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quinta-feira, 10 de março de 2011

Celukino Tudo em P

Este som foi gravado em Nova Yorque na apartamento do pianista brasileiro Aloisio Milanez com Emiliano Sette cantando e tocando violão. As imagens e edição foram feitas por mim aqui em casa pelo celular.

terça-feira, 8 de março de 2011

Loucura Pouca é Bobagem

Nave espacial do tamanho da terra!

Poesia


Desenho de Osvaldo Medeiros
Festa Pagã
Jose Sette - 7 de março de 2011


É carnaval
Estou em casa
Pago alto os meus pecados
Crianças histéricas
Gritam no meu ouvido
Os pais não falam
Gritam mais que as crianças
A música baiana toca alto
Na casa vizinha
O carnaval do vale tudo
Na outra casa ouve-se o funk- rap carioca
No mais alto volume em inglês ou português
Ou seja lá o que for aquilo
Fruto da contribuição dos negros americanos
Depois dos black panters
Tenho certeza do total desentendimento da língua
Dos negros latinos...
Os black onças
O que é isto aqui? É a cópia do inferno capitalista
O que é que tudo aqui se tornou?
Um bando de comando consumista
Calcinhas, camisinhas, garrafas e muita putaria pela internet?
Pusilanimidade! Eu nunca imaginei que chegasse a tanto...
Coleção de Mp3 o máximo em tecnologia da pior qualidade
No mais alto som que os aparelhos aquentam
Assim está o brasileiro distorcido
Milhares de néscios em altas frequências
Ninguém merece um ruído tão grande
O que adianta democracia sem educação?
Estou tal qual aquele personagem
No conto do Machado de Assis
Que se encontra com Prometeu
No final do tempo o fim de tudo
E se diz condenado a ser o último
Ser que caminha pelo mundo
Faz mais de 2000 anos
Tinha a idade do seu encontro com Cristo
A quem ele mandou apressar os passos
Na via-crúcis...
Não sei quem sofre mais: ele, eu ou prometeu?
Jogo de paciência entre a cruz e a borduna
Assim não vejo a hora dessa festa acabar
Vocês carnavalescos que me perdoem
Carnaval sem o samba bom não vale nada
Cadê o samba bom? As marchinhas?
Os seus autores ocultos?
A classe média está sempre na merda
Não consegue prestigiar a si mesma
Perdeu sua identidade popular
Ninguém sabe mais nada
Cada dia aumenta o número dos candidatos
A cada visita recebida nas casas vizinhas
Uma com piscina e outra mais pobrezinha
Ocupadas pelas classes em ascensão
É tudo que tenho visto e ouvido neste quintal
A cada ano que passa vai se tornando o mais puro lixo
Espelho do país nos meus vizinhos temporários
Brigando através da disputa do maior volume de som
Quem tem mais power nas suas caixas
Stockhausen teria orgasmo e Guarnieri uma parada cardíaca
São mais de cinco anos que tenho aqui vizinhos visitantes
Diferentes famílias a cada carnaval
Em cada festa de final de ano
Casa de aluguel por temporada é emboscada
De uma madame classe média alta suburbana
Pobre Brasil
Tudo coberto com fantasias de muito luxo
Por debaixo do tapete o lixo
Das sórdidas composições do poder
Por uma mídia venal e descompromissada
Com a história da nossa cultura
Com a identidade brasileira
Fico tentando exaustivamente analisar
Antropologicamente e sociologicamente
Essa situação emocional diferenciada
Que a todos envolvem nestas comemorações
Com muita paciência nada consigo saber
Chego ao fim de um dia inteiro de axé
Espirro sem parar minha alergia
Agora tudo me incomoda
Minha cabeça dói – 18 horas
Três dias aqui
Cadê a Bahia cantada por Ari e Dorival...
Ninguém ouve mais maracangalha...
A nova música baiana romântica é boçal
Os baianos podem gostar que não faz mal
Ao vivo em HD na Tevê de cangalha
É madrugada, a cervejaria rola solta
Solto uma gargalhada louca
Todos gritam numa catarse doentia
Entre palavras e palavrões
Pais e filhos falseiam alegria risos trêmulos
Quero ajudar, suportar, orientar, transformar
Tudo em vão
Penso em chamar a polícia
Que barbaridade o inferno ou a repressão
Colocar os meus 1000 watts a prova
Explodir o som alheio
Jogar confete metálico na rede elétrica
Cortar os fios ou soltar morteiros
Apontar em direção dos alto-falantes
Não tenho coragem suficiente para tanto
Resta-me o consolo que em mais dois dias
Tudo se acaba
Vou ser perdoado
Posso descansar
Voltar aos clássicos
Ao silêncio
Aos pincéis
Aos textos
A mim

domingo, 6 de março de 2011

Um Outro Olhar


Fidel Castro: a inevitável guerra da Otan
(Extraído do CubaDebate)

