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domingo, 11 de dezembro de 2011

QUE SAUDADE DA NINA

NOTÍCIAS DE BH-MG NOTÍCIAS DE BRASÍLIA

Finalmente o Governo lança projeto para estimular cultura na educação básica



BRASÍLIA - Os ministros da Educação, Fernando Haddad, e Cultura, Ana de Hollanda, assinaram nesta quinta-feira (8) acordo de cooperação técnica para ações de estímulo à cultura dentro de escolas de educação básica, do ensino infantil ao ensino médio.

O projeto, que terá investimento majoritário da pasta da Educação, contará inicialmente com R$ 80 milhões para viabilizar ações como promoção de leitura, por meio do recrutamento de monitores e ampliação de acervos de livros, e divulgação do cinema nacional. O programa prevê alcançar 1 milhão de estudantes no país.

Esse tipo de ação coordenada está previsto no Plano Nacional de Cultura, que deve ser lançado na semana que vem pela ministra.

"Nós sentimos a necessidade hoje de aproximar as agendas dos dois ministérios para fazer da escola um ponto de cultura e dos pontos de cultura locais onde a escola possa utilizar para motivar os estudantes", disse Haddad. A ideia, segundo ele, é estabelecer um segundo turno de atividades nas escolas.

JORGE ANTUNES, UM COMPOSITOR SUBVERSIVO


Esse é o título do concerto que apresentará algumas das obras de Jorge Antunes que, em diferentes momentos de sua carreira, incomodaram os detentores do poder, transgrediram as normas vigentes e foram censuradas.

O concerto se realizará na sexta-feira, dia 16 de dezembro, às 20h00, na Sala Cássia Eller da Funarte de Brasília. Os ingressos custam R$ 10,00 e R$ 5,00.

Uma obra eletroacústica abrirá o concerto: Auto-retrato sobre paisaje porteño. Essa obra foi composta em Buenos Aires em 1969. Nela Antunes monta um retrato sonoro dele, sobre fundos musicais que reportam ao Brasil e à Argentina. Um jogo de vozes com a palavra "General" foi motivo para a censura da obra.

Cabra da Peste, composta em 1964, incomodou a ditadura militar. A letra da canção, também de autoria do compositor, foi considerada subversiva. A peça foi censurada.

Outra obra polêmica é Seis Missivas BB, de 1997. Durante vários anos Antunes apresentou projetos ao CCBB, pedindo apoio e patrocínio para suas óperas. Seguidas vezes recebeu recusas. No início de 1996 o CCBB encomendou obras novas de 34 compositores. A Jorge Antunes coube compor uma obra para canto e piano. Havia chegado a hora da vingança. Antunes juntou as cartas recebidas que negavam apoio a seus projetos, e as musicou. Foi censurado.

As outras obras do programa também criaram polêmica em suas estreias. O trio Três Impressões Cancioneirígenas, de 1976, ironiza o nefasto AI 5, em momento em que o ato de exceção dos militares ainda estava em vigor.

Na última obra do programa, Polimaxixenia Sideral, Antunes faz variações com um maxixe, ironizando o preconceito que a intelectualidade muitas vezes tem com relação ao saber popular.

O GEMUNB: Sidnei Maia, flauta; Leonardo Neiva, barítono; Marcus Lisbôa Antunes, violino; Félix Alonso, clarineta; Mariuga Lisbôa Antunes, piano; Guerra Vicente, violoncelo; Jorge Antunes, direção, sons eletrônicos e computador.

sábado, 10 de dezembro de 2011

Roteiro de um curta metragem impressionista

Roteiro de um curta de 14 a 21 minutos
Dois a três minutos de imagem por página escrita
Primeiro Tratamento.

Escrito por Jose Sette

Férias
As nuvens passam ligeiras no céu azul acinzentado. No mar as ondas quebram e se agitam. No rosto molhado de Artur a expressão do desespero:

- Eu sempre achei que eu era alguém, hoje vejo que sou ninguém, matéria do caos, nada mais do que pó espalhado nas cinzas de um vulcão que se torna extinto. Não sofro a angústia dos abnegados, dos conformados. Já não preciso do aplauso dos contentes desconhecidos e dos amigos descontentes. Alimento-me de sonhos utópicos, só hoje pude perceber isso...

