ABAIXO TEXTOS - CRÍTICAS - ENSAIOS - CONTOS - ROTEIROS CURTOS - REFLEXÕES - FOTOS - DESENHOS - PINTURAS - NOTÍCIAS

Translate

quinta-feira, 10 de março de 2016

ENSAIO

A Ditadura do Proveito

Em seu novo ensaio, o italiano Nuccio Ordine critica a “ditadura do proveito”, o utilitarismo da educação e o pouco interesse da política pelos bens do espírito. 

 O noticiário policial de 26 de dezembro de 2013 em Paris relata que um escritor desesperado, farto de instituições indiferentes à sua paixão pela cultura, arremessou seu carro contra os portões gradeados do Palácio do Eliseu. O motorista, Attilio Maggiulli, não pôde suportar o que considerava um desprezo oficial ao projeto da sua vida, o Théâtre de la Comédie Italiénne – que perdeu quase 50% de financiamento público em três anos –, e não encontrou melhor maneira de apresentar suas queixas do que carimbar sua indignação contra a residência oficial da presidência da República Francesa.

Até aqui tem-se o resumo da história de Maggiulli. A notícia remete, no entanto, à história de outro escritor indignado, o professor italiano Nuccio Ordine (nascido em Diamante, região da Calábria, daí o nome Diamante Ordine em sua certidão de batismo). Com personagens iguais ou parecidos – uma cultura apunhalada, uma educação asfixiada e um povo adormecido –, Ordine, de 55 anos, preferiu usar a palavra para atacar a ignorância das instituições e alertar sobre seus efeitos para a cidadania. Se deixarmos que nos roubem o legado de nossos antepassados e que se mutile o conhecimento, alerta, não apenas deixaremos de ser pessoas cultas, como também todas as gerações futuras deixarão de ser pessoas em sentido estrito.

O veículo usado por Ordine para seu grito profético é o manifesto chamadoL’utilità dell’inutile “(A utilidade do inútil”, sem tradução no Brasil). Na Espanha, o ensaio foi publicado por Jaume Vallcorba, fundador das editoras Acantilado e Quaderns Crema, e traduzido pelo professor de Filosofia Jordi Bayod Brau.

“A barbárie do útil corrompeu nossas relações e afetos íntimos”

Ordine, professor de prestigiosas universidades, especialista em Renascimento e diretor de várias coleções de clássicos da editora Belles Lettres, de Paris, se diz “emocionado” pela recepção de seu livro em Barcelona, onde foi apresentado recentemente, e em Madri (onde foi apadrinhado por Fernando Savater). “As pessoas me abraçavam e me agradeciam. Um estudante me disse: ‘Decidi estudar Filosofia e Paleografia contra a vontade de meu pai, que me perguntava para que isso servia. Seu livro confirmou minha decisão”, relembra.

A tese central do livro pode ser resumida na ideia de que a literatura, a filosofia e outros conhecimentos humanísticos e científicos, longe de serem inúteis – como se poderia deduzir por seu progressivo isolamento nos planos educacionais e nos orçamentos ministeriais –, são imprescindíveis. “O fato de [tais conhecimentos] serem imunes a qualquer expectativa de benefício” representa, segundo o autor, “uma forma de resistência aos egoísmos do presente, um antídoto contra a barbárie do útil, que chegou a corromper inclusive nossas relações sociais e nossos afetos íntimos”. 

Como em um coro grego, Nuccio Ordine monta uma defesa do conhecimento apoiando-se nos autores que o precederam em sua empreitada. Dante, Petrarca, Moro, Campanella, Bruno, Bataille, Keynes, Steiner, García Márquez, Cervantes, Shakespeare, Platão, Sócrates, Sêneca, Heidegger, Cioran, García Lorca, Tocqueville, Hugo, Montaigne… Eles são recrutados e contextualizados para mostrar “o peso ilusório da posse e seus efeitos devastadores sobre adignitas hominis, o amor e a verdade”.

Por que este livro? “Há 24 anos venho tentando convencer meus alunos de que não se frequenta a universidade para obter um diploma, mas para tentarmos ser melhores, isto é, para aprendermos a raciocinar de forma independente.” Para Ordine, a transmissão do amor pelo conhecimento é um esporte de combate. E isso implica desmontar algumas ideias materialistas difundidas pelo sistema capitalista. “As pessoas pensam que a felicidade é um produto do dinheiro. Estão enganadas!”, afirma.

Tal pretensão já se estendeu para todos os âmbitos. “O utilitarismo invadiu espaços aonde nunca deveria ter entrado, como as instituições educativas”, denuncia o professor. E alerta: “Quando se reduz o orçamento para as universidades, escolas, teatros, pesquisas arqueológicas e bibliotecas, a excelência de um país está sendo diminuída, eliminando qualquer possibilidade de formar toda uma geração”.


CURRÍCULO BRILHANTE

Nuccio Ordine é filósofo e professor de literatura italiana da Universidade da Calábria. Lecionou na Universidade Yale, na Universidade de Nova York, na Sorbonne (Paris) e no Instituto Warburg (Londres). Desde 2012, é cavaleiro da Legião de Honra francesa.  A Utilidade do Inútil é o seu mais recente ensaio.

