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segunda-feira, 13 de junho de 2016
POESIA
MUNDO MAU
jose sette
Ele nasceu osso duro de roer - suposto delito deleite de poucos sabores - branca luz dos seus seios a lambuzar coisas pequenas.
Ele nasceu sorrindo e depois chorou o charme discreto enlameado da cidade nas obras menores do divino em sangue e areia.
Ele nasceu contradição e descaso - televisão desligada - antena quebrada pela força dos ventos.
Ele nasceu sombras que rodeiam o meio-dia explodindo a luz do pensamento num caos colérico de alegria.
Ele nasceu parabólico das imagens - por todos os lados se envergado em busca do saber e como um ser alado em busca do sol massacrado das necessidades - néscio do mar louco de viver. Porta negra sem casa.
Navegando no nada.
Afogando-se.
Vir a ser.
Ele nasceu só como um tigre cego ao natural sem bengala e sem mortalha e sem querer.
Lembrando-se sempre que és pó e só um simples mortal pode ao pó retornar.
Ele eterno pó - pérola pré-fabricada de plástico - mulher indesejável
un trapo sujo no pescoço social
passa correndo atrás do osso
que foi duro de roer...
Ele que nunca foi ninguém deixa hoje de ser Ele - um anjo louco barroco das catedrais criatura de chaga e gozo - um semideus vivo de fogo que passa pelos portais do inferno rindo da ironia que atrai e conduz ao retorno
Antes de morrer
Ele é aquele rapaz que veio ver ao lado do pai, observador enfraquecido, o velho astuto ensandecido satanás.
terça-feira, 7 de junho de 2016
ENSAIANDO
O desatino de Ezra Pound no mosaico da poesia moderna
por
Homero Nunes
In a Station of the Metro
The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.
A aparição destas faces na multidão;
Pétalas num úmido, negro ramalhete.
Ezra Pound ficou 13 anos em um hospício por suas ideias políticas.
Doido ou não, talvez, foi declarado incapaz por flertar com o fascismo, duvidar
da democracia, defender teorias econômicas controversas e produzir uma
poesia moderna demais. Elitista, intelectualmente elitista,
criticava a decadência da civilização e a monetarização das relações pessoais
no capitalismo putrefato. Reacionário na política, revolucionário na poesia,
Pound foi a contradição figurada no caos da consciência torturada do século XX.
E teve tempo, longevo, para torturar sua consciência e se arrepender de muita
coisa: 87 anos. Usando a poesia como instrumento, como artifício, “vórtice
imagético” (como alguns críticos tentaram circunscrevê-lo), o autor construiu
mosaicos de referências estilhaçadas do mundo antigo, medieval, renascentista,
moderno, do ocidente e do oriente, e de mundos mentais, épicos e fantasiosos.
Imagens, metáforas, citações e referências múltiplas; uma erudição que causa
vertigens em nossa mediocridade. Esqueça o fascismo, o autoritarismo, o
elitismo ou qualquer outro ismo relacionado a Ezra Pound, sua
poesia supera todos eles no ismo final do aforismo, poesia
pura no mosaico da modernidade.
O RETORNO
Veja, eles
retornam; ah, vê a tentativa
Movimentos, e os
pés lentos,
O problema do
ritmo e do incerto
oscilar!
Veja, eles
retornam, um, e por um,
Com medo, como
semi-acordados;
Como se a
neve hesitasse
E murmurasse ao
vento,
dando
meia-volta,
Estes eram os
que tem medo de voar,
Invioláveis.
Deuses do sapato
alado!
Com eles, os
cães de prata,
farejando o
rastro de ar!
E ASSIM EM
NÍNIVE
Sim! Sou um
poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de
espalhar pétalas de rosas
E os homens,
mirto, antes que a noite
Degole o dia com
a espada escura.
Veja! não cabe a
mim
Nem a ti
objetar,
Pois o costume é
antigo
E aqui em Nínive
já observei
Mais de um
cantor passar e ir habitar
O horto sombrio
onde ninguém perturba
Seu sono ou
canto.
E mais de um
cantou suas canções
Com mais arte e
mais alma do que eu;
E mais de um
agora sobrepassa
Com seu laurel
de flores
Minha beleza
combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta
e sobre minha tumba
Todos os homens
hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a
noite mate a luz
Com sua espada
azul.
