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segunda-feira, 13 de junho de 2016

POESIA


MUNDO MAU
jose sette

Ele nasceu osso duro de roer - suposto delito deleite de poucos sabores - branca luz dos seus seios a lambuzar coisas pequenas.
Ele nasceu sorrindo e depois chorou o charme discreto enlameado da cidade nas obras menores do divino em sangue e areia.
Ele nasceu contradição e descaso - televisão desligada - antena quebrada pela força dos ventos.
Ele nasceu sombras que rodeiam o meio-dia explodindo a luz do pensamento num caos colérico de alegria.
Ele nasceu parabólico das imagens - por todos os lados se envergado em busca do saber e como um ser alado em busca do sol massacrado das necessidades - néscio do mar louco de viver. Porta negra sem casa.
Navegando no nada.
Afogando-se.
Vir a ser.
Ele nasceu só como um tigre cego ao natural sem bengala e sem mortalha e sem querer.
Lembrando-se sempre que és pó e só um simples mortal pode ao pó retornar.
Ele eterno pó - pérola pré-fabricada de plástico - mulher indesejável
un trapo sujo no pescoço social
passa correndo atrás do osso
que foi duro de roer...
Ele que nunca foi ninguém deixa hoje de ser Ele - um anjo louco barroco das catedrais criatura de chaga e gozo - um semideus vivo de fogo que passa pelos portais do inferno rindo da ironia que atrai e conduz ao retorno
Antes de morrer
Ele é aquele rapaz que veio ver ao lado do pai, observador enfraquecido, o velho astuto ensandecido satanás.

terça-feira, 7 de junho de 2016

ENSAIANDO


O desatino de Ezra Pound no mosaico da poesia moderna

por Homero Nunes
In a Station of the Metro
The apparition of these faces in the crowd;
Petals on a wet, black bough.

A aparição destas faces na multidão;
Pétalas num úmido, negro ramalhete.
  
Ezra Pound ficou 13 anos em um hospício por suas ideias políticas. Doido ou não, talvez, foi declarado incapaz por flertar com o fascismo, duvidar da democracia, defender teorias econômicas controversas e produzir uma poesia moderna demais. Elitista, intelectualmente elitista, criticava a decadência da civilização e a monetarização das relações pessoais no capitalismo putrefato. Reacionário na política, revolucionário na poesia, Pound foi a contradição figurada no caos da consciência torturada do século XX. E teve tempo, longevo, para torturar sua consciência e se arrepender de muita coisa: 87 anos. Usando a poesia como instrumento, como artifício, “vórtice imagético” (como alguns críticos tentaram circunscrevê-lo), o autor construiu mosaicos de referências estilhaçadas do mundo antigo, medieval, renascentista, moderno, do ocidente e do oriente, e de mundos mentais, épicos e fantasiosos. Imagens, metáforas, citações e referências múltiplas; uma erudição que causa vertigens em nossa mediocridade. Esqueça o fascismo, o autoritarismo, o elitismo ou qualquer outro ismo relacionado a Ezra Pound, sua poesia supera todos eles no ismo final do aforismo, poesia pura no mosaico da modernidade.

O RETORNO
Veja, eles retornam; ah, vê a tentativa
Movimentos, e os pés lentos,
O problema do ritmo e do incerto
oscilar!

Veja, eles retornam, um, e por um,
Com medo, como semi-acordados;
Como se a neve  hesitasse
E murmurasse ao vento,
dando meia-volta,
Estes eram os que tem medo de voar,
Invioláveis.

Deuses do sapato alado!
Com eles, os cães de prata,
farejando o rastro de ar!

E ASSIM EM NÍNIVE
Sim! Sou um poeta e sobre minha tumba
Donzelas hão de espalhar pétalas de rosas
E os homens, mirto, antes que a noite
Degole o dia com a espada escura.

Veja! não cabe a mim
Nem a ti objetar,
Pois o costume é antigo
E aqui em Nínive já observei
Mais de um cantor passar e ir habitar
O horto sombrio onde ninguém perturba
Seu sono ou canto.
E mais de um cantou suas canções
Com mais arte e mais alma do que eu;
E mais de um agora sobrepassa
Com seu laurel de flores
Minha beleza combalida pelas ondas,
Mas eu sou poeta e sobre minha tumba
Todos os homens hão de espalhar pétalas de rosas
Antes que a noite mate a luz
Com sua espada azul.

Não é, Raana, que eu soe mais alto
Ou mais doce que os outros. É que eu
Sou um Poeta, e bebo vida
Como os homens menores bebem vinho.

