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quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

ARTE EM LIVROS

EliseuVisconti

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GRANDE SERTÃO: VEREDAS
Carlos Sepúlveda
Certa feita, indagado por que seu romance era tão difícil de ler, Guimarães Rosa respondeu que apenas chamava as coisas pelo nome.
De outra vez, questionado acerca da mesma dificuldade de leitura, Rosa argumentou que seu romance não era para ser lido, mas sim para ser declamado, como um epos grego.
Nestas duas anedotas, já parte do folclore sobre um autor que Carlos Drummond de Andrade certa vez perguntou se existia de se pegar, pode se esconder uma face importante da explicação deste extraordinário romance, um dos livros mais belos jamais escritos na língua de Camões.
Se prestarmos um pouco mais de atenção ao que foi dito, vamos notar que, de um lado, existe a nomeação que é, afinal de contas, por onde se conduz toda e qualquer arte de contar, uma vez que narrar, contar, ficcionar constituem um artifício de realidade, um fingimento, um fazer de contas. É a nomeação que nos conduz como leitores, no sentido de levar para o outro lado, para além dos vínculos do cotidiano, da finitude burocrática de nosso horizonte corriqueiro e imediato. Afinal, o leitor só existe porque o real é pouco e pobre, em face da facticidade obrigatória do viver.
Assim, chamar as coisas pelo nome é uma forma de possuí-las, é reintegrá-las em outro universo de significação, fazendo nascer outros vínculos, surpreendentes e inovadores, desterritorializando-nos ao apelo comum do mundo e das coisas, das palavras e as coisas.
Nomear é instaurar mundos. É o poder babélico do mundo a ser desmoronado ou o poder do clarão de pentecostes para um mundo a ser fundado. Os limites do mundo são os limites de minha linguagem, recitaria o inexplicável Ludwig Wittigenstein.
Esta é, talvez, a grandeza primeira e imediatamente compreensível nesta obra magistral. Retornarei a este ponto mais adiante.
A segunda réplica aponta para a oralidade.
Ao reivindicar o aspecto declamatório de seu discurso, GR busca recuperar a discursividade, no sentido de aproximar o mundo narrado de uma fala do outro para o outro da fala. Com isto, desfazer o nó logocêntrico que manteve cativo um número considerável de narradores, sobretudo durante o período romântico, que se caracterizou pela formação das grandes narrativas.
Com isto quero dizer que Guimarães Rosa parte da ruptura moderna em torno a todo saber teórico, isto é, o saber presidido por uma relação de identidades entre a tradição e a autoridade que são as formas clássicas de transmissão do saber. O acento na oralidade significa a opção pelo pragmatismo, pelo senso-comum, a meu juízo o elemento fundamental, a base mesma do argumento desta estória monumental. Voltarei a este ponto mais adiante e com mais detalhes.
Por enquanto, vale lembrar o modo como o autor introduz seu enredo.
Na cena comunicativa de Grande Sertão: veredas, estabelece-se a figura de dois personagens apenas: Riobaldo e seu ouvinte ilustre, um doutor da grande cidade que passou, acidentalmente, pela propriedade do jagunço aposentado e lá permaneceu por três dias. Assim, simples e direto, sem grandes rodeios, o que há é uma prosa mineira, em busca de um consenso em que nenhum dos dois interlocutores dispõem do monopólio da verdade, por isso mesmo trata-se de um espaço de convivência radicalmente aberto, livre, emancipatório.
Mas, qual o tema da conversação? Nada menos do que a travessia, isto é, o nonada da vida, a vida nonada, este intrigante e indecifrável estar-no-mundo.
Pretendo com estas observações preliminares estabelecer meu modo de compreensão desta obra ímpar em nossa literatura, deste texto surpreendente, esperando desta generosa audiência que lhe faça justiça com uma visita ou uma re-visita. Não creio que um brasileiro que se suponha culto, no sentido acadêmico da palavra, possa dispensar esta leitura.
Resumindo, pois, minha hipótese de trabalho: admito três aspectos estruturais, de início:
a) nomeação, isto é, os vínculos estabelecidos entre o nome e a coisa, no romance, como uma espécie de função encantatória da linguagem e que promove uma espetacular ruptura nos clássicos modelos de verossimilhança. É o que acontece sob a rubrica do maravilhoso e do fantástico na palavra SERTÃO. Nada do que o narrador conta existe antes ou depois do ato de nomear. Tudo só existe enquanto na emergência do que está dito, no exato momento em que escutamos, como um acontecimento fundador. O resto é silêncio, ou melhor: o resto é nonada.
b)A oralidade, isto é, o revolucionário estatuto do narrador-Riobaldo, abrindo um abismo entre o narrar enquanto saber centrado e concentracionário e o narrar-com, verdade que se constrói ao lado de, sem exclusões. Narrar como se vida fosse, mas vida enquanto totalidade do vivido, incluindo os interditos, a falta, os fracassos, porque, como na palavra poética de Cecília Meirelles, a vida só é possível reinventada. Diadorim, Dia-dorim, é a metáfora deste transitar transgressor.
c) O senso-comum, isto é, a mathesis ou, se preferirmos, a matéria mesma que faz deste romance um dos mais competentes acervos da sabedoria do jagunço ( quer dizer:do simples) que nos conduz a uma dimensão transcendental, para além de todo particularismo, abrindo uma nova percepção do regionalismo. É esse verdadeiro tratado universal do senso-comum que nos possibilita recolher, neste particularismo ontológico, a dimensão do eterno, do tesouro comum da humanidade. É por este caminho que nosso Guimarães Rosa é um iluminista radical, sobretudo no sentido da liberdade. É também por este trajeto que sua narrativa é moderna, no sentido de recolher o eterno daquilo que é efêmero, transitório, cotidiano. É aí, na transcendência do familiar que o senso-comum se constitui em discurso literário.
Espero, pois, conduzindo estes três aspectos em permanente diálogo, complexo como convém a uma obra desta importância, chegar a uma interpretação crítica deste romance excepcional em nossa produção contemporânea.
Nas edições de Grande sertão:veredas pela editora José Olímpio, há um apêndice em que se reproduz a nota escrita pelo autor e na qual se lê o seguinte:
Aos leitores, e aos que escreverem sobre este livro, pode-se não revelar a seqüência de seu enredo, a fim de não privarem os demais do prazer da descoberta de Grande sertão: veredas.
Peço licença, pois, ao velho e querido e encantado Rosa para não obedecer o seu pedido, uma vez que seria impossível falar desse romance na suposição de que todos tivessem lido. Não parto desta hipótese.
É necessário, portanto, adiantar alguns aspectos e revelar o enredo, para que se possam entender as considerações que se seguem.
Trata-se, na verdade, de uma estória até certo ponto, singela, muito simples em sua superfície, como aliás são todas as estórias complexas e geniais. A complexidade, porém, se desvenda à medida em que o enredo vai-se desdobrando enquanto cifra da memória do narrador-personagem.
Riobaldo Tatarana, o Reinaldo, o Urutu Branco, é um jagunço em retiro na sua propriedade. Velho em busca da sabedoria, espelhada no compadre Quelemém, ele é um depósito inesgotável de memórias e de reflexões luminosas sobre a existência, sobre a vida e sobre a morte, sobre as coisas, o estar-no-mundo. Com seu compadre, Quelemém, kardecista, trava longas discussões sobre a transcendência, sobre os mistérios de viver e morrer, Deus e o diabo.
Este velho jagunço em preparação para a morte recebe, por três dias e três noites, a visita de um homem da cidade, isto é, de um citadino, supostamente cosmopolita e culto, no sentido elitista do termo, um doutor, que se dispõe, aparentemente com boa vontade, a ouvi-lo. Não há, em nenhum momento da narrativa, a fala explícita desse ouvinte, apenas, no discurso de Riobaldo ou através dele, é que se supõe a fala do outro.
De um ponto de vista estrutural, trata-se de um deslocamento da grafocracia para a escuta, a oralidade, pois é um longo monólogo em que o narrador e seu ouvinte atravessam, pelo viés da memória do primeiro, as trilhas e veredas imaginárias do Grande Sertão.