O Rosto de Artur está agitado, tenso.

- Eu não estava só! Sei o que é a solidão. Trabalho dia e noite sem descanso. Obcecado não consigo retirar da minha cabeça as ferramentas da criação e da arte, que neste dia se mostrava confusa, se repetia, se embaralhava, não resistia a uma crítica sincera, não me dava mais prazer...

- Na minha cabeça passava um anúncio de um sujeito bebendo uma cerveja na garrafa. Ai, eu pensei: Seria bom se a boa arte viesse engarrafada, era só abrir e beber.

Roxane da à mão e ajuda a Artur a sair das águas revoltas. A expressão do rosto molhado de Artur vai ficando mais suave e chega a sorrir quando ele conclui o seu pensamento

- Essa imagem da arte engarrafada não me saia da cabeça - a imagem do mundo contemporâneo! Imaginei que estava enlouquecendo...

O rosto de Artur de olhar lânguido está sereno e seco

- Procurei imediatamente um psicólogo, pois passei a somatizar os meus desejos em todas as garrafas... – você precisa sair de férias, disse-me ele, descansar e andar sem pensar em nada, totalmente zen, pela praia deserta, pode até ser na Polinésia...

Roxane olha para Artur

- Foi aí que encontrei você... Eu vinha andando pela praia deserta quando lhe vi saindo cansado do mar e preocupada me aproximei oferecendo ajuda e só ai eu vi que você estava bem...

- Não estava nada bem... Sou-lhe grato por isso... Você sabe me informar se estamos muito longe da pousada? Perdi o senso de orientação e me afastei sem me preocupar em voltar...

- Um pouco longe, o senhor vai dar uma boa caminhada para chegar lá antes do anoitecer. Mas não se preocupe que te acompanho até a pousada e no caminho paramos quando estiver cansado...

- Obrigado, mas não me chame mais de senhor... Eu sou Artur e você?

- Roxane...

- Roxane, parece-me que nos conhecemos, eu tenho quase certeza disso. Você gosta de poesia?

- Gosto muito, já li a Divina Comédia...

- É como disse Caronte antes de atravessar Virgílio e Dante pelo rio: - Aqui parado eu já posso lhe dizer como cheguei, depois de atravessá-los, andando pelo mundo, podem escrever os nossos destinos.

- Isto está do livro?

- Não, eu inventei.

- Então vamos Artur! Vamos andar mais um pouco?

A praia deserta de areia branca. Os dois caminham com lentidão. Artur gesticula enquanto fala. Andando mais devagar, mostrando cansaço, Artur segura o braço de Roxane...

- Essa região é ainda uma das poucas preservadas... Aqui se toma banho de mar sem sair envenenado pelas águas pestilentas que banham toda a costa ...

- Eu sei, sou bióloga, luto contra tudo isso, esse também é o meu lugar predileto, uma pequena mostra do que era o paraíso, só aqui me sinto bem.

- Ora, mas que coincidência!... Uma jovem bióloga de férias para me fazer companhia. Estou encantado. Temos muito que conversar...

- Sim!... Mas agora vamos andar um pouco mais, estamos longe e não quero deixar a noite chegar.

- O que você carrega nesta mochila?

- Roupas, um cobertor e uma pequena barraca...

- Pra que tudo isso?

- Eu ia acampar antes de encontrá-lo...

- Não modifique seu passeio por minha causa, eu posso chegar sozinho de onde vim.

- O caminho de volta é longo e vai ser um prazer... Vamos andando?

- Aceito a sua companhia se você me permitir parar para conversar de vez em quando.

Roxana sorri e os dois continuam a lenta caminhada pela praia deserta.

- Você sabe o que eu estou pensando agora? ...

- Não! ... Fala!

- Falo! (sorri) Mas tenho medo de não ser entendido por você.

- Sou formada em defesa pessoal, sei me defender...

- Magrinha desse jeito?

- É isso que você tinha medo de dizer?

- Dizer o quê?

- Que eu sou magrinha (sorri).

Os dois param de andar.

- Quero lhe dizer é que faz muito tempo que eu não me sinto tão bem... Há pouco tempo o mundo, este paraíso que torno a ver em toda a sua exuberância, não tinha o menor valor...