DIFERENTEMENTE do que acontece no Egito e na Tunísia, a Líbia ocupa o primeiro lugar no Índice de Desenvolvimento Humano na África e tem a maior expectativa de vida no continente. A educação e a saúde recebem atenção especial do Estado. O nível cultural da população é certamente maior. Seus problemas são de outra natureza. A população não carece de alimentos e de serviços sociais essenciais.
O país precisava de mão-de-obra estrangeira abundante para realizar planos ambiciosos de produção e desenvolvimento social. Dessa forma, proporcionava emprego a centenas de milhares de trabalhadores egípcios, tunisianos, chineses e outras nacionalidades.
A Líbia dispunha de enormes receitas e reservas em divisas depositadas nos bancos dos países ricos, com as quais adquiriu bens de consumo e até mesmo armas sofisticadas, fornecidas precisamente pelos mesmos países que agora querem invadi-la em nome dos direitos humanos.
A gigantesca campanha de mentiras, lançada pela grande mídia, deu lugar a uma grande confusão na opinião pública mundial. Vai levar tempo até que se possa reconstituir o que realmente aconteceu na Líbia — e separar o real dos fatos falsos que foram divulgados.
Emissoras sérias e prestigiadas, como a Telesul, foram obrigadas a enviar repórteres e cinegrafistas às atividades de um grupo e às do bando contrário para relatar o que realmente acontecia.
As comunicações foram bloqueadas, os diplomatas honestos arriscaram suas vidas atravessando bairros e observando atividades, de dia ou de noite, para informar o que estava acontecendo. O império e seus principais aliados empregaram os mais sofisticados meios para divulgar informações distorcidas dos acontecimentos, entre as quais se devia inferir as características da verdade.
Sem dúvida, os rostos dos jovens manifestantes em Benghazi, homens e mulheres com um véu ou sem véu, expressavam indignação real.
Pode-se ainda ver, em contrapartida, a influência exercida pelo componente tribal nesse país árabe, apesar da fé muçulmana compartilhada abertamente por 95% de sua população.
O imperialismo e a Otan — seriamente preocupados com a onda revolucionária iniciada no mundo árabe, onde se gera grande parte do petróleo que sustenta a economia de consumo dos países desenvolvidos e ricos — não podiam deixar de aproveitar o conflito interno na Líbia para promover a intervenção militar. As declarações feitas pela administração dos EUA desde o primeiro momento foram categóricas a este respeito.
A situação não poderia ser mais propícia. Nas eleições de novembro, a direita republicana desferiu um golpe contundente no presidente Obama, um especialista em retórica.
O grupo fascista "missão cumprida", agora apoiado ideologicamente pelos extremistas do Tea Party, reduziu o alcance do atual presidente a um papel meramente decorativo, que põe sob risco seu programa de saúde e a incerta recuperação da economia, devido ao déficit orçamentário e ao crescimento incontrolável da dívida pública, que já batem todos os recordes históricos.
Apesar da avalanche de mentiras e da confusão criada, os Estados Unidos não conseguiram impor à China e à Federação Russa a aprovação, no Conselho de Segurança, de uma intervenção militar na Líbia, ainda que tenham conseguido obter, no Conselho de Direitos Humanos, a aprovação dos objetivos visados nesse momento. Em relação à intervenção militar, a secretária de Estado declarou em palavras que não admitem a menor dúvida: "Nenhuma opção é descartada".
O fato real é que a Líbia está agora envolvida numa guerra civil, como havíamos previsto, e as Nações Unidas nada puderam fazer para impedi-lo, exceto pelo fato de que seu próprio secretário-geral lançou uma boa dose de lenha na fogueira.
Os atores talvez não imaginassem que o problema é que os próprios líderes da rebelião abordaram esse complicado tema declarando que rejeitavam toda e qualquer intervenção militar estrangeira.
Várias agências de notícias informaram que Abdelhafiz Ghoga, porta-voz do Comitê da Revolução, declarou na segunda-feira (28): "O restante da Líbia vai ser libertado pelo povo líbio". "’Contamos com o Exército para libertar Trípoli’, assegurou Ghoga durante o anúncio da formação de um ‘Conselho Nacional’ para representar os municípios do país que estão nas mãos da insurgência. "
"’O que nós queremos é informação de inteligência, mas que, em caso algum, afete nossa soberania aérea, terrestre ou marítima’, acrescentou ele, durante um encontro com jornalistas nesta cidade localizada mil quilômetros a leste de Tripoli."