Não é, Raana,
que eu soe mais alto
Ou mais doce que
os outros. É que eu
Sou um Poeta, e
bebo vida
Como os homens
menores bebem vinho.
SAUDAÇÃO
Oh geração dos
afetados consumados
e consumadamente deslocados,
Tenho visto
pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto,
com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus
sorrisos transbordantes de dentes
e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais
feliz que vós,
E eles eram mais
felizes do que eu;
E os peixes
nadam no lago
e não possuem nem o que vestir.
poesia:
“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.
“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.
Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já
foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir
se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da
boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que
cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.
Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da
música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à
arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte
da música por um professor comum de piano.
Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes
artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar
disfarçá-la.
Não permita que a palavra influência signifique
apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas
que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há
pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas cinzentas como
pombas, ou então lívidas como pérolas, não consigo lembrar-me.
Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum.”
POUND, Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. São
Paulo: ed. Cultrix, 1976. (p.11-12)
sexta-feira, 3 de junho de 2016
POLÍTICA
Temer, o
Obscuro
Orlando Senna
Todo mundo sabe, embora às vezes
de maneira imprecisa, o que é obscurantismo. É impedir que verdades ou fatos
venham à luz, é oposição ao progresso intelectual ou material, é restringir ou
negar o acesso do povo ao conhecimento. A vítima é a sociedade. O caminho do
obscurantismo para impedir que a sociedade tenha acesso a conhecimentos são os
diversos tipos de repressão política, militar, religiosa, sexual,
comportamental. Enfim, todas as certezas absolutas e todos os preconceitos.
De uma maneira mais rápida e
incisiva, outro caminho sempre foi utilizado ao longo dos séculos: anular
filósofos, artistas e cientistas. Anular através da prisão, da tortura, do
exilio e da morte. Como os martírios de Galileu,
Dante, Lutero, Voltaire, Nostradamus, García Lorca, Jesus. E também, no nosso
tempo, Salman Rushdie, Glauber Rocha, Victor Jara, Vladimir Herzog. E milhares
de outros pensadores/comunicadores. "Viva la
muerte, abajo la inteligencia" era um dos slogans da ditadura franquista
na Espanha.
A Idade Média foi considerada,
tanto pela Renascença que a sucedeu no século XV como pelos iluministas do
século XVIII, como a Era Obscurantista, a Idade das Trevas. Um periodo
histórico de contínua deterioração material (economia destroçada pelo fim do
Império Romano) e, profundamente, degeneração cultural e ética. Basta citar a
Santa Inquisição, o trabalho escravo ou “servil” (sem remuneração) do
feudalismo, as Cruzadas. O que nos interessa nessa História é que traços,
vestígios e excrementos da Idade Média permanecem na nossa Idade Contemporânea,
tanto em níveis de poder como em níveis de atitudes pessoais.
Regressão
O alvo do obscurantismo é a
cultura, a fonte geradora de ideias e comportamentos. Entre os primeiros atos
de Michel Temer, presidente interino que governa como se não fosse interino,
estava a extinção do Ministério da Cultura, instituição que construiu uma
profunda e profícua relação com a sociedade, com o fazer e o querer da
sociedade. Cuidando da cultura nos seus aspectos social, simbólico e econômico,
o MinC tornou-se uma referência para vários países, um desenho de eficiência
estudado e elogiado por centenas de teses universitárias ao redor do mundo. A
nave-mãe de indústrias culturais que cresceram geometricamente nas últimas duas
décadas, influenciando beneficamente a economia nacional tão carente hoje de
influências benéficas.
A reação contra a decisão do
presidente interino foi e continua sendo enorme mas ele não cedeu: a Cultura
estará a cargo de uma secretaria no Ministério da Educação, que volta a ser da
Educação e Cultura, MEC, como era há mais de trinta anos. Retrocesso brutal,
três décadas para trás. Os milhões de trabalhadores diretos e indiretos das
atividades culturais passaram a militar em uma vigorosa oposição ao ato que
classificam, com toda razão, como obscurantista.
Significados
Cinco séculos antes de Cristo o
filósofo Heráclito de Éfeso foi alcunhado O Obscuro. É considerado o fundador
da metafísica. É o autor da frase “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, porque
tanto a água como o ser humano mudam ininterruptamente. É a doutrina do
mobilismo de todas as coisas. Heráclito, o Obscuro, era um filósofo competente
mas isso só veio à luz bem depois da sua morte porque ele não se fazia entender
pelos ouvintes de seu tempo, não tinha o dom da comunicação oral. Esse
significado semântico de obscuro (sem claridade, sombrio, misterioso,
incompreensível) é um entendimento colateral para o título deste texto, ao qual
voltaremos.