SAUDAÇÃO
Oh geração dos afetados consumados
          e consumadamente deslocados,
Tenho visto pescadores em piqueniques ao sol,
Tenho-os visto, com suas famílias mal-amanhadas,
Tenho visto seus sorrisos transbordantes de dentes
          e escutado seus risos desengraçados.
E eu sou mais feliz que vós,
E eles eram mais felizes do que eu;
E os peixes nadam no lago
          e não possuem nem o que vestir.

poesia:

“Não use palavras supérfluas, nem adjetivos que nada revelam. Não use expressões como dim lands of peace (brumosas terras de paz). Isso obscurece a imagem. Mistura o abstrato com o concreto. Provém do fato de não compreender o escritor que o objeto natural constitui sempre o símbolo adequado.
Receie as abstrações. Não reproduza em versos medíocres o que já foi dito em boa prosa. Não imagine que uma pessoa inteligente se deixará iludir se você tentar esquivar-se aos obstáculos da indescritivelmente difícil arte da boa prosa subdividindo sua composição em linhas mais ou menos longas. O que cansa os entendidos de hoje cansará o público de amanhã.
Não imagine que a arte poética seja mais simples que a arte da música, ou que você poderá satisfazer aos entendidos antes de haver consagrado à arte do verso uma soma de esforços pelo menos equivalente aos dedicados à arte da música por um professor comum de piano.
Deixe-se influenciar pelo maior número possível de grandes artistas, mas tenha a honestidade de reconhecer sua dívida, ou de procurar disfarçá-la.
Não permita que a palavra influência signifique apenas que você imita um vocabulário decorativo, peculiar a um ou dois poetas que por acaso admire. Um correspondente de guerra turco foi surpreendido há pouco se referindo tolamente em suas mensagens a colinas cinzentas como pombas, ou então lívidas como pérolas, não consigo lembrar-me. Ou use o bom ornamento, ou não use nenhum.”

POUND, Ezra. Arte da Poesia, Ensaios. São Paulo: ed. Cultrix, 1976. (p.11-12)