"A intransigência dos líderes da oposição sobre a soberania nacional reflete a opinião expressa espontaneamente por muitos líbios à imprensa internacional em Benghazi", informou a AFP na segunda-feira passada.
No mesmo dia, uma professora de Ciência Política da Universidade de Benghazi, Abeir Imneina, disse: "Há um sentimento nacional muito forte na Líbia. ‘Além disso, o exemplo do Iraque amedronta o conjunto do mundo árabe’, ressalta, referindo-se à invasão norte-americana de 2003 que deveria levar a democracia a esse país e, em seguida, por contágio, a toda a região — uma hipótese completamente desmentida pelos fatos."
Prossegue a professora: "’Sabemos o que aconteceu no Iraque, que se encontra em plena instabilidade e certamente não queremos seguir o mesmo caminho. Não queremos que os americanos venham para acabarmos nos arrependendo por Kadafi’, continuou essa especialista."
"Mas, segundo Abeir Imneina, ‘há também o sentimento de que é a nossa revolução — e cabe a nós fazê-la’."
Poucas horas depois da publicação desta informação, dois importantes órgãos de imprensa dos Estados Unidos, The New York Times e The Washington Post, apressaram-se em oferecer novas versões sobre o assunto, conforme informou a agência DPA no dia seguinte, 1º de março: "A oposição líbia pode solicitar que o Ocidente bombardeie as posições estratégicas das forças leais ao presidente Muammar al-Kadafi, informou hoje a mídia estadunidense."
"O assunto está sendo discutido dentro do Conselho Revolucionário líbio, detalham o The New York Times e o The Washington Post em suas versões online."
"The New York Times salientou que essas discussões podem manifestar a crescente frustração dos líderes rebeldes diante da possibilidade de que Kadafi recupere o poder."
"Caso as operações aéreas se realizarem no âmbito das Nações Unidas, estas não implicarão intervenção internacional, explicou o porta-voz do Conselho, citado pelo The New York Times".
"O conselho é formado por advogados, acadêmicos, juízes e membros proeminentes da sociedade líbia."
Afirma a notícia:
"O The Washington Post cita os rebeldes reconhecendo que, sem o apoio do Ocidente, os combates às forças leais a Kadafi poderiam durar muito mais tempo e custar uma grande quantidade de vidas humanas." Vale ressaltar que nessa relação não é mencionado um único trabalhador, agricultor, construtor, alguém associado à produção material, um jovem estudante ou um dos combatentes que participam das manifestações. Por que o esforço para mostrar os rebeldes como membros proeminentes da sociedade, reivindicando o bombardeio dos Estados Unidos e da Otan para matar os líbios?
Um dia saberemos a verdade, através de pessoas como a professora de Ciência Política da Universidade de Benghazi, que com tanta eloquência narra o calvário que matou, destruiu casas, provocou desemprego e forçou milhões de pessoas no Iraque a migrarem.
Nesta quarta-feira, 2 de março, a agência EFE apresenta um porta-voz rebelde conhecido por fazer declarações que, na minha opinião, afirmam e ao mesmo tempo contradizem as notícias de segunda-feira: "Benghazi (Líbia), 02 de março. A liderança rebelde líbia pediu hoje ao Conselho de Segurança da ONU que lance um ataque aéreo ‘contra os mercenários’ do regime de Muammar al-Kadafi."
"‘Nosso exército, por seu papel defensivo, não pode lançar ataques contra os mercenários’, afirmou o porta-voz rebelde Abdelhafiz Ghoga numa entrevista coletiva em Benghazi".
"‘Um ataque aéreo estratégico é diferente de uma intervenção estrangeira, a qual rechaçamos’, sublinhou o porta-voz das forças da oposição, que sempre se posicionaram contra uma intervenção militar estrangeira no conflito líbio."
Com qual das muitas guerras imperialistas esta se parece? Com a da Espanha em 1936, a de Mussolini contra a Etiópia em 1935, a de George W. Bush contra o Iraque em 2003 ou a qualquer uma das dezenas de guerras promovidas pelos Estados Unidos contra os povos da América, desde a invasão do México em 1846 até a das Ilhas Malvinas em 1982?
Isso, sem excluir, é claro, a invasão mercenária da Baía dos Porcos, a guerra suja e o bloqueio a nossa pátria ao longo de 50 anos — data que será completada em 16 de abril.
Em todas essas guerras, como também a do Vietnã, que custou milhões de vidas, prevaleceram as justificativas e as medidas mais cínicas.