O sentido primordial é o de
gerador de obscurantismo, o que ou aquele que difunde a escuridão a partir de
sua própria ausência de luz. Um significado inventado aqui e agora para esse
substantivo. Os professores me diriam que a palavra correta seria
obscurantista, em sua acepção de adepto do obscurantismo. Prefiro a licença
poética, a diagramação fica mais de acordo com as alcunhas históricas
(Alexandre o Grande, Pepino o Breve, Maria Primeira a Louca, Jack o
Estripador). Temer o Obscuro promete, pelos suas ações nos primeiros dias de
governo, que a tendência ao pregresso, ao que já aconteceu e não deu certo,
continuará: não escolheu uma só mulher para o ministério, afrodescendente nem
falar, índio nem pensar.
Por que? E aqui entra o
significado semântico, o Temer misterioso, aquele que não se revela. Não me
refiro a brincadeiras nas redes sociais que o apelidam de “mordomo da casa de
Drácula”. É mais sério que isso: por que um cara que já não era popular decide
jogar contra si mesmo a oposição ferrenha dos grandes artistas e intelectuais
brasileiros, formadores básicos da opinião pública? Em todos os shows, em todo
teatro, em qualquer acontecimento artístico no Brasil acontece neste momento
atos hostis a Temer. E também no Festival de Cannes, e também em concertos de
rock stars em Nova York. Não sei de outro político que tenha promovido um ato
impopular que não ajudou a ninguém, que é nefasto à sociedade e ao próprio
político.
A resposta mais cabível que
circula nos meios de comunicação é que se trata de uma vingança. Como a grande
maioria dos trabalhadores da cultura é contra o impeachment da presidente Dilma
e criticaram o vice presidente Temer pelo seu açodamento para abocanhar o
poder, o agora presidente interino estaria exercendo uma vendeta, uma
retaliação. Se esse é o motivo, estamos fuçando no cerne do obscurantismo. Se
um mandatário de um país se vinga de seus cidadãos por questões pessoais, este
país está mesmo navegando entre a sombra e a treva.
* Link para outros textos de Orlando Senna no Blog Refletor
http://refletor.tal.tv/tag/orlando-senna
quinta-feira, 19 de maio de 2016
OUVINDO ECO
UMBERTO ECO propõe aqui uma brincadeira:
algumas obras, hoje consagradas, são submetidas a um hipotético editor. E,
analisadas em “fichas de leitura”, são, finalmente, recusadas. Esta é uma
experiência pela qual todo escritor novo, em qualquer parte do mundo, já
passou: mandar seus originais para uma grande editora, ficar esperando um
contrato ou pelo menos uma proposta e, de repente, receber uma carta muito
amável assinada pelo editor. Nessa carta. ele é informado de que certamente seu
livro tem qualidades, de que provavelmente seu livro fará sucesso e de que
infelizmente seu livro não será publicado.
Anônimo
A
Bíblia
Devo confessar que
quando comecei a ler os originais, e durante as primeiras páginas, senti-me
entusiasmado. Ali há ação pura e tudo o mais que o leitor de hoje exige de uma
obra de evasão: sexo (muitíssimo), com adultério, sodomia, homicídio, incesto,
guerras, etc.
O
episódio de Sodoma e Gomorra, com os travestis que pretendem violar os anjos, é
digno de Rabelais; as histórias de Noé são o mais puro Emilio Salgari; a fuga
do Egito é uma história que, mais cedo ou mais tarde, acabará sendo filmada… Em
resumo, trata-se do verdadeiro roman-fleuvebem estruturado, que não
economiza efeitos, pleno de imaginação com aquela dose de messianismo que
agrada, sem chegar ao trágico.
Mais adiante, no entanto, percebi que se
trata, na verdade, de uma antologia de vários autores, com muitos, excessivos,
trechos do poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, choradeira sem
pé nem cabeça.
O resultado é um feto monstruoso que
corre o risco de não agradar a ninguém, porque tem de tudo. Além disso, será
cansativo estabelecer a questão dos direitos de tão diferentes autores, a menos
que o representante de todos eles se encarregue da tarefa. Mas nem no índice
encontrei o nome desse representante, como se houvesse da parte dos autores
interesse em manter seu nome oculto.