sexta-feira, 3 de junho de 2016

POLÍTICA


Temer, o Obscuro
Orlando Senna
Todo mundo sabe, embora às vezes de maneira imprecisa, o que é obscurantismo. É impedir que verdades ou fatos venham à luz, é oposição ao progresso intelectual ou material, é restringir ou negar o acesso do povo ao conhecimento. A vítima é a sociedade. O caminho do obscurantismo para impedir que a sociedade tenha acesso a conhecimentos são os diversos tipos de repressão política, militar, religiosa, sexual, comportamental. Enfim, todas as certezas absolutas e todos os preconceitos.
De uma maneira mais rápida e incisiva, outro caminho sempre foi utilizado ao longo dos séculos: anular filósofos, artistas e cientistas. Anular através da prisão, da tortura, do exilio e da morte. Como os martírios de Galileu, Dante, Lutero, Voltaire, Nostradamus, García Lorca, Jesus. E também, no nosso tempo, Salman Rushdie, Glauber Rocha, Victor Jara, Vladimir Herzog. E milhares de outros pensadores/comunicadores. "Viva la muerte, abajo la inteligencia" era um dos slogans da ditadura franquista na Espanha. 
A Idade Média foi considerada, tanto pela Renascença que a sucedeu no século XV como pelos iluministas do século XVIII, como a Era Obscurantista, a Idade das Trevas. Um periodo histórico de contínua deterioração material (economia destroçada pelo fim do Império Romano) e, profundamente, degeneração cultural e ética. Basta citar a Santa Inquisição, o trabalho escravo ou “servil” (sem remuneração) do feudalismo, as Cruzadas. O que nos interessa nessa História é que traços, vestígios e excrementos da Idade Média permanecem na nossa Idade Contemporânea, tanto em níveis de poder como em níveis de atitudes pessoais.
Regressão
O alvo do obscurantismo é a cultura, a fonte geradora de ideias e comportamentos. Entre os primeiros atos de Michel Temer, presidente interino que governa como se não fosse interino, estava a extinção do Ministério da Cultura, instituição que construiu uma profunda e profícua relação com a sociedade, com o fazer e o querer da sociedade. Cuidando da cultura nos seus aspectos social, simbólico e econômico, o MinC tornou-se uma referência para vários países, um desenho de eficiência estudado e elogiado por centenas de teses universitárias ao redor do mundo. A nave-mãe de indústrias culturais que cresceram geometricamente nas últimas duas décadas, influenciando beneficamente a economia nacional tão carente hoje de influências benéficas. 
A reação contra a decisão do presidente interino foi e continua sendo enorme mas ele não cedeu: a Cultura estará a cargo de uma secretaria no Ministério da Educação, que volta a ser da Educação e Cultura, MEC, como era há mais de trinta anos. Retrocesso brutal, três décadas para trás. Os milhões de trabalhadores diretos e indiretos das atividades culturais passaram a militar em uma vigorosa oposição ao ato que classificam, com toda razão, como obscurantista.
Significados
Cinco séculos antes de Cristo o filósofo Heráclito de Éfeso foi alcunhado O Obscuro. É considerado o fundador da metafísica. É o autor da frase “ninguém se banha duas vezes no mesmo rio”, porque tanto a água como o ser humano mudam ininterruptamente. É a doutrina do mobilismo de todas as coisas. Heráclito, o Obscuro, era um filósofo competente mas isso só veio à luz bem depois da sua morte porque ele não se fazia entender pelos ouvintes de seu tempo, não tinha o dom da comunicação oral. Esse significado semântico de obscuro (sem claridade, sombrio, misterioso, incompreensível) é um entendimento colateral para o título deste texto, ao qual voltaremos. 
O sentido primordial é o de gerador de obscurantismo, o que ou aquele que difunde a escuridão a partir de sua própria ausência de luz. Um significado inventado aqui e agora para esse substantivo. Os professores me diriam que a palavra correta seria obscurantista, em sua acepção de adepto do obscurantismo. Prefiro a licença poética, a diagramação fica mais de acordo com as alcunhas históricas (Alexandre o Grande, Pepino o Breve, Maria Primeira a Louca, Jack o Estripador). Temer o Obscuro promete, pelos suas ações nos primeiros dias de governo, que a tendência ao pregresso, ao que já aconteceu e não deu certo, continuará: não escolheu uma só mulher para o ministério, afrodescendente nem falar, índio nem pensar. 
Por que? E aqui entra o significado semântico, o Temer misterioso, aquele que não se revela. Não me refiro a brincadeiras nas redes sociais que o apelidam de “mordomo da casa de Drácula”. É mais sério que isso: por que um cara que já não era popular decide jogar contra si mesmo a oposição ferrenha dos grandes artistas e intelectuais brasileiros, formadores básicos da opinião pública? Em todos os shows, em todo teatro, em qualquer acontecimento artístico no Brasil acontece neste momento atos hostis a Temer. E também no Festival de Cannes, e também em concertos de rock stars em Nova York. Não sei de outro político que tenha promovido um ato impopular que não ajudou a ninguém, que é nefasto à sociedade e ao próprio político.
A resposta mais cabível que circula nos meios de comunicação é que se trata de uma vingança. Como a grande maioria dos trabalhadores da cultura é contra o impeachment da presidente Dilma e criticaram o vice presidente Temer pelo seu açodamento para abocanhar o poder, o agora presidente interino estaria exercendo uma vendeta, uma retaliação. Se esse é o motivo, estamos fuçando no cerne do obscurantismo. Se um mandatário de um país se vinga de seus cidadãos por questões pessoais, este país está mesmo navegando entre a sombra e a treva.

* Link para outros textos de Orlando Senna no Blog Refletor    http://refletor.tal.tv/tag/orlando-senna

 

quinta-feira, 19 de maio de 2016

OUVINDO ECO


“LAMENTAMOS COMUNICAR-LHE QUE SEU LIVRO…”


