganhando tempo ou perdendo, parafusos deveriam ser apertados, com licença vou tomar um tempo. Num passe de mágica, na manhã de Domingo, em que houve a troca do horário de verão e mais uma troca de tiros na Serra, na minha cabeça, consegui achar que estava entendendo o filme que estava fazendo. Subitamente, como falava o Saraceni, desconfio que encontrei a alma do filme, e foi logo ali na esquina das três portas. Ela a alma de vestido leve, vinha descendo a rua da gelateria Copélia, no contra luz, sorrindo como se estivesse se apresentando só para mim, em detrimento da grande plateia ao seu redor  acompanhando-a. Não pude deixar de admira-la e deseja-la. Incrível como uma coisa externa a você, pode te dominar ao ponto de te levar a acreditar que aquilo tudo é verdade e nada existe no espaço sideral além daquilo. Um mundo a parte se descortina, sem te dizer qual o significado, qual a relevância desta abdução para um lado ou para outro. Acredito acreditar em que acredito, sem dúvidas. Nunca suportei que mandassem em mim, muitas vezes não aceito nem meus próprios comandos, quero fazer tal coisa e acabo fazendo outra. É o hoje chamado transtorno obsessivo de oposição, uma doença velho, mesmo assim a alma conseguiu esse inacreditável feito com louvor, me dominou. Fiz o que ela quis e assim terminei o filme sob a luz caribenha. Ó doce alma, imponderável e selvagem. Segundo Glauber, Rossellini subverte a estética da ilusão pela estética da matéria. Rossellini é o primeiro cineasta a descobrir a câmera como instrumento de investigação e reflexão. Seu estilo de enquadramento, de iluminação e seus tempos de montagem criaram um novo método de fazer cinema. Novamente o Saraceni falou: sempre devemos lembrar o Glauber. Quando o substrato começa a estragar, a planta fica muito doente. A partir de um determinado momento do filme Memórias do Subdesenvolvimento, a personagem Sérgio, pensa alto: tudo me chega cedo demais ou tarde demais. Em outra época talvez houvesse podido entender o que está acontecendo aqui, hoje já não posso. Um caminho caudaloso, fértil e contraditório, um instigante território de utopia revolucionária. Montagem: o especifico cinematográfico.  

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