Talvez
fosse possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Aí estaríamos
pisando em terreno firme. Com o título: Os Desesperados do Mar
Vermelho.
Homero
A
OdisséiaPessoalmente, o livro me agrada. A história tem beleza, é apaixonante,
cheia de aventuras. Tem a dose exata de amor, fidelidade e de escapadas
adulterinas (multo boa a figura de Calipso, uma típica devoradora de homens);
tem, inclusive, um momento “lolitico”, na melhor linha nabokoviana, com uma
ninfeta chamada Nausicaa: no episódio, o autor se permite algumas ousadias, mas
em momento nenhum incorre em excessos. O conjunto é excitante. As cenas merecem
figurar ao lado das melhores já produzidas no gênero western: a
luta é violenta, a cena do arco explora, até as últimas possibilidades, o
potencial literário de suspense.
Que
mais poderia dizer? Leio essa de um sopro, melhor que o primeiro livro do
autor, excessivamente estático em sua insistência de permanecer no mesmo lugar,
cansativo pela exuberância de acontecimentos (na terceira batalha e no décimo
duelo, o leitor já entendeu todo o mecanismo). Ademais, a história de Aquiles e
Patrocio, com seu fio latente de homossexualidade, nos transmite um certo
desagrado. Ao contrário, neste segundo livro, tudo caminha maravilhosamente;
até o tom é mais sereno: pensado mas não reflexivo. Depois, a montagem, o jogo
de flash-backs, o encadeamento das histórias! Em suma, muita
categoria. De fato, esse Homero tem talento.
Talento demais, seria o caso de
dizer… Chego a me perguntar se tudo ali será farinha do mesmo saco.
Sabe-se como é: escrevendo, escrevendo, a gente melhora (quem sabe se o
terceiro livro será um estouro). Mas o que me faz vacilar (e, afinal, me leva a
opinar negativamente) é a confusão que pode resultar da questão de direitos.
Antes de tudo, é impossível localizar o
autor. Os que o conhecem dizem que, de toda maneira, seria inútil discutir com
ele as pequenas modificações que deviam ser introduzidas no texto, pois é cego
como uma toupeira e, em mais de uma ocasião, deu provas de ser incapaz sequer
de escrever. Dizem que tinha seus originais na memória, mas que não estava
muito seguro do que havia escrito, alegando que o copista havia introduzido
interpolações na obra. Terá ele sido o autor ou apenas um testa-de-ferro?
Dante
A
Divina ComédiaO trabalho de Alighieri, embora de um típico escritor de fim de semana que, na
vida sindical, está filiado ao órgão de classe dos farmacêuticos, demonstra
indubitavelmente, certo talento técnico e notável “alento” narrativo. A obra
(em florentino vu!gar) compõe-se de quase 100 cantos em tercetos rimados e se
constitui em leitura agradável e interessante. Gosto, principalmente. de suas
descrições de astronomia e certos juízos concisos e densos, que faz com freqüência,
sobre teologia. Mais inteligível e popular é a terceira parte do livro, que diz
respeito a assuntos mais do gosto da maioria, e que concernem aos
interesses cotidianos do possível leitor (assuntos tais como a salvação, a
visão beatifica, a devoção à Virgem Maria). Obscura e caprichosa é a primeira
parte, com passagens de baixo erotismo, violência e trechos francamente
grosseiros. Esta é uma das poucas contra-indicações para superar esse primeiro
“canto”, o qual, quanto à criatividade, não diz mais do que já foi dito por
milhares de manuais sobre o outro mundo.
Diderot
A
Religiosa
Confesso
que não cheguei a folhear os manuscritos, mas acredito que um critico deve
saber, até de olhos fechados, o que deve e o que não deve ler. Conheço esse
Diderot: redige enciclopédias e agora tem em mãos um projeto de obra em não sei
quantos volumes, que provavelmente jamais será editada. Anda por toda parte
procurando desenhistas capazes de copiar o mecanismo de um relógio, ou as
minúcias de uma tapeçaria de Gobelin, e levará à falência seu editor. Não creio
que se trate do homem indicado para escrever algo divertido numa narrativa,
especialmente para uma coleção como a nossa, na qual sempre incluímos coisas
delicadas, um pouquinho picantes, como Restif de la Bretonne.