UMBERTO ECO propõe aqui uma brincadeira: algumas obras, hoje consagradas, são submetidas a um hipotético editor. E, analisadas em “fichas de leitura”, são, finalmente, recusadas. Esta é uma experiência pela qual todo escritor novo, em qualquer parte do mundo, já passou: mandar seus originais para uma grande editora, ficar esperando um contrato ou pelo menos uma proposta e, de repente, receber uma carta muito amável assinada pelo editor. Nessa carta. ele é informado de que certamente seu livro tem qualidades, de que provavelmente seu livro fará sucesso e de que infelizmente seu livro não será publicado.
Anônimo
A Bíblia
Devo confessar que quando comecei a ler os originais, e durante as primeiras páginas, senti-me entusiasmado. Ali há ação pura e tudo o mais que o leitor de hoje exige de uma obra de evasão: sexo (muitíssimo), com adultério, sodomia, homicídio, incesto, guerras, etc.
O episódio de Sodoma e Gomorra, com os travestis que pretendem violar os anjos, é digno de Rabelais; as histórias de Noé são o mais puro Emilio Salgari; a fuga do Egito é uma história que, mais cedo ou mais tarde, acabará sendo filmada… Em resumo, trata-se do verdadeiro roman-fleuvebem estruturado, que não economiza efeitos, pleno de imaginação com aquela dose de messianismo que agrada, sem chegar ao trágico.
Mais adiante, no entanto, percebi que se trata, na verdade, de uma antologia de vários autores, com muitos, excessivos, trechos do poesia, alguns francamente lamentáveis e aborrecidos, choradeira sem pé nem cabeça.
O resultado é um feto monstruoso que corre o risco de não agradar a ninguém, porque tem de tudo. Além disso, será cansativo estabelecer a questão dos direitos de tão diferentes autores, a menos que o representante de todos eles se encarregue da tarefa. Mas nem no índice encontrei o nome desse representante, como se houvesse da parte dos autores interesse em manter seu nome oculto.
Talvez fosse possível publicar separadamente os primeiros cinco livros. Aí estaríamos pisando em terreno firme. Com o título: Os Desesperados do Mar Vermelho.
Homero
A OdisséiaPessoalmente,  o livro me agrada. A história tem beleza, é apaixonante, cheia de aventuras. Tem a dose exata de amor, fidelidade e de escapadas adulterinas (multo boa a figura de Calipso, uma típica devoradora de homens); tem, inclusive, um momento “lolitico”, na melhor linha nabokoviana, com uma ninfeta chamada Nausicaa: no episódio, o autor se permite algumas ousadias, mas em momento nenhum incorre em excessos. O conjunto é excitante. As cenas merecem figurar ao lado das melhores já produzidas no gênero western: a luta é violenta, a cena do arco explora, até as últimas possibilidades, o potencial literário de suspense.
Que mais poderia dizer? Leio essa de um sopro, melhor que o primeiro livro do autor, excessivamente estático em sua insistência de permanecer no mesmo lugar, cansativo pela exuberância de acontecimentos (na terceira batalha e no décimo duelo, o leitor já entendeu todo o mecanismo). Ademais, a história de Aquiles e Patrocio, com seu fio latente de homossexualidade, nos transmite um certo desagrado. Ao contrário, neste segundo livro, tudo caminha maravilhosamente; até o tom é mais sereno: pensado mas não reflexivo. Depois, a montagem, o jogo de flash-backs, o encadeamento das histórias! Em suma, muita categoria. De fato, esse Homero tem talento.
Talento demais, seria o caso de dizer… Chego a me perguntar se tudo ali será farinha do mesmo saco. Sabe-se como é: escrevendo, escrevendo, a gente melhora (quem sabe se o terceiro livro será um estouro). Mas o que me faz vacilar (e, afinal, me leva a opinar negativamente) é a confusão que pode resultar da questão de direitos.
Antes de tudo, é impossível localizar o autor. Os que o conhecem dizem que, de toda maneira, seria inútil discutir com ele as pequenas modificações que deviam ser introduzidas no texto, pois é cego como uma toupeira e, em mais de uma ocasião, deu provas de ser incapaz sequer de escrever. Dizem que tinha seus originais na memória, mas que não estava muito seguro do que havia escrito, alegando que o copista havia introduzido interpolações na obra. Terá ele sido o autor ou apenas um testa-de-ferro?
Dante
A Divina ComédiaO trabalho de Alighieri, embora de um típico escritor de fim de semana que, na vida sindical, está filiado ao órgão de classe dos farmacêuticos, demonstra indubitavelmente, certo talento técnico e notável “alento” narrativo. A obra (em florentino vu!gar) compõe-se de quase 100 cantos em tercetos rimados e se constitui em leitura agradável e interessante. Gosto, principalmente. de suas descrições de astronomia e certos juízos concisos e densos, que faz com freqüência, sobre teologia. Mais inteligível e popular é a terceira parte do livro, que diz respeito a assuntos mais do gosto da maioria, e que concernem aos interesses cotidianos do possível leitor (assuntos tais como a salvação, a visão beatifica, a devoção à Virgem Maria). Obscura e caprichosa é a primeira parte, com passagens de baixo erotismo, violência e trechos francamente grosseiros. Esta é uma das poucas contra-indicações para superar esse primeiro “canto”, o qual, quanto à criatividade, não diz mais do que já foi dito por milhares de manuais sobre o outro mundo.