Para aqueles que têm alguma dúvida sobre a inevitável intervenção militar que terá lugar na Líbia, a agência de notícias Associated Press, que considero bem informada, publicou hoje: "Os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) desenvolvem um plano de contingência, baseado no modelo das zonas de exclusão aérea, estabelecida sobre os Balcãs na década de 1990, caso a comunidade internacional decidir impor um embargo aéreo contra a Líbia, disseram diplomatas".
Mais tarde, concluiu: "Os funcionários — que não podiam dar os seus nomes por causa da delicadeza do assunto — indicaram que as opções têm como ponto de partida a zona de exclusão aérea imposta pela aliança militar ocidental na Bósnia em 1993, que contou com a autorização do Conselho de Segurança, e os bombardeamentos da Otan no Kosovo em 1999, QUE NÃO FUNCIONOU."
Quando Kadafi, coronel do exército líbio, inspirado em seu colega egípcio Abdel Nasser, derrubou o rei Idris I em 1969, com somente 27 anos de idade, aplicou medidas revolucionárias, como a reforma agrária e a nacionalização do petróleo. As maiores receitas foram dedicadas ao desenvolvimento econômico e social, particularmente aos serviços educacionais e de saúde da reduzida população líbia, situada em um imenso território desértico e com pouquíssima terra cultivável.
Sob aquele deserto existia um extenso e profundo mar de águas fósseis. Tive a impressão, quando conheci uma área experimental de cultivos, que aquelas águas, em um futuro, seriam mais valiosas que o petróleo.
A fé religiosa, pregada com o fervor que caracteriza os povos muçulmanos, ajudava em parte a compensar a forte tendência tribal que todavia subsiste nesse país árabe.Os revolucionários líbios elaboraram e aplicaram suas próprias ideias em relação às instituições legais e políticas, que Cuba, como norma, respeitou.Nos abstivemos por completo de emitir opiniõe sobre as concepções da direção líbia.Vemos com clareza que a preocupação fundamental dos Estados Unidos e da Otan não é a Líbia, mas sim a onda revolucionária desatada no mundo árabe que desejam impedir a qualquer preço.É um fato irrefutável que as relações entre Estados Unidos e seus aliados da Otan com a Líbia, nos últimos anos, eram excelentes, antes que surgisse a rebelião no Egito e na Tunísia.Nos encontros de alto nível entre a Líbia e os dirigentes da Otan, nenhum deles tinha problemas com Kadafi. O país era fonte segura de abastecimento de petróleo de alta qualidade, gás e, inclusive, potássio. Os problemas surgidos entre eles durante as primeiras décadas haviam sido superados.Foram abertos ao investimento estrangeiros setores estratégicos, como a produção e a distribuição de petróleo.A privatização alcançou muitas empresas públicas. O Fundo Monetário Internacional exerceu seu papel "bem-aventurado" na instrumentalização de tais operações.Naturalmente, Aznar se desfez em elogios a Kadafi, assim como Blair, Berlusconi, Sarkozy, Zapatero e até o meu amigo, o rei da Espanha, desfilaram diante do zombeteiro olhar do líder líbio. Estavam felizes.Ainda que pareça que estou zombando, não é assim; me pergunto simplesmente por que querem agora invadir a Líbia e levar Kadafi ao Tibunal Penal Internacional em Haia.Acusam-no durante as 24 horas do dia de disparar contra cidadãos desarmados que protestavam. Por que não explicam ao mundo que as armas e, sobretudo, os equipamentos soisticados de repressão que a Líbia possui foram fornecidos pelos Estados Unidos, Reino Unido e outros ilustres anfitriões de Kadafi?Me oponho ao cinismo e às mentiras com que agora se quer justificar a invasão e ocupação da Líbia.A última vez que visitei Kadafi foi em maio de 2001, 15 anos depois que Reagan atacou sua residência bastante modesta, onde me levou para ver como tinha ficado. Recebeu um impacto direto da aviação e estava consideravelmente destruída; sua pequena filha de três anos morreu no ataque: foi assassinada por Ronald Reagan. Não houve acordo prévio da Otan, do Conselho dos Direitos Humanos nem do Conselho de Segurança.Minha visita anterior havia sido em 1977, oito anos depois do início do processo revolucionário na Líbia. Visitei Trípoli, participei no Congresso do Povo Líbio, em Sebha. Percorri as primeiras experiências agrícolas com as águas extraídas do imenso mar de águas fósseis. Conheci Benghazi, fui alvo de uma calorosa recepção. Se tratava de um país lendário, que havia sido cenário de históricas batalhas na última guerra mundial. Ainda não tinha seis milhões de habitantes, nem era conhecido o enorme volume de petróleo leve e água fóssil. As antigas colônias portuguesas da África já haviam se libertado.