Sade
JustineO manuscrito estava em meio a um monte de coisas que eu devia ver esta semana,
e, para ser sincero, não o li todo. Limitei-me a abri-lo três vezes, ao acaso,
em três lugares diferentes, e vocês sabem que para um olho experimentado
isso é mais que o bastante.
Bem, da primeira vez encontrei uma
avalanche de páginas de filosofia da natureza com divagações sobre a crueldade
e a luta pela sobrevIvência, sobre a reprodução dos vegetais e a evolução das
espécies animais. Da segunda vez, deparei com pelo menos 15 páginas sobre o
conceito de prazer, sobre os sentidos e a imaginação, e mais coisas desse
gênero. Da terceira vez, outras 20 páginas sobre as relações de submissão entre
o homem e a mulher, nos diferentes países do mundo… Acho que isso basta. Não
estamos procurando uma obra de filosofia; o público, hoje, quer sexo e mais
sexo. Não importa a maneira como ele venha temperado.
Cervantes
Dom
QuixoteO livro, nem sempre inteligível, é a história de um gentil homem espanhol e de
seu criado, os quais vão pelo mundo perseguindo sonhos de cavalaria. Esse Dom
Quixote é um tanto louco (sua figura é magnificamente concebida: de fato,
Cervantes sabe narrar), enquanto seu criado é um simplório (dotado de certo e
rude bom senso), com o qual o leitor logo se identifica, quando ele procura
desmistificar as fantasias de seu amo. Até aqui o argumento, que se desdobra
com alguns bons efeitos e com freqüentes episódios divertidos, parece bem. Mas
a observação que quero fazer vai além de um juízo pessoal sobre a obra.
Em
nossa bem sucedida coleção econômica Os Fatos da Vida, publicamos,
com êxito notável, obras como Amadis de Gaula, A Lenda do
Graal, O Romance de Tristão, etc. Agora temos opção de
editar Reis da França, do mocinho de Barberino, livro
que para mim será o grande êxito do ano. Pois bem, se nos decidirmos por
Cervantes, poremos em circulação um livro que, não obstante ser muito bem
feito, atirará no lixo o publicado até agora, fazendo esses outros romances
parecerem coisa de idiota. Compreendo a liberdade de expressão, o clima de
rebeldia e tudo o mais, mas não podemos nos prejudicar a nós mesmos. A última
coisa que desejo é que, buscando novidades a qualquer preço, acabemos por
comprometer uma linha editorial que até agora foi popular, moral e também rendosa.
Recusar.
Proust
Em busca do tempo perdido
Trata-se,sem
mais nem menos, de uma obra comprometida, talvez muito grande; mas é possível
vendê-la através de uma série de livros de bolso.
Tal como está é impraticável. Falta nela
um trabalho vigoroso de depuração. Toda pontuação, por exemplo, terá de sofrer
uma completa revisão. Os períodos são muito cansativos e há alguns que chegam a
ocupar uma página. Com um bom trabalho de revisão que os reduza a dois ou três
linhas cada, com uma melhor utilização do ponto e do parágrafo, a obra teria
muito a ganhar. Se o autor não concordar, o melhor será não editá-lo.
Kafka
O
Processo
Não é mau essa
livrinho; é policial, com momentos a Hitchcock: por exemplo, o
homicídio final, passagem de público certo.
Parece, no entanto,
que o autor o escreveu sob censura. Que significam essas alusões obscuras, essa
falta de nomes, de pessoas, de lugares? De que crime acusam o personagem,
afinal? Se esses pontos puderem ser esclarecidos, tornando a história mais
concreta, a ação se tornaria mais límpida e mais certo o suspense.
Esses escritores jovens acreditam fazer
“poesia”, pois dizem “um homem”, em vez de dizer ”o senhor
tal, a tal hora, em tal lugar”.
Em síntese: se é possível fazer essas
modificações, bem; caso contrário, devolver os originais.
Joyce
Finnegans
Wake
Por favor, recomende à
redação que tenha mais cuidado quando me envia os livros. Leio inglês e me
mandam um livro escrito em sei lá que diabo de idioma. Em separado, estou
devolvendo o volume.
(*) Projeto Releituras.
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Uma caixinha com mais de cem anos...