Vamos nós também, intrusos nesta prosa, com um terceiro ouvido, seus leitores, a partir da primeira palavra dessa grande fala ( nonada) viajando juntos, como ouvintes do ouvinte, intrusos, como dissemos, onde não fomos chamados, que ouvimos atrás da porta uma conversa de dois.
Mas o que nos seduz nesta interminável conversação e que nos leva a querer saber qual seu desenrolar – o seu novelo – são os conflitos entre a vida vivida pelo narrador e sua interpretação depois do vivido: isto é, a essência mesma daquilo que o narrar é, o porquê precisamos contar, da originalidade de todo ato de ficcionar: o verossímil.
Para dar sustentação a este jogo, Guimarães Rosa, com sua diabólica sensibilidade e sutileza, introduz Diadorim, certamente ao lado de Capitu os dois mais intrigantes enigmas de nossa literatura romanesca, ambas emulações de uma fina ambigüidade.
Pois bem, é isto e nada mais. Acontece porém que esta aparente redução acaba se desenrolando ao longo de 500 páginas, num jogo de extraordinária humildade, de sedução, encantamento e lucidez, porque narrar é também um certo sabor de saber.
Haja leitor para tanta obra prima!
Cumpre-se aqui o preceito da poética de Aristóteles segundo a qual a verdade poética é superior – enquanto dizer essencial – à verdade histórica. Acho mesmo que não exagero se disser que Grande Sertão:Veredas é, de certo modo, um elogio da verdade poética, como o elogio da loucura de Erasmo também o é. Um elogio da inesgotável possibilidade de falar o homem naquilo que ele tem de universal, transcendente e, sobretudo, provisório.
É este aspecto que gostaria de enfatizar neste momento.
Não pretendo dizer com isto que a verdade poética e a verdade histórica sejam territórios autônomos e que se podem estabelecer hierarquias imperiais entre uma coisa e outra, não se trata disto. Pretendo que haja uma verdade essencialmente vivida pelo homem, como experiência única, para além de todo particularismo, de toda convenção e que vale para além de sua precária temporalidade e finitude e que isto não anula o fato de que viver é circunstância, que o sujeito é sempre situado. O que imagino, e que Grande Sertão:Veredas me permite fazer entender, é que na condição de ser histórico e situado, falado em suas inscrições na sociedade, na história, no desejo, Riobaldo é a metáfora do homem onde há este mistério, com o qual está condenado a viver: a vontade de transcendência, de ir-além e para além do Bem e do Mal. Só o homem pode viver a experiência da verdade como revelação. Ao contrário dos outros animais que se ocupam das coisas, o homem se pré-ocupa com as coisas.
Podemos talvez chamar a isto liberdade, no sentido sartriano do termo, na ânsia de tornar-se livre, autônomo, face-a-face com seu advento. Portanto, estou falando de uma antropologia metafísica mas também de uma ontologia fundamental e enquanto achamos que esta possibilidade existe, acontecemos humanos, repetindo as palavras do Professor Manuel Antonio de Castro em suas análises heideggerianas desse romance.
Mas humano é uma coisa que somos ou em que nos tornamos? É uma construção, uma determinação, uma invenção?
Eis o mistério de todo Saber, pois só nos reconhecemos humanos porque incompletos na busca dessa comunhão essencial: o Ser é transitório, transitivo e travessia.
Voltemos agora ao primeiro aspecto que mencionei nesta conferência: a nomeação.
O romance é um poema, no sentido de que se move no reino das metáforas e das palavras que precisam ser deslocadas de seu acervo semântico habitual e condicionado. Justifica aquela assertiva de Fernando Pessoa quando diz que em prosa é difícil de se outrar. Trata-se pois de um exemplo perfeito do que, no seu clássico ensaio, Roman Jakobson denomina função poética da linguagem.
Diadorim é um duplo, uma travessia, uma revelação feita a Riobaldo na outra margem do rio e que vai fasciná-lo a vida inteira com seu misterioso poder de sedução. A ele e a nós, leitores enveredados, surpreendidos que somos por aquilo para que o autor pediu silêncio.
Lembro que o primeiro encontro de Riobaldo e Diadorim acontece justamente nas margens do rio, na terceira margem do rio.
Diadorim é uma mulher, chama-se Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins, que nasceu para guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo de amor.Diadorim vai seguir o pai e depois vingar-lhe a morte. Transveste-se de homem e vive, com Riobaldo, todas a dimensões de um amor ambíguo, no possível impossível do desejo não realizado, enquanto peleja a vingança, por Joca Ramiro.
É neste conflito que o autor joga toda a essencialização e todo o engenho de seu narrar intertextual, tanto que, se este aspecto fosse eventualmente excluído da narrativa, simplesmente não haveria narrativa a se cumprir, como obra de arte superior e incomparável, como é superior, este texto magistral. Por que é lá, no fundamento desta ambigüidade, no lugar desse desejo, que se realiza a força do não dito, que se desvela, no fim, no dizer fundamental:
Sendo isto. Ao dôido, doideras digo. Mas o senhor é homem sobrevindo, sensato, fiel como papel, o senhor me ouve, pensa e repensa, e rediz, então me ajuda. Assim, é como conto. Antes conto as coisas que formaram passado para mim com mais pertença. Vou lhe falar. Lhe falo do sertão. Do que não sei. Um grande sertão! Não sei. Ninguém ainda não sabe. Só umas raríssimas pessoas – e só essas poucas veredas, veredazinhas. O que muito lhe agradeço é a sua fineza de atenção. (79)
Este outro para quem Riobaldo conta suas aventuras no Grande Sertão e de quem se espera alguma decifração é parte do enigma. Não pode ser descartado mas também não dispõe de razão suficiente para mergulhar no enigma do mundo do Ser do Sertão. Sua razão é desse mundo e a razão de Riobaldo não está nas coisas, mas no que se esconde por detrás delas, ele quer o avesso, a sobrecoisa, porque o outro não se deixa eliminar, subsiste, persiste; é o osso duro de roer, lá onde a razão perde os dentes ( Antonio Machado)
Falo por palavras tortas. Conto minha vida, que não entendi. O senhor é homem muito ladino, de instruída sensatez. Mas não se avexe, não queira chuva em mês de agosto. Já conto, já venho – falar no assunto que o senhor está de mim esperando. E escute. (370)
Voltemos agora ao primeiro aspecto do que lhes falei em minha interpretação: a nomeação.
O romance é um poema, no sentido de que se move no reino das palavras que precisam ser deslocadas de seu acervo semântico habitual. Trata-se, pois, do que no seu já clássico ensaio Roman Jakobson denomina função poética da linguagem.
A função poética projeta o princípio de equivalência do eixo de seleção sobre o eixo de combinação
Isto significa, em última análise, uma desautomatização do signo, isto é, uma relação diferente entre o liame significado-significante, abolindo os referentes condicionados na e pela experiência do cotidiano e, mais ainda, a autonomia do dizer que não tem mais a obrigação de restringir-se aos referenciais imediatamente reconhecíveis. Ao contrário, o privilégio na equivalência da combinação ( sintagmas) sobre a seleção ( paradigmas) liberta o sentido e desobriga a lógica deste mesmo sentido, por isso a alogicidade é uma das marcas mais importantes do lirismo.
Assim é que no dizer poético reside a possibilidade de recolher a experiência do fundamento, aquilo em que nos tornamos enquanto ser-aí e que só a linguagem pode revelar, porque somente ela, a linguagem, sabe mais do que nós.
A nomeação poética é como fundar outro idioma dentro de nossa própria língua, por isso existe a língua portuguesa, sistema lingüístico comum aos falantes, e a língua de Guimarães Rosa. Daí que ler Rosa é como exercitar uma tradução.
O que pretendeu o autor com esta nomeação fundamental? Que vínculos se estabeleceram a partir das novas possibilidades de significação entre o nome e a coisa, experiência historicizada pela geração de 1945? Que leitura foi esta que os modernismos de 22 e 30 fizeram e que levou muitos críticos, como José Guilherme Merquior, a chamar a geração de 45 de falência da poesia ou uma geração enganada e enganosa?