Em Angola, haviamos lutado durante 15 anos contra os bandos mercenários organizados pelos Estados Unidos sobre bases tribais, o governo de Mobutu e o bem equipado e treinado exército racista do Apartheid. Este, seguindo as instruções dos Estados Unidos, como hoje é conhecido, invadiu Angola para impedir sua independência em 1975, chegando até os arredores de Luanda com suas forças motorizadas. Vários trabalhadores cubanos da construção civil morreram naquela invasão brutal. Foram enviados para lá recursos com a máxima urgência.Expulsos de Angola pelas tropas internacionalistas cubanas e angolanas até a fronteira com a Namíbia, ocupada pela África do Sul, durante 13 anos os racistas tiveram a missão de liquidar o processo revolucionário em Angola.Com o apoio dos Estados Unidos e de Israel, desenvolveram armas nucleares. Possuiam já o armamento quando as tropas cubanas e angolanas derrotaram, em Cuito Cuanavale, suas forças terrestres e aéreas eles já possuiam a bomba. Em desafio a isso, os cubanos e angolanos empregaram táticas e meios convencionais e avançaram até a fronteira da Namíbia, onde as tropas do Apartheid pretendiam resistir. Duas vezes na história nossas forças estiveram sob o risco de serem atacadas por esse tipo de armas: em outubro de 1962 e no sul de Angola, mas nessa segunda ocasião, nem utilizando essas bombas a África do Sul teria conseguido evitar a derrota que marcou o fim do seu sistema odioso. Os fatos aconteceram sob o governo de Ronald Reagan nos Estados Unidos e Pieter Botha na África do Sul.Disso e das centenas de milhares de vidas que a aventura imperialista custou, não se fala.Lamento ter de recordar estes fatos, quando outro grande risco se abate sobre os povos
árabes, porque não se resignam a seguir vivendo vítimas do saque e da opressão.A revolução no mundo árabe, que tanto temem os Estados Unidos e a Otan, é a dos que carentes de todos os direitos, diante dos que ostentam todos os privilégios, chamada portanto a ser mais profunda que a que em 1789 se desatou na Europa com a tomada da Bastilha.Sequer Luís XIV, quando proclamou que o Estado era ele, possuía os privilégios do rei Abdulá da Arábia Saudita e muito menos a imensa riqueza que jaz sob a superfície do quase desértico país, onde as transnacionais ianques determinam a extração e, portanto, o preço do petróleo no mundo.A partir da crise na Líbia, a extração na Arábia Saudita aumentou em um milhão de barris diários, a um custo mínimo e, consequentemente, só por esse único fato os lucros desse país e de quem o controla aumentaram bilhões de dólares por dia.Que ninguém imagine, entretanto, que o povo saudita nada em dinheiro. São comovedores os relatos das condições de vida de muitos trabalhadores da construção civil e outros setores, que se vêem obrigados a trabalhar 13 a 14 horas por dia com salários miseráveis.Assustados pela onda revolucionária que sacode o sistema de pilhagem que ali prevalece, depois do que ocorreu com os trabalhadores do Egito e da Tunísia, e também com os jovens desempregados na Jordânia, os territórios ocupados da Palestina, Iêmen e inclusive o Barein e os Emirados Árabes, que têm rendas mais elevadas, a alta hierarquia saudita está sob o impacto dos acontecimentos.Diferentemente de outros tempos, hoje os povos árabes recebem informação quase instantânea dos acontecimentos, embora sejam extremamente manipuladas.O pior para o status quo dos setores privilegiados é que os teimosos fatos coincidem com o considerável aumento dos preços dos alimentos e o impacto demolidor das mudanças climáticas, enquanto os Estados Unidos, o maior produtor de milho do mundo, gasta 40% desse produto subsidiado e uma parte importante da soja para produzir biocombustível para alimentar os automóveis. Com certeza, Lester Brown, o ecologista mais bem informado do mundo sobre produtos agrícolas, poderá nos oferecer uma ideia da atual situação alimentar.O presidente bolivariano, Hugo Chávez, realiza um esforço tenaz em à procura de uma solução sem a intervenção da Otan na Líbia. Suas possibilidades de alcançar o objetivo serão maiores se conseguir a proeza de criar um amplo movimento de opinião antes, e não depois, que aconteça uma intervenção, e os povos não vejam repetir-se em outros países a atroz experiência do Iraque.
Final da reflexão.

