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terça-feira, 30 de junho de 2015

UM CONTO DE REIS

TELEGRAFIA VAGA BEM SENTIDA


 Fabio Carvalho

Alvorada lá no morro que beleza, ninguém chora, não há tristeza, ninguém sente dissabor. O céu colorindo é tão lindo, tão lindo. A natureza sorrindo, tingindo, tingindo a alvorada... Acordei e depois do bom dia Brasil que o Mancha me forneceu, fiz todos os afazeres rotineiros matinais, chequei se todos os equipamentos estavam carregados, em seguida, apressei-me em sair para não atrasar meu compromisso às nove horas daquela manhã de Terça-Feira modorrenta. Abri a porta para sair, quando me preparava para tranca-la pelo lado de fora, percebi que estava sem meus olhos, ou seja, meus óculos não estavam em cima do meu nariz. Especulando nuvens. A fonte da Praça funcionava em altos cântaros de esguichos, voltei e procurei por meus olhos em todos os lugares possíveis e imagináveis, até entre as almofadas do sofá e no meio das cobertas e dos travesseiros da cama desarrumada, nada. É possível que eu estivesse meio cego. Comecei a me abater de ansiedade, sentimento que detesto. Pensei em ligar para eles, os óculos, para ver por onde andavam, no mesmo movimento desisti, já que se eles atendessem, minha situação mental poderia ficar pior. Um amigo meu disse que em samba, canta-se melhor flor e mulher. Eu que tenho rosas como tema, canto no compasso que quiser.  Resolvi que dessa agua não beberia, relaxei e faltei ao compromisso sem meus olhos. Um pouco mais tarde, sentei numa cadeira que nunca havia sentado debaixo da janela, bem na claridade, lá estavam eles, olhando para mim. Coloquei-os em seu lugar e fui ouvir música. Minha amiguinha negra quase azul, de quem infelizmente o nome esqueci, com olhos rasgados cor de cobra e cabelos pixaim acima do teto, gerente da loja de panelas e utensílios de cozinha, me viu passando e falou no meio termo entre a inquisição e a zoação, com um sorriso branco no canto da boca: ô seu lero-lero cadê o filme que você falou que ia me chamar? Sem parar de andar, fugindo momentaneamente das obrigações, respondi: taí uma coisa que é bem demoradinha. Já as gargalhadas com fina ironia ela falou: tá bom ô lero-lero, eu continuo esperando, viu! A beleza é um insulto ao mundo que é feio, pensando nesse sentido o insulto é a nossa salvação e nossa vingança contra o sistema. Ouvindo aquele som, a manhã inacreditavelmente clara se alterou propiciando a chegada da tridimensionalidade através da sombra que a luz de ataque pelo lado esquerdo causou. Chegamos também ao movimento de células fotoelétricas da projeção, ou melhor, da prospecção engendrada pelo campo magnético postado no interior do globo ocular. A Lua Plena. O poeta zoólogo Paulo Vanzolini disse que todo mundo presta muita atenção na segunda parte da sua letra: levanta sacode a poeira e dá a volta por cima, enquanto para ele, a primeira é a mais importante: reconhece a queda.  Durante dias e noites vi tua imagem límpida linda iluminada por uma ponta de bela tristeza como fosse eu. O cheiro perfumado de teu pescoço me fustigava ao ponto de eu não ter como fugir de me alojar bem no centro daquela ambiência macia, quente e anatômica que se abria só para mim. Eu disse que ia chegar, cheguei. Morena do mar. Sonhos em profusão. Por onde anda Joss Stone, aquela gata, cantora, poeta e descalça, ninguém a viu mais, está fora da mídia, nem sei quem é a mídia, quero falar da minha média, onde ela andará? Depois do Bomfim, minha alma canta vejo o Rio de Janeiro. A questão cinematográfica que me bate na secura das montanhas só vejo com clareza na umidade da baia da Guanabara, tenho sido assim há bastante tempo, nem tento entender o porquê, o próprio acontecimento já me basta como prazer. Depois do vento sul gelado e da chuva fininha do Rio de Janeiro, que continuou em Ouro Preto, me apaixonei pela Rúcula, só como onde ela se encontra, desde o p.f. até a pizza do Domingo à noite, após o futebol, perdido ou ganhado. Não vivo mais sem ela, a Rúcula, não sei que doença é essa, nem me interesso em saber. Enquanto ela não chega vou procurar a Acelga, e ainda posso recorrer à Mostarda, apesar da preguiça. Gostaria de ter mais tempo para não pensar. Ontem fui apresentado pelo transarquiteto João Diniz à Abobrinha, que segundo ele lhe foi apresentada por nosso valvulado Arnaldo Batista no Melo. Para que tantas reflexões, já que hoje conseguimos nos esquecer de baianos, tipo Caetano e Gil, há muito sou mais Tom Zé, sem falar das peladas dos novos em Jacarepaguá.  Na mesma mesa o Doutor Sette disse que vai se aproveitar da sua nova conquista, a Go-Pró de asas, um perigo para quem tem algo a esconder, da sua Grande-Angular não  escapará nada sem distorções. As praias desertas continuam esperando por nós dois. São 12 horas e 13 minutos de Quinta feira. Um caminho de pedra no peito também. Ainda em Ouro Preto um velho amigo me levou para conhecer um tonel de Aqua Vita, fabricada pelo falecido pai no porão da antiga casa da família no Bairro das Cabeças. A especiaria tinha o belo nome de Gotas de Orvalho, ela com encorpada presença de Anita e do ubíquo Guará, me escondeu de uma gripe que rondava. Recusei a esparrela.  Outra vez sem você, outra vez vou vagar.  No mesmo dia, fui para porta da casa enquanto esperava o Cícero fazer a maquiagem, nisso veio descendo a rua em minha direção, um jovem casal muito bonito. Quando se aproximaram, o galã me perguntou sem dar bom dia o seguinte: o senhor sabe onde fica aquela escada que sobe para o morro da forca? Sintonizado com a brisa leve do fim daquela manhã prateada, respondi sem empáfia: a escada sobe e também desce, aliás, nós é que subimos ou descemos por ela. Ele ficou com a expressão estupefata, ela a ruiva mais atrás, riu bastante, coisa que me fez muito bem. Indiquei onde a escada ficava, e eles foram cochichando alegres sobre nosso encontro floreado. Na volta fui visitar meu pai que me emprestou o livro O Jovem JK de Roniwalter Jatobá. Depois já no meu reservado, abro o livro aleatoriamente e leio a curiosa narração: “Após um rápido banho, Juscelino cobrou dos primos.                                                              – Vamos, estou doido para conhecer o centro. Na esquina das ruas Caetés e Rio de Janeiro, ele chamou a atenção dos primos para algo inusitado. – Vejam... Era um açougue com azulejos brancos subindo pelas paredes. Lá dentro, via-se um imenso balcão de mármore e as carnes dos animais penduradas em ganchos. – Vejam que limpeza – disse. – O açougue cintila de tão limpo. Acho que é a primeira visão de luxo que tenho na vida. Comentou admirado.” O filme quando nasce, pode ser na real sensação documento do imaginário e documentário enquanto filme não é jornalismo.


    

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