Estou, é claro, levantando alguns problemas que este romance suscitou quando de sua publicação em maio de 1956.
Sobre este último aspecto, é preciso que se esclareça o fato de que a palavra poética, conduzida como um retorno a uma certa sofisticação, não estava de todo ausente do programa modernista. O que houve foi um certo exagero nas posições radicais da geração combativa de 22 e que se expandiram, especialmente no sentido de uma aproximação com o discurso cotidiano, na língua coloquial. Deste último aspecto, Guimarães Rosa utilizou-se plenamente: GS:V é pura oralidade.
Não que o coloquialismo seja um dialeto menos ou mais poético, não é esta a questão. Mas é que há sempre o risco de, sob a rubrica do coloquial, cair-se na banalização pura e simples do discurso de comunicação de massa e com isto perder-se o vigor essencial da nomeação poética que é, sobretudo, uma busca do sentido mais profundo ( puro) para as palavras da tribo, portanto menos visíveis nas falas habituais. O que não quer dizer que não se possa, a partir destes dialéticos, encontrar o fundamento do dizer essencial. Mas aí é outra coisa…
Guimarães Rosa fez algo de genial neste romance. Tomando o coloquialismo do jagunço, sua fala social e sertaneja, por ele recriada, conseguiu um tal nível de expressividade poética que a conduziu até ao lugar privilegiado da verdade por excelência, isto é, criou um novo idioma, que é uma forma de verossimilhança radical, no sentido de que, quem cria linguagens, produz mundos. Do mesmo modo, por exemplo, Cervantes fez com o espanhol pouco refinado que usou, no século XVII; que Kafka fez com o alemão de Praga, enquanto língua menor, no dizer de Deleuze e Guattari.
Depois deste romance, podemos dizer que há uma língua portuguesa, que é uma coisa, e a língua portuguesa de Guimarães Rosa, que é outra, sem deixar de ser a mesma.
Pois é este novo liame entre o nome e a coisa a mais radical possibilidade de dizer a diferença, de transformar o silêncio em expressão poética, num trabalho de Sísifo capaz de tornar dizível o indizível.
É neste sentido que a obra de GS, à semelhança dos grandes gênios da literatura é uma metaliteratura.
Eis aonde a nomeação nos conduz.
Complementarmente a esta característica, segue-se a oralidade.
O narrador supõe um ouvinte ilustrado para o qual conta sua vida, como Scherezade conta suas estórias para um Califa entediado e predestinado. Esta figuração é propriamente um epos, uma épica, conduzindo, pois, à estrutura do épico.
Se buscarmos com cuidado, vamos notar que lá estão as marcas clássicas de um discurso épico: o narrador, o desenrolar progressivo da matéria narrada, a autonomia das partes, a articulação entre o real e o maravilhoso, o plano histórico confluindo com o mítico, as intertextualidades, etc…
Quem pretender pesquisar nesta linha, como fazem alguns pesquisadores brasileiros, com notável competência, terá aí material para muito trabalho.
Do ponto de vista que escolhi, no entanto, imagino articular esta oralidade mais no sentido de um diálogo intertextual com os narradores modernos ( e eventualmente pós-modernos), em especial aqueles narradores que se descentram de suas certezas e narram, como no caso de Machado de Assis, seus fracassos também, isto é, narram suas trajetórias. Porque a vida é trajetória e nela cabem todos os eventos que nos afetam.
É aí que a condição épica clássica se despe de suas marcas genéricas, fato que o professor Anazildo Vasconcellos da Silva analisa muito bem em seus textos sobre o modelo épico moderno.
Seguindo seu ponto de vista, com o qual concordo inteiramente, o narrador épico moderno ( no caso, Riobaldo) não pode narrar senão suas perdas, até porque a imagem do mundo que ele elabora se perde na impossibilidade de confrontá-la com a ordem do real, em razão do caráter fragmentário imprimido pela técnica moderna ao mundo familiar. É a dissolução do mundo contemporâneo que Weber denominou Entzauberung, algo como desencantamento.
Este descentramento encontra uma espécie de apoio tático no ouvinte, para quem Riobaldo desenrola sua vida. É neste contar, miudamente, que ele pode – como Brás Cubas, Bentinho, Aires, em Machado de Assis – recompor seu viver, semelhantemente ao que sucede na metáfora das Mil e uma noites, onde Scherezade encontra no narrar a possibilidade de não ser morta pela Califa de Bagdá. Ela se salvou porque sabia contar estórias. Riobaldo quer atravessar seu rio-baldo, onde a água se torna rasa e ele pode fazer sua travessia, ou melhor, sua baldeação.
Cumpre-se então a identidade entre o narrar e o viver. A oralidade é seu ritual, seu gesto, sua instituição.
Neste jogo entre dizer e escutar, mil segredos se confundem até que o narrador se recolha no humano, seu enigma e desafio, dolorosamente marcado em sua alma com o ferro e o fogo de uma perda irreparável.
Cerro. O senhor vê. Contei tudo. Agora estou aqui, quase barranqueiro. Para velhice vou, com ordem e trabalho. Sei de mim? Cumpro. O Rio de São Francisco – que de tão grande se comparece – parece um pau grosso, em pé, enorme… Amável o senhor me ouviu, minha idéia confirmou: que Diabo não existe. Pois não? O senhor é um homem soberano, circunspecto. Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que digo, se for… Existe é homem humano. Travessia.
∞ (460)
O infinito que encerra a grafia do texto é o símbolo matemático remetendo a um tempo mágico e circular, ao Mistério do nada. Não exatamente o infinito, porque já seria um lugar determinado, mas ao não-finito, ao indeterminado do que não tem fim. A temporalidade negada pelo signo é, antes de tudo, negada enquanto linearidade, racionalidade previsível.
Nosso terceiro e último ponto é o que se refere à mathesis, isto é, à matéria mesma com que o autor elabora sua poiesis e sua semeiosis. Mais explicitamente: uma narrativa – qualquer narrativa – é uma re-elaboração do material disponível, por meio da verossimilhança que, por sua vez, articula, invariavelmente, quatro elementos- a retórica, a sociedade, o estilo e a representação.
Estes elementos transitam como linguagem que nos conduz, nos remete, para o outro lado – a metáfora – em que se transmigra toda e qualquer estória.
Assim, pois, Guimarães Rosa utiliza, como elemento funcional de seu romance, o senso-comum, isto é, o acervo de um saber original, e originário, simplesmente, no que é imediato. Esta aparente pobreza é, na realidade, o maior tesouro desta extraordinária obra de arte.
Gostaria de enfatizar este ponto.
Trata-se de um tema caro ao cristianismo, portanto, à herança do saber ocidental, a partir dos Gregos. Trata-se de ver, na indigência e na simplicidade do mundo em redor, no despojamento, na kenosis paulina, a possibilidade de um encontro com o Ser, com a iluminação, com a verdade revelada, sem a autoridade do adequatio res ad intelectum, porque significa superar todo saber codificado, institucionalizado, transformado em disciplina e em poderes, portanto um saber organizado e patrimonializado que se encolhe e se perde na impossibilidade de falar o que é humano, porque confinado nos limites de uma lógica formal.
Trata-se do encontro da coisidade das coisas, aritotelicamente proposto e que parte do progressivo despojamento do que está demais, dos excessos, da hybris, para encontrar a substantia do essencial. Alguém já se perguntou porque os grandes iluminados da humanidade, esses homens superiores, sempre nascem na pobreza, no despojamento?
Heidegger no seu Sobre o humanismo, em competente tradução de Emanuel Carneiro Leão, copila o seguinte encantamento:
De Heráclito se contam umas palavras, ditas por ele a um grupo de estranhos que desejavam visitá-lo. Ao aproximarem-se, viram-no aquecendo-se junto ao forno. Detiveram-se surpresos, sobretudo porque Heráclito ainda os encorajou – a eles que hesitavam - fazendo-os entrar com as palavras: pois também aqui deuses estão presentes. ( 86)