- Isto é um elogio ou uma constatação?

- Estou me sentindo um garoto que descobre a vida no olhar de uma menina que ele acabara de conhecer. Pronto disse o que verdadeiramente sinto...

- Fico lisonjeada com essa energia de vida que acabei lhe passando...

- Espero não estar abusando da sua paciência e zelo com esse velho desconhecido, mas é que nele se opera um milagre...

- Sou paciente quando me aproximo do desconhecido; do que me parece oculto e ao mesmo tempo inteligente. Um artista que quis mudar de mundo, sabendo que essa operação não seria um milagre mas uma conquista de trabalho político-biológico da natureza do homem que é se transformar para conquistar uma nova vida...

- Só posso lhe dizer obrigado... Meus Deuses de Acrópoles! Não tenho mais palavras, você me surpreende a cada momento desta travessia. Tenho tantas coisas para falar e tantas outras para perguntar...

- Temos muito tempo para conversar, mas agora vamos andar um pouco mais?

- Sim..., um pouco mais.

Andando a beira mar Artur não pára de falar.

- Você está cheia de razão. A pouco não consegui misturar o meu corpo com as turbulências das águas do mar e precisei quase me afogar para encontrar você ali esperando por um ser que nunca conseguiu dominar ou se equilibrar nessas ondas...

- Os humanos são um dos poucos mamíferos que controlam a própria respiração e é um dos poucos animais terrestres que respiram tanto pela boca quanto pelo nariz.

- Porque pensam com inteligência!

- As águas são nossas amigas, não tenha medo do mar Artur ele é o avô de toda a natureza.

- Os animais, quando jovem, nadam melhor e mais rápido, mas os velhos animais quando mergulham tendem a se afogar...

- Quando um bebê acaba de nascer, já tem uma incrível capacidade de mergulhar! Somente animais aquáticos ou semi-aquáticos já nascem sabendo mergulhar. Você não ia se afogar...

- Eu sei que não... Imagine se eu ia perder tudo isso que está me acontecendo... Roxane me fale mais de você.

- A Ciência do Mar é o meu trabalho. O meu grande amor. Pesquisar as formas de vida animal, vegetal, das formações geológicas, correntes marítimas, nível das águas, marés, é o destino que me está reservado.

- O mar é o seu grande amor... Que coisa romântica para uma menina cheia de vida. Não existe em você outra vida, mais social, festas e namorados...

- A vida aquática é mais rica e variada que a vida terrestre. Eu atuo na sua preservação, nada é para mim mais importante hoje no mundo, eu viajo sempre, nunca estou em um só lugar, assim não existe tempo para namorar.

- Roxana, eu estou cansado, podemos parar um pouco? Preciso descansar...
Artur senta-se na areia enquanto Roxane mergulha nas ondas e nada com uma naturalidade como se estivesse em seu meio. Artur a observa com toda a sua atenção e mostra-se preocupado quando seu corpo passa um longo tempo submerso sob as ondas.

- Diz à ciência que nós humanos evoluímos a partir dos macacos que desceram das árvores, adotaram uma postura ereta, aperfeiçoaram-se biologicamente até chegar ao ponto que hoje estamos. A mulher é a imagem viva de tudo isso, digna e pura, é arte bela e perfeita de toda essa revolução biológica. Que mistério extraordinário provocou está radical transformação?

Roxane sai da água e se aproxima de Artur que esboça um sorriso.

- Fiquei preocupado com você enfrentado e sumindo entre as ondas bravias...

- Artur, enquanto nadava eu pensava que não seria melhor eu ir até a pousada e pedir uma ajuda?

- Eu te peço que não faça isso, não preciso de ajuda nenhuma, já te disse que há muito tempo não me sinto tão bem... Vamos continuar o nosso passeio.
Artur levanta-se da areia e faz uns exercícios mostrando a sua disposição.

- OK Artur! Você me convenceu, vamos continuar no nosso caminho...

- Você sabe o que está acontecendo aqui? Em alguns momentos, me parece ser uma ficção, um filme, um texto sendo escrito, um poema que surge como uma sinfonia e me deixa encantado, é como se eu vivesse um paraíso, uma espécie de déjà-vu do cinema americano da década de 50. Mas isso não é do seu tempo...

