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terça-feira, 30 de abril de 2013

Variados


NOTÍCIA
Dia 18 o cinema paulista amanheceu muito triste com a notícia da morte de Aloysio Raulino. Nascido no Rio, em 1947, Raulino fez praticamente toda a sua carreira de cineasta e fotógrafo em São Paulo. Era requisitado pelos diretores e amado pelos amigos. Nos últimos dias fora visto sempre frequentando as sessões do festival de documentários É Tudo Verdade. Morreu de repente, de causa não divulgada.

Foi como fotógrafo original e inspirado que teve seu nome marcado no cinema brasileiro. Sua assinatura se associa a alguns títulos fundamentais da filmografia recente, como Serras da Desordem, de Andrea Tonacci.

Serras da Desordem talvez seja o mais impressionante documento sobre a situação indígena no País.

Sua morte prematura foi uma perda irreparável para o cinema brasileiro.


LITERATURA VERSUS CINEMA VERSOS...
A FESTA ENCANTADA DA IMAGINAÇÃO
    Fábio Carvalho

Ela subiu lépida a escadaria em L passando direto para o outro salão do restaurante dentro de um vestido acinzentado e outonal apertado na cintura. Leve como brisa transparente. De pé na varanda, acompanhei detalhadamente através da minha mira treinada o movimento do recheio. Terminei uma conversa inóspita e a segui pelo cheiro.
A esta altura, o cinema explode os meus neurônios e me transmuta para uma gênese que, claro, não coaduna com a dos outros ao redor, vultos que transitam sem rumo e que não reconheço como do mesmo planeta que o meu. E não existe a culpa são apenas os acontecimentos naturais dos privilégios que nos são dados. Começo essa pequena falsa narrativa exatamente como Federico Fellini iniciou o seu Fazer um Filme, usando o texto do Ítalo Calvino intitulado: Autobiografia de um Expectador. Não que quisesse simplesmente copiar os mestres, e sim porque o que vivi aqui, eu já tinha imaginado antes. É curioso o poder da antevisão. Lá se foram os anos em que ia ao cinema quase todos os dias, e de vez em quando, até duas vezes ao dia. Era o período compreendido entre o ano de 1976 e o início dos oitenta – em suma, a adolescência. Época da sexualidade latente. Para mim, o cinema era o mundo. Quando vi pela primeira vez Oito e Meio numa mostra na Sala Humberto Mauro, amei o que não compreendi e vi mais quantas vezes pude. Aquele universo em preto e branco era o meu, aquelas dúvidas eram minhas e aquelas mulheres também. O mesmo aconteceu com O Desprezo no cine Nazaré. Só eu sabia. Agora em cor. Ela tinha pintado as unhas de vermelho. Comemos o peixe Robalo com legumes ao vapor e purê. O filme erótico era projetado dos olhos para os olhos, o canto da boca dela azul me mastigava e checava minhas fibras. Comecei a inventar dificuldades para minha condição de expectador nos cineclubes da província, e fui me meter a também fazer imagens. Nunca soube por que me sinto compelido a este risco reconhecidamente desnecessário. Bem sei que o mundo cinema não precisa de mim, sou eu que preciso dele. É minha forma existencialista. Enquanto eu esperava o garçom trazer a conta, ela foi ao banheiro e voltou com um meio sorriso enrolando com habilidade sua meia calça preta e guardando-a na bolsa. Na seqüência, depois de um breve silêncio, disse: tirei tudo, eu estava assando...
Olhei suas pernas e um roxo na sua panturrilha branca e firme chamou minha atenção.
Jean-Luc Godard: o que é que as pessoas fazem? Movem-se. As únicas coisas que não se movem são os objetos que as pessoas criam. Tudo criado pela natureza move-se o tempo todo. Esta mesa não se move, mas está na terra que gira. E é de tal forma angustiante uma mesa não se mexer que cada dois anos é preciso trocá-la de lugar. Vivemos fazendo isto.
Luis Rosemberg Filho: que tipo de objeto é a imagem?
Jean-Luc Godard: não é nada ela não existe. Por outro lado, é ela a ligação e o surgimento de alguma coisa que se materializa, exclusivamente ao brotar de um pensamento, de um sonho.
Paguei a conta e descemos pela a escadaria, ao lado do portão de ferro que dava para rua, ela se virou e se encostou levemente na pilastra, de uma forma que me recebeu de frente entre as pernas encaixando a boca na minha boca. Alguns segundos de eternidade. Saímos caminhando nas alturas pelas ruas daquela cidade toda branca que nem me lembro se era no Egito ou na Grécia. De súbito, para me cevar ainda mais, ela disse: fiquei molhada.