sábado, 11 de janeiro de 2014

ENTREVISTA

Uma preciosidade histórica da língua portuguesa: a entrevista realizada pelo escritor e jornalista português Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Guimarães Rosa morreria menos de um ano depois de tê-la concedido
    
    Guimarães Rosa por ARLINDO DAIBERT
Eis o homem. O homem que em menos de 20 anos, com sua prosa, seu estilo, sua literatura — sem os favores profissionais da medicina, que pode dar saúde mas ainda não deu gênio (cf. alguns prêmios Nobel), conquistou o Brasil, Portugal, a Alemanha, a Itália, os Estados Unidos, o mundo, não?
Repara no corpo: mau grado as ligeiras ameaças de obesidade, parece atleta, cavaleiro que foi, ou de bandeirante, que da língua é. Vê como está sobriamente elegante, distinto, sorridente, calmo, aristocrata, como convém a um embaixador (ou não estivéssemos num salão do Itamarati). Mas nada da pose ou dos gestos artificiais com que outros tentam iludir a mediocridade. Quem esperou quase quarenta anos para publicar o primeiro livro, ou quem avançou sozinho pelos grandes sertões da língua, não precisa ter pressa nem pedir emprestado um corpo, uma casaca, máscaras.
Lá está o lacinho (ou gravata-borboleta, meu chapa?) simetricamente impecável, fazendo pendant com os óculos claros, tão claros que ainda esclarecem mais os olhos sempre inquiridores, atentos. E é curioso como um mineiro de Cordisburgo, a dois passos (brasileiros) da Ita­­bira de Drum­mond, gosta, ao contrário deste (à primeira vista), de falar, de contar, de ser ouvido. Até nisso parece grande o seu amor à língua. Mal me sentei, já ele me começou a falar de Portugal e de escritores portugueses…
Estive em Portugal três vezes. Na primeira, em 1938, passei lá apenas um dia; ia a caminho da Alemanha. Na segunda, em 1941, passei lá quinze dias, em cumprimento de uma missão diplomática que me fora confiada em Ham­­burgo. Na terceira, em 1942, passei um mês, pois estava já de regresso ao Brasil, por causa da guerra.

Durante essas estadas, travou relações ou conhecimentos com alguns escritores?
Não. Até porque eu ainda não era “escritor” (“Sagarana”, com efeito, só foi publicado em 1946) e o que me interessava mais era contatar com a gente do povo, entre a quais fiz algumas amizades. Gosto mui­to do português, sobretudo da sua integridade afetiva. O brasileiro também é gente muito boa, mas é mais superficial, é mais areia, enquanto o português é mais pedra. Eu tenho ainda uma costela portuguesa. Minha família do lado Gui­marães é de Trás-os-Montes. Em Minas o que se vê mais é a casa minhota, mas na região em que eu nasci havia uma “ilha” transmontana.

Mas não chegou a conhecer Aquilino?
Conheci Aquilino (Aquilino Ribeiro), mas acidentalmente. Eu entrei numa livraria, não sei qual, do Chiado (presumo que a Bertrand) e, quando pedi alguns livros dele, o empregado per­guntou-me se eu queria co­nhecê-lo, pois estava ali mesmo. Respondi que sim, e desse modo obtive dois ou três autógrafos de Aquilino, com quem conversei alguns instantes. Voltei a estar com ele, mais tarde, num jantar que lhe foi oferecido enquanto de sua vinda ao Brasil. Mas ele, naturalmente, não se recordava de mim (porque eu não me apresentara como escritor), e eu também não lhe falei do assunto.