Diderot
A Religiosa
Confesso que não cheguei a folhear os manuscritos, mas acredito que um critico deve saber, até de olhos fechados, o que deve e o que não deve ler. Conheço esse Diderot: redige enciclopédias e agora tem em mãos um projeto de obra em não sei quantos volumes, que provavelmente jamais será editada. Anda por toda parte procurando desenhistas capazes de copiar o mecanismo de um relógio, ou as minúcias de uma tapeçaria de Gobelin, e levará à falência seu editor. Não creio que se trate do homem indicado para escrever algo divertido numa narrativa, especialmente para uma coleção como a nossa, na qual sempre incluímos coisas delicadas, um pouquinho picantes, como Restif de la Bretonne.
Sade
JustineO manuscrito estava em meio a um monte de coisas que eu devia ver esta semana, e, para ser sincero, não o li todo. Limitei-me a abri-lo três vezes, ao acaso, em três  lugares diferentes, e vocês sabem que para um olho experimentado isso é mais que o bastante.
Bem, da primeira vez encontrei uma avalanche de páginas de filosofia da natureza com divagações sobre a crueldade e a luta pela sobrevIvência, sobre a reprodução dos vegetais e a evolução das espécies animais. Da segunda vez, deparei com pelo menos 15 páginas sobre o conceito de prazer, sobre os sentidos e a imaginação, e mais coisas desse gênero. Da terceira vez, outras 20 páginas sobre as relações de submissão entre o homem e a mulher, nos diferentes países do mundo… Acho que isso basta. Não estamos procurando uma obra de filosofia; o público, hoje, quer sexo e mais sexo. Não importa a maneira como ele venha temperado.
Cervantes
Dom QuixoteO livro, nem sempre inteligível, é a história de um gentil homem espanhol e de seu criado, os quais vão pelo mundo perseguindo sonhos de cavalaria. Esse Dom Quixote é um tanto louco (sua figura é magnificamente concebida: de fato, Cervantes sabe narrar), enquanto seu criado é um simplório (dotado de certo e rude bom senso), com o qual o leitor logo se identifica, quando ele procura desmistificar as fantasias de seu amo. Até aqui o argumento, que se desdobra com alguns bons efeitos e com freqüentes episódios divertidos, parece bem. Mas a observação que quero fazer vai além de um juízo pessoal sobre a obra.
Em nossa bem sucedida coleção econômica Os Fatos da Vida, publicamos, com êxito notável, obras como Amadis de GaulaA Lenda do GraalO Romance de Tristão, etc. Agora temos opção de editar Reis da França, do mocinho de Barberino, livro que para mim será o grande êxito do ano. Pois bem, se nos decidirmos por Cervantes, poremos em circulação um livro que, não obstante ser muito bem feito, atirará no lixo o publicado até agora, fazendo esses outros romances parecerem coisa de idiota. Compreendo a liberdade de expressão, o clima de rebeldia e tudo o mais, mas não podemos nos prejudicar a nós mesmos. A última coisa que desejo é que, buscando novidades a qualquer preço, acabemos por comprometer uma linha editorial que até agora foi popular, moral e também rendosa. Recusar.
 Proust
Em busca do tempo perdido
Trata-se,sem mais nem menos, de uma obra comprometida, talvez muito grande; mas é possível vendê-la através de uma série de livros de bolso.
Tal como está é impraticável. Falta nela um trabalho vigoroso de depuração. Toda pontuação, por exemplo, terá de sofrer uma completa revisão. Os períodos são muito cansativos e há alguns que chegam a ocupar uma página. Com um bom trabalho de revisão que os reduza a dois ou três linhas cada, com uma melhor utilização do ponto e do parágrafo, a obra teria muito a ganhar. Se o autor não concordar, o melhor será não editá-lo.
Kafka
O Processo
Não é mau essa livrinho; é policial, com momentos a Hitchcock: por exemplo, o homicídio final, passagem de público certo.
Parece, no entanto, que o autor o escreveu sob censura. Que significam essas alusões obscuras, essa falta de nomes, de pessoas, de lugares? De que crime acusam o personagem, afinal? Se esses pontos puderem ser esclarecidos, tornando a história mais concreta, a ação se tornaria mais límpida e mais certo o suspense.
Esses escritores jovens acreditam fazer “poesia”,  pois dizem “um homem”, em vez de dizer ”o senhor tal, a tal hora, em tal lugar”.
Em síntese: se é possível fazer essas modificações, bem; caso contrário, devolver os originais.
 Joyce
Finnegans Wake
Por favor, recomende à redação que tenha mais cuidado quando me envia os livros. Leio inglês e me mandam um livro escrito em sei lá que diabo de idioma. Em separado, estou devolvendo o volume.