Fidel Castro Ruz, Havana, 22h32 de 3 de março de 2011

sábado, 5 de março de 2011

FOTOFOLIAS





É CARNAVAL A ATRIZ MARIA GLADYS (fotos de Ana Sette) A RAINHA DO CINEMA DA VANGUARDA BRASILEIRA FOI COROADA A RAINHA DO BLOCO “ME BEIJA QUE SOU CINEASTA” QUE FECHA O CARNAVAL NA QUARTA FEIRA DE CINZA NA GÁVEA SOB O COMANDO DA GRANDE ATRIZ - ESSE ANO NÃO VAI SER COMO AQUELE QUE PASSOU!...

quinta-feira, 3 de março de 2011

JOGANDO CONVERSA FORA

OCA MODERNA

No governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso, remeti ao Ministério da Cultura o esboço de um projeto que poderia, a meu ver, revolucionar o saber cultural em nosso país. A idéia não foi entendida pelo Senhor Ministro, ou não havia, em verdade, interesse pelo tema cultura brasileira, vivíamos no auge da globalização.

Era uma idéia simples que nasceu da importância e da espontaneidade de um movimento cultural que eu vivi no início dos anos 60. Nesta época a UNE promovia com o apoio do Governo do Presidente João Goulart, encontros dos estudantes e jovens brasileiros com algumas das principais personagens do nosso universo cultural. Assim surgiu, por todo país, momentos singulares na nossa história.

Podíamos, antes do golpe militar, conviver informalmente, conversar e trocar experiências com alguns dos grandes artistas daquela época: escritores, poetas, músicos, pintores, escultores, diretores de teatro e de cinema, atores e atrizes, fotógrafos, técnicos renomados, que viajavam pelo país para participarem e incentivarem esses sensacionais encontros com uma juventude, que está hoje e sempre, sedenta de saber.

Durou pouco tempo na cidade de Belo Horizonte, onde eu morava, essas verdadeiras quermesses intelectuais onde tudo se ouvia e de tudo se aprendia um pouco.

Esses encontros festeiros e ideológicos modificaram muitas cabeças, a minha foi uma delas.

Eu tinha 15 anos em 1963 quando conheci algumas das melhores figuras da nossa inteligência e sei o quanto isso me foi importante. Escrevi, nesta época, o meu primeiro roteiro de um filme de longa-metragem “Cidade Sem Mar” sobre a juventude mineira.

Acredito que a nossa presidenta Dilma tenha freqüentado alguns desses encontros na sua época.

É preciso refazer hoje “modernamente” esses encontros temáticos com os jovens do tão carente interior brasileiro. Eles têm o direito de usufruir também do melhor que o universo das artes brasileiras pode oferecer e aprender, em polêmicos debates e palestras, o pensamento dos nossos criadores de cultura que, na sua grande maioria, não tem aonde exibir, expor, ou com quem discutir as suas obras.

Esse é o mote principal desta velha idéia: criar vários espaços com arquitetura própria, de norte a sul do país, onde se possam promover os encontros do povo brasileiro com os representantes da sua cultura geral e conhecer, discutir e até comprar suas obras.

Fiz o desenho detalhado do espaço imaginado/necessário e também um pré-orçamento dos custos, ou do que poderia ser gasto na construção de um centro de cultura em cem cidades do interior brasileiro. Infelizmente perdi o arquivo em minhas mudanças. Tenho certeza que Oscar, o velho gênio da arte do novo, ou um jovem arquiteto de vanguarda, faria de bom grado esse singelo projeto arquitetônico.

Esses centros de cultura, que chamo de “OCA MODERNA”, pois o projeto arquitetônico se assemelhava a essa conhecida casa do índio brasileiro, só poderá ser viável se houver a união do Governo Federal com os Estados, Municípios e uma grande vontade política de transformar culturalmente o país.

Lembro-me que nos meus cálculos de então, verifiquei o quanto o erário havia gasto com as grandes produções que até hoje não se justificaram. Essas verbas monumentais de incentivo poderiam ser muito mais bem empregadas construindo, em varias cidades carentes de informação, muitos destes centros de cultura.

A união do Governo do Brasil, Ministério da Cultura, com os Governos Estaduais e Prefeituras Municipais, viabilizariam facilmente essa idéia que para dar certo teria de começar com 100 cidades pilotos. Cidades de 100 até 500.000 habitantes.

Um governo que pretende compreender e espalhar por todo esse país o prazer do conhecimento de nossas coisas, o desejo de consumir as coisas nossas, tem de olhar essa idéia, ou outra similar, com uma visão fina direcionada para a expansão do mercado, no futuro, com a nossa sonhada libertação cultural, isto é: é preciso urgentemente abrir espaços de exibição para toda a criação da arte nacional.

Imaginei que no governo do Presidente Lula, o Ministro Gil, implantasse alguma coisa semelhante e possibilitasse esses espaços de encontros, mas ele saiu com os “pontos de cultura” que, a meu ver, hoje poderiam ser a “ponta de lança” na criação destes centros culturais.