Não sabe que, justamente numa crônica motivada pela sua ida ao Brasil, Aquilino colocou o seu nome, logo em 1952, ao lado dos de José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Jorge de Lima e Agripino Grieco, que, segundo ele, eram os “notáveis escritores e poetas” que estavam a “encostar a pena contra a lava” que ia no Brasil “sepultando prosódia e morfologia da língua-mater”? Eu creio mesmo que é essa uma das primeiras referências ao seu nome, em Portugal…
Não sabia dessa curiosa referência do Aquilino. Antes dessa, porém, há uma referência a mim numa publicação do Consulado do Porto, de 1947, feita por não sei quem. Sei de outra referência feita, anos depois, salvo erro, por um irmão de José Osório de Oliveira.

Voltando a Aquilino: acha que recebeu alguma influência dele? Já, pelo menos, um crítico, o mineiro Fábio Lucas, notou alguns “pontos de contato nada desprezáveis” entre a sua obra e a de Aquilino.
Eu gosto de Aquilino, sobretudo da “Aventura Maravilhosa”, mas não creio que dele tenha recebido alguma influência, a não ser na medida em que sou influenciado por tudo o que leio. A verdade é que antes de 1941 só conhecia de Aquilino um ou dois trechos, co­mo infelizmente ainda hoje sucede em relação à quase totalidade dos escritores portugueses vivos. E, como sabe, “Sagarana”, foi escrito em 1937.

Um garçom do Itamarati entra com um copo de água, e pergunta se precisa mais alguma coisa. Guimarães Rosa agradece e diz: Vá com Deus, como se fosse um beirão ou um transmontano. Mais uma razão, portanto, para eu prosseguir: Como encara ou explica o enorme prestígio de que goza nos meios intelectuais e universitários portugueses?
Em relação a mim, houve por aqui (no Brasil) muitos equívocos, que ainda hoje não desapareceram de todo e que, curiosamente, ao que parece, não houve em Por­tugal. Pensaram alguns que eu inventava palavras a meu bel-prazer ou que pretendia fazer simples erudição. Ora o que sucede é que eu me limitei a explorar as virtualidades da língua, tal como era falada e entendida em Minas, região que teve durante muitos anos ligação direta com Portugal, o que explica as suas tendências arcaizantes para lá do vocabulário muito concreto e reduzido. Talvez por isso que ainda hoje eu tenha verdadeira paixão pelos autores portugueses antigos. Uma das coisas que eu queria fazer era editar uma antologia de alguns deles (as antologias que existem não são feitas, como regra, segundo o gosto moderno), como Fernão Mendes Pinto, em quem ainda há tempos fui descobrir, com grande surpresa, uma palavra que uso no “Grande Sertão”: amouco. E vou dizer-lhe uma coisa que nunca disse a ninguém: o que mais me influenciou, talvez, o que me deu coragem para escrever foi a” História Trágico-Marítima” (coleção de relatos e notícias de naufrágios, acontecidos aos navegadores portugueses, reunidos por Ber­nardo Gomes de Brito e publicados em 1735). Já vê, por aqui, que as minhas “raízes” es­tão em Portugal e que, ao contrário do que possa parecer, não é grande a distância “linguística” que me se­para dos portugueses.

Eu penso até que na imediata e incondicional adesão portuguesa a Gui­marães Rosa há muito de transferência sublimada de uma frustração linguística nossa, coletiva, que vem pelo menos desde Eça. Mas não nos desviemos. Admira-me muito que não tenha citado ne­nhum livro de ca­valaria, nem ne­nhuma novela bu­cólica, pois pensava que deles e delas havia diversas ressonâncias na sua obra, sobretudo no “Gran­de Sertão: Veredas”…
Sim, li muitos livros de cavalaria quando era menino, e, por volta dos 14 anos, entusiasmei-me com Ber­nardim (Bernardim Ri­beiro), e depois até com Camilo. Ainda continuo a gostar de Ca­milo, mas quem releio permanentemente é Eça de Queiroz (quando tenho uma gripe, faz mesmo parte da convalescença ler “Os Maias”; este ano já reli quase todo “O Crime do Padre Amaro” e parte da “Ilustre Casa de Ramires”). Camilo, leio-o como quem vai visitar o avô; Eça, leio-o como quem vai visitar a amante. Quando fui a Portugal pela primeira vez, eu só queria comidas ecianas (que gostosura, aquele jantar da Quinta de Tormes). Aliás deixe-me que lhe diga que me torno muito materialista quando penso em Portugal; penso logo nos bons vinhos, nas excelentes comidas que há por lá. E talvez seja também por isso que se há um país a que eu gostaria de voltar é Portugal…

… que, naturalmente, o receberá de braços abertos, em festa. Mas permita-me ainda uma pergunta: como “enveredou” — e penso que a palavra se ajusta bem ao seu caso – pelo campo da “invenção linguística?
Quando escrevo, não pen­so na literatura: penso em capturar coisas vivas. Foi a necessidade de capturar coisas vivas, junta à minha repulsa física pelo lugar-comum (e o lugar-comum nunca se confunde com a simplicidade), que me levou à outra necessidade íntima de enriquecer e embelezar a língua, tornando-a mais plástica, mais flexível, mais viva. Daí que eu não tenha nenhum processo em relação à criação linguística: eu quero aproveitar tudo o que há de bom na língua portuguesa, seja do Brasil, seja de Portugal, de Angola ou Mo­çambique, e até de outras línguas: pela mesma razão, recorro tanto às esferas populares como às eruditas, tanto à cidade como ao campo. Se certas palavras belíssimas como “gramado”, “aloprar”, pertencem à gíria brasileira, ou como “malga”, “azinhaga”, “azenha” só correm em Por­tugal — será essa razão suficiente para que eu as não empregue, no devido contexto? Porque eu nunca substituo as palavras a esmo. Há muitas palavras que rejeito por inexpressivas, e isso é o que me leva a buscar ou a criar outras. E faço-o sem­pre com o maior respeito, e com alma. Respeito muito a língua. Escrever, para mim, é como um ato religioso. Tenho montes de cadernos com relações de palavras, de expressões. Acompanhei muitas boiadas, a cavalo, e levei sempre um ca­derninho e um lápis preso ao bolso da camisa, para anotar tudo o que de bom fosse ouvido — até o cantar de pássaros. Talvez o meu trabalho seja um pouco arbitrário, mas se pegar, pegou. A verdade é que a tarefa que me impus não pode ser só realizada por mim.
Guimarães Rosa vai buscar uma fotografia para me mostrar onde levava o caderninho de notas, nas boiadas: vai buscar uma pasta com a correspondência com um seu tradutor norte-americano, para me mostrar as dúvidas e dificuldades deste, e o trabalho, a seriedade e a minúcia com que as vai resolvendo uma por uma (escrevendo, ele próprio, preciosas autoanálises estilísticas ou considerações filológicas). E, entretanto, vai-me fazendo outras confissões interessantes. Por exemplo:  “gosto das traduções que filtram. Da tradução italiana do Cor­po de Baile gosto mais do que do original.” Ou: “Estou cheio de coisas para escrever, mas o tempo é pouco, o trabalho é lento, lambido, e a saúde também não é muita.” Ou: “Não faço vida literária: como regra, saio daqui e vou para casa, onde trabalho até tarde.” Ou: “No próximo ano, vou publicar um livro ainda sem título, com 40 estórias” (que têm aparecido quinzenalmente, no jornal dos médicos “O Pulso”, onde frequentemente aparecem também cartas ou a atacá-lo ou a defendê-lo ferozmente). Ou ainda: “eu não gosto de dar, nem dou entrevistas. Tenho sempre a sensação de que não disse o que queria dizer, ou que disse mal o que disse, ou que criei maior confusão; e não estou assim tão seguro do que procuro e do que quero. Com você abri uma exceção…”.