 

O autor também se apoia em um discurso de Victor Hugo – em 1848! – diante da própria Assembleia Constituinte da França, onde o escritor pronunciou estas palavras: “As reduções propostas no orçamento especial das ciências, das letras e das artes são duplamente perversas. São insignificantes do ponto de vista financeiro, e nocivas de todos os outros pontos de vista”. Ordine diz que, ao ler esse discurso, deu um pulo até o teto e se apropriou das teses de Hugo ao afirmar (exclamar, na verdade) que “nas épocas de crise é que se deve dobrar o orçamento para a cultura!”.

O manifesto inclui também um texto premonitório de Abraham Flexner, publicado em 1939, que prega a importância da ciência. “Queria que ficasse claro que a defesa do inútil [o que não é ligado ao objetivo de lucro] não diz respeito somente a escritores e humanistas, mas é uma luta que também preocupa os cientistas”, explica Ordine. “O Estado não pode renunciar à ciência básica [por causa dos benefícios advindos]; por isso escrevi um capítulo dedicado às universidades entendidas como empresas.”

“Em épocas de crise é preciso dobrar o orçamento para a cultura”

A Utilidade do Inútil não é apenas uma série de argumentos contra a tendência ao utilitarismo ou o “comércio satânico” (Baudelaire): é também um manual para superar o que o autor do livro chama de “o inverno da consciência” e para lembrar, com Montaigne, que “é o desfrutar, não o possuir, que nos faz felizes”