(*) Projeto Releituras.

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Uma caixinha com mais de cem anos...

A cultura, o nascedouro da utopia Brasil

Leonardo Boff *

Praticamente todos os grandes analistas da nação brasileira, a começar por Joaquim Nabuco e culminando com Darcy Ribeiro tinham os olhos voltados para o passado: como se formou este tipo de sociedade que temos com características indígenas, negras, ibéricas, europeias e asiáticas. Foram detalhistas a exemplo de um Gilberto Freyre, mas não dirigiam os olhos para frente: que utopia nos move e como vamos concretizá-la historicamente.
Todos os países que se firmaram, projetaram seu sonho maior e bem ou mal o realizaram, às vezes, como os países europeus, penalizando pela colonização, outros povos na África, na América Latina e na Ásia. Geralmente é num contexto de crise que se elabora a utopia, como forma de encontrar uma saída. Celso Furtado que além de um renomado economista era um agudo observador da cultura nos diz num livro que deve ser meditado pelos que se interessam pelo futuro do país:”Brasil: a construção interrompida”: ”Falta-nos a experiência de provas cruciais, como as que conheceram outros povos cuja sobrevivência chegou estar ameaçada”(1992, p.35). Não nos faltaram situações críticas que seriam as chances para elaborar a nossa utopia. Mas as forças conservadoras e reacionárias “se empenharam em interromper o nosso processo histórico de formação de um Estado-nação”(p.35), por medo de perder seus privilégios.
E assim ficamos apenas com um Brasil do imaginário, gentil, forte, grande, a província mais ridente do planeta Terra. Mas fomos impedidos de construir um Brasil real que integrasse minimamente a todos, multicultural, tolerante e até místico.
Chegou o momento, penso, que se nos oferece o desafio de construir esta utopia. A partir de que base assumiremos essa empreitada? Deve ser a partir de algo tipicamente nosso, que tenha raízes em nossa história e que represente um outro software social. Esse patamar básico é a nossa cultura, especialmente a nossa cultura popular. Como diz Celso Furtado: ”desprezados pelas elites, os valores da cultura popular procedem seu caldeamento com considerável autonomia em face das culturas dominantes”(O longo amanhecer, 1999, p.65). O que faz o Brasil ser Brasil é a autonomia criativa da cultura de raíz popular.
A cultura aqui é vista como um sistema de valores e de projetos de povo. A cultura se move na lógica dos fins e dos grandes símbolos e relatos que dão sentido à vida. Ela é perpassada pela razão cordial e contrasta com a lógica fria dos meios, inerente à razão instrumental-analítica que visa a acumulação material. Esta última predominou e nos fez apenas imitadores secundários dos países tecnicamente mais avançados. A cultura seguiu outra lógica, ligada à vida que vale mais que a acumulação de bens materiais.
O filósofo e economista Gianetti, em suas obras, viu a fecundidade de nossa cultura para elaborar o sonho brasileiro. Mas ninguém melhor que o cientista social Luiz Gonzaga de Souza Lima, em seu ainda não reconhecido livro:”A refundação do Brasil: rumo à sociedade biocentrada” (2011), onde sistematiza o eixo da cultura brasileira como a articuladora da utopia Brasil e de nossa identidade nacional.
A nossa cultura, admirada já no mundo inteiro, nos permite refundar o Brasil que significa: “ter a vida como a coisa mais importante do sistema social...é construir uma organização social que busque e promova a felicidade, a alegria, a solidariedade, a partilha, a defesa comum, a união na necessidade, o vínculo, o compromisso com a vida de todos, uma organização social que inclua todos os seus membros, que elimine e impeça a exclusão de todos os tipos e em todos os níveis”(p.266).
A solução para o Brasil não se encontra na economia como o sistema dominante nos quer fazer crer, mas na vivência de seu modo de ser aberto, afetuoso, alegre, amigo da vida. A razão instrumental nos ajudou a criar uma infra-estrutura básica sempre indispensável. Mas o principal foi colocar as bases para uma biocivilização que celebra a vida, que convive com a pluralidade das manifestações, dotada de incrível capacidade de integrar, de sintetizar e de criar espaços onde nos sentimos mais humanos.
Pela cultura, não feita para o mercado mas para ser vivida e celebrada, poderemos antecipar, um pouco pelo menos, o que poderá ser uma humanidade globalizada que sente a Terra como grande Mãe e Casa Comum. O sonho maior, a nossa utopia, é a comensalidade: sentarmos juntos à mesa e desfrutar a alegria de conviver amigavelmente e de saborear os bons frutos da grande e generosa Mãe Terra.

* Leonardo Boff é articulista do JB on line e escreveu Virtudes para um outro mundo possível (3 vol.), Vozes 2005-2006.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Contando um conto