- Não é do meu tempo, mas os filmes estão ai para serem vistos e eu os assisto todos. Adoro cinema. Assisti faz pouco tempo alguns clássicos do cinema americano, mas do passado o que eu mais gostei foi do cinema italiano, eu esqueci de te dizer mas eu também amo a Itália.

- Eu também amo a Itália, mas gosto mais do cinema expressionista alemão, da estética japonesa, da vanguarda francesa e dos gênios do cinema americano... Mas não vamos falar do passado, quero viver o futuro, o novo mundo! Só ele pode ser moderníssimo.

- A primeira coisa que você me disse é que já não gostava do que fazia...

- Sentia que nada que eu havia feito ou viesse a fazer fazia algum sentido...

- Mas como você pode pensar isso..., o simples fato de estarmos andando em uma praia deserta, momentaneamente, um só instante em uma fração do tempo, em qual sentido supera a obra, que é um pensamento que tende a ser constante?

- Em nada, eu sei, o um faz parte do outro...

- E não está sendo agradável aos sentidos estarmos aqui agora?

- Você deve ser um anjo?

- Não sou nada!

- Uma mulher de outro planeta?

- Não! Simplesmente uma mulher defensora do que está ainda vivo...

- Eu estou vivo?

- Só você pode responder a essa pergunta...

- Nunca conheci uma mulher assim... (Artur resmunga baixinho)

- Olha o céu Artur, o azul é mais azul quando o dia chega ao fim, assim temos que aumentar nossos passos para chegarmos a tempo na pousada...
Artur e Roxane aumentam os passos na sua caminhada nas areias da praia deserta. Artur começa a suar e a mostrar profundo cansaço.

- Roxane nós temos de parar um pouco, preciso descansar...

- Vamos sentar ali naquela árvore e aproveitar de sua sombra.

- Puxa Roxane se você quer me dar vida não me faça correr novamente.

- Desculpa-me Artur, mas precisava saber se poderíamos chegar à pousada antes do anoitecer, mas vejo que você não vai conseguir, vamos ter que passar a noite aqui...
Roxane abre a sua mochila e de lá retira um facão e um cantil. Artur se assusta com a lâmina afiada brilhando na luz amarelada do sol.

- Artur bebe um pouco desta água que eu vou catar lenha para uma fogueira...
Roxane embrenha-se na mata fechada enquanto Artur bebe no cantil e tenta se levantar mas não consegue.

Artur está contemplando o por do sol quando Roxane retorna com vários feixes de lenha seca. Artur levanta-se com dificuldade para ajudá-la. Eles montam a barraca e preparam a fogueira.
O sol se põe enquanto formam-se nuvens carregadas no horizonte. Roxane senta-se do lado de Artur e pega na sua mão.

- Não tenha medo eu estou do seu lado...

- Só tenho medo de que esse tempo de felicidade passe muito rápido.

- Só o espaço é findo, o tempo é eterno e o resto é besteira...
Os dois em silêncio olham para o mar. A noite chega e Roxane levanta-se para ascender à fogueira.

- Sabe Artur no que eu estou pensando é que esta noite vai fazer frio e só tenho um cobertor...

- Eu já sinto um frio terrível...

- Você jogou a sua roupa na areia e eu peguei...
Roxane abre a mochila e entrega as roupas de Artur que imediatamente põe-se a vesti-las. Depois ela retira o cobertor e enrola-se nele.

- Você está com fome? Tenho aqui duas barras de cereais, você quer?

Artur faz um gesto afirmativo com a cabeça. Roxane senta-se ao seu lado e lhe entrega uma barra e passa a comer a outra. Artur mal consegue comer um pedaço.
Roxane levanta-se e vai para o lado da fogueira se esquentando. Retira o cobertor e o biquíni molhado vestindo uma blusa e uma calça de moletom. Artur olha com avidez a cena.

- Como você é linda Como você me inspira com sua beleza pura!Tenho vontade de retratar esse momento para sempre. Como eu estou feliz ao seu lado!

- Eu também estou feliz em estar aqui...