domingo, 6 de março de 2016

ENTREVISTA

A ÚLTIMA ENTREVISTA DE GUIMARÃES ROSA

Uma preciosidade histórica da língua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimarães Rosa morreria menos de um ano depois de tê-la concedido
Eis o homem. O homem que em menos de 20 anos, com sua prosa, seu estilo, sua literatura — sem os favores profissionais da medicina, que pode dar saúde mas ainda não deu gênio (cf. alguns prêmios Nobel), conquistou o Brasil, Portugal, a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos, o mundo, não?
Repara no corpo: mau grado as ligeiras ameaças de obesidade, parece atleta, cavaleiro que foi, ou de bandeirante, que da língua é. Vê como está sobriamente elegante, distinto, sorridente, calmo, aristocrata, como convém a um embaixador (ou não estivéssemos num salão do Itamarati). Mas nada da pose ou dos gestos artificiais com que outros tentam iludir a mediocridade. Quem esperou quase quarenta anos para publicar o primeiro livro, ou quem avançou sozinho pelos grandes sertões da língua, não precisa ter pressa nem pedir emprestado um corpo, uma casaca, máscaras.
Lá está o lacinho (ou gravata-borboleta, meu chapa?) simetricamente impecável, fazendo pendant com os óculos claros, tão claros que ainda esclarecem mais os olhos sempre inquiridores, atentos. E é curioso como um mineiro de Cordisburgo, a dois passos (brasileiros) da Ita­­bira de Drum­mond, gosta, ao contrário deste (à primeira vista), de falar, de con­tar, de ser ouvido. Até nisso parece grande o seu amor à língua. Mal me sentei, já ele me começou a falar de Portugal e de escritores portugueses…
Guimarães Rosa — Estive em Portugal três vezes. Na primeira, em 1938, passei lá apenas um dia; ia a caminho da Alemanha. Na segunda, em 1941, passei lá quinze dias, em cumprimento de uma missão diplomática que me fora confiada em Ham­­burgo. Na terceira, em 1942, passei um mês, pois estava já de regresso ao Brasil, por causa da guerra.
Durante essas estadas, travou relações ou conhecimentos com alguns escritores?
Guimarães Rosa — Não. Até porque eu ainda não era “escritor” (“Sagarana”, com efeito, só foi publicado em 1946) e o que me interessava mais era contatar com a gente do povo, entre a quais fiz algumas amizades. Gosto mui­to do português, sobretudo da sua integridade afetiva. O brasileiro também é gente muito boa, mas é mais superficial, é mais areia, enquanto o português é mais pedra. Eu tenho ainda uma costela portuguesa. Minha família do lado Gui­marães é de Trás-os-Montes. Em Minas o que se vê mais é a casa minhota, mas na região em que eu nasci havia uma “ilha” transmontana.
Mas não chegou a conhecer Aquilino?
Guimarães Rosa — Conheci Aquilino (Aquilino Ribeiro), mas acidentalmente. Eu entrei numa livraria, não sei qual, do Chiado (presumo que a Bertrand) e, quando pedi al­guns livros dele, o empregado per­guntou-me se eu queria co­nhecê-lo, pois estava ali mesmo. Respondi que sim, e desse modo obtive dois ou três autógrafos de Aquilino, com quem conversei alguns instantes. Voltei a estar com ele, mais tarde, num jantar que lhe foi oferecido enquanto de sua vinda ao Brasil. Mas ele, naturalmente, não se recordava de mim (porque eu não me apresentara como escritor), e eu também não lhe falei do assunto.
Não sabe que, justamente numa crônica motivada pela sua ida ao Brasil, Aquilino colocou o seu nome, logo em 1952, ao lado dos de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Agripino Grieco, que, segundo ele, eram os “notáveis escritores e poetas” que estavam a “encostar a pena contra a lava” que ia no Brasil “sepultando prosódia e morfologia da língua-mater”? Eu creio mesmo que é essa uma das primeiras referências ao seu nome, em Portugal…
Guimarães Rosa — Não sabia dessa curiosa referência do Aquilino. Antes dessa, porém, há uma referência a mim numa publicação do Consulado do Porto, de 1947, feita por não sei quem. Sei de outra referência feita, anos depois, salvo erro, por um irmão de José Osório de Oliveira.
Voltando a Aquilino: acha que recebeu alguma influência dele? Já, pelo menos, um crítico, o mineiro Fábio Lucas, notou alguns “pontos de contato nada desprezáveis” entre a sua obra e a de Aquilino.
Guimarães Rosa — Eu gosto de Aquilino, sobretudo da “Aventura Maravilhosa”, mas não creio que dele tenha recebido alguma influência, a não ser na medida em que sou influenciado por tudo o que leio. A verdade é que antes de 1941 só conhecia de Aquilino um ou dois trechos, co­mo infelizmente ainda hoje sucede em relação à quase totalidade dos escritores portugueses vivos. E, como sabe, “Sagarana”, foi escrito em 1937.
Um garçom do Itamarati entra com um copo de água, e pergunta se precisa mais alguma coisa. Guimarães Rosa agradece e diz: Vá com Deus, como se fosse um beirão ou um transmontano. Mais uma razão, portanto, para eu prosseguir: Como encara ou explica o enorme prestígio de que goza nos meios intelectuais e universitários portugueses?
Guimarães Rosa — Em relação a mim, houve por aqui (no Brasil) muitos equívocos, que ainda hoje não desapareceram de todo e que, curiosamente, ao que parece, não houve em Por­tugal. Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. Talvez por isso que ainda hoje eu tenha verdadeira paixão pelos autores portugueses antigos. Uma das coisas que eu queria fazer era editar uma antologia de alguns deles (as antologias que existem não são feitas, como regra, segundo o gosto moderno), como Fernão Mendes Pinto, em quem ainda há tempos fui descobrir, com grande surpresa, uma palavra que uso no “Grande Sertão”: amouco. E vou dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém: o que mais me influenciou, talvez, o que me deu coragem para escrever foi a” História Trágico-Marítima” (coleção de relatos e notícias de naufrágios, acontecidos aos navegadores portugueses, reunidos por Ber­nardo Gomes de Brito e publicados em 1735). Já vê, por aqui, que as minhas “raízes” es­tão em Portugal e que, ao contrário do que possa parecer, não é grande a distância “linguística” que me se­para dos portugueses.
Eu penso até que na imediata e incondicional adesão portuguesa a Gui­marães Rosa há muito de transferência sublimada de uma frustração linguística nossa, coletiva, que vem pelo menos desde Eça. Mas não nos desviemos. Admira-me muito que não tenha citado ne­nhum livro de ca­valaria, nem ne­nhuma novela bu­cólica, pois pensava que deles e delas havia diversas ressonâncias na sua obra, sobretudo no “Gran­de Sertão: Veredas”…
Guimarães Rosa — Sim, li muitos livros de cavalaria quando era menino, e, por volta dos 14 anos, entusiasmei-me com Ber­nardim (Bernardim Ri­beiro), e depois até com Camilo. Ainda continuo a gostar de Ca­milo, mas quem releio permanentemente é Eça de Queiroz (quando tenho uma gripe, faz mesmo parte da convalescença ler “Os Maias”; este ano já reli quase todo “O Crime do Padre Amaro” e parte da “Ilustre Casa de Ramires”). Camilo, leio-o como quem vai visitar o avô; Eça, leio-o como quem vai visitar a amante. Quando fui a Portugal pela primeira vez, eu só queria comidas ecianas (que gostosura, aquele jantar da Quinta de Tormes). Aliás deixe-me que lhe diga que me torno muito materialista quando penso em Portugal; penso logo nos bons vinhos, nas excelentes comidas que há por lá. E talvez seja também por isso que se há um país a que eu gostaria de voltar é Portugal…
… que, naturalmente, o receberá de braços abertos, em festa. Mas permita-me ainda uma pergunta: como “enveredou” — e penso que a palavra se ajusta bem ao seu caso — pelo campo da “invenção linguística?
Guimarães Rosa — Quando escrevo, não pen­so na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Mo­çambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Por­tugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sem­pre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um
caderninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.
Guimarães Rosa vai buscar uma fotografia para me mostrar onde levava o caderninho de notas, nas boiadas: vai buscar uma pasta com a correspondência com um seu tradutor norte-americano, para me mostrar as dúvidas e dificuldades deste, e o trabalho, a seriedade e a minúcia com que as vai resolvendo uma por uma (escrevendo, ele próprio, preciosas autoanálises estilísticas ou considerações filológicas). E, entretanto, vai-me fazendo outras confissões interessantes. Por exemplo:  “gosto das traduções que filtram. Da tradução italiana do Cor­po de Baile gosto mais do que do original.” Ou: “Estou cheio de coisas para escrever, mas o tempo é pouco, o trabalho é lento, lambido, e a saúde também não é muita.” Ou: “Não faço vida literária: como regra, saio daqui e vou para casa, onde trabalho até tarde.” Ou: “No próximo ano, vou publicar um livro ainda sem título, com 40 estórias” (que têm aparecido quinzenalmente, no jornal dos médicos “O Pulso”, onde frequentemente aparecem também cartas ou a atacá-lo ou a defendê-lo ferozmente). Ou ainda: “eu não gosto de dar, nem dou entrevistas. Tenho sempre a sensação de que não disse o que queria dizer, ou que disse mal o que disse, ou que criei maior confusão; e não estou assim tão seguro do que procuro e do que quero. Com você abri uma exceção…”.