QUEIXA DE DEFUNTO
Lima Barreto
Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, a Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tornar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:
Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que se chama os direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não.
Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem em cousa alguma de reivindicações e revoltas; mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.
Toda a minha vida de privações e necessidades era guiada pela esperança de gozar depois de minha morte um sossego, uma calma de vida que não sou capaz de descrever, mas que pressenti pelo pensa mento, graças à doutrinação das seções católicas dos jornais.
Nunca fui ao espiritismo, nunca fui aos “bíblias”, nem a feiticeiros, e apesar de ter tido um filho que penou dez anos nas mãos dos médicos, nunca procurei macumbeiros nem médiuns.
Vivi uma vida santa e obedecendo às prédicas do Padre André do Santuário do Sagrado Coração de Maria, em Todos os Santos, conquanto as não entendesse bem por serem pronunciadas com toda eloqüência em galego ou vasconço.
Segui-as, porém, com todo o rigor e humildade, e esperava gozar da mais dúlcida paz depois de minha morte. Morri afinal um dia destes. Não descrevo as cerimônias porque são muito conhecidas e os meus parentes e amigos deixaram-me sinceramente porque eu não deixava dinheiro algum. E bom, meu caro Senhor Doutor Prefeito, viver na pobreza, mas muito melhor é morrer nela. Não se levam para a cova maldições dos parentes e amigos deserdados; só carregamos lamentações e bênçãos daqueles a quem não pagamos mais a casa.
Foi o que aconteceu comigo e estava certo de ir direitinho para o Céu, quando, por culpa do Senhor e da Repartição que o Senhor dirige, tive que ir para o inferno penar alguns anos ainda.
 
Embora a pena seja leve, eu me amolei, por não ter contribuído para ela de forma alguma. A culpa é da Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro que não cumpre os seus deveres, calçando convenientemente as ruas. Vamos ver por quê. Tendo sido enterrado no cemitério de Inhaúma e vindo o meu enterro do Méier, o coche e o acompanha mento tiveram que atravessar em toda a extensão a Rua José Bonifácio, em Todos os Santos.
Esta rua foi calçada há perto de cinqüenta anos a macadame e nunca mais foi o seu calçamento substituído. Há caldeirões de todas as profundidades e larguras, por ela afora. Dessa forma, um pobre defunto que vai dentro do caixão em cima de um coche que por ela rola sofre o diabo. De uma feita um até, após um trambolhão do carro mortuário, saltou do esquife, vivinho da silva, tendo ressuscitado com o susto.
Comigo não aconteceu isso, mas o balanço violento do coche machucou-me muito e cheguei diante de São Pedro cheio de arranha duras pelo corpo. O bom do velho santo interpelou-me logo:
 
— Que diabo é isto? Você está todo machucado! Tinham-me dito que você era bem-comportado — como é então que você arranjou isso? Brigou depois de morto?
Expliquei-lhe, mas não me quis atender e mandou que me fosse purificar um pouco no inferno.

Está aí como, meu caro Senhor Doutor Prefeito, ainda estou penando por sua culpa, embora tenha tido vida a mais santa possível. Sou, etc., etc. Posso garantir a fidelidade da cópia a aguardar com paciência as providências da municipalidade.