A cultura, o nascedouro da utopia
Brasil
Leonardo
Boff *
Praticamente todos os grandes analistas da
nação brasileira, a começar por Joaquim Nabuco e culminando com Darcy Ribeiro
tinham os olhos voltados para o passado: como se formou este tipo de sociedade
que temos com características indígenas, negras, ibéricas, europeias e
asiáticas. Foram detalhistas a exemplo de um Gilberto Freyre, mas não dirigiam
os olhos para frente: que utopia nos move e como vamos concretizá-la
historicamente.
Todos os países que se firmaram,
projetaram seu sonho maior e bem ou mal o realizaram, às vezes, como os países
europeus, penalizando pela colonização, outros povos na África, na América
Latina e na Ásia. Geralmente é num contexto de crise que se elabora a utopia,
como forma de encontrar uma saída. Celso Furtado que além de um renomado
economista era um agudo observador da cultura nos diz num livro que deve ser
meditado pelos que se interessam pelo futuro do país:”Brasil: a construção
interrompida”: ”Falta-nos a experiência de provas cruciais, como as que
conheceram outros povos cuja sobrevivência chegou estar ameaçada”(1992, p.35).
Não nos faltaram situações críticas que seriam as chances para elaborar a nossa
utopia. Mas as forças conservadoras e reacionárias “se empenharam em
interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p.35),
por medo de perder seus privilégios.
E assim ficamos apenas com um Brasil do
imaginário, gentil, forte, grande, a província mais ridente do planeta Terra.
Mas fomos impedidos de construir um Brasil real que integrasse minimamente a
todos, multicultural, tolerante e até místico.
Chegou o momento, penso, que se nos
oferece o desafio de construir esta utopia. A partir de que base assumiremos
essa empreitada? Deve ser a partir de algo tipicamente nosso, que tenha raízes
em nossa história e que represente um outro software social. Esse patamar
básico é a nossa cultura, especialmente a nossa cultura popular. Como diz Celso
Furtado: ”desprezados pelas elites, os valores da cultura popular procedem seu
caldeamento com considerável autonomia em face das culturas dominantes”(O longo
amanhecer, 1999, p.65). O que faz o Brasil ser Brasil é a autonomia criativa da
cultura de raíz popular.
A cultura aqui é vista como um sistema de
valores e de projetos de povo. A cultura se move na lógica dos fins e dos
grandes símbolos e relatos que dão sentido à vida. Ela é perpassada pela razão
cordial e contrasta com a lógica fria dos meios, inerente à razão
instrumental-analítica que visa a acumulação material. Esta última predominou e
nos fez apenas imitadores secundários dos países tecnicamente mais avançados. A
cultura seguiu outra lógica, ligada à vida que vale mais que a acumulação de
bens materiais.
O filósofo e economista Gianetti, em suas
obras, viu a fecundidade de nossa cultura para elaborar o sonho brasileiro. Mas
ninguém melhor que o cientista social Luiz Gonzaga de Souza Lima, em seu ainda
não reconhecido livro:”A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada”
(2011), onde sistematiza o eixo da cultura brasileira como a articuladora da
utopia Brasil e de nossa identidade nacional.
A nossa cultura, admirada já no mundo
inteiro, nos permite refundar o Brasil que significa: “ter a vida como a coisa
mais importante do sistema social...é construir uma organização social que
busque e promova a felicidade, a alegria, a solidariedade, a partilha, a defesa
comum, a união na necessidade, o vínculo, o compromisso com a vida de todos,
uma organização social que inclua todos os seus membros, que elimine e impeça a
exclusão de todos os tipos e em todos os níveis”(p.266).
A solução para o Brasil não se encontra na
economia como o sistema dominante nos quer fazer crer, mas na vivência de seu
modo de ser aberto, afetuoso, alegre, amigo da vida. A razão instrumental nos
ajudou a criar uma infra-estrutura básica sempre indispensável. Mas o principal
foi colocar as bases para uma biocivilização que celebra a vida, que convive
com a pluralidade das manifestações, dotada de incrível capacidade de integrar,
de sintetizar e de criar espaços onde nos sentimos mais humanos.
Pela cultura, não feita para o mercado mas
para ser vivida e celebrada, poderemos antecipar, um pouco pelo menos, o que
poderá ser uma humanidade globalizada que sente a Terra como grande Mãe e Casa
Comum. O sonho maior, a nossa utopia, é a comensalidade: sentarmos juntos à
mesa e desfrutar a alegria de conviver amigavelmente e de saborear os bons
frutos da grande e generosa Mãe Terra.