Nota: 
Entrevista realizada pelo escritor e jornalista Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Publicada no livro “Conversas com Escritores Brasileiros”, editora ECL em parceria com o Congresso Portugal-Brasil.


quinta-feira, 3 de março de 2016

CINEMA


 Filme Labirinto de Pedra 

Querem acabar com o audiovisual brasileiro

Por Orlando Senna

A partir de 2003, com a consolidação da agência reguladora e fiscalizadora Ancine, a instituição da Condecine, tributos cobrados na própria atividade e investidos nela, e a criação de um Fundo Setorial, um projeto estatal inteligente e inédito ancorou o forte crescimento do audiovisual brasileiro, levando o Brasil a ser o décimo mercado audiovisual do mundo. Essa política pública, escalonada, gradual, tem como meta estabelecer o País como quinto mercado mundial até a próxima década. A última ação regulatória de peso, a lei da tv por assinatura, com quatro anos de vigência já provocou o aumento da produção em mais de 100%. Outro bom exemplo é o cinema: são poucos, bem poucos, os países que conseguem ter 18% da bilheteria nacional para seus próprios filmes como acontece no Brasil.
A Condecine-Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional incide sobre todos os segmentos industriais, comerciais e tecnológicos da atividade, gerando a maior parte dos recursos necessários. Ou seja, os recursos vêm da própria atividade. Ao contrário da tendência geral de queda de outras grandes atividades econômicas, o audiovisual cresce, seu peso na economia já é maior do que o da indústria farmacêutica. Sua condição autoalimentadora blinda o audiovisual contra a crise econômica e política que o Brasil está enfrentando. 
Ou blindava. Este mês as empresas de telecomunicações, conhecidas como teles, impetraram um mandado de segurança contra a Condecine. O argumento é que não fazem parte da cadeia produtiva do audiovisual, apesar da telefonia prestar serviços de distribuição e recepção de conteúdos audiovisuais. Na verdade se trata de mais um ataque do capital internacionalizado à soberania brasileira e à sua autonomia legislativa. Quando falamos em atividade audiovisual não nos referimos apenas (e esse apenas é uma figura de linguagem conhecida como ironia) à enorme importância cultural do cinema, tv, vídeo, videogame e toda a gama das artes audiovisuais e de sua inigualável penetração psicossocial. Estamos falando também do mais importante setor econômico do século XXI, de uma poderosa atividade industrial-comercial que gera, direta e indiretamente, trabalho, renda e segurança familiar à população. O que significa que o ataque das teles impacta em cheio, ou no bolso, a sociedade civil brasileira.
Teles e telas
A Condecine das teles gera cerca de um bilhão de reais anuais, 80% de toda a arrecadação para o Fundo Setorial. A participação das teles nessa arrecadação reflete a enormidade dos lucros dessas empresas, boa parte deles remetidos para outros países, já que 90% dos acessos telefônicos são controlados por quatro corporações com matrizes no exterior ou associadas a matrizes estrangeiras: Telmex (Claro, Embratel, NET), Oi, Telefônica/Vivo e Vivendi. As tarifas cobradas por essas empresas no Brasil são as mais caras do mundo e os serviços são de péssima qualidade (as teles estão em primeiro lugar na lista nacional de reclamações de usuários). Sem nos esquecermos que as teles são concessionárias de um serviço público e estão sempre em choque com o monitoramento da Anatel, a Agência Nacional de Telecomunicações.
Por que, de verdade, as teles não querem pagar o tributo? O argumento de que não fazem parte da cadeia produtiva é uma balela, já que as cadeias produtivas são, por definição, o conjunto de etapas que chegam a um bem ou um serviço e à sua inserção no mercado (“estágios técnicos de produção e distribuição”). Uma das meias respostas possíveis, porque não deve ser a resposta inteira, é que essas empresas de telefonia também querem ser produtoras de conteúdo, passando a disputar esse segmento do mercado com as empresas de radiodifusão, com a televisão. Querem produzir e distribuir filmes, séries e novelas contaminados pela visão e prática de seu capitalismo predador. Ou, simplesmente, pretendem cumprir a fundo a estratégia predatória de seu modelo de capitalismo, que exige vítimas — e, nesse sentido perverso, as artes audiovisuais são as mais poderosas das armas.
A vítima pretendida pelas teles é o estado brasileiro, é desmoralizar a governança. Os danos colaterais, pretendidos ou não, atingem diretamente a sociedade brasileira. A sociedade é a vítima principal. Caso as teles não paguem o tributo, o governo estima que a saudável situação do audiovisual será interrompida, com uma drástica diminuição (talvez 70%) da produção para cinema e tv e com a inviabilização do projeto que está sendo iniciado no sentido do Brasil ser um importante produtor de videogames, o maior segmento econômico da atividade em escala mundial.
Se as teles conseguem consumar o crime, milhares de empregos sumirão pelo ralo. E, voltando ao outro lado da questão, menos conteúdo brasileiro no cinema, tv, internet e qualquer mídia também é uma adversidade para a consciência de identidade, cidadania e pertencimento dos brasileiros. Os poderes executivo e judiciário têm de reagir à altura a esta intentona das teles mas, principalmente, a sociedade tem de se fazer ouvir.
Formação
No meio dessa situação de enfrentamento com o modelo arcaico e brutal do capitalismo multinacional das teles, assoma uma consulta pública do Ministério da Educação sobre a Base Nacional Comum Curricular, onde o ensino do audiovisual é completamente ignorado. Em um tempo em que várias instituições e governos propõem o ensino do audiovisual em todos os níveis de formação, do fundamental ao superior, pela capital importância dessa linguagem na vida contemporânea, o Ministério da Educação demonstra uma ignorância surpreendente, um atraso de dar pena.