sábado, 7 de maio de 2016

A ARTE CINEMATOGRÁFICA


DEVERÍAMOS ESTUDAR CINEMA NAS ESCOLAS


Infelizmente, a maioria das pessoas acredita que o cinema é apenas um passatempo, um entretenimento. Porém, o cinema apresenta funções múltiplas. O cinema disseca e esfola a realidade externa e interna. E muito terá a ganhar quem tiver olhos para ver, ouvidos para ouvir, coração para sentir e cabeça para pensar.
Deveríamos estudar cinema nas escolas como estudamos filosofia, ciências humanas e artes. Não me refiro ao estudo técnico, com o intuito de formar diretores, roteiristas, fotógrafos ou produtores. Ensinar a criar um argumento, fazer um story-board, redigir e decupar um roteiro, conhecer os variados movimentos de câmera e orientar os atores são competências que devem ser ensinadas em faculdades, cursos técnicos e livres especializados na área.
Me refiro ao estudo teórico e intelectual. Me refiro ao entendimento do cinema como uma disciplina de entremeio, isto é, uma disciplina que engloba mais de uma área. Cinema é arte, comunicação e tecnologia ao mesmo tempo. Para o filósofo argentino, professor da Universidade de Brasília, Julio Cabrera cinema é filosofia. Para ele, cinema e filosofia deveriam ser estudados por todas as pessoas por se tratarem de importantes formas de se fazer pensar. Cabrera vai além. Ele diz que o cinema faz pensar afetivamente.
Infelizmente, a maioria das pessoas acredita que o cinema é apenas um passatempo, um entretenimento. Muitos filmes servem apenas para divertir mesmo e não há problema algum nisso. Quem não gosta de ver um filme para rir, se emocionar ou sentir medo?
Porém, o cinema apresenta funções múltiplas. O cinema diverte, leva a catarses, informa, educa, conscientiza, suscita reflexões, divulga conhecimento e estimula o autoconhecimento. Por meio do cinema aprende-se sobre culturas variadas, depara-se com temas tabus, repensa-se valores, desconstrói- se e reconstrói-se conceitos, questiona-se o poder instalado nas macro e microestruturas. O cinema perpassa todos os âmbitos da sociedade e do ser humano, desnudando estruturas injustas de poder instaladas nas esferas privadas e públicas, revelando um mundo que poderia existir, propondo mudanças ou um novo olhar para o mundo existente.
Diferentemente do que a maioria das pessoas acredita o cinema não é uma arte menor ou menos profunda do que a literatura, por exemplo. Cada arte tem o seu valor e importância. Cada arte tem os seus pontos fortes e apreciar mais ler do que ver filmes ou vice-versa pode ser considerada uma questão de gosto. Podemos encontrar em todas as artes muitos exemplos de obras profundas, medianas ou rasas.
Se a sondagem psicológica é o ponto forte da literatura, o ponto forte da música é despertar rapidamente emoções muito marcantes, podendo até mesmo mudar o estado de espírito de quem a escuta. As artes plásticas também promovem reações instantâneas, sem falar, que podem ser entendidas independente do idioma.
Todas as artes podem interferir na linguagem das outras e a questão da idade não deve ser considerado um requisito para definir uma hierarquia entre as mesmas. A jovem fotografia inspirou o impressionismo e libertou os pintores de retratar a realidade. A literatura interferiu na linguagem do cinema, mas a sétima arte também promoveu mudanças à literatura contemporânea , proporcionando à mesma um olhar mais intimista e fragmentado.
A televisão, mais especificamente a teledramaturgia, é a continuação das novelas de rádio que nasceram dos folhetins. As novelas mesclam elementos narrativos e estéticos do cinema e do teatro.
Se o cinema fosse visto como uma possibilidade de conhecimento e autoconhecimento, como um meio de reavaliar valores, quebrar tabus e preconceitos e reorganizar estruturas de pensamento, ele poderia gerar importantes e grandes transformações individuais e coletivas. Sabe-se que o cinema é capaz de promover profundas mudanças a longo prazo. Outras artes também poder nos fazer refletir e rever valores, como o teatro e a literatura, por exemplo. Mas o cinema envolve uma questão sensorial que extrapola o intelecto e abstrato e atinge os sentidos, promovendo sensações de nojo, piedade, simpatia, aceitação ou rejeição de forma muito visceral.
Se o hábito da leitura é excelente para treinar a concentração e a imaginação, o cinema trabalha um outro tipo de criatividade. Se a literatura parte do abstrato para imagens que formamos em nossa mente, o cinema pega o outro sentido da rodovia. Ele parte da imagem para o abstrato, para os conceitos, para as ideias. Mas se assistimos apenas a filmes para passar o tempo ou que reforçam visões preconceituosas e estereotipadas do mundo, o que poderia ser um antídoto contra a exclusão, o etnocentrismo, a violência torna-se mais um alimento para uma sociedade pautada pelos ideais hedonistas e imediatistas da nossa cultura materialista.
Filmes como Clube da luta e Um dia de fúria questionam os valores da sociedade de consumo. Filmes como Beleza Americana e Pequena Miss Sunshine, o american way of life. Filmes como Sociedade dos poetas mortos, O sorriso de Mona Lisa e Escritores da liberdade, o papel libertário do professor. Filmes como O inquilino e Cisne negro, a mente de um esquizofrênico. Filmes como Lua de fel e Veludo azul, o sofrimento gerado pelas perversões. Filmes como A bela da tarde e Foi apenas um sonho, o lado B do casamento. Filmes como Gritos e sussurros e O silêncio, as obscuridades familiares. Filmes como Menina bonita, O sopro do coração, Trinta anos esta noite e Perdas e danos ( os quatro de Louis Malle) o lado sensível dos temas tabu. Filmes como O açougueiro e Em suas mãos, o lado humano dos psicopatas. Os exemplos de como um filme pode elucidar temas e mostrar culturas e personalidades é extremamente amplo e complexo.
Em resumo: deveríamos ter um docente que falasse e mostrasse filmes capazes de fazer as crianças e adolescentes pensarem afetivamente, a fim de que se tornassem jovens e adultos mais lúcidos nos sentidos ético, moral, estético e psicológico, sendo mais capacitados para fazer escolhas conscientes e consistentes.

SÍLVIA MARQUES


Paulistana, escritora, idealista em crise, bacharel em Cinema, cinéfila, professora universitária com alma de aluna, doutora em Comunicação e Semiótica, autodidata na vida, filósofa de botequim, com a alma tatuada de experiências trágicas, amante das artes , da boa mesa, dos vinhos, de papos loucos e ideias inusitadas. Serei uma atleta no dia em que levantamento de xícara de café se tornar modalidade esportiva. Sim, eu acredito realmente que um filme possa mudar a sua vida! Autora do blog Garota desbocada. Lancei recentemente em versão e-book pela Cia do ebook o romance O corpo nu..