* Leonardo Boff é articulista do JB on
line e escreveu Virtudes para um outro mundo possível (3 vol.), Vozes
2005-2006.
quinta-feira, 12 de maio de 2016
Contando um conto
QUEIXA DE
DEFUNTO
Lima Barreto
Antônio da
Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, a Boca do Mato, no
Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tornar público, mandou-me
a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:
Ilustríssimo
e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem
que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez
reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que se chama os
direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre
que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os
tivessem para eu lustrar e eu não.
Não fui
republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me
meti em greves, nem em cousa alguma de reivindicações e revoltas; mas morri na
santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.
Toda a minha
vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de
minha morte um sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas
que pressenti pelo pensa mento, graças à doutrinação das seções católicas dos
jornais.
Nunca fui ao
espiritismo, nunca fui aos “bíblias”, nem a feiticeiros, e apesar de ter tido
um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros
nem médiuns.
Vivi uma vida
santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração
de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem
pronunciadas com toda eloqüência em galego ou vasconço.
Segui-as,
porém, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz
depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias
porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me
sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. E bom, meu caro Senhor
Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam
para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos
lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa.
Foi o que
aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa
do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar
alguns anos ainda.
Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanha mento tiveram que atravessar em toda a extensão a Rua José Bonifácio, em Todos os Santos.
Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanha mento tiveram que atravessar em toda a extensão a Rua José Bonifácio, em Todos os Santos.
Esta rua foi
calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento
substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e larguras, por ela afora.
Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que
por ela rola sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro
mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto.
Comigo não
aconteceu isso, mas o balanço violento do coche machucou-me muito e cheguei
diante de São Pedro cheio de arranha duras pelo corpo. O bom do velho santo
interpelou-me logo:
— Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem-comportado — como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?
— Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem-comportado — como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?
Expliquei-lhe,
mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno.
Está aí como,
meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora
tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc. Posso garantir a
fidelidade da cópia a aguardar com paciência as providências da municipalidade.
sábado, 7 de maio de 2016
A ARTE CINEMATOGRÁFICA
DEVERÍAMOS ESTUDAR
CINEMA NAS ESCOLAS
Infelizmente, a maioria das pessoas acredita que o cinema é apenas
um passatempo, um entretenimento. Porém, o cinema apresenta funções múltiplas.
O cinema disseca e esfola a realidade externa e interna. E muito terá a ganhar
quem tiver olhos para ver, ouvidos para ouvir, coração para sentir e cabeça
para pensar.
Deveríamos
estudar cinema nas escolas como estudamos filosofia, ciências humanas e artes.
Não me refiro ao estudo técnico, com o intuito de formar diretores,
roteiristas, fotógrafos ou produtores. Ensinar a criar um argumento, fazer um
story-board, redigir e decupar um roteiro, conhecer os variados movimentos de
câmera e orientar os atores são competências que devem ser ensinadas em
faculdades, cursos técnicos e livres especializados na área.
Me refiro ao
estudo teórico e intelectual. Me refiro ao entendimento do cinema como uma
disciplina de entremeio, isto é, uma disciplina que engloba mais de uma área.
Cinema é arte, comunicação e tecnologia ao mesmo tempo. Para o filósofo
argentino, professor da Universidade de Brasília, Julio Cabrera cinema é
filosofia. Para ele, cinema e filosofia deveriam ser estudados por todas as
pessoas por se tratarem de importantes formas de se fazer pensar. Cabrera vai
além. Ele diz que o cinema faz pensar afetivamente.
Infelizmente, a
maioria das pessoas acredita que o cinema é apenas um passatempo, um
entretenimento. Muitos filmes servem apenas para divertir mesmo e não há
problema algum nisso. Quem não gosta de ver um filme para rir, se emocionar ou
sentir medo?
Porém, o cinema
apresenta funções múltiplas. O cinema diverte, leva a catarses, informa, educa,
conscientiza, suscita reflexões, divulga conhecimento e estimula o autoconhecimento.
Por meio do cinema aprende-se sobre culturas variadas, depara-se com temas
tabus, repensa-se valores, desconstrói- se e reconstrói-se conceitos,
questiona-se o poder instalado nas macro e microestruturas. O cinema perpassa
todos os âmbitos da sociedade e do ser humano, desnudando estruturas injustas
de poder instaladas nas esferas privadas e públicas, revelando um mundo que
poderia existir, propondo mudanças ou um novo olhar para o mundo existente.