O Forcine-Fórum Brasileiro de Ensino de Cinema e Audiovisual e outras associações relacionadas com o tema estão se organizando para reivindicar a inclusão do audiovisual nos currículos como área importante da formação. Ataques frontais à soberania brasileira por parte de grupos econômicos estrangeiros é uma ameaça que vem de fora, desconhecimento do tempo em que vivemos por parte do Ministério da Educação é uma ameaça que vem de dentro. Ainda bem que há tempo para corrigir.

terça-feira, 1 de março de 2016

MINAS DE ROSA

GUIMARÃES ROSA

Célebre carta composta completamente com C comprida, contém cantada, crítica conta cônsules.

(Encontramos na loja do "Seu Brasinha" cópia de uma carta escrita por Guimarães Rosa, endereçada ao cônsul Cabral, seu colega, publicada no dia 25/11/1967, no Jornal da Tarde, poucos dias após a sua morte)


Consul caro colega Cabral,
.
Compareço, confirmando chegada cordial carta.

Contestando, concordo, contente, com cambiamento comunicações conjunto colegas, conforme citada consolidação confraria camaradagem consular.
Conte comigo: comprometo-me cumprir cabalmente, cabralmente condições compendiadas cláusulas contexto clássico código. (Contristado, cumpre-me consolidação coligar cordialmente conjuntocolegas?...crês?...crédulo!...considera:...”cobra come cobra!...” coletividade cônsules compatrícios contém, corroendo cerne, contubérnios cubiçosos, clãs, críticos, camarilhas colitigantes... contrastando, contam-se, claro, corretos contratipos, capazes, camaradas completos.) Concluindo: contentemo-nos com correspondermo-nos, caro Cabral, como coirmãos compreensivos, colaborando com colegas camaradas, combatendo corja contumaz!...

Contudo, com comedida cólera, coloco-me contra certos conceitos contidos carta caro colega, cujas conclusões, crassamente cominatórias, combato, classificando-as como corolários cavilosos, causados conturbação critério, comparável consequências copiosa congestão cerebral. Caso concordes cancelá-los , confraternizaremos completamente, com compreenção calorosa, cuja comemoração celebrarei consumindo cinco chopes (cerveja composta, contendo coisas capiciosas: corantes complicados, copiando cevada, causando cólicas cruéis...)

Céus! Convém cobrar compostura. Cesso contumélias, começando contar coisas cabíveis, crônica comtemporânea:
Como comprovo, continuo coexistindo concerto conviventes coevos, contradizendo crença conterrâneos cariocas, certamente contando com completa combustão, cremação, calcinação corpos cônsules caipiras cisatlânticos...

Calma completa? Contrário! Cessado crepúsculo, céu continuamente crepitante. Convergem cimo curvos clarões catanúvens, cobrindo campinas celestes, crivadas constelações.

Convidados comparecem, como corujas corajosas, contra cidade camuflada. Coruscam célebres coriscos coloridos. Côncavo celeste converte-se cintilante caverna caótica, como casa comadre camarada. Crebro, cavernoso, colérico, clama colossal canhonêio. Canhões cospem cometas com cauda carmesim. Caem coisas cilindro-cônicas, calibrosas, compactas, com carga centrífuga, conteúdo capaz converter casas cascalho, corpos compota, crâneos canjica. Cavam-se ciclópicas crateras (cultura couve-colosso...). Cacos cápsulas contraaéreas completam carnificina. Correndo, (canta, canta calcanhar!...) conjurando Churchil, conjeturando Coventry, campeio competente cobertura, convidativo cantinho, coso-me com chão, cautelosamente. Credo! (como conseguir colocar-me chão carioca Confeitaria Colombo, C.C., Copacabana, Catumbi???)
Cubiço, como creme capitoso, consulados Calcutá, Cobija!... Calma, calma; conseguiremos conservar carcaças.

Contestando, comunico cá conseguimos comboiar cobre captado (colheita consular comum), creditando-o cofres consignatário competente, calculo consegui-lo-ás, contanto caves corajosamente.

Conforme contas, consideras cós curtos como cômoda conjuntura, configuradora cinematográficoa contornos carnes cubicáveis. Curioso! Caso curtificação continue, conseguiremos conhecer coxas, calças?...Cáspite
Continuarei contando. Com comoção consentânea com cogitações contemporâneas, costumo compor canções. Convém conhêças:

CANTADA

Caso contigo, Carmela
Caso cumpras condição
Cobrarei casa, comida,
Cama, cavalo, canção
Carinho, cobres, cachaça,
Carnaval camaradão
Cassino (com conta certa)
Cerveja, coleira e cão,
Chevrole cinco cilindros
Canja e consideração,
Calista, cabelereiro
Cinema, calefação,
Chá, café, confeitaria,
Chocolate, chimarrão
Casemira – cinco cortes
Cada compra, comissão,
Conforto, comodidades,
Cachimbo, calma,... caixão,
Convem-te, cara Carmela?
Cherubim!...Consolação!...
(caso contrário, cabaças!
Casarei com Conceição.)
Caso contigo, Carmela,
Correndo com coração!...

Chega. Caceteei? Consola-te: concluí.

Com cordial, comovido: colega constante camarada,

a) J. Guimarães Rosa
Consul, capitão, clínico conceituado.

Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão.Confirme chegada carta, comunicando-me com cartão.