No mundo cinema era preciso que existisse esta coisa inconfessável que se chama imagem. Cedo percebi a dificuldade do cinema. Como novamente diz o Jean-Luc, é muito mais agradável estar no cinema do que fazer filmes. Fazer imagens para construir um filme te submete a uma quantidade tal de problemas que é difícil imaginar que um brasileiro preguiçoso assim como eu possa pensar nessa possibilidade. Também poderia recorrer à frase da Marguerite Duras: eu faço cinema porque não tenho a coragem ou a força de não fazer nada. De minha parte nunca me interessei por contar estórias, tantos acham que contam estórias, se escondem atrás das estórias e muitos contam mal as estórias.  Ninguém entende as estórias que eles contam, mas só o fato de ter a estória os faz acreditar que isto os redime de mal contá-las, sigamos em frente. Paramos em uma cafeteria e tomamos cada qual um Irish-coffee. Aumentou o calor. Continuamos o caminho para lugar algum e ela me pediu para morder a pele da sua mão que liga o polegar ao indicador, exigindo que a dentada fosse cada vez mais forte até marcar. Pareceu-me que ela gostava. Não me interesso em contar estórias e sim em mostrar, talvez me interesse em me mostrar um pouco, quem sabe. Sempre pensei em fazer os filmes antes de escrever os roteiros.
Jules Michelet escreveu: a natureza fê-las feiticeiras. É o espírito próprio da mulher e seu temperamento. Ela nasce fada. Pelo amor torna-se mágica. É vidente em certos dias; possui a asa infinita do desejo e do sonho. Pela finura e a malícia (muitas vezes fantasiosa e benéfica), é feiticeira e enfeitiça, ou pelo menos adormece e ilude os males. A imagem é mulher. Ela se movimenta em frente a mim.
Por outro lado a estória também pode ser mostrada, acho que essa é minha forma de ver o filme que faço. Podemos ir além como alguém já disse: uma vez imaginado o filme eu já o considero feito; se posso contá-lo vagamente então porque fazê-lo? De certo modo, hoje em dia é até mais fácil que antes se alguém quiser mesmo fazer seu primeiro filme, o problema consiste em como fazer aquele filme e não em como fazer cinema. Faço o filme que desejo e não o que sonho. Certamente é uma perseguição infinda e ininterrupta sem absorção. É filmando que se descobre o que é preciso filmar. Já que o cinema se faz com uma câmera pode-se perfeitamente suprimir o papel. A menos que não se queira ir tão longe.
Mário Alves Coutinho: Renoir já colocava em dúvida a influência imediata do cinema. A guerra estourou logo depois que ele fez “La Grande Illusion”, um filme pacifista.
Jean-Luc Godard: ah, sim! O cinema não tem a menor influência. Acreditou-se um dia, que a chegada de um trem à estação assustaria. Assustou uma vez e nunca mais. Eis porque nunca pude compreender, mesmo ontologicamente, a censura. Ela parte do princípio que o som e a imagem têm repercussão nas condutas individuais.
Mário Alves Coutinho: a influência do cinema é insignificante?
Jean-Luc Godard: sem dúvida, mas nem mais nem menos que o resto, ou seja, que tudo, pois todas as coisas têm influência de uma forma ou de outra. Se excetuarmos essa parte do cinema que se chama televisão, o cinema tem a mesma influência que as pesquisas de laboratório, a literatura ou a música clássica.
Sentamos um instante em um banco de praça, ela tirou um livro da bolsa e começou a ler um poema para mim, por debaixo dos seus cabelos acariciei sua nuca. Os olhos dela se reviraram e se enevoaram. Subimos correndo a escadaria de um hotel ali perto. Já dentro do quarto ela me pôs a esperar, e voltou inteiramente branca e nua. Ela se abriu e se exibiu para mim, sem que eu pudesse tocá-la. Ela a imagem.
O poeta Luís Nicolau Fagundes Varella (1941-1975), nascido em Rio Claro (RJ),  afirmava que a língua humana é a mais terrível da todas as “Armas”. 
ARMAS
Fagundes Varela
- Qual a mais forte das armas,
a mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
faz em dez minutos brecha?
- Qual a mais firme das armas?
- O terçado, a fisga, o chuço,
o dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço,
o punhal, ou o chifarote?
A mais trenda das armas,
pior que a durindana,
atendei, meus bons amigos:
se apelida: – a língua humana.

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