Fico imaginando o meu caso: dirigi na década de 80 o Palácio das Artes em Belo Horizonte e por isso sei da importância, para qualquer cidade do mundo, dos espaços públicos como esse. Sei também como muitos outros sabem que onde se é o produtor, diretor, escritor, realizador dos seus trabalhos, se houvesse a possibilidade de exibi-los e debatê-los com os jovens do Brasil, com a certeza de que haveria 100 salas para lançar os filmes, expor as pinturas, recitar os poemas, cantar e tocar suas músicas, experimentar o teatro, debater cultura e criatividade, ou simplesmente mostrar a sua arte, na certa, eu e muitos outros artistas realizadores, por muito pouco, agora e no futuro, poderíamos começar a viver dias melhores.

Imaginei a Oca Moderna sendo dividida em cinco salas: Sala 1: Cinema digital e pequeno palco para esquetes de teatro, apresentações de música, recitais de poesia, palestras, etc. Sala 2: Videoteca e Internet (possível mini-biblioteca de alguns livros sobre arte). Sala 3: Exposição e artesanato. Sala 4: Café bate-papo. Sala 5: Banheiros.

Um amigo a quem eu disse que escreveria novamente ao governo sobre essa minha idéia, me falou: - Se nesses anos todos eles não cuidaram da educação, não criaram as escolas de tempo integral do Darcy Ribeiro, não aplicam uma lei (a lei do curta) aprovada que leva a jovem arte brasileira aos cinemas, o que te faz pensar que eles darão atenção aos seus centros de cultura? Ele tem razão, pensei, vou jogar conversa fora...

quarta-feira, 2 de março de 2011

Um filme de terror

Política pública da Vergonha

O que aconteceu com Vera Lúcia nesta grande cidade de Juiz de Fora, Minas Gerais, foi esse descaso vergonhoso, aqui narrado, que mostra a total incompetência e desrespeito dos responsáveis pela saúde da nossa gente. O pior é que todo esse horror anda também acontecendo em muitos outros hospitais e postos de saúde de todo o país.
Quem não tem seguro de saúde para bons médicos e bons hospitais que se dane...

O CIRCO DOS HORRORES DA "NOVA JUIZ DE FORA"
Vera Lúcia Ciuffo (*)