Nota: Entrevista realizada pelo escritor e jornalista Arnaldo Saraiva, em 24 de novembro de 1966. Publicada no livro “Conversas com Escritores Brasileiros”, editora ECL em parceria com o Congresso Portugal-Brasil.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Um Conto de Reis

A PORNOGRAFIA DA LARINGE E O BUREAU SECRETO NAS ALTURAS
 Fábio Carvalho

Ontem à noite ainda no ano passado, dormi no sofá da sala e sonhei que estava dentro de um quadro do Guignard cercado por mulheres de todos os tipos, raças e medidas vestidas apenas com calcinhas da cor lilás. Elas estavam por todos os lados e no céu também, pulavam, nadavam, voavam e dançavam rindo, felizes e exuberantes, na quase total liberdade da nudez. Eu sabia que o quadro era do Guignard, embora lembrasse um Renoir, em especial As Banhistas, a não ser pelas calcinhas lilases. O aflitivo era que eu queria a todo custo encontrar a saída daquele quadro e não conseguia de jeito nenhum. Tentava escapar por várias direções e elas não me davam espaço, fechando com os corpos molhados de suor a minha passagem. Sentia um cheiro agradável que lembrava o cheiro das penteadeiras das minhas tias e primas enquanto elas se aprontavam, momento que quando criança, eu gostava de observar escondido. Sentia ainda o cheiro de um bolo de abacaxi que estava no forno. Acordei e dormi de novo e até agora este sonho não saiu da minha cabeça ou eu não saí dele, como queria o Borges. Continuo sonhando. Ao virar a equina ouvi alguém me chamar baixinho do outro lado da rua, olhei para o som e nitidamente vi o Helinho Quirino sorrindo pra mim. Que coisa confortante depois de bastante tempo rever um amigo. Escondido dentro do seu corpanzil de Asterix e da cabeça de prata pulsava uma doçura indecifrável e secreta, que só quando ele tocava o violão sofisticado a francesa, se deixava pelas bordas transparecer. 
Figura insurgentemente amorosa, por assim dizer. Ninguém conheceu igual. O Big me levou até ele. O gorgonzola desembrulhado do papel cinza foi bem comido como testemunha daquelas noites na nave em que chegamos ao bairro do aeroporto. Depois disso só encontrei com ele quando me deu seu único CD gravado chamado: Maestro da Paixão. Passado algum tempo soube que havia morrido, a sua voz de cantor afinado e original misturada com a mágica do seu violão de baixo, marcaram eternamente minha retina. Então sem permissão transcrevo aqui a letra de uma música que ele compôs e cantou.
Eu canto só pra mim. Canto assim pra minha solidão. O seu coração vai desprezar minha canção. Ao me ouvir, nem vai saber o que o cantor tenta esconder. A nota é falsa, o verso ilude e a voz procura um lugar pra se guardar. Refugiar o som. Eu não vou me arriscar perguntar: é bom? Não pode ser. Que meu canto vá trazer a paz. Não dá mais. O que é mesmo paz? Eu canto só pra mim, e assim nasce a composição. O seu coração vai esquecer essa canção. Pra que cantar?  Por que razão? Baby suporte. Incontinenti fui me aprofundando na nossa curta relação amorosa. Supimpa! Surpreendentemente o Estevão buscou essa palavra, ninguém sabe de onde, sabendo que foi da cartola do passado. Pode ser que não venhas mais, que não venhas nunca mais. Fiz então uma ligação interestelar para o Espirito-Santo, foi bastante estranho com perguntas irrespondíveis e respostas inaudíveis, tipo quando você não sabe se o que ouve, são vozes humanas ou de outras estações desconhecidas. Tudo é possível. Errar é humano, acertar é muçulmano, disse o Tralalá, naquela tarde noite em que ele estava bastante inspirado pela movimentação das saias coloridas, pra lá e pra cá, em frente da padaria. O negão ria satisfeito com todos os seus dentes branquíssimos e seu cabelo pixaim pintado de preto com os olhos tapados pelos óculos escuros também preto brilhante. Uma peça rara naquela esquina, meu! Voltemos a pensar então. Fora do alcance das minhas vistas.
Hoje já no ano que vem fui meio que a contragosto, depois de várias escapadas dessa obrigação, assistir ao filme da hora: Azul é a Cor Mais Quente. Vida louca vida leve. Cada um chora por onde sente saudade. Fui subindo a rua em direção ao Cine Belas no horário de verão com o sol a pino. Tentei. Era a primeira sessão, que pensei estaria vazia, qual nada! Mais uma vez me enganei. Lá de baixo já deu para ver que a fila entrava pela calçada afora, com direito a pipoqueiro e tudo mais, simplesmente o que eu queria evitar. Bom também. Comecei a andar em câmera lenta. De repente hoje, um Domingo, ouvi inteira a Tosca na Rádio Cultura de São Paulo, enquanto comia uma lingüiça recheada com alho poró. Como se vê, não tenho do que reclamar. Quando me postei no último lugar da fila, notei que curiosamente a minha frente só tinham mulheres. Eu era o primeiro homem daquela fila. Continuaram chegando outras mulheres que se puseram atrás de mim, algumas mais jovens usavam piercing e cabelo pintado de azul. Seria possível que iria assistir ao filme com uma plateia só de mulheres? Já deviam ter entrado outros homens, conjecturava. A fila foi andando e quando a bilheteria estava a duas mulheres de mim, apareceu o gerente e disse que haviam esgotado os lugares para aquela sessão. Não vi o filme nem a plateia. Fui para as alturas e tirei um cochilo no sofá de frente para o céu azul.    


segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Poesia Somente


                          INFELIZMENTE                                 

Ser feliz é deixar de ser vítima e se tornar autor
e algoz da própria história.