(Pesquisa do poeta mineiro Pedro Maciel)

"Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim, são minha maior aventura. Es­crevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no in­finito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade." 
João Guimarães Rosa


sábado, 27 de fevereiro de 2016

UMA CRÔNICA MINEIRA


 VISTA CANSADA

   Otto Lara Resende

Acho que foi o Hemingway quem disse que olhava cada coisa à sua volta como se a visse pela última vez. Pela última ou pela primeira vez? Pela primeira vez foi outro escritor quem disse. Essa idéia de olhar pela última vez tem algo de deprimente. Olhar de despedida, de quem não crê que a vida continua, não admira que o Hemingway tenha acabado como acabou.
Se eu morrer, morre comigo um certo modo de ver, disse o poeta. Um poeta é só isto: um certo modo de ver. O diabo é que, de tanto ver, a gente banaliza o olhar. Vê não-vendo. Experimente ver pela primeira vez o que você vê todo dia, sem ver. Parece fácil, mas não é. O que nos cerca, o que nos é familiar, já não desperta curiosidade. O campo visual da nossa rotina é como um vazio.
Você sai todo dia, por exemplo, pela mesma porta. Se alguém lhe perguntar o que é que você vê no seu caminho, você não sabe. De tanto ver, você não vê. Sei de um profissional que passou 32 anos a fio pelo mesmo hall do prédio do seu escritório. Lá estava sempre, pontualíssimo, o mesmo porteiro. Dava-lhe bom-dia e às vezes lhe passava um recado ou uma correspondência. Um dia o porteiro cometeu a descortesia de falecer.
Como era ele? Sua cara? Sua voz? Como se vestia? Não fazia a mínima idéia. Em 32 anos, nunca o viu. Para ser notado, o porteiro teve que morrer. Se um dia no seu lugar estivesse uma girafa, cumprindo o rito, pode ser também que ninguém desse por sua ausência. O hábito suja os olhos e lhes baixa a voltagem. Mas há sempre o que ver. Gente, coisas, bichos. E vemos? Não, não vemos.
Uma criança vê o que o adulto não vê. Tem olhos atentos e limpos para o espetáculo do mundo. O poeta é capaz de ver pela primeira vez o que, de fato, ninguém vê. Há pai que nunca viu o próprio filho. Marido que nunca viu a própria mulher, isso existe às pampas. Nossos olhos se gastam no dia-a-dia, opacos. É por aí que se instala no coração o monstro da indiferença. 

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2016

UM CONTO DE REIS

 

METÁFORAS TAMBÉM AMAM


Fábio Carvalho
                                                                                                      Marku Ribas