O que anda acontecendo nessa cidade em termos de atendimento à saúde é o caos total! No dia 9 de fevereiro passado, sofri um AVC - Acidente Vascular Isquêmico - prontamente diagnosticado por um médico que estava presente no local onde perdi os sentidos. Graças à sua pronta interferência, o SAMU me recolheu e me conduziu ao HPS- Hospital de Pronto Socorro de Juiz de Fora, pois não tenho plano de saúde. Lá chegando fui prontamente atendida pela equipe de plantão, que me comunicou que eu seria internada, para fazer os necessários exames e a observação do quadro. Aí, minha gente, começou a minha "via crucis" Os corredores do HPS estão lotados de macas, cadeiras e gente espalhada por todos os cantos. Me instalaram, então, "confortavelmente", ao lado de uma senhora que lá estava desde o dia 6, portadora de um tumor na base do cérebro, aguardando transferência para a Santa Casa, onde se submeteria à uma ressonância que diagnosticaria a evolução do tumor para os devidos tratamentos. Bem, então fui instalada ao lado dela, na porta do elevador, por onde transitavam os profissionais, os carrinhos de refeição, de roupa suja e limpa, tambores de lixo, enfim, todo o movimento era feito ali. Privacidade zero. O barulho ensurdecedor. As pessoas transitam pelos corredores como se estivessem saindo de um baile. Gargalhadas, conversas e o bater das portas do elevador impediam qualquer possibilidade da gente se recuperar, ou no meu caso, da pressão ser estabilizada. O auge do absurdo foi atingido, quando a acompanhante da minha companheira de porta de elevador, precisou trocar a fralda geriátrica da mesma. Foi efetuada uma operação BBB, entre ela e minha filha para que ela pudesse ser trocada, sem que as pessoas que circulavam pelo corredor e os elevadores não invadissem a sua privacidade, literalmente. Vejam bem: ela tem mais de 70 anos, cabelos brancos e esse absurdo acontecendo a ela - uma humilhação que não se deseja ao pior dos infratores. Falando neles, há também uma circulação pelo bendito elevador, de presidiários que entram algemados e cercados de policiais armados, entre nós. Sugeri a minha filha que fotografasse o tal elevador e suas hóspedes, e ela o fez... Foi vista por alguém, pois logo depois fomos removidas daquele local para outro, com a desculpa de que ali não tínhamos conforto. Seria cômico, se não fosse trágico: nos colocaram em outro corredor, na passagem para o necrotério, laboratórios, refeitórios de funcionários, etc, etc. Privacidade zero. Mas o pior é que estávamos ao lado das caixas coletoras de lixo hospitalar, lixo comum, devidamente classificados (risos); só faltaram colocar ao pé de minha maca placa: "Lixo da Nova Juiz de Fora".
Nós, seres humanos, cidadãos dessa cidade, ao lado, comparados ao lixo do hospital. O barulho continuava, as pessoas transitando por entre nossas macas, com outro pequeno agravante: as baratas que saiam das latas do lixo, circulavam também por ali, obrigando as acompanhantes a matarem os insetos. Uma dessas acompanhantes jogou um "cadáver" dessa barata, no meio do corredor, às 23 h, e essa demonstração de sujeira ficou ali como um troféu até às três da madrugada, embora circulassem pelo corredor, pacientes, acompanhantes, pessoal da manutenção e limpeza. No total foram cinco baratas circulando entre nós. Haviam mais, mas eu acabei dormindo extenuada por umas duas horas, e parei de contar. Ah sim, pedi que fotografassem também a área de "internação" no lixo. Depois de uma megaoperação que incluiu a interferência da equipe o deputado Federal Julio Delgado e alguns conhecidos, fomos ambas transferidas para o segundo andar. Achei que finalmente, nossos problemas estariam resolvidos... Ingênua pretensão. O problema estava apenas começando. Lá em cima, a equipe desdobra-se na tentativa de atender aos pacientes da melhor forma possível...mas, não conseguem. Por lá a coisa está complicada.No nosso quarto estava uma senhora aguardando transferência para um cirurgia de vesícula há precisamente 45 dias! Vejam bem: não são 46 horas, nem minutos, são dias! Ela chegou por lá em 1 de janeiro de 2011 e lá permanece até agora, sem solução, sem resposta, sem nada. Também tivemos que trazer as roupas de cama de nossa casa. No HPS da "Nova Juiz de Fora", não há roupa de cama para os pacientes em número suficiente para todos os leitos. Se alguém, por acaso, sujar a roupa por problemas de incontinência urinária, ou algo similar, fica no colchão de plástico, não há o que fazer. Acabamos emprestando roupa de cama para as companheiras de quarto, além de fraldas descartáveis geriátricas tamanho G, que compramos para ajudar a uma companheira de quarto com medo de que ela sujasse a cama e tivesse que dormir sobre um cobertor, em meio ao calorão e à falta de roupa de cama no HPS, que aliás, é lavada em Xerem, terra do Zeca Pagodinho, na Baixada Fluminense. Aqui por perto, em Minas, ou mesmo na cidade, não há lavanderia que dê conta dos lençóis dessa unidade. Mas, ainda não terminou o circo de horrores. Não há papel higiênico na unidade, os pacientes tem que trazer os seus próprios rolinhos de casa. No banheiro que usávamos, não há porta. Caiu e ninguém mais a colocou de volta, mas para que porta, não é? Tolice! Toma-se banho e usa-se o sanitário à vista dos acompanhantes masculinos da área feminina (risos). Em vista desse aspecto bizarro do hospital, compramos uma cortina de plástico, à guisa de porta para o tal banheiro. Justiça seja feita: os funcionários lotados nessa unidade são de uma dedicação e uma responsabilidade ímpares, em número insuficiente tentando servir aos pacientes da melhor maneira, desdobrando-se, tentando encontrar panos e lençóis para atender às demandas. Para enriquecer mais esse universo surreal há a proibição de acompanhantes usarem vestidos, bermudas, decotes e saias - normas da casa. Ou seja: dormir em meio à baratas, usar banheiros sem portas, esperar 46 dias uma solução, pode. Só não se pode usar vestidos, saias e decotes, a critério de inspeção dos finíssimos seguranças que ficam na portaria do hospital... É de rir para não chorar. Mas, as normas da casa permitem acompanhantes masculinos em alas femininas, criando constrangimento às demais pacientes "hospedadas" nessa bagunça organizacional. Pois bem: acabei de sair desta filial do inferno, um lugar onde as mínimas normas de higiene e respeito humano são desrespeitadas a toda hora. Num universo de coisas surreais e bizarras, não sei qual seria o maior destaque. Termino então com a pérola que um dos funcionários nos brindou ao reclamarmos das baratas nos corredores: "Não se preocupem e nem se assustem, baratas e ratos no HPS são normais" Se isso é normalidade: parem o mundo que eu quero descer. E Deus nos livre de sermos internos desse sistema de saúde precário e porco dessa "Nova Juiz de Fora"!

(*) Vera Lúcia Ciuffo, 62 anos, é psicóloga, viúva, cinco filhos,
filha de Ernani Ciuffo, autor de sambas antológicos.