É atravessar desertos dentro de si e ser capaz de
encontrar um oásis no recôndito da sua alma.

Muito bem!
Vamos nos elevar passo a passo, degrau por degrau...
Editar é confrontar meios.
Meditar é compor mensagens.
Iluminar é poder criar luminescências
AMAR

É desconstruir a luz e particularizar a língua.

sábado, 4 de janeiro de 2014

LIVROS QUE TENHO LIDO E RELIDO

 O Quarteto foi construído em clichês, colocados nos momentos certos e necessários, para que pudesse depois, em outras situações da trama, nos contos que se encontram nos cantos das mais de duzentas páginas, surpreender o leitor, com um murro na cara, um vento gélido na pele, uma tempestade na mente, uma saturação de claros e escuros aos olhos patéticos dos que buscam o desconhecido, no oculto, no letárgico, na ilusão ótica, de quadros variados.     O Autor bissexto expressa, neste seu primeiro livro, textos poético em prosas nos movimentos rápidos dos desejos, às vezes abstratos, mas mantendo a sua visão filosófica sobre todas as coisas relacionadas ao amor, às verdades ou às mentiras do animal homem.                                                     Com esse livro ele torna-se, além de consagrado cineasta, agora também um escritor, um inventor louco de histórias diabólicas.  É ele quem diz em uma de suas entrevistas: “Não sou o único e nem sou um artista do mal. Sou um rebelde urbano e às vezes ando errado, vivendo o avesso da língua que falo, pois ninguém me entende, ninguém me escuta e ninguém quer saber. Sou do bem e fico com os autores que sofrem nos dias de hoje a censura moral do desentendimento situacional civilizatório”.                                 O Autor, no seu tempo, no seu espaço, vai continuando com suas experiências cinematográficas e literárias, sempre no desejo de criar uma estética diferenciada, onde não só se vê, mas se tem preferencialmente visões.                                                              
Aqui no livro ele fala e vê a realidade no que se refere aos desentendimentos existenciais dos conflitos amorosos, este grande filão, o mais estudado, mas ainda oculto e pouco explorado das relações humanas.                                                     

Reis de Minas – Janeiro de 2013                         

 ORELHADA

Na literatura como no cinema, penso ser preciso transformar a matéria criativa em obra inventiva, experimental e livre.
Criar um texto de prosa poética que transportasse o leitor, de todos os matizes sociais e culturais, para um universo de imagens múltiplas, ainda não vistas, ouvidas, lidas ou imaginadas, foi o que me motivou a escrever.  Quando essa escrita brotou em minha caneta, tentei enquadrá-la como sendo mais um de meus roteiros, mas não pude, ela se impôs como literatura!