 Retrato do artista quando jovem cão. Durante a noite sonhos em profusão com narrativa, personagens desenvolvidos e continuação depois da interrupção, para o primeiro pipi do dia. Chove sobre David Bowie é o nome do sonho que sonhei pra mim, dizendo que era para a ametista que é a pedra reluzente naquele casarão, com um piano de calda aberta embaixo da escada em caracol. A vontade se esbaldou em flocos líquidos de nuvens, depois que a cigarra explodiu de cantar, como é sua missão atávica. Manhã úmida, linda manhã. Lúbrica como todas as manhãs podem ser quando estão na temperatura da vida amanhecendo. El dia em que no me queiras, ai tá russo! Não sei se foi isto mesmo que ouvi a morena de cabelos trançados cantando no fim da noite no Sofia. Foi o que entendí: tá russo compay, tá rossito! Digo, minha vida, lembrando a fala da província, bela e cintilante como não é a de ninguém. Caminho irregular de liberdade conquistada, podendo recusar quando quer, indirigível na sua direção, como pré-punk independente berra o tempo do phôda-se. Talvez seja ela a vida eu. Posso até imaginar você sambando com a saia na mão. Minha voz estava irresistível como a do Barry Whaite. Durante a noite anterior, tinha feito um tratamento nas minhas cordas vocais com Morrito e charutos autênticos Monte Cristo. Oxalá e Evoé. Dia dois de Fevereiro, dia da aurora da revolução, dia que é tudo que o homem quer. Meu amigo, claro está, vamos nos encontrar no seu andor, lâmpada de Aladin. Se consagrar enfim. Iracema na cena do cinema é um poema de se olhar. As crianças são levadas pelas mãos de gente grande. É preciso dar um jeito meu amigo, sei, nossa vida é nascer, florescer para depois morrer. O quadril de Tereza, que beleza. O mapa de luz. Infinitamente belo. Há tempo ainda, vamos viver a beleza, já que tudo é efêmero, a vida é efêmera, então que se se danem os regurjitos moralistas de auto ajuda. Viva a moral surrealista do amor louco. Vamos fazer uma omelete. Agite usando, com propriedade de manifestação expressiva, como o branco do papel exige a consciência desse momento completamente sem resolução, e por aí ela vai, a revolução da imaginação solta na brisa do mar que quebra no maior sofá do mundo chamado Malecon. En un lugar de La mancha, de cuyo nombre no quiero acordarme. Uma distante paz foi alcançada, através das palavras, não por outra codificação, embora se disfarcem, são armas que atingem com sofisticação e ternura o que não será transformado. Vamos lá, a elas as palavras. Diante da cosmogonia instaurada, o cotovelo reinou modorrento já logo ao amanhecer. Gotitas de Angustura, axilas bonitas e perfumadas. Aplausos não comovem, ímpetos de rechaça-los devem ser reprimidos para manter a comodidade do entorno. Naquela noite vi o extraordinário pintor Marc Chagall falando para a câmera 16 milímetros em branco e preto: se falam bem dele, não acredita, se falam mal acredita e ponto. Outro lado difícil de ver as coisas na própria dificuldade realmente desejada. À noite o Bar do Caçapa estava cheio de Calopsitas coloridas e esvoaçantes, coisa nunca acontecida, nada natural, também o dia tinha sido de céu azul beligerante, com meia lua branca cortada na horizontal no meio do infinito da Rua Palmira. Os astrofísicos de plantão no Domingo, nunca tinham visto tal mudança de ciclo. Ela a Lua fotografou aquela convulsão na Somália.  A sequiosa volúpia de quem lê a música de maneira correta, erra o alvo do coração e das mentes dos seres que circulam por entre regras, ao mesmo tempo fora delas, na maioria das vezes sem o entendimento do conteúdo que mereciam para sua colocação nas prateleiras da convicção, o que foi bem dibulhadamente lhe apresentado. Segundo Dona Regina Lampedusa disse: algo deve mudar para que tudo continue como está. Triste frase. Podemos distorcer um pouco as coisas, já que falar também não adianta. O inacessível quase toca o invisível visto: como talvez o cruzamento do olhar profundo. A fraternidade é uma farsa e o amor não tem direitos sobre nós. Apaixonei-me perdidamente pela Havana. Ao principio ela acenava e atraia tudo para seu mundo, em seguida, obnubilava os corredores, confundia todas as imagens, como fosse iludir a detecção. O alvorecer esperando na porta silenciou-a. Estreitou em volta dos ombros sua capa, como se fosse uma ameaça final, o maior inimigo de todos. Sem curvas na estrada de Brasília lá na traseira do caminhão estava escrito: bruto, rústico e sistemático. Recordamos o incomparável. Só o Rouxinol faz barulho. A tergiversação chegou ao limite, graças ao meu amigo negão inglês Mister Bean Laden com sua arenga bem intencionada, mas inadivertidamente servidora da grande imprensa reacionária. As piores notícias chegam do Brasil, forças reacionárias afiam suas ganas, em sua complicada forma de se submeter. Não fomos ao Floredita porque seu avô estava lá. Fêfa, a garçonete, já nessa altura me chamava de mi amor, mi corázon.  Tranquila e agradável essa véspera do ano dezesseis.  Procure-me na parte funda da piscina junto dos meus amigos da turma da pesada. Banguelo em Cuba. Na conexão, distraído enquanto filmava a bela aeromoça panamenha, mordi uma castanha de caju com o dente errado. Lá se foi meu último pré-molar, que estava bambo há tempos, caiu sem sangue e sem dor alguma, com antigo anúncio simplesmente deu linha. Era chegada sua hora. Ai de mim, de nós dois. Bambo, mambo e chá chá chá. Por que fatigar tua débil alma com planos eternos? (Carmina, II, 11) A razão desse frequente engano é a inevitável ilusão de ótica do olho espiritual, em virtude da qual a vida, vista a partir do começo, parece sem fim, mas, quando revista ao fim da jornada, parece bem curta. Tal ilusão tem seu lado bom, pois sem ela dificilmente realizaríamos algo grandioso. Longe de mim as mesmices. Assim Shopenhauer descreve o principio romântico. Outras vezes, lá onde procurávamos prazer, felicidade, alegria, encontramos ensinamento, intelecção, conhecimento, ou seja, um bem permanente e verdadeiro, em vez de um transitório e aparente. Não experimento outro prazer a não ser o de aprender. (Trionfo d’ amore, I, 21) Na maioria das vezes funciona para acalmar os extintos básicos. Portanto, aqui está demonstrado uma noção do perigo, do risco da existência da resistência. Uma tomada de posição. Estou ilhado em Cuba na manhã do credenciamento, cubando o panorama, quando, nos jardins internos do Hotel Nacional, dou de cara com a Mariel Heminguay sorrindo uma luz rosada intensa para mim, algo surpreendente, não para a vida. Fomos a Marina Heminguay num carro conversível, antes de almoçar no La Bodeguita Del Médio, ouvindo a cantora que tocava Maracas. Nada mal caminhar pelas ruelas habitadas por todas as cores de notas musicais em nítida visibilidade depois da chuvinha fininha que molhou um pouco o calor do Caribe. Não consegui escrever Cuba Rebelde 1,2,3 e 4 como tinha prometido ao meu mais dileto professor editor. Ainda assim te amo. Hierba Buena.



sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

VISÃO HISTÓRICA


Três séculos
Por Orlando Senna

Tenho a sensação e o espanto de que vivi os séculos 19 e 20 e estou vivendo este surpreendente e perigoso século 21. Essa suposta mágica do tempo não tem nada a ver com longevidade, com os mitos bíblicos de Matusalém e Noé (tenho apenas 75 anos), mas sim com circunstâncias históricas e geográficas. Na infância minha vida transcorreu em um mundo rural: em uma fazenda e em uma pequena cidade do interior baiano. As atividades da fazenda eram criatório de gado bovino e pequenas manufaturas. Não havia eletricidade, rádio, automóveis, nada dessas “modernidades” que já estavam em uso em outros lugares. A locomoção era feita em cavalos, carroças e carros de boi e o pensamento e comportamento se remetiam a 50 anos atrás. Era, em tudo e por tudo, uma extensão do século 19.
A pequena cidade, que tinha conhecido um esplendor econômico no passado com extração de diamantes, estava decadente, debilitada, sem rumo e sem futuro nas décadas 1940 e 1950 devido a uma severa diminuição das pedras preciosas em seu solo e subsolo. Uma comunidade isolada, esquecida pelo resto do mundo. Ou seja, parecia que também estava parada no tempo, com suas lembranças, suas saudades da monarquia e da escravidão, seus costumes ultrapassados, os tabus impedindo o desenvolvimento mental dos jovens, meu avô abismado com as garrafas de água mineral: “comprar água é o começo do fim do mundo”. Só parecia, pura aparência porque dois elementos básicos do século 20 já estavam presentes: eletricidade e cinema.
A eletricidade graças a um pequeno gerador movido a água, alimentado por um tanque, que fornecia luz elétrica para as ruas e metade das casas das seis da tarde às dez da noite, quando os rádios funcionavam. Luz amarela e fraca, luminosidade semelhante aos candeeiros domésticos. E o cinema graças à visão empreendedora de um empresário local, que também abriu outras salas de exibição nas cidades vizinhas, os filmes eram transportados entre elas em lombo de burro. E também havia uns poucos automóveis e caminhões, tão poucos que a criançada e os cachorros corriam gritando e latindo atrás deles quando algum aparecia. Entre as famílias de classe média a referência cultural era a França, mesmo depois da Segunda Guerra e com os filmes dos Estados Unidos sendo exibidos no cinema.
As luzes
Nós, os meninos e as meninas, sabíamos que já se vivia outro tempo na capital da Bahia, no Rio de Janeiro e nas fascinantes cidades mostradas no cinema e tão faladas no rádio e nos raros jornais e revistas que apareciam naquele fim de mundo. Também porque alguns garotos mais velhos estudavam na capital e nos contavam coisas de arrepiar os cabelos e fazer sonhar. Também porque ouvíamos dos adultos que aquele lugar era “atrasado e ignorante”. Minha meta, e também a de alguns amiguinhos, era conhecer o mundo e o caminho para isso era ir estudar na capital. Aos 12 anos de idade fui estudar em Salvador da Bahia e me deparei com o século 20, que já ia pela metade mas para mim era uma iluminada novidade. Iluminada é bem a palavra, já que meu assombro maior foi as lâmpadas elétricas deixando a noite clara como o dia. 
Em um piscar de olhos, cruzei pontes entre Freud e Lacan, entre Marx e Sartre, entre Pasteur e Einstein & Stephen Hawking. Entre Beethoven e Villa-Lobos, entre valsas e polcas e Tom Jobim, Roberto Carlos, Tropicalia, Elvis, Beatles. Tinha vivido na infância a sociedade patriarcal, o privilégio absoluto do masculino sobre o feminino, o romantismo eurolatino. Ao ganhar o mundo, me inseri na segunda metade do século 20 como se fosse um século inteiro, com suas guerras capitalismo versus socialismo, ascensão econômica e bélica dos Estados Unidos sobre todas as nações, urbanização, industrialização, o homem na Lua, direitos humanos, drogas, a espiritualidade independizando-se das religiões, o crescimento do poder da mídia. Vivi suas mudanças radicais de comportamento, suas revoluções culturais, o risco de vida e o charme embriagador das suas décadas de 60 e 70.
Máquinas inteligentes
E entrei no século 21 e no terceiro milênio. Aconteceu exatamente no dia 11 de setembro de 2001. A guerra, característica tormentosa da espécie humana, estivera bem presente nos meus dois séculos já vividos, mas naquele dia apresentou um novo formato (causar medo ininterrupto nas pessoas, estejam onde estiverem) e um novo tipo de poder de fogo ao atingir a grande potência, material e simbolicamente, em seus órgãos vitais: o poder econômico (as Torres Gêmeas em Nova York) e o poder bélico (o Pentágono). E estabeleceu-se mundialmente a Guerra ao Terror, segundo o Ocidente, ou a Guerra Santa, segundo os combatentes radicais do mundo islâmico. A lembrar que os islâmicos são quase dois bilhões de almas, quase um quinto da humanidade. 
As guerras ideológicas do século 20 mataram cerca de cem milhões de pessoas, três vezes mais do que a soma de mortos de todas as guerras desde o nascimento de Cristo. A guerra étnica-cultural-religiosa que se expande agora pelo planeta pode ir bem além na carnificina. E pode emendar com uma guerra total pela água e até por um conflito generalizado pelo controle da comunicação e chegaremos à perfeição da guerra: todos contra todos. O cenário é um planeta em mutação geológica e uma crise civilizatória degenerativa. E dizer que o que eu esperava, em minha santa ingenuidade, era uma Revolução Ontológica que, graças às novas tecnologias, abriria as portas da sabedoria, solidariedade, cooperação e paz.

O outro lado da moeda é justamente o espantoso avanço científico e comunicacional e os novos parâmetros comportamentais gerados pela cibernética. Ainda nos cueiros, o século já estava sendo apelidado Era do Conhecimento. Em que direção vamos seguir não é uma decisão das máquinas, mesmo ditas inteligentes: um drone pode destruir coisas e matar pessoas e também evitar danos e salvar pessoas e ser um instrumento de evolução das artes (cinema por exemplo), do transporte, do meio ambiente. Quem define seu uso é o ser humano, uma frase à qual muita gente reagiria com um “então estamos perdidos”. Talvez sim, talvez não. Não sabemos, nos resta a fé, essa crença sem provas que acompanha o bicho homem desde quando existe. E nos resta a militância para construir essas provas, a ação individual para reinventar o futuro.