Na frente da cena o mar.
No céu de um azul profundo quase negro pipocam relâmpagos.
Roxane deixa Artur passar a mão pelo seu corpo. Artur sente um imenso prazer. Como quem vai dormir ele escorrega lentamente a sua cabeça para o colo de Roxane.
Começa a chover e a chuva encharca os dois que permanecem na mesma posição durante algum tempo. A fogueira se apaga. Tudo escurece ao azul profundo.
O sol acorda no horizonte azul amarelado, não há nuvens no céu.
Na praia está o corpo morto de Artur. Ele está sozinho deitado de lado na areia branca e límpida do paraíso.
Atrás da cena mórbida está a pousada.
Um carro de luxo estaciona na frente da recepção.
O motorista abre a porta do carro e dele saem finamente vestidos Artur e Roxane. Ele nervoso segura Roxane com firmeza pelo braço, olhando-a com expressões faciais sérias e com um charuto na boca compõem as máscaras da tragédia gregas. Roxane ao contrário de Artur, anda como se desfilasse e demonstrando deslumbramento sorri com falsidade para o nada. Os dois, depois da cena teatral, entram na pousada.

FIM

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Memória

Último Texto postado pelo
lúcido jornalista Fausto Wolff
que é bom ser lembrado...

À sombra do medo em flor

Dêem a chefia da portaria ao mais dócil empregado e logo ele se tornará um tirano
Já escrevi em algum lugar que, enquanto não nos revoltarmos contra o conceito de democracia que considera sagrado o direito de uma minoria escravizar o resto, jamais chegaremos à condição de seres humanos. Seremos sempre caricaturas, títeres perdidos na ventania, sempre com cara de “desculpe, não era bem isso que eu queria dizer”.
Enquanto não se der a revolução da humanidade contra a tirania, enquanto deixarmos que nos humilhem para que possamos continuar vivendo, teremos de suportar algumas imperfeições, certos espinhos colocados em nossos sapatos ainda na infância que não podemos ou não queremos tirar.
Uma dessas imperfeições é a constatação de que, à medida que envelhecemos, vamos nos tornando mais medrosos. Quando deveria acontecer o contrário: à medida que envelhece, o homem deveria tornar-se mais corajoso, porque mais sábio, mais justo, mais conhecedor dos seus deveres e direitos.
Quando eu tinha pouco mais de 20 anos, todos os dentes e era um sujeito bonito, era também dado a papagaiadas. Certa vez, ainda noivo (havia noivados e até virgens naquela época), estava no falecido Bar Castelinho, tomando um chope com minha futura mulher, quando um dos donos de uma revista para a qual eu escrevia sentou-se à nossa mesa e se comportou de forma grosseira.
Gentilmente, mandei que se retirasse, pois já tinha de aturá-lo o dia inteiro e não pretendia fazer isso quando estava namorando. Fui despedido no dia seguinte. Na hora, a sensação foi boa, mas eu era muito jovem para perceber que os rateios estavam contra mim.
Outra imperfeição: ser burro, viver e conhecer o mínimo do seu potencial energético interior e, além disso, ter de suportar a consciência da sua mortalidade. Algumas pessoas percebem isso, mas, como são ignorantes, aceitam o princípio nada otimista de que a vida é um absurdo porque acaba na morte e, como dizia Camus, o homem vive e não é feliz. Essa constatação é tão angustiante que, sem uma garrafa ao alcance da mão, é difícil resistir à tentação de não dar um tiro na têmpora.
Hoje em dia, em pleno século 21, a grande maioria de escravos aceita essa condição fingindo não saber dela, fingindo que a vida é assim mesmo. Uns entram com o pé e os outros com o popô, uns com o pescoço e os outros com a foice. Excetuando os psicopatas que, aparentemente, já nascem tortos, alguns poucos escravos se rebelam e saem fazendo bobagens: roubando, assaltando, matando, estuprando.
Quando isso acontece, todos ficam com cara de tacho, fingindo que não têm nada a ver com o peixe. Em seguida, os políticos pedem “responsabilidade criminal aos 16 anos”. Logo, pedirão responsabilidade aos 15, 14 e cosi via. Cosi via significa que aumentará o número de crianças assassinadas ao nascer; aceitação literal da loucura religiosa de que o homem já nasce pecador. Claro que essa lei só valerá para crianças pobres.
Sou contra a pena de morte, mas, como a tragédia, mesmo quando coletiva, é sempre individual, o que eu faria se matassem alguém indispensável à minha vida? E se alguém tirasse a vida de uma pessoa e, ao fazer isso, me deixasse aleijado interiormente pelos anos que me restam?
Como não acredito na Justiça e também não acredito que podemos julgar oficialmente os efeitos sem punir as causas, eu simplesmente mataria o assassino. E o faria pessoalmente, com as minhas mãos.
Em seguida, cidadão exemplar que sou, me entregaria ao juiz. Não teria resolvido nada, mas como sou humano em estágio ainda bárbaro, pelo menos isso atenuaria um pouco a minha dor.
Como vejo a coisa hoje? Dêem a chefia da portaria de um edifício ao mais dócil dos empregados e logo ele se tornará um tirano para agradar ao poder imediatamente acima dele.
O poder ama a si mesmo e aos poderosos. É tão implacável na sua injustiça que consegue convencer mais de 100 milhões de brasileiros adultos de que devem escolher entre o algoz da esquerda e o da direita. E nada acontece.
Postado no JB em 06/09/2008

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

EU JOGANDO TÊNIS COM POLANSKI
Fabio Carvalho

É que desta vez o tema proposto não passava de um simples pretexto,
um ponto de partida, e Vigo se apegara a uma questão em que se empenhava
profundamente e de coração: o respeito pela sua liberdade.
Paulo Emilio Salles Gomes


De novo me encontro no mundo negro. SOUL. WOMAN IS THE NIGER OF THE WORLD. Que beleza saber seu nome. Logo ao meio dia desta segunda-feira chuvosa. Tenho que aproveitar este estado aliterado para fazer alguma coisa. Cumprir esta etapa. Deve ser legal ser negão no Senegal. A caveirinha à corda que comprei na banca de manhã, debaixo da chuva, vai ser o início do filme que procurava. Está fácil. Tenho que complicar um pouco. Resta apenas um contato. Que bom. Apenas um contato. Que cara de pau. PICK POCKET. Beleza sem igual. E figurou onde o inesperado ainda não figurava. Era a transfigura, ao menos imagino que era. Jamais vou interromper a imaginação, quando toca o celular. Ao mesmo tempo chega uma mensagem, a culpa é desta música. Driblei as duas, de súbito retornei ao craque que sou pelo lado esquerdo, mesmo sendo destro. Que bomba de trivela tenho na canhota. Completamente autônoma. Agi por si só ao seu bel prazer. Antes de qualquer comando meu. Será que ela é minha? Esta velha perna. PILAR ZAMORA. Que belo nome. Será que ela é argentina ou boliviana? Pseudônimo de uma atriz ou guerrilheira urbana? Sem cerimônia vou para Paris. Cidade luz. Cantada por uma bela mulher negra, forte, altiva e dona de um corpo que só ela teria. Com a elegância além da excelência, ornada no esplendor daquele momento sem repetição. Subiu junto com a escada rolante. E como brilhava. Que bela boca. Fez o vento quente esfriar. Nenhuma delas, por mais que me ocupassem, conseguia me desestabilizar ao ponto de não mais seguir o movimento do zigue-zague. Tento sempre assobiar. A lição é bem passada. Sei não. A dúvida é minha parceira. E o que é pior: gosto dela. Alguém já viu um golfinho macambúzio. Cada vez estou mais intransigente e irresponsável com as relações que não sejam de ordem natural. Deve ser a IDADE DA TERRA e suas influências que invariavelmente são recorrentes. Lembrei neste instante da sintaxe. Boa lembrança. Amanhã é domingo. Gosto e não gosto. Enfim, temos e habemos de atravessar mais este. Com uma satisfação imponderável. Ainda é fácil. É só saber. Disse o mágico para sua PARTNER com PIERRE CLEMENTI. Menti. Só um pouquinho. Finalmente uma luz cinematográfica. Esta é a minha e sua missão. Desta altura já não mais podemos escorregar. Também escolheria imediatamente o sândalo. Irrefutável. Que admirável é esta palavra. Como negar seu significado absoluto? A certeza não existe da necessidade desta interrogação me imposta, segundo o jovem crítico, me auto imposta. Quer queiram ou não. Senti uma sombra me assombrando, vou fumar um cigarro ainda. São coisas que acontecem ouvindo MOZART. AMADEUS. Apenas uma loucura momentânea e continuada, também o vizinho está fazendo uma festa para crianças, e nós do lado de cá fazemos filmes para adultos. Agora a pergunta é: nós quem? Tantos nós. Quantas horas são? Acabou de perguntar a outra personagem. E vou lá saber, acho que são meio dia para as quatro. Muito cheirosa. Mesmo assim, esta forma de perguntar vai rebaixá-la à condição de uma das primeiras coadjuvantes para figurante, sem dó nem pena, acho que ela necessita levar uns anos de aprendizado conquistado e merecido. Novamente a mente, mentirosa. Ela gosta, quer e precisa, estou aqui para isto. Esta tarde vai ser boa, amanhã ao acordar melhor ainda após ter sido desenterrado no Père Lachaise e navegado ao vento para essa posição de visão. Achei. É o quadro. Ela gosta de se exibir. A entrada é fazer sua felicidade. Delicadamente. Aplaudida a morena carnuda recoloca o vestido vermelho na sua exuberância, em seguida, calça os sapatos pretos e impolutamente mente, para agradar, que vai conseguir dormir na casa da sua amiga recente naquela alcova ali desarrumada. Vamos ao cinema. Juntos para ser melhor a ilusão. Por onde andarão meus óculos?

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

PREMIO JOSE SETTE

FESTIVAL DE CINEMA PRIMEIRO PLANO
Na cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais...

Esse ano, novamente foi entregue ao melhor vídeo regional da zona da mata mineira, o prêmio José Sette. Junto a tradicional cachaça dessa vez resolvemos entregar também um certificado- HQ, para registrar melhor o prêmio. O desenho foi feito por mim e inspirado em um vídeo na internet chamado: manifesto José Sette. O texto do certificado foi feito pelo Marquinho, Terra e eu. Espero que goste.Engraçado é que a direção do Primeiro Plano resolveu imitar o Prêmio José Sette e também distribuiu cachaça para todos os ganhadores. Segundo eles, há dois anos os ganhadores da mostra nacional reclamam que o melhor prêmio é o regional José Sette. O ganhador desse ano foi: Veredas Santeiro, documentário, 19min. direção:Leandro domith. Saudações alvinegras,Leo Ribeiro - Cineasta de Animação
Prêmio José Sette - Melhor Vídeo Regional
Festival Primeiro Plano, Juiz de Fora - MG.
Algumas palavras sobre José Sette:
Juiz de Fora continuava a mesma: os ônibus subindo e descendo a Rio Branco,
os estudantes levantando e descendo copos de cerveja nos bares de São Mateus,
o Paraibuna passando suas águas barrentas sob as pontes que o sombrejam
na Avenida Brasil, quando, de repente, se escutou pelas ruas da cidade uma
voz grave e misteriosa: “- Ação! Corta! Genial!”
Era a voz do cineasta José Sette, diretor de filmes como Bandalheira Infernal,
Um Filme 100% Brasileiro, Um Sorriso Por Favor- O Mundo Gráfico de Goeldi,
Amaxon, que, no final dos anos 90, trouxe pra estas terras uma câmera 35mm
não blimpada, uma câmera Super 16mm com lentes e filtros desgastados e um
turbilhão de ideias que saiam daquela cabeça inquieta de poucos cabelos. Pronto,
era o que faltava para que a cachaça do cinema se instaurasse por aqui!
Na época, éramos todos universitários. Alguns de nós já estavam habituados
com o vídeo, mas a magia que existia em um set cinematográfico era algo novo
para todos. Ficamos definitivamente seduzidos por outro ciclo, outro ritmo... Os
24 quadros por segundo da câmera cinematográfica passaram a conviver com
as cadências das nossas vidas e da própria cidade. As centelhas cinematográficas
que saltavam de José Sette - um genuíno “animal cinematográfico” - foram
cruciais para que várias pessoas de Juiz de Fora optassem pela sétima arte. De
uma forma generosa, anárquica e poética, ele nos brindou a verdadeira possibilidade
de se fazer cinema.
Juiz de fora não foi suficiente para José Sette. Seu tempo na cidade há muito se
findou. Porém, acima das obras produzidas aqui, como O Rei do Samba, A Janela
do Caos e Ver Tigem, deixou amigos, influências e saudades. Como forma
de agradecer pelos anos de convivência e por suas inconfundíveis gargalhadas,
criamos esta modesta homenagem: o Prêmio José Sette de Melhor Vídeo Regional.
Nossa intenção é compartilhar com a nova geração de realizadores da
Zona da Mata Mineira a inspiração, liberdade e alegria que nosso amigo nos
trouxe. Com ele, aprendemos que fazer cinema tem que ser um ato mágico e visceral.
Se você ganhou este certificado e esta garrafa, cuidado! Pois, segundo as
palavras do velho Sette: “O cinema é uma cachaça! Só tem porta de entrada,
não tem porta de saída..”
.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Eu e os Universitários

Ontem fui exibir o meu filme sobre o poeta Augusto dos Anjos para alunos e professores da Universidade Estácio aqui da cidade de Cabo Frio.
Uma noite agradável com a platéia atenta ao desenrolar da projeção do documentário poetico “Eu e os Anjos”. No final da sessão, na conversa que tivemos, descobri com profunda alegria que a narração experimental e de invenção deste filme, diferente esteticamente para eles de tudo aquilo que estavam acostumados a assistir, provocou em muitos o estalo, a epifania, o sentimento de que estavam de frente para uma arte 100% brasileira.
Tenho certeza que depois de assistirem de camarote o universo poético de Augusto, maravilhosamente interpretado pelo ator mineiro Kimura Schetino e se deliciarem com os comentários de Ferreira Gulart, Alexei Bueno, Ledo Ivo e Ivan Junqueira, aqueles jovens sedentos da verdadeira cultura nacional tinham mais um bom motivo para pensarem na existência de outro universo do saber poético histórico brasileiro, riquíssimo e ainda muito pouco explorado.
Finda a conversa acalorada sobre o Brasil de hoje e influências e semelhanças filosóficas de outros autores na obra do poeta, nos levantamos e saímos felizes por podermos contemplar, depois do estalar dos ossos, da degenerescência do carbono e do amoníaco, da matéria imbele, com mais liberdade as dicotomias melancólicas da nossa insignificante existência.
Depois fomos comemorar, como sempre fazemos, em um bar-restaurante da cidade.
Isto tudo graças ao professor Paulo Cotias que com gentileza diplomática está abrindo as portas da inteligência universitária cabo-friense ao meu cinema. Obrigado amigo!
Não obstante ao sucesso do acontecido senti a falta dos meus amigos do batepapocafé e dos amantes da sétima arte e da poesia que habitam essas terras caiçaras. Mas não se desesperem, ano que vem tem mais.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Crítica musical no Jornal do Brasil


Ava Banda lança'Diurno'

Lucyanne Mano

Quem ainda não ouviu, nem assistiu a Ava Banda, pode ter uma certeza: trata-se de uma aposta bastante diferente do que vem acontecendo no meio musical nos últimos tempos.
Nana Carneiro da Cunha toca violoncelo e traz uma sonoridade não muito usual em bandas musicais.
Daniel Castanheira é percussionista e enriquece sua performance com uma excêntrica diversidade de sons.
Emiliano 7 toca violão e, além da linguagem brasileira, busca novas sonoridades em suas cordas.
De Ava Rocha, que dá nome à banda, vem a voz grave e a interpretação que compõe música e imagem.
O encontro desses talentos individuais aconteceu em 2008, com a proposta de fazer música de maneira livre e inspirada em outras zonas que não são só a musical, percorrendo o cinema, o teatro, as artes plásticas, a literatura, num exercício experimental continuado, híbrido.
O resultado pode ser conferido em Diurno, primeiro CD que acaba de ser lançado pela Warner. São quatorze faixas, entre composições autorais e de outros artistas, que confirmam a originalidade desta ousadia.
Em tempos de internet, Ava é, sem dúvida, música para curtir.