Diferentemente
do que a maioria das pessoas acredita o cinema não é uma arte menor ou menos
profunda do que a literatura, por exemplo. Cada arte tem o seu valor e
importância. Cada arte tem os seus pontos fortes e apreciar mais ler do que ver
filmes ou vice-versa pode ser considerada uma questão de gosto. Podemos
encontrar em todas as artes muitos exemplos de obras profundas, medianas ou
rasas.
Se a sondagem
psicológica é o ponto forte da literatura, o ponto forte da música é despertar
rapidamente emoções muito marcantes, podendo até mesmo mudar o estado de
espírito de quem a escuta. As artes plásticas também promovem reações
instantâneas, sem falar, que podem ser entendidas independente do idioma.
Todas as artes
podem interferir na linguagem das outras e a questão da idade não deve ser
considerado um requisito para definir uma hierarquia entre as mesmas. A jovem
fotografia inspirou o impressionismo e libertou os pintores de retratar a
realidade. A literatura interferiu na linguagem do cinema, mas a sétima arte
também promoveu mudanças à literatura contemporânea , proporcionando à mesma um
olhar mais intimista e fragmentado.
A televisão,
mais especificamente a teledramaturgia, é a continuação das novelas de rádio
que nasceram dos folhetins. As novelas mesclam elementos narrativos e estéticos
do cinema e do teatro.
Se o cinema
fosse visto como uma possibilidade de conhecimento e autoconhecimento, como um
meio de reavaliar valores, quebrar tabus e preconceitos e reorganizar
estruturas de pensamento, ele poderia gerar importantes e grandes
transformações individuais e coletivas. Sabe-se que o cinema é capaz de
promover profundas mudanças a longo prazo. Outras artes também poder nos fazer
refletir e rever valores, como o teatro e a literatura, por exemplo. Mas o
cinema envolve uma questão sensorial que extrapola o intelecto e abstrato e
atinge os sentidos, promovendo sensações de nojo, piedade, simpatia, aceitação
ou rejeição de forma muito visceral.
Se o hábito da
leitura é excelente para treinar a concentração e a imaginação, o cinema
trabalha um outro tipo de criatividade. Se a literatura parte do abstrato para
imagens que formamos em nossa mente, o cinema pega o outro sentido da rodovia.
Ele parte da imagem para o abstrato, para os conceitos, para as ideias. Mas se
assistimos apenas a filmes para passar o tempo ou que reforçam visões
preconceituosas e estereotipadas do mundo, o que poderia ser um antídoto contra
a exclusão, o etnocentrismo, a violência torna-se mais um alimento para uma
sociedade pautada pelos ideais hedonistas e imediatistas da nossa cultura
materialista.
Filmes como
Clube da luta e Um dia de fúria questionam os valores da sociedade de consumo.
Filmes como Beleza Americana e Pequena Miss Sunshine, o american way of life.
Filmes como Sociedade dos poetas mortos, O sorriso de Mona Lisa e Escritores da
liberdade, o papel libertário do professor. Filmes como O inquilino e Cisne
negro, a mente de um esquizofrênico. Filmes como Lua de fel e Veludo azul, o
sofrimento gerado pelas perversões. Filmes como A bela da tarde e Foi apenas um
sonho, o lado B do casamento. Filmes como Gritos e sussurros e O silêncio, as
obscuridades familiares. Filmes como Menina bonita, O sopro do coração, Trinta
anos esta noite e Perdas e danos ( os quatro de Louis Malle) o lado sensível
dos temas tabu. Filmes como O açougueiro e Em suas mãos, o lado humano dos
psicopatas. Os exemplos de como um filme pode elucidar temas e mostrar culturas
e personalidades é extremamente amplo e complexo.
Em resumo:
deveríamos ter um docente que falasse e mostrasse filmes capazes de fazer as
crianças e adolescentes pensarem afetivamente, a fim de que se tornassem jovens
e adultos mais lúcidos nos sentidos ético, moral, estético e psicológico, sendo
mais capacitados para fazer escolhas conscientes e consistentes.
SÍLVIA MARQUES
Paulistana,
escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora
universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata
na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas,
amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias
inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se
tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa
mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em
versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..
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