Jose Sette

LIVROS QUE TENHO LIDO E RELIDO



domingo, 29 de dezembro de 2013

MEMÓRIA

A LAPA NO TEMPO DO ONÇA...
A Lapa dos anos 30 era uma efervescência o ano todo. As festas de fim de ano, por exemplo, tinham como marca um alto estilo boêmio. Normalmente, era assim: enquanto a cidade dormia, a Lapa se agitava.  Era uma noite permanente que brilhava não só pela lua, mas pelos talentos artísticos, diversidade cultural, malandragem. Isso sim dava um brilho especial ao lugar.
A Lapa tinha basicamente três ambientes: os cabarés, os cafés e os bares. Difícil era encontrar uma cadeira vazia em qualquer café do bairro. Os cabarés fervilhavam de gente, com muita bebida, música e paixões desenfreadas.
O Largo da Lapa daquela época era ponto estratégico da ligação Zona Norte/Zona Sul, através dos bondes. Mas era um sistema de transporte deficiente. Muitos dos que trabalhavam pelo Centro acabavam morando por lá mesmo. Os jornais anunciavam aluguéis de quartos nas Ruas da Lapa, Moraes Vale, entre outras. Tudo isso ajudava a incrementar a noite da Lapa.
No dia 24 de dezembro, alguns iam cedo para casas de parentes, que, em muitos casos, só se viam mesmo nas festas de fim de ano. Era tio conhecendo o novo sobrinho, avó reconhecendo o neto distante. Era uma festa. Tinha gente que aproveitava a época para visitar a família no Nordeste, trazendo na bagagem um dos seus para tentar vida nova no Rio de Janeiro, então capital da República.
Naquela época, a Lapa era uma mistura só: artistas, músicos, prostitutas, intelectuais, malandros, políticos. Cada um no seu metro quadrado. A malandragem, por exemplo, não ia aos cafés, preferia aos bares. No Cabaré Imperial, da francesa Chouchou – que ficava na Joaquim Silva -, quem arrebatava os corações era Lili das Joias, famosa por seus dotes físicos e por ter levado muitos figurões à ruína. Manel, garçon de hotéis da Lapa e que, com a decadência da região a partir do Estado Novo, foi trabalhar nos bares da Cinelândia, ali pertinho, conta que cansou de emprestar dinheiro a senadores da República, para esticar a noite. O Senado ficava no Palácio Monroe, no final da Avenida Rio Branco, nas imediações da Lapa. Normalmente, depois da sessão legislativa, tinha uma sessão extra na Lapa.
Foi no Cabaré Apolo que Noel Rosa, um dos maiores talentos da música popular brasileira, conheceu Ceci, uma dançarina de 16 anos de idade. Noel, filho da classe média, era estudante de Medicina, mas trocou o banco escolar pela boemia, onde seu talento musical se evidenciava. Mesmo casado com Lindaura, uma moça da alta sociedade, a paixão de Noel era por Ceci, para quem fez várias músicas, entre elas, “Último Desejo”: “Nosso amor          que eu não esqueço / E que teve seu começo / numa festa de São João...”. Eles se conheceram numa noite de 24 de junho, dia de São João, mais um dia de festa na Lapa.
Noel, morador de Vila Isabel, costumava pegar um táxi até o Danúbio Azul – outro espaço bastante frequentado na Lapa -, onde ficava horas esperando por Ceci encerrar o expediente. Certa vez, a jovem dama do cabaré chegou junto com os primeiros raios de sol. Reclamou com Noel porque ele insistia em beber gelado, embora tossisse muito. Ele não se fez de rogado: passou a pedir cerveja quente e conhaque. Noel morreu aos 26 anos de idade, vítima de tuberculose.
A Pensão da Lapa era também muito movimentada; na verdade, tratava-se de um bordel. Tinha um grande número de empregados homossexuais. De modo geral, as donas de bordéis contratavam jovens homossexuais para trabalhar como garçons, cozinheiros, camareiros e inclusive como prostitutos, caso um cliente assim o desejasse. Muitos desses jovens tinham certos modos femininos e imaginava-se que eles podiam desempenhar tarefas domésticas com facilidade e eficiência e viver entre as prostitutas sem criar uma tensão sexual. As bichas – como eles mesmos se identificavam – conviviam nos vários bordéis da Lapa com francesas, polacas e mulatas. Os bares e cabarés da Lapa eram também lugares freqüentados por homens em busca de mulheres para momentos de prazer, bem como por homens desejosos de sexo com outros homens.
Funcionários públicos, jornalistas, profissionais da classe média, intelectuais boêmios e jovens de famílias tradicionais, amantes da aventura misturavam-se livremente com escroques, ladrões, apostadores, cafetões, bichas e putas. Artistas e estrelas em ascensão nos círculos intelectuais brasileiros – como Jorge Amado, Cândido Portinari, Sérgio Buarque de Holanda e Mário de Andrade – iam aos bares e cabarés da Lapa para reunir-se com nomes importantes da música popular brasileira – como Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Chico Alves – e ouvir suas mais recentes composições.
Os artistas preferiam morar em Santa Teresa, que passou a ser conhecida como Montmartre Carioca – uma homenagem a um bairro boêmio de Paris. Dos becos de Santa Teresa, localizada na parte alta da cidade, as pessoas desembocavam na Lapa. Alguns subiam, outros desciam, mas todos se encontravam mesmo na Lapa. O poeta Manoel Bandeira morava na Rua Morais Vale, 57, ao lado do Beco das Carmelitas, onde escreveu “Beco das minhas tristezas, não me envergonho de ti”. Já na Rua Joaquim Silva, 53, casa 4, bem no coração da Lapa, morou Carmem Miranda, “A Pequena Notável”. Francisco Alves, antes de virar o Chico Viola, era motorista de praça com ponto na Lapa.
Wilson Batista, outro malandro talentoso da Lapa, sempre era visto no bar Esquina do Pecado, na Praça Tiradentes. O bar era um ponto de encontro de marginalizados e compositores. Ali conheceu os irmãos Meira, malandros famosos da época, cuja amizade lhe valeu várias prisões.  Em 1939, passou a se relacionar com o bicheiro China, a quem venderia muitas músicas.
Nas primeiras décadas do século XX, o Centro do Rio sofreu uma série de transformações urbanísticas. As famílias ricas que habitavam a área central da cidade foram se transferindo para a Zona Sul. Suas antigas casas passaram a ser ocupadas pela população pobre. Os negros, mesmo libertos, continuavam sendo discriminados. Muitos deles acabavam aumentando a enorme legião de desocupados, que viviam nas praças e esquinas; alguns conseguindo um biscate ali, outro aqui.
Não é à toa que a figura do malandro é quase sempre associada a um afrodescendente. Na Lapa dos anos 30, a imagem que se tinha do malandro é que ele era um homem até certo ponto honesto, cheio de dignidade, consciente de sua profissão.
Madame Satã era um desse tipo. Nascido João Francisco dos Santos, em 1900, no interior de Pernambuco, viveu na Lapa quase 60 anos de sua vida. Ele mesmo revela que começou sua vida sexual aos 13 anos, quando as mulheres da Lapa organizavam bacanais dos quais participavam homens, mulheres e bichas.
Satã era um exímio capoeirista, nos seus 1,75m e 90kg bem distribuídos, e ganhava a vida ora como cozinheiro e garçon de pensão, ora vendendo o corpo para os homens, ora como leão de chácara de cabarés. Brigou muito com os agentes da lei, ao proteger prostitutas, moradores de rua, bichas. Sua ficha criminal era imensa: 29 processos, 19 absolvições, 10 condenações, 3 homicídios.
A Lapa dos anos 30 tinha a presença marcante de Aracy de Almeida, a Dama da Central, porque, morando no subúrbio do Encantado, fazia o trajeto Lapa-casa sempre no trem da Central do Brasil. Era uma simbiose musical: na frente da família, cantava hinos religiosos da Igreja Batista; escondida dos pais, entoava oferendas a entidades do Candomblé e participava do bloco Somos de pouco falar. Em 1933, trabalhando na Rádio Educadora – que depois virou Rádio Tamoio -, conheceu Noel Rosa, que a convidou para tomar umas cervejas cascatinhas na Taberna da Glória. Aracy transformou-se na grande responsável pela perpetuação da obra de Noel, ao longo de outras décadas.
A segunda metade da década de 30 foi marcada por turbulências políticas, tanto no plano nacional como no internacional. O mundo acompanhava de olhos atentos os conflitos na Europa, que ganharam dimensões inimagináveis e se transformaram, a partir de 1937, na II Grande Guerra Mundial. No mesmo período, o Brasil se preparava para eleger um novo presidente da República, mas Getúlio Vargas divulgou pelo programa de rádio A Hora do Brasil uma falsa notícia de que os comunistas estariam organizando uma insurreição. Era a senha para Getúlio implantar o Estado Novo, em novembro de 37, e suspender a sucessão presidencial. No Estado Novo de Getúlio Vargas, os cultos de origem afro, a malandragem e o jogo passaram a ser perseguidos. O Senado Federal, que funcionava no Palácio Monroe, perto da Lapa, ficou fechado por 7 longos anos. São fatores que contribuíram enormemente para a mudança do perfil social da Lapa.
No período do Estado Novo, houve uma forte campanha pública contra os alemães e seus familiares no Rio de Janeiro. Na época, havia um tipo de pão que se chamava “pão alemão” – a exemplo do “pão francês”, que tem até hoje. Mas deixou de ser “alemão” para não ser associado ao nazismo. O tradicional Bar Luiz – que está ali na Rua da Carioca, perto da Praça Tiradentes - quase foi apedrejado porque tinha o nome de Bar Adolf. O pessoal imaginava que era uma referência a Adolf Hitler, mas depois viu que não tinha nada a ver. Via de dúvidas, os donos preferiram mudar o nome do bar. Economicamente, o Brasil entrou num ciclo de racionamento por causa da guerra: havia filas imensas para compra de leite, combustível etc. A vida social, consequentemente, sofreu restrições.
Os antigos bares passaram a viver às moscas. A maioria dos cabarés fechou; as pessoas foram obrigadas a mudar de hábitos e de ares. No final dos anos 30, a Lapa se despedia da Velha Lapa. Papai Noel demorou a circular de novo pela área.
 
Fernando Paulino
 
Dezembro de 2013
 
*Obs.: Esse mergulho que dei na Lapa dos anos 30 faz parte de uma pesquisa que fiz para uma peça teatral ambientada naquele período. O trabalho foi encomendado por um produtor americano que disse pretender encená-la às vésperas da Copa do Mundo de 2014. Como ele não cumpriu o combinado – pagar o trabalho em troca de sigilo -, disponibilizo para os amigos esse texto como presente de Natal. E, em 2014, se virem por aí um produtor teatral americano querendo falar da Lapa dos anos